O calor do teu abraço
1 Capítulo 1
Notas iniciais
"Foi bom?", Himawari passou as mãos pela cintura de sua parceira Tsubaki e a puxou para mais perto de si. Ela virou o rosto e sorriu para o homem que tanto amava, que daria tudo apenas para estar com ele. "Foi", ela respondeu.
Estavam tendo um romance desde algum tempo atrás. Ele era um viajante que procurava por abrigo durante uma tempestade de neve. Bateu na porta da primeira casa que encontrou (que por acaso ou obra dos deuses era a dela) e foi acolhido alegremente pela família Oyama — afinal, os deuses abençoam os que ajudam os peregrinos, não é mesmo? Os Oyama lhe ofereceram comida, um lugar para dormir e proteção da tempestade naquela noite; insistiram para que ele ficasse até que ela passasse. Himawari, é claro, aceitou tudo de bom grado e no processo acabou conhecendo Tsubaki, filha do meio entre três irmãs. Ao partir, deu a garantia de que quando voltasse traria amuletos do santuário da montanha, o que realmente aconteceu, e acabou almoçando com eles novamente. Suas viagens se tornaram mais frequentes à medida que conversava mais e mais com Tsubaki, até que enfim ele a convenceu a irem juntos ao vale, local onde morava. Após acertarem todos os detalhes, eles partiram e começaram a viagem.
E é nesse momento em que estamos. O casal se encontra em Gitsune-Kyo, lar de Himawari Knightfox e conhecida pelas constantes aparições de kitsunes, por seus habitantes misteriosos e pelo templo de Zetsubo-Gitsune, um deus menor do panteão que todos por lá veneravam. Ninguém sabia ao certo sua origem, mas a entidade se tornara rapidamente um tipo de patrono da cidade por atender sempre os pedidos dos moradores, desde boa colheita até a cura de um cego. Num dia qualquer, Himawari simplesmente apareceu, surgiu na vila, morando numa casa até então inexistente. Os cidadãos acharam aquilo muito estranho, claro, mas seu carisma e gentileza conquistaram a todos e ninguém nunca perguntara de onde ele veio, se tinha família, por que tinha se mudado. E os pedidos continuavam sendo atendidos.
Apesar de estar com seu amado, Tsubaki sentia falta dos pais. Himawari insistia que eles estavam bem, e dia após dia o mesmo diálogo se repetia. "Quero ver meus parentes", ela dizia. "Eles estão bem, meu amor, não se preocupe. Do contrário, mandariam uma mensagem", ele replicava. Até que um dia ele se cansou e levou-a até a residência da família. Eles estavam exatamente como ele alegara, animados até, querendo saber com detalhes como era a vida na vila. Naquele dia de distração, os pedidos dos cidadãos não foram atendidos.
No retorno para casa, foram atacados por um urso gigante e grotesco. Com o susto, Himawari sem querer assumiu sua forma divina de Zetsubo-Gitsune, o que acabou afugentando o urso e sua amada, que ficou com medo daquilo tudo. Mesmo procurando-a durante quarenta noites, não a encontrou, e os cidadãos não tiveram seus pedidos atendidos durante todo esse tempo, notando também que Himawari havia desaparecido. Perguntaram, então, ao oráculo do templo da vila o que tinha acontecido, e obtiveram a seguinte resposta:
"A dor de amor é insuportável até mesmo para os deuses. Zetsubo-Gitsune virará as costas para nós até finalmente reencontrar-se com sua amada."
Todos, então, começaram a procurar por Tsubaki nas imediações, encontrando-a seis meses depois, já com uma barriga enorme. De fato, ela estava grávida de Himawari, com quem se relacionara enquanto moravam juntos na vila. Imediatamente a levaram para o templo, onde Zetsubo-Gitsune a aguardava. Ele a abraçou fortemente quando a viu, e seu mundo voltou a ter cor. "Não fuja de mim, por favor. Sei que minha forma verdadeira pode ser repulsiva a seus olhos, mas posso mudar por ti", as palavras saíram num sussurro por sua boca.
"Me desculpe. Eu também sofri sem você", ela respondeu. "Sua aparência não é repulsiva; na verdade, pensei em ti o tempo todo", completou. "Seus olhos; ainda que vermelhos, enxergo o amor neles. Seus cabelos prateados, eles transmitem paz. Até mesmo suas orelhas e caudas são adoráveis", riu ao falar isso. "Eu te amo."
Essas palavras desarmaram completamente Zetsubo-Gitsune. Naquele momento, ele não era mais um deus, ele era o homem mais contente do Universo.
"Vamos nos casar", ele disse. "Você será uma deusa e viveremos juntos pela eternidade. Não posso passar mais um dia sequer sem o calor do teu abraço.".
Dessa união surgiu a prole das kitsunes. Por terem sido geradas por um corpo humano, não são tão poderosas como o pai, mas ainda podem fazer sumir países inteiros. Zetsubo-Gitsune e Tsubaki vivem juntos até hoje.
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