Notas iniciais
Mais um *----*

Pensava incessantemente se deveria falar com Micael. Pesava nos prós e contras. Dois dos prós, os principais, era que eu gostava dele e ele gostava de mim, que queria ficar comigo. O contra, que pra mim era o principal e o que eu detestava, era que nas duas vezes que ele ficou chateado comigo, eu peguei ele com uma garota. Até eu via que ele gostava de mim, mas e se isso se repetisse?! E se um dia der na telha dele que não quer apenas que eu o veja com uma garota?! Os prós eram fortes, mas esse contra pesava como dois.

Literalmente, fiquei um mês pensando no que faria. Eu tomava banho = pensava, escovava o cabelo = pensava, escutava música = pensava, assistia TV = pensava, comia = pensava, lia um livro = pensava, via meus pais passarem pela porta = pensava.

– Mãe! – Exclamei sorrindo, levantando do sofá e indo abraçá-la.

Quase a derrubei. Ela sorria, deixando as malas no chão. Du abraçou meu pai e depois minha mãe. Eu sinceramente, não era próxima do meu pai. Ele era grosseiro, frio e inacessível. Considero minha mãe uma heroína por ter feito ele se apaixonar por ela. Du, ao contrário, era mais próximo dele.

– Eduardo me disse que você começou a trabalhar. – Ela abriu um sorriso.

– É sim! – Sorri eufórica – Fotografia. Comecei com casamentos e já fiz três. Agora estão me contratando para festas.

– Que ótimo!

– Isso é bom. – Meu pai disse – Pensei que nunca iria pensar em algo pra fazer.

Quis ignorá-lo, mas aquilo foi mais um tapa na cara para minha coleção. Abaixei o olhar. Minha mãe pôs a mão no meu braço, ela sabia como meu pai era direto e às vezes bem grosseiro. Acho que ele não sabia como era ter filha mulher. Às vezes queria ter nascido homem, parece mais fácil.

– E Micael? – Minha mãe perguntou a Du, sorrindo – É raro ele não estar aqui. – Ela riu e se virou pra mim – Vocês brigaram muito?

Torci a expressão. Du me olhou. Ele devia estar pensando “Brigaram bastante, só que de uma forma diferente.”. Mas acho que não foi isso, já que ele ficou cabisbaixo.

– A gente está ocupado com alguns projetos pendentes. Ele não vem aqui já tem um tempo.

– Ah, entendo. Felícia deve estar bem feliz com isso, né? – Ela riu.

Dei um sorriso envergonhado.

– Mais ou menos... – Disse sem pensar, logo me arrependendo.

– Hã? A gente viaja e vocês começam a se dar bem? Que milagre! – Ela riu.

Forcei uma risada. Nos sentamos na sala e eles contaram como foi a viajem. A segunda lua de mel foi um pacote para Paris, Madrid, Roma e Atenas. Eles aproveitaram bastante os últimos meses. E deviam mesmo! Economizaram para essa viagem desde os meus cinco anos de idade.

Minha mãe tirou várias fotos. Tantas que gastaram uns dez rolos de filme. Isso no mínimo! A cada foto que via, me dava mais e mais vontade de economizar pra ir pra todos esses lugares! Amei as fotos de Atenas. É incrível! Mas ainda assim gostaria muito de ir para Roma! Ai, o Coliseu!

Depois de ficarmos horas conversando e eu forçando meus pais a contar tudo nos mínimos detalhes, eles foram desfazer as malas. Quando iam subir as escadas, Micael chegou.

– Tia! – Ele exclamou.

Micael conhece Du desde a infância, então não perdeu a mania de chamar meus pais de tia e tio.

Minha mãe abriu um largo sorriso e foi abraçá-lo. Meu pai sorriu e foi cumprimentá-lo. Micael me fitou de relance. O clima ficou pesado. Abaixei a cabeça, desviando o olhar.

– Pensei que você não vinha. – Minha mãe disse.

– Também pensei. – Ele riu – Mas consegui terminar o projeto a tempo.

– Então? – Meu pai disse pondo o braço em volta do pescoço de Micael – Como vão as coisas? E as garotas? – Meu pai riu.

Micael deu uma risada sem jeito. Meu pai o levou pra cozinha pra conversar. Ele adorava Micael. Era como se fosse um filho pra ele. Desde criança eu sentia um pouco de ciúme e inveja dele por isso. Mas acho que era só um pouco difícil pra um homem como meu pai ter uma filha.

Minha mãe ria, até olhar pra mim. Eu estava cabisbaixa com uma das malas na mão.

– Fê?

– Hum?

– Que foi?

– Nada. – Eu disse subindo as escadas – Vou levar isso lá pra cima.

– Tá... – Ela não entendeu.

Enquanto meu pai e Micael riam na cozinha, minha mãe olhou para Du.

– O que houve com eles?

– “Eles”?

– É. – Ela disse sentando ao lado dele – Micael sempre chega e chama Felícia de feiosa. E se não chama, dá um empurrão nela. E ela dá um tapa nele. Desde crianças.

– Hum... – Du pensava.

– Ela não vai me contar.

– Verdade. – Ele riu.

Minha mãe o fitava. Ele olhou para ela e pôs um dos braços ao seu redor, levando-a para sala. Deu um sorriso gentil ao sentarem no sofá, começando a contar tudo.

...

Quando meus pais terminaram de desfazer as malas e lavar todas as roupas, o que levou uns dois dias, minha mãe veio no meu quarto. Eu estava montando um álbum de outro casamento. Porém esse eu entregaria em duas semanas. Os recém-casados já saíram do casamento indo para o aeroporto, para a lua de mel.

Eu tomava cuidado com as fotos, pondo-as cuidadosamente no álbum.

– Fê?

Olhei para trás.

– Oi. – Sorri pra ela.

Ela entrou e sentou na beira da cama.

– Ahm... Você... Está bem?

– Hum? – Virei pra ela e encostei na mesa – Como assim?

– Você está um pouco... Triste, digamos assim. Nesses últimos dias.

Dei uma risada forçada, que pra mim pareceu soar verdadeiro.

– Não estou triste.

Minha mãe sorriu cruzando as pernas, juntou as mãos e as cruzou uma na outra.

– Você ficou boa em esconder as coisas. Mas... – Ela soltou uma risada leve – Eduardo me contou o que houve na festa da Aléxis.

Meu sorriso desapareceu aos poucos.

– Não contou pro meu pai, né? – Perguntei, nervosa – Porque Du já me chamou de idiota, irresponsável.

– Não... Não. – Ela riu – Só eu sei. Mas... Por que não quer ficar com Micael?

A fitei, pensando na resposta. Ela foi bem direta, me pegou desprevenida.

– Mesmo ele não tendo dormido com elas, ele não disse nada. E é como se fosse mentira.

– Mas ele te contou e pediu desculpas.

– Não importa. – Insisti – Ele... – Parei e suspirei. Acho que não tinha mais argumentos.

Ela me olhava.

– Sabe,

A olhei.

– Eu não ia namorar com seu pai. Ele era frio, grosseiro e inacessível. E ainda é.

Fiquei surpresa.

– Então porque casou com ele?

Ela sorriu e me fez sentar ao seu lado, pondo a mão na cama.

– Casei com ele, porque o amo. E não saberia disso se não tivesse dado a chance de conhecê-lo.

– Eu dei chance e ele falhou.

– Não deu não. – Ela riu – Vocês tiveram uma aventura. E começaram a gostar um do outro. Você só não quer admitir que quer ficar com ele.

Abaixei o olhar, mexendo nos dedos.

– E se a gente terminar?

– E se não terminarem? – Ela sorriu – Não dá pra saber o que vai acontecer. Vocês podem namorar e se casar, quem sabe, ou namorar e ver que não são feitos para serem um casal. Mas... – Ela cantarolou – Você nunca vai saber se um desses caminhos vai acontecer se não arriscar.

Abaixei a cabeça, pensando. Eu tinha tanto medo...

– Felícia.

A olhei. Ela levantou suspirando.

– Às vezes precisamos engolir o medo e nos jogar de cabeça. Se não, não aproveitamos a vida. Não a vivemos com intensidade.

A fitava enquanto ela saía do meu quarto. Com certeza me deixou sozinha pra refletir sobre sua frase. Minha mãe era uma pensadora miserável, cara. Ela tinha sempre razão.

Deitei na cama suspirando.

Fiquei pensando no que minha mãe disse por alguns dias. Ellie ia lá pra casa e conversávamos sobre tudo, menos sobre Micael. Eu sei que ela queria saber o que eu faria, mas eu também não entrava no assunto. Micael ia lá pra casa normalmente. Às vezes eu não sabia que ele estava lá e descia para beber água ou fazer qualquer outra coisa. O olhava de relance na sala com meu irmão e minha espinha congelava completamente. Sentia um nervoso absurdo ao vê-lo!

Numa tarde, eu estava tomando banho. Saí do quarto e sentei na cama. Secava meu cabelo com a toalha quando percebi um envelope roxo em cima do meu criado-mudo.

Larguei a toalha na cama e fui até lá ver o que era. Ele não estava lacrado. O virei e vi meu nome escrito. Sentei na cama com uma das pernas balançando pra baixo e tirei o papel de dentro.

“Felícia, eu sei que se tentasse falar com você de novo, gritaria comigo e me jogaria qualquer coisa que estivesse perto de você. Por isso escrevi. É idiota e eu detesto escrever cartas, mas era o meio mais rápido de você ler. Queria que soubesse que eu gosto muito de você, e você já sabe que eu quero ficar contigo, mas quero agora que saiba o porquê.

Eu realmente não te suportava, mas há alguns anos – o que eu estou revelando agora – eu comecei a reparar em você, e não semanas antes da festa. Desculpe por mentir de novo. Você era aquela garota chata que vivia me batendo, mas virou uma garota linda e inteligente, que mesmo ainda me batendo, eu gostava de ficar perto. Só pra ver você. Eu nunca te contei isso, e nem pretendia, mas quando você começou a namorar com aquele babaca foi como se eu levasse uma facada no peito. Me enojava ver ele te tocando, te beijando. E quando Du me disse o que ele fez contigo, eu quis matá-lo.

Na festa, eu não pretendia dormir com você. Na verdade, eu nem queria. Eu sei que você vai rir e também não pense que eu não sentia tesão por você, mas é que era diferente contigo. Não só por causa do respeito que eu tenho por você, mas porque eu não queria te fazer sofrer como o babaca fez. Eu sei, ainda mais depois do que você fez quando o viu na rua, que você ainda não está totalmente bem depois daquilo. Mas, se eu puder ser sincero, ficar bêbado e dormir com você foi a melhor coisa que me aconteceu. Eu pude te ter só pra mim. E mesmo você não tendo me contado sobre não ter terminado as coisas com aquele cara, eu não fiquei com raiva de você. Fiquei chateado, mas foi idiota ir embora daquele jeito. E ainda mais tratar você daquele jeito no dia seguinte. Me desculpe por isso. Eu só não suportei ver outro beijando sua boca. Eu realmente fui um babaca, estraguei tudo como você sempre diz.

Todas as noites que passamos juntos foram perfeitas. Não foi só sexo. Antes de a gente brigar eu já ia te pedir em namoro, deixar tudo às claras pra todo mundo. E até fiquei com medo de que se não pedisse logo, você acabaria com tudo por pensar que eu só queria transar com você. A grande merda que eu fiz foi ir embora, não te escutar. Mas depois que você ficou com raiva de mim, eu vi que realmente só queria você. Anos e anos brigando e quase matando um ao outro pra depois eu descobrir que você é a mulher perfeita pra mim.

Espero que essa carta faça com que você me perdoe ou pelo menos diminua a raiva que você está sentindo de mim. Eu quero de verdade ser o homem pra você. De alguma forma.

Micael.”

Terminei de ler com uma das mãos na frente da boca, estava boquiaberta. Meus olhos estavam marejados. Fechei-os e os apertei. Olhei para o envelope e sorri. Ele era roxo, minha cor favorita. E Micael sabia! Ele sabia!

Naquele exato momento me decidi: eu arriscaria tudo!

Notas finais
E aí? E aí? Gostaram? Comentem, comentem *-----------*