O buraco e o templo

1 O BURACO E O TEMPLO


Todo mundo tem um templo, alguns o resguardam acima das nuvens, outros o afundam em lamas grotescas e areias movediças. Ruídos e silêncio. Algazarra e ordem.

Meu santuário é limpo, organizado, silencioso quando convém e estridente quando me apetece, é solo, com uma sentença de autodestruição... Basta alguém indesejado invadir e a bolha reluzente se esvai, como poeira em chuva rala.

Sem comunicações exteriores, uma música calma ou explosiva conforme a emoção, um único controle, por um momento, um leque de escolhas e ninguém pode invadir, dizem que o paraíso está em chamas, se ao menos estiver, eu hei de escolher. It’s my world.

Uma singela casa, com água potável, um papagaio e uma cadela (que não escolhi estarem aqui), luz e áurea. Começo de semana, todos partem e só sobra um garoto, com labaredas nas costas, um fone de ouvido e uma imaginação a suprir.

Resta um link de possibilidades e por um lapso do destino a porta da sala é aberta abrupta, feito um ciclone que não pede licença para entrar. Minhas unhas se desintegram, minha pele é pulverizada e meus olhos saltam assustados, o belo molde da perfeição encontra a realidade, numa silhueta humana longe da minha bolha.

Quando eu tinha 16 percebi que havia algo no teto, sugando aqueles que não se seguraram em alguma coisa, pergunto-me agora se tudo que vejo neste momento é por dentro do buraco negro ou ainda estou ali, sentado, escrevendo sobre meu templo no topo da montanha.

FIM

28/07/15

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