Notas iniciais
>> Não me lembro como tudo começou.
Mas de alguma forma, sabia que iria chegar. <

A meia-luz do beco formava figuras sombreadas nas paredes cinzentas, acabando num reflexo esverdeado, que tremeluzia entre as ruas. Barulhos de sirene se misturavam ao redor do tráfego de carros, e ao que parecia, havia uma operação policial sendo realizada; o que não era tão comum nos arredores de Mushbell. Era fácil descobrir o que estava acontecendo, porque toda a vizinhança já estava abrindo as janelas, afastando as cortinas com suas fofocas intermináveis, em vozes exaltadas que atravessavam as paredes facilmente.

—EI VIZINHO! -O Sr. Morgan, um típico senhor em torno dos seus 65 anos, gritou do andar de cima, possivelmente muito emocionado em razão da nova fofoca. -Olha ali, eu não te disse que ia vir a patrulha? -BOOM. Era só começar uma polêmica no bairro que as pessoas mais improváveis possíveis apareciam misteriosamente. A janela que se abriu ao lado fez um estrondo incomensurável que quase levou embora o prédio e os tijolos rebocados.

—OOOOOh, Morgan, quanto tempo. Mas certo que foi a vizinha do 22. Aquela lá fazia as festas até na segunda-feira. -Otelo ainda estava acordando, o clássico homem de 30 e poucos anos que acordava depois das quatro da tarde num sábado ensolarado.

—Sim, sim! Não me surpreende. Escuta, não quer passar aqui pra provar o bolo de caneca que fiz?

—Rapaz, desde quando você sabe fazer isso?

—Sabe, é que meu filho me ensinou a entrar no YouTube, vi um tutorial aqui e depois da terceira tentativa, deu certo, mas acho que faltou fermento pra crescer...

—Mas nem com receita tu consegue fazer algo útil, homem. Bom, vamos ali embaixo ver o que é?

Nisso, os dois trataram de bater as portas e descer as escadas correndo. Detalhe, o Sr. Morgan estava com o mesmo visual de sempre e nem se deu o esforço de trocar de roupa, e vestia uma simples blusa pólo e uma bermurda com estampas casuais, pra completar com um par de chinelos mais utilizados que a própria caneca manchada de café. Já Otelo não era muito diferente, exceto que ele estava com pantufas em uma noite quente, e a barba por fazer. Os dois seriam praticamente um pai e filho separados por uma mãe.

Os policiais estavam reunidos em multidão, no meio da calçada, interrogando um grupo de pessoas não identificadas, em trajes de cor bege. De longe, não pareciam querer cooperar, e estavam em silêncio e plantados em uma posição comum entre si. Mas incrivelmente começou a ficar mais sério, porque mais um carro de equipe de proteção estava se aproximando, e não faizam questão de manter muita discrição.

—Escuta, ô policial. -Sr. Morgan levou a mão ao queixo e coçou o cavanhaque. -Vai sair entrevista hoje? Não venham me entrevistar, se não a minha mulher me bate. Eu só preciso saber o que tá acontecendo aí.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.