O beijo no São Joao Batista
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Tudo o que eu queria era ir abraça-la, consola-la nessa hora difícil. Queria dizer que ela poderia chorar o quanto quisesse, queria enxugar as lágrimas que rolavam por seu rosto, queria dar-lhe meu ombro para ela encostar a cabeça pelo tempo que precisasse. Mas a mulher que segurava minha mão me lembrava que eu não podia fazer aquilo. Pior do que isso, que eu não tinha esse direito.
Há anos atrás eu fiz uma escolha, que mudou meu destino para sempre. Não posso dizer que foi uma escolha ruim, não mesmo. Júlia é tudo o que eu queria numa esposa, elegante, sensata, delicada, inteligente, e acima de tudo companheira. Além disso, eu não tenho um pingo de dúvida sobre o amor que ela sente por mim. Por todas essas razões eu devo dizer que sou um homem de muita sorte, e é isso que eu digo a mim mesmo todas as manhãs quando acordo e olho para ela na cama.
O problema são momentos como esse! Mesmo com Júlia ao meu lado, mesmo com toda essa multidão que se aperta na capela 3 do São João Batista para dar o último adeus ao querido Emílio, mesmo com o risco eminente de estar sendo observado, meus olhos não conseguem se desviar dela. Marcela. Meu amor de adolescência e início de juventude. Mentira! Meu amor da vida inteira.
Os anos parecem não passar para ela, sempre com aquele ar de criança levada, com aquele jeito de menina atrevida, aquele olhar de mulher que sabe o que quer. Mesmo hoje, mesmo agora, como seus olhos cheios de lágrimas, parece impossível que alguma coisa nessa terra consiga apagar o fogo de vida aqueles olhos cor de âmbar.
Marcela, diferente de Júlia, nunca foi fácil de se lidar, principalmente para os homens, principalmente para seu pai, Emílio. Ele, que ficou viúvo quando a filha tinha sete anos, tentou educar Marcela como ele achava que uma menina deveria ser educada. Comprou os vestidos mais bonitos das lojas, as bonecas mais caras, os ursinhos de pelúcia mais fofos, e todos os lacinhos para colocar nos cachinhos castanho dela. Tudo para compensar a ausência da figura feminina na vida de Marcela. O que Emílio não sabia, pois tinha deixado que a esposa se ocupasse sozinha da educação da menina, é que Marcela há muito arrancava as cabeças de suas bonecas para ver se havia alguma coisa lá dentro. Ele ignorava o fato da menina preferir usar shorts pois eles facilitavam na hora do pique esconde. Ele não sabia que ela detestava ter que pentear os rebeldes cabelos encaracolados e adorava catar conchinhas na areia da praia do Leme. Emílio e Marcela se desentenderam pela vida a fora, e tudo piorou quando na adolescência dela, ele resolveu dar a filha uma nova mãe e uma irmã, Júlia, que era tudo o que Marcela não era.
Aos dezoito anos Marcela deu seu grito de liberdade, saiu de casa e foi morar numa quitinete no Catete com mais duas amigas. Emilio se sentia traído, não conseguia entender porque a filha não queria ficar perto dele. Não entendia porque nunca conseguia conquistar a própria filha. Mas ele não era o único que se sentia frustrado por não conseguir conquistar Marcela. Vários homens se sentiram assim. Não que ela fosse indiferente a eles. Marcela de muitas paixões e um só amor. ... a vida, como ela mesma se descreve.
É estranho olhar para ela e vê-la tão triste, tão amarga. Dificilmente o sorriso sai de seus lábios tentadores. É doloroso saber que as esperanças que ela tinha em refazer sua relação com o pai se foram para sempre. Como eu gostaria de segura-la pelos braços com carinho e dizer que Emilio sentia muito orgulho da mulher que ela tinha se tornado, que ele estava feliz por saber que ela vivia a vida que sempre quis. Mas eu não posso fazer isso, não aqui na frente de toda essa gente, não na frente de Júlia. Se eu ao menos tocar em Marcela acho que não vou conseguir evitar de beija-la. Não é por cretinice minha, é por pura fraqueza. Confesso, sou fraco. Quando se trata dela sou o homem mais fraco de todos. Esqueçam a arma na minha cintura, esqueçam o meu cargo, esqueçam os marginais que mandei para a cadeia. Esqueçam meu porte, minha força, esqueçam.... Perto dela eu tremo nas bases. Fico como um menino bobo, como na primeira vez que a vi. Ela estava fazendo um castelinho de areia na praia, seus olhos brilhavam como o sol daquela manhã, seu sorriso contagiava todos ao redor, até as sardinhas em seu rosto pareciam magnificas.
Preciso sair daqui, preciso afastar as lembranças dela, das noites que passamos juntos, das promessas que fizemos, preciso me afastar da vontade alucinante de jogar tudo para o espaço e abraça-la o mais forte que eu posso. Quero dizer a ela que nada mudou, dizer que continuo a amando, talvez mais, com mais intensidade agora do que a há anos atrás. Minhas mãos suam, minha respiração está forte. Júlia segura minha mão com carinho, talvez ela ache que eu estou emocionado. Ela sorri docemente para mim e afaga o meu peito. Isso só me faz me sentir mais canalha. Minha mulher tentando me consolar e tudo o que eu quero e consolar a meio irmã dela.
Fecho os olhos e tento me concentrar em outras coisas, principalmente no discurso que terei que fazer daqui a alguns minutos. Falarei de como Emílio foi um exemplo para todos, como advogado, como político, como chefe de família. Vou dizer que na ausência dele, eu assumirei seu lugar como protetor da casa, que cuidarei da família dele com o mesmo zelo que ele. Será que serei convincente? Duvido muito. A única que realmente precisa de alguém para protege-la nessa família é Júlia. Até sua mãe, a agora viúva de Emílio, se vira muito bem sozinha. Dona Débora nunca me engoliu, sempre questionou meu casamento com Júlia. Agora ela me olha com aqueles olhos inquisidores, como se esperasse que eu saísse correndo para os braços de Marcela, parece que a velha consegue ler meus pensamentos, pois, isso é tudo o que eu gostaria de fazer. Mas a mão de Júlia me impede, a mesma mão macia, branca e delicada que eu pedi em casamento há oito anos.
Respiro fundo e tento me convencer mais uma vez de que tomei a decisão correta, de que essa é a vida que escolhi para mim, de que era isso que eu deveria fazer. Marcela sempre foi uma incógnita, um beija -flor inquieto voando pra lá e pra cá a procura de alguma coisa. Não poderia conviver com aquilo, não poderia viver correndo atrás de um faixo de luz. Preferi o caminho mais seguro, mais responsável. E tenho certeza que fiz a escolha certa. Abro os olhos determinado, seguro com mais força a mão de minha querida esposa, e mãe de meu filho. Mas minha determinação logo se esvai quando vejo Marcela sendo abraçada por um homem que não conheço. Ele parece tão carinhoso e íntimo dela, ela por sua vez deixa-se aconchegar por ele tão facilmente, tão inteiramente. Sinto o ciúme me destroçar por dentro, eu é quem devia estar a abraçando desse jeito, eu é quem devia estar com ela assim, aquele lugar era meu.... Aperto ainda mais forte a mão de Júlia, que dá um leve gemido de dor. A reação dela me traz de volta ao meu lugar. Que direito eu tenho de ter ciúmes de Marcela? Fui eu quem a abandonou, eu quem escolheu a meio irmã dela, eu é quem disse que não a queria mais, eu quem lhe partiu o coração. Que direito eu tenho até de olhar para ela...
O homem a solta e pega gentilmente a mão dela, ele diz algo que a faz sorri levemente. Aquele sorriso, quase imperceptível, me faz sorrir também. Ele a fazia se sentir melhor, talvez pudesse fazê-la feliz, talvez pudesse ser o homem certo para ela, aquele que eu nunca fui. Uma lágrima rola pelos meus olhos. Seco-a rapidamente, pois nunca fui muito de chorar. Homem que é homem não chora, foi assim que a minha mãe me criou. E eu sou um homem com H maiúsculo, trabalho duro de sol a sol, boto comida dentro de casa, sou um cara decente, honesto, nunca traí minha esposa. Vou a missa todo domingo, pago os meus impostos, quase não bebo, minha única fraqueza é o futebol do final de semana, sagrado para mim. Fui criado para ser o chefe da casa, minha palavra é a lei, e isso tem funcionado bem para gente, pelo menos Júlia não se queixa. Procuro trata-la com todo o carinho, e dou tudo o que posso a ela e ao nosso filho. A única coisa que não consegui dar a ela foi amor.
Uma vez, um dia antes do meu casamento, Marcela me perguntou do que valia a vida sem amor. Não fui capaz de responde-la na ocasião. Se ela me fizesse a mesma pergunta hoje, minha resposta seria: Nada! Vou dormir todas as noites aterrorizado pela possibilidade de nunca amar Júlia como amo Marcela. Tenho pesadelos de me tornar um homem velho e infeliz por nunca ter tido a coragem de ter lutado pelo amor da minha vida. Acordo assustado. Vou ao quarto do meu filho e o observo dormir. Agradeço pela vida dele, o amor mais puro e perfeito que já senti. E agradeço pela mãe dele. Mesmo assim sinto um vazio no peito, uma angústia que parece se agigantar com o tempo.
Queria ter tido filhos com Marcela, queria saber como eles seriam. Os olhos dela, o meu nariz, o temperamento dela, o meu caráter. Seriam vascaínos como o pai ou flamenguistas como a mãe? Prefeririam samba como ela, ou rock como eu? Marcela seria uma boa mãe, do tipo que deixa as crianças fazerem de tudo, que brinca com eles, que joga bola na praia, canta e conta histórias inventadas de terras distantes que não existem. Júlia não é muito de brincar, é exigente, gosta das coisas certas e no lugar. Nossa casa funciona como um quartel, tudo em perfeita ordem. Isso é bom para mim, mas para uma criança de 5 anos pode ser um pouco chato.
Me chamam para fazer meu discurso. Começo falando de como conheci Emílio, logo que nos mudamos para o apartamento ao lado do dele, quando eu tinha uns onze anos. Ele e sua família logo se tornaram amigos nossos, e eu não saia da casa deles. Emílio foi meu professor particular de português e depois me orientou na faculdade de direito. Quase me bateu quando eu disse que tentaria concurso para delegado, mas se sentou na primeira fila na minha formatura. Como não conheci meu pai, Emílio foi a figura paterna que faltou na minha vida. Terminei me comprometendo a seguir o legado dele de honestidade e ética, e que cuidaria de sua família. Todos me aplaudiram com entusiasmo. Menos Marcela. Ela passou todo o discurso olhando para baixo, de mãos dadas àquele estranho ao lado dela. Júlia chorava discretamente, olhando para o rosto do homem que aprendeu a chamar de pai.
Emílio teria gostado do que eu falei? Acho que não. Ele era um orador notório, nato, poderia ficar horas e horas discursando sem cansar a plateia. O que será que ele me diria nesse momento? Talvez me chamasse de canastrão, debochasse da queda do meu time para a segunda divisão, ou então mandaria eu parar de pensar em Marcela e me concentrar no meu discurso. Ele nunca se conformou por eu ter ficado com Júlia, ou melhor, ele nunca entendeu. Como um delegado de polícia poderia ter medo de mulher, foi o que ele me disse no meu noivado. Eu não tinha medo de Marcela, e sim do que eu sentia por ela. Ela poderia fazer qualquer coisa comigo, qualquer coisa mesmo. E era esse poder que eu sempre temi. Ainda hoje, se ela chegar muito perto, se dizer que ainda me quer, sou capaz de largar tudo, Júlia, nosso filho, nossa casa, meu emprego e ir com ela para onde ela quiser.
Está chegando o momento final. O padre faz uma prece pela alma de Emílio, depois, alguém puxa o hino do Fluminense, time de devoção dele. Marcela sorri com carinho. Ela se aproxima do corpo do pai, passa a mão suavemente pelo rosto gelado dele, e em seguida se inclina e dá um leve beijo na testa dele. Observo os lábios dela, é possível perceber que ela diz “ me desculpa”, bem baixinho, como quando uma criança fala um segredo no ouvido do pai. Aquilo me corta o coração, preciso falar com ela, preciso contar a verdade. Solto a mão de Júlia, mas ela não solta a minha... ela segura mais forte, como se quisesse me prender ali do lado dela. Olho para ela, que me encara como se implorasse para que eu não saísse dali, e pela primeira vez sinto pena dela.
Júlia nunca foi a primeira opção de ninguém, apesar de todos os seus esforços para agradar os outros ao seu redor. Uma mulher discreta e gentil, que encantava mais pelo jeito do que pela beleza. Nos conhecemos quando a mãe dela casou com o Emílio, ela tinha dezesseis anos, e foi na época que comecei a namorar Marcela. Júlia virou nossa cúmplice nas nossas fugas de madrugada para irmos a Lapa. A gente aprontava muito naquela época, e a coitada da Júlia encobria nossas loucuras, o que trouxe algumas consequências para ela. Anos depois ela me confessou que só aceitava fazer aquelas coisas porque era apaixonada por mim. Isso foi logo após eu romper com Marcela, um pouco depois dela ter ido trabalhar como produtora cultural em São Paulo. Marcela queria o mundo e eu queria uma mulher em casa me esperando todo dia quando voltasse do trabalho. Por isso fiquei com Júlia, me casei com Júlia. E ela sabe disso! Mesmo que eu nunca tenha confessado isso, mesmo que eu tenha tentado ser o melhor marido que posso, ela sabe que não a amo. Mas por que ela se contenta com isso? Ela me olha aflita e por mais que não diga nada, quase posso ouvi-la dizer “ por favor não me deixe”. Volto a segurar a mão dela e balanço levemente a cabeça em sinal de positivo. Fiz uma aliança com ela, não posso quebra-la agora.
Então, ouço um grito abafado e me viro em direção a ele. É Marcela chorando desesperada. Os coveiros estavam fechando a tampa do caixão de Emílio. O homem que estava com ela a ampara, junto com uma tia dela. Fecho os olhos e sinto que mais uma lágrima cai pelo meu rosto, só que dessa vez não impeço. Preciso ajudar a levar o caixão dele. Júlia solta a minha mão para que eu possa fazer isso.
É o fim! Enquanto há um corpo a ser velado ainda há aquela sensação de que a pessoa ainda está ali. Mas depois que fecham a caixão, depois que o levamos a sepultura, é o fim! Está decretado o nunca mais. Eu sou religioso, acredito numa vida depois daqui, mas aqui, para gente, é nunca mais.
Enquanto conduzo Emílio ao seu destino eterno, dou uma rápida olhada para trás e vejo Júlia, Dona Debora e Marcela, juntas, vindo atrás de nós. A dor parece tê-las unido novamente, mas por quanto tempo? Volto a olhar para frente, para a sepultura de mármore negro a minha frente. Uma leve chuva começa a cair, amenizando o calor infernal de janeiro. Respiro fundo. A vida vai ser muito mais difícil daqui para frente. Eu sei. Perdi o homem que sempre considerei como um pai, e vi que ainda amo Marcela mais do que tudo. Ao mesmo tempo vi nos olhos de Júlia que ela não suportaria me perder. Começo a desejar trocar de lugar com Emílio. Preferia que ele estivesse aqui segurando a alça do meu caixão. No dia do meu casamento, na festa, ele colocou o dedo na minha cara e me chamou de covarde. Disse que eu faria três pessoas infelizes. Essas palavras vão me assombrar para sempre. Descemos o caixão de Emílio na sepultura e os coveiros colocam a pedra de mármore. A chuva virou um temporal. As pessoas foram saindo de perto do túmulo por causa disso, mas eu fiquei olhando para aquele lugar, até ficar completamente sozinho e molhado. Era o disfarce perfeito para o choro compulsivo que se apossou de mim.
Passo as mãos pelo mármore frio desejando ter dito outra vida, ter feito outras escolhas, ter sido mais corajoso. Agora parece que não tem mais jeito, que tudo está acabado. As palavras de Emílio eram como uma profecia, eu iria ser infeliz para sempre, não importava o que eu fizesse ou quanto eu tentasse. Meu destino estava traçado... Fecho os olhos com força e aceito desolado as consequências de minhas escolhas.
Então, como uma brisa leve e acolhedora, sinto um toque na minha mão esquerda. Meu corpo se arrepia por inteiro ao reconhecer aquele toque. Abro os olhos e a vejo, seu cabelo encharcado pela chuva, suas roupas colando no corpo, e o seu rosto ... lindo como de um anjo. A visão mais linda do mundo. Marcela dava um leve sorriso.
— Lucas, porque você não sai dessa chuva? Por acaso quer pegar uma pneumonia? – Ela me pergunta com carinho.
Não resisto... nesse momento eu a beijo.... Como se só houvesse esse instante... e nenhum outro viesse depois....
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