O assassino do Cantor
17 Capítulo 17
Capítulo dezessete
1
Voltou para casa depois de um mês fotografando cidades da Europa. Estava montando um livro sobre festivais tradicionais pelo mundo. Já tinha bastante material da Ásia e, agora, Europa. Foi uma viagem incrível e deu a certeza a Kato Shigeaki de que preferia mil vezes fotografar as pessoas vivas do que as mortas. Ainda tinha alguns trabalhos a terminar no caderno policial do jornal em que fazia freela para Kamenashi e, depois disso, abandonaria esse trabalho. Ele também pretendia ir para a África e Oceania ainda este ano, portanto precisava mesmo se desvincular dos trabalhos locais. Esse livro o deixaria ocupado até o próximo ano, quando partiria para as Américas.
Ele não se importava em passar tanto tempo fora do país. Sua família compreendia seu trabalho e, por sorte, seu namorado decidiu viajar com ele. Shigue pensou que era uma sorte que seu namorado trabalhasse numa revista de turismo e ele pudesse fazer a proposta de matérias sobre os países pelos quais passariam. Ambos estariam a trabalho enquanto conheciam novas culturas. Seria realmente maravilhoso. Sorriu ao pensar nisso.
Jogou as chaves do apartamento no móvel ao lado da porta e, antes mesmo de tirar suas mochilas das costas ou deixar os tênis no genkan, ele apenas abriu os braços, como se pudesse abraçar a sua casa e respirou fundo.
– Tadaima!
Tinha que aproveitar os últimos momentos naquele apartamento como seu lar. Enfim ele tirou os tênis e deixou sua mochila encostada em um canto do chão da sala. Faminto, passou pelo balcão que dividia a sala da cozinha, ligando a televisão pelo caminho e foi verificar o que tinha na geladeira. Tinha o suficiente para preparar um omurice. Serviria para acalmar seu estomângo.
Enquanto quebrava os ovos, sua atenção foi chamada para a matéria sobre o assassinato de Kimura. Por ter estado fora do país, deixou de acompanhar aquela investigaçõe. Entre os e-mails que trocou com Kamenashi sobre o assunto, a sua última informação foi sobre a morte da susposta amante de Kimura.
Aquele caso estava uma bagunça. A viúva se recusava a aceitar que a morte da garota da Casa de Chá pudesse estar relacionada com a morte de seu marido, apesar das circunstâncias parecidas. O seu único depoimento sobre o assunto foi de que, se realmente estivessem ligado os dois crimes, de certo se tratava de um serial killer e não um caso passional.
Agora, porém, um jovem da Casa de Show se entregou como assassino de Kimura. Shigue prestou mais atenção nessa informação e se surpreendeu quando reconheceu a imagem de Akanishi Jin.
– Esse cara... O Kame deve estar arrasado.
Foi em busca do seu celular e tentou entrar em contato com o amigo. Não foi atendido nem no telefone de casa nem no celular do jornalista. Shigue voltou apreensivo para assistir a matéria. Não conseguia acreditar que Akanishi era o assassino. Nesse caso, o destino trabalhou de forma bastante irônica quando Kamenashi se apaixonou pela foto dele. E ele, Shigue, apenas trouxe dor de cabeça à vida do jornalista quando insistiu com Akanishi para que fosse até a casa de Kamenashi naquela noite...
Sabia bem que nada disso poderia ter sido evitado, mas não pode deixar de se sentir incomodado. Após a janta, ele se trancou em seu quarto, onde costumava revelar suas fotos, e procurou pela imagem que havia cativado o jornalista para revelar uma nova cópia. Quando encontrou o envelope, a data lhe chamou a atenção.
– Essa foto foi tirada... Na noite do crime? Se é esse o caso...
Precisava conversar com Kamenashi o quanto antes.
2
Shibutani Subaru estava zangado, mas ninguém poderia perceber. Somente Okura, que estava de pé, próximo a porta, e notou pelo olhar do mais velho que ele estava zangado. Os demais presentes na sala não notaram aquela tensão. E a pessoa responsável pela zanga de Subaru, se soubesse, tão pouco se importaria.
Subaru estava sentado em sua mesa, olhando fixamente para o jovem de cabelos tingidos, pele morena, sentado à sua frente. O policial se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa e uniu as mãos. O polegar deslizou pelos seus lábios enquanto ele ainda analisava Yamashita Tomohisa em silêncio.
Aquele sujeito havia se entregue como o verdadeiro assassino de Kimura Takuya. Disse ainda que Akanishi estava mentido para protegê-lo. Ao lado de Yamashita, estava um homem de rosto sério, na casa dos 40 anos, usando terno preto e uma gravata vermelha. Subaru, na realidade, estava mais irritado com a sua presença do que com a declaração polêmica de Yamashita. Porque ele sabia que Sakamoto Masayuki, o homem de terno, era advogado da família Nishikido.
Sabia muito bem que Yamashita se entregar não era o mesmo que ele ser condenado. Na verdade, com aquele sujeito ali, nem mesmo passaria uma noite na cadeia. Certamente aquela estratégia era para tirar Akanishi, culpar Yamashita e conseguir que ele seja absolvido de alguma forma ou, ainda, cobrir a sua fuga para outro país. E era pos isso que ele estava irritado. A família Nishikido estava acomulando vitórias em cima da polícia.
– Certo... Então você quer se entregar como assassino de Akanishi?
Subaru só não conseguia entender porque a máfia estava dando tanta importância para aquele sujeito, Yamashita. Não era nada mais que um puto de luxo. Por que ele seria tão valioso para a Nishikido-gumi se arriscar dessa forma? Ou o alvo talvez seria mesmo Akanishi? Ele não acreditava. Se o protegido da máfia fosse Akanishi, um advogado já teria sido enviado antes.
– Sim. Akanishi está mentindo. Eu matei Kimura.
Ele lançou um olhar para Sakamoto.
– E já veio com advogado e tudo.
– Eu conheço os meus direitos.
– Sim, você conhece. Claro que conhece. Okura, anote o depoimento de Yamashita.
– Hai. – ele se aproximou para ocupar a cadeira que Subaru lhe cedeu.
O agente mais velho se posicionou de pé, de costas para Yamashita e Sakamoto, mexendo em sua moeda dentro do bolso da jaqueta que usava.
– Yamashita-san, pode contar a sua história.
Yamapi fez que sim. E começou a contar.
3
O jornalista Kamenashi farejou a polêmica assim que ele reconheceu o jovem que estava no apartamento de Yamashita. Tegoshi Yuya, o famoso pop-star, que faz parte da dupla Tegomassu, não deveria estar ali por acaso, simplesmente querendo um lugar para morar. Os seus cabelos, que há poucas horas passaram por um permanente, a sua pele macia e delicada pelo luxo que o cercava, as suas roupas caras não combinavam nem com o bairro simples e muito menos com aquele lugar tão pobre.
O que levou Tegoshi Yuya até ali, de fato, era o que atiçou a sua curiosidade. Da mesma forma, Tegoshi se perguntava o motivo da vinda daquele jornalista.
– Hisashiburi Tegoshi-san. Ah, omedetou pelas vendas do último single de Tegomassu. São belas músicas, realmente.
– Arigatou, Kamenashi-san. Quando seremos entrevistados novamente por Kamenashi-san? Eu realmente fico muito satisfeito com a forma que nos descreve em suas matérias, é sempre muito gentil e galanteador. – ele disse de forma empolgada e exibindo um grande sorriso.
– No momento estou afastado de muitas pautas. – ele indicou o braço enfaixado – Mas assim que retornar para o trabalho, espero que possamos agendar uma entrevista.
– Esperarei ansioso. Você sabe né? São poucos jornalistas que podemos manter um bom relacionamento. A maioria só quer um assunto para nos difamar, porque, afinal, só as coisas ruins vende, não é mesmo? Por isso Kamenashi-san é um dos poucos jornalistas que eu gosto!
– Fico lisonjeado com a sua preferência.
– E por isso sei também que posso contar com a sua discrição, certo?
– No momento, não sou um repórter atrás de celebridades.
Tegoshi pareceu satisfeito com aquela resposta.
– Contudo, sou um jornalista investigando o asssassinato de Kimura Takuya. – ele notou que o cantor ficou tenso – Assim, se a sua vinda não tiver vínculo com este assunto, fique seguro que ninguém mais saberá da sua presença... Mas, se for necessária para a investigação...
– Ora, está bem! Eu vou lhe contar! – disse, emburrado, e deu a volta no sofá, onde se jogou de braços cruzados.
Kamenashi caminhou até a outra poltrona e mal se sentou quando teve que ouvir:
– Eu amo um garoto de programa.
A mente de Kamenashi o fez deduzir que Tegoshi falava de Akanishi. Isso foi obra do seu ciúme, que lhe fez parecer bastante natural que todas as pessoas se apaixonassem por Akanishi. Mas, para seu alívio, soube em seguida que estavam falando sobre Yamashita.
– Eu amo aquele cara. Ele não quer acreditar nisso, mas eu o amo muito e o quero pra mim. Definitivamente.
– E veio até aqui...
– Ele não tem dado notícias há dias. Nós tivemos uma discussão meio séria da última vez em que estivemos juntos, eu queria me desculpar. Mas ele não tem respondido minhas ligações e mensagens. Recebi apenas uma que ele disse que sumiria da minha vida. Não posso permitir isso! Vim até aqui para certificar que ele estava dizendo a verdade e... Ele sumiu. Suas coisas não estão aqui. Suas roupas, suas coisas pessoais. Ele foi embora de verdade...
Ele se acalmou e sua voz diminuiu o tom. Kamenashi se sentiu penalizado. Entendia os sentimentos de Tegoshi. O cantor não estava ocupando na vida de Yamashita o mesmo lugar que ele ocupava na de Jin? Não passavam apenas de clientes para eles.
Colocou a mão sobre o joelho de Tegoshi, que olhou em sua direção, e sorriu.
– Não é fácil, não é verdade?
Mordendo os lábios, Tegoshi apenas sacudiu a cabeça. Kamenashi queria dizer mais palavras para confortá-lo. Apesar de ser famoso pelo gênio forte e mimado, Tegoshi tinha aquela aparência infantil que despertava a vontade de consolá-lo. Entretanto, não pode dizer nada, seu celular tocou.
Pegou o aparelho e viu que era Nakamaru. Pediu licença e foi até a cozinha para atender. Ouviu a notícia que o amigo lhe informou sem grande surpresa. De alguma forma, esperava por algo próximo do que ouvia. Retornou a sala.
– Tegoshi-san... Não precisava mais se preocupar com o desaparecimento de Yamashita.
– Eh?! – ele se virou na direção de Kamenashi e ficou de joelhos sobre o sofá. – Onde ele está?
– Na cadeia.
Os olhos do rapaz demonstraram toda a sua surpresa. Apesar de consciente do amor de Yamashita por Akanishi, parecia que Tegoshi ainda não havia compreendido a sua intensidade. Kamenashi, porém, esperava por alguma atitude de Yamashita depois que a prisão de Akanishi havia sido divulgada na imprensa.
4
Por conta da vinda de Yamashita, Subaru teve que desmarcar sua conversa com Inagaki Goro naquela tarde. Ficou para o dia seguinte.
Estava sentado em sua mesa lendo um bilhete, pensativo, quando Okura entrou com alguns documentos. Foi logo dizendo:
– Nishikido Ryo mantém contato com muitas mulheres da Casa de Chá, principalmente com a dona Nishiyama Megumi. Mas descobrimos que há outra voz com quem ele conversa com muita freqüência. Só que eles se falam com apelidos e o celular da mulher está no nome de Nishikido.
– E os celulares da Yakuza não podem ser rastreados. – Subaru bufou.
– E isso é importante? Temos dois suspeitos da morte do cantor. – Okura se sentou na frente de Subaru, jogando os documentos sobre a mesa. – O que você pensa sobre isso?
– Yamashita e Akanishi... São dois idiotas.
– Não acredita na culpa deles?
– Acredito que todos são culpados até que se prove a inocência.
– Hercule Poirot. – sorriu de canto.
– Ficção tem a sua sabedoria. Em todo caso, nenhum dos dois está empenhado em provar inocência, e possuem provas de suas culpas. Yamashita também deu detalhes incríveis da morte.
– Cúmplices?
– Talvez, mas pouco provável. Não havia indícios de três pessoas na cena do crime. E o cantor foi drogado, também não havia necessidade de duas pessoas para assassiná-lo.
– Se eles forem inocentes, digo Yamashita e Akanishi, porque se declaram culpados?
– Pelo que pudemos investigar sobre Akanishi, eles sempre estiveram juntos desde o cursinho preparatório para o vestibular. Pode ser algum distorcido senso de proteção.
– Isso quer dizer que um é o culpado mesmo.
– Akanishi sempre foi mais atrapalhado. Toda bagunça que ele armou no passado, quem consertou foi Yamashita.
– Akanishi pode ter matado o amante em um momento de cólera e agora Yamashita está encobrindo?
– Plausível. Condizente com o que sabemos sobre ambos. Mas você está esquecendo muitas coisas, Tacchon.
– Estou?
– Sim. A prova plantada na cena do crime indicava a Casa de Show. Uma prova plantada que indicava tanto a Yamashita quanto a Akanishi. Plantada por Tanaka Koki, o braço direito de Nishikido Ryo. E agora Yamashita vem se entregar acompanhado de um advogado da família. Não te faz pensar porque a máfia se envolveria em um crime passional?
Subaru sorriu de leve enquanto Okura pensava naquelas informações.
– Por último, não se esqueça disso. – e ele jogou o bilhete que lia antes da entrada do rapaz.
–... A denúncia anônima da transação da família Nishikido. Como este fato pode estar ligado com a morte de Kimura? Kimura não poderia ter feito a denúncia, isso aconteceu depois de sua morte! Por acaso você recebeu isto em uma mesa branca?
– Não, não acredito que tenha sido Kimura quem fez a denúncia. Ao menos, não diretamente. Mas perceba que toda a movimentação da Yakuza começou após a morte do cantor. Alguém denunciou o esquema da transação de drogas. Nishikido e Tanaka se mantiveram escondidos em algum lugar até o pai de Nishikido livrar a cara deles. Depois disso, houve o ataque ao jornalista e a Tanaka Koki, abrindo brecha para um revide. O revide não foi diretamente na família Matsuoka, mas sim a Casa de Show, de Nagase. A guerra entre a Yakuza começou. E muitas cabeças ainda vão rolar...
– Mas como essa guerra tem a ver com a morte de Kimura?
– A pergunta está sendo feita do modo errado. – Subaru sacudiu a cabeça – A pergunta certa é: o que a morte de Kimura proporcionou para esta guerra?
– Bem... A única coisa que eu vejo é que tomou todas as luzes da imprensa. Quase ninguém comentou sobre a apreensão de drogas. Eles noticiaram o ataque ao jornalista e Tanaka, mas logo depois voltaram para o caso Kimura porque Akanishi se entregou. E agora vão falar mais ainda com a declaração de Yamashita.
– Não, não... Ainda há alguma peça faltando. Ainda não sei bem ao certo o que é... Mas ainda temos que apertar Inagaki. Ele ainda tem algo importante para gente.
– Mas porque você tem tanta certeza da ligação deste caso com a Yakuza?
– A prova que Tanaka Koki implantou.
– Você quer dizer que a Yakuza tem interesse no direcionamento das investigações do crime. Quis culpar Akanishi ou a Yamashita implantando a prova do cartão. Isso quer dizer que a Yakuza é a responsável pela morte de Kimura?
– É uma possibilidade. Assim como existe a possibilidade de Yamashita ou Akanishi serem de fato os assassinos. – ele disse, finalmente –... E a única ligação que temos de Kimura com a Yakuza... É através de Akanishi, que trabalhava para Nagase Tomoya, amigo íntimo de Matsuoka. Agora precisamos descobrir qual é a ligação de Yamashita com a Nishikido-gumi. Porque ele está de um lado da Yakuza, quando Akanishi só tem relações com a Matsuoka, se eles são tão amigos? Além disso, precisamos nos certificar se Kimura não teve mesmo outra relação com a Yakuza além de Akanishi.
– Mas... Akanishi e Yamashita... Por que eles se declarariam culpado? Pela Yakuza?
– Não. Eles, obviamente, estão sendo usados pela máfia. Ainda não entendi exatamente como e se eles têm consciência de que são fantoches.
– Você parece acreditar mais na possibilidade da Yakuza ser a responsável.
– Isso é por que, como eu lhe disse, Akanishi e Yamashita são dois idiotas. Bem. De vez em quando os idiotas podem nos surpreender, em todo caso.
Okura nada disse e eles voltaram a trabalhar em cima do depoimento dado por Yamashita. Naqueles documentos, assim como no depoimento de Akanishi, estavam detalhes técnicos que ainda não foram divulgados pela mídia. Isso, porém, não significava que somente a polícia tinha acesso a elas...
Subaru estreitou os olhos. Ainda tinha a sensação de que a investigação estava sendo manipulada, mas não conseguia compreender qual era o alvo dessa manipulação. Akanishi? Yamashita?
A Yakuza?
5
Kamenashi voltou para sua casa tentando reorganizar seus pensamentos. Com Yamashita se declarando culpado, ganharia mais tempo para provar a inocência de Jin. Fechou a porta e Akame correu para recebê-lo. Agachou-se para brincar com o cachorro e se lembrou do dia em que Akanishi trouxe o animal de estimação. Fez aquela brincadeira estúpida sobre estar grávido e depois correu com Akame na chuva. Ele ainda tinha inocência suficiente para esse tipo de atitude, apesar da profissão, apesar da vida que levava. Seria capaz de matar uma pessoa? Poderia matar aquele a quem dizia amar?
– Porque é tão imbecil, aquele cara? – suspirou. – Você parece com fome, será que devorou tudo o que deixei na sua tigela?
Ele se levantou e foi até o cantinho de Akame, onde constatou que a tigela estava quase vazia. Foi até a cozinha pegar mais ração. Depois que assistiu ao cão começar a se alimentar, ligou a televisão para descansar um pouco, mas parecia que não era mais possível deixar de pensar no caso Kimura. No canal estava passando um clipe de Tegomass.
– Amante de Yamashita... E porque ele reagiu daquela forma quando contei que Yamashita se entregou?
O rosto surpreso e triste de Tegoshi lhe veio à mente. Kamenashi sugeriu que fosse procurar o rapaz na delegacia e, por um momento, ele pareceu gostar da ideia, mas alguma coisa o fez mudar de atitude. Disse que seria imprudente para sua carreira se o fizesse. Pediu desculpas e disse que tinha compromissos, precisava partir. Ele parecia afobado e preocupado.
– O que se passou naquela cabecinha naquele momento?
Não sabia e o telefone tocou pouco depois. Era Shigue e ele tinha uma informação que não deixaria Kamenashi dormir naquela noite.
6
Estava cansado. Os remédios, que estava tomando para as dores no braço, o deixavam sonolento e, além disso, estava sendo um dia bastante agitado. Quando Kamenashi se encontrou diante daquela fonte, onde a imagem de Akanishi foi registrada por Shigue, foi tomado por uma sensação esquisita.
A estátua do anjo parecia, naquele momento e sob o contexto que se encontrava, bastante opressora. Akanishi teria cometido o crime e ido até ali em uma espécie de confissão e arrependimento? Ele afastou essa ideia, a hora do crime não poderia ser uma farsa, e o crime aconteceu às 01h, segundo a perícia. O mais provável é que tivesse sido o contrário. Akanishi estava ali, com aquele semblante tristonho e concentrado, tomando coragem para assassinar o homem que amava. Era o mais provável, se Akanishi de fato fosse o assassino.
Contudo, por que ele teria mentido sobre o horário do encontro com Kimura? Porque afirmou que esteve o tempo todo com o cantor? O que ele está escondendo, se ele se declarou culpado?
– Kamenashi! – Shigue gritou ao longe.
Kamenashi acenou com a mão e o viu correr em sua direção. O rapaz, como sempre, carregava uma mochila, onde o jornalista sabia que estava a sua inseparável máquina fotográfica. Eles se cumprimentaram com afeição e trocaram algumas palavras sobre a viagem do fotógrafo. Shigue sabia que o amigo estava ansioso e então o poupou dos detalhes durante a sua ausência. Ele abriu a mochila e retirou um envelope.
– Aqui estão os negativos daquela foto com a data. – ele explicou.
– Arigatou, Shigue. Isso aqui vai levantar dúvidas no depoimento de Akanishi.
– Kame... Você acha que ele é inocente mesmo?
– Sim, ele é. Eu não tenho provas sobre isso, mas... Digamos que é uma intuição jornalística.
– Eu diria intuição do amor. – ele riu com o olhar de protesto do outro. – E agora, por que quis que nos encontrássemos aqui?
– Vamos até o local do crime. Vamos calcular o tempo que ele teria gasto daqui até lá... Você se lembra exatamente o horário em que veio fotografar?
– Eu cheguei pouco depois das 18 horas, mas essa foto foi praticamente no final do meu trabalho naquela noite... Eu diria que entre 20h30 e 21h. Não... Provalvemente um pouco mais tarde. Entre 21h e 21h15.
– Certo. Nesse intervalo, Kimura ficou sozinho no motel por duas horas... Porque? Porque ele chegou tão cedo no motel?
– Talvez ele estivesse no horário certo e o assassino tenha se atrasado? Se for Akanishi, de fato, ele poderia estar indeciso. Veio até aqui e quando se decidiu, foi encontrá-lo. Sendo Akanishi amante de Kimura e este o amava da forma como Nakai nos conta, certamente não se importaria em esperá-lo o tempo que fosse.
Uma expressão amarga tomou o rosto de Kamenashi porque ele concordava com aquela hipótese.
– Bem, vamos logo. – cortou a linha de pensamento. – Eu vou de metrô, você pega um táxi, por favor. Calcule o tempo por estas duas rotas. – ele tirou um papel do bolso – De carro, saindo deste ponto, só há esses dois caminhos.
– Certo. Nos encontramos lá no motel, então?
– Sim. Arigatou ne, Shigue! Desculpe por todo este trabalho!
Shigue sorriu e disse para que ele não se preocupasse com isso.
7
Pelo metrô, ele deveria fazer duas baldiações para alcançar o ponto mais próximo do motel e ainda precisaria tomar um ônibus. A primeira estação em que ele teve que descer estava vazia, mas, a plataforma da segunda estação estava mais movimentada. Enquanto aguardava o trem, observava as pessoas, tentando afastar seus pensamentos de Akanishi e o que sentia por aquele homem. Não podia deixar seus sentimentos interferirem – ainda mais – em suas atitudes. Não acreditava na culpa de Akanishi, mas até que ponto realmente poderia ser uma intuição e não um desejo? Aos outros conseguia passar a segurança de que estava certo sobre a inocência de Akanishi porque precisava convencê-los disso para que pudesse pedir ajuda. A si mesmo, no entanto, havia aquela pequena dúvida.
Sacudiu a cabeça. Não devia pensar sobre isso agora. Notou que seus cadarços estavam soltos e abaixou-se para amarrá-los. Foi quando ele notou aquele movimento. Por entre as pernas dos trauseantes, ele notou um envelope branco passando entre duas pessoas. Duas pessoas que não interromperam seus caminhos para trocarem qualquer palavra. Apenas o envelope. Uma delas era uma mulher, usando uma japona clara, um grande chapéu e óculos escuros, apesar de ser noite.
Aquela mulher passou pelo jornalista com sua postura altiva, passos firmes e rápidos, e exalando Channel nº5 enquanto seus cabelos dourados e cacheados balançavam com suavidade. Kamenashi teve a impressão de que a conhecia, mas sua memória, infeliz, falhou nesse momento.
Para sua sorte, houve um encontro, a bolsa da mulher caiu ao chão e se abriu. Kamenashi se adiantou para ajudá-la e, enquanto ela recolhia os objetos, os óculos escorregaram pelo nariz e, assim, próximo a ela, ele teve mais facilidade em reconhecê-la.
Estava diante da viúva mais famosa dos últimos tempos. Ele só não entendia porque Kimura-san estava disfarçada com aquelas roupas e peruca.
– Domo arigatou gozaimasu. – os lábios carmim exibiram um sorriso discreto e ela se levantou.
Kamenashi apenas acenou com a cabeça e foi na direção oposta a que ela se dirigiu. Ao se virar, ele notou que a outra pessoa, a que tinha recebido o envelope, os observava ao final da plataforma. Era um jovem de cabelos castanhos, arrepiados e um nariz avantajado. Ele vestia um grande casaco verde musgo, calças jeans e sapatos de camurça. Parecia um jovem comum, não tivesse sido aquele encontro totalmente suspeito com a viúva.
Alguma coisa estava acontecendo e Kame precisava descobrir do que se tratava. Tentou agir naturalmente quando passou por aquele rapaz, fingindo que não tinha notado seu olhar atento e passou por ele, a fim de esperá-lo na saída do metrô.
8
Ikuta Toma notou quando esbarraram em Kimura-san e lançou um olhar preocupado. Quando se assegurou que havia sido de fato um acidente, e que aquele jovem que a ajudou passou por ele sem demonstrar qualquer desconfiança e foi embora, ele também voltou ao seu caminho.
Segurou o envelope com algum nervosismo. Estava em uma situação complicada e confusa. Ele era um homem que agia pela razão, mas, pela primeira vez, seus sentimentos estavam bastante agitados. Sabia que o que estava fazendo era o mais sóbrio, era o certo. Não duvidava sobre isso. Contudo, não se sentia bem em trair a família Nishikido.
Mas Ryo insistia em querer tomar o poder de seu pai. Não havia escolha.
Do lado de fora da estação de trem, ele seguiu até o carro em que os homens da família Nishikido o aguadarvam. Entrou no veículo e deu ordem para se dirigir até a casa do herdeiro.
A casa em que Nishikido Ryo morava era em um bairro comercial, cujo movimento noturno era grande. Assim, eles não desconfiaram daquele táxi que seguiu pelo mesmo caminho.
9
Olhou para o relógio do seu celular mais uma vez. Já era meia noite. Ele tinha feito os dois caminhos indicados por Kamenashi e agora estava em um bar próximo ao motel esperando pelo jornalista, que estava demorando demais para alguém que percorreria um trajeto de metrô. Tentou ligar para ele, mas o seu celular devia estar desligado. Suspirou, preocupado, sem saber o que fazer.
Levou o copo americano à boca e terminou a cerveja. Alguma coisa tinha acontecido. Estava decidido a ligar para Nakai e pedir ajudar, afinal Kamenashi era seu funcionário e, como o jornalista não tinha uma boa relação com seus parentes, foi a primeira pessoa que Shigue cogitou. Antes disso, porém, recebeu uma mensagem de Kamenashi.
Em poucas palavras, ele explicou que estava de vigia em uma casa, tentando descobrir a identidade do dono e que era uma ligação com a viúva. Pediu ainda para Shigue fazer o trajeto da fonte até o motel por metrô para ele quando possível, pois aquele horário já estava fechado, e que conversariam melhor depois.
–... Sempre impulsivo. – murmurou.
Ele respondeu que faria o que estava pedindo e ainda o orientou a não se meter em encrenca estando sozinho e com um braço quebrado.
10
A casa de Nishikido era grande e luxuosa. Kamenashi desceu do táxi e, colhendo informações com o comércio noturno próximos, soube que era uma casa que recebia muitas festas, estava sempre lotada de pessoas. Como nesta noite. Kamenashi também sabia sobre essas festas, Koki comentava algumas vezes sobre transações que seriam realizadas ali. Kamenashi pensou que tinha que entrar naquela casa de alguma forma.
A sorte parecia querer a sua companhia nesta noite, pois, enquanto ele tomava uma dose de uísque, aquele rapaz entrou no bar e se dirigiu até o balcão. Ele estava com outra roupa e parecia que tinha tomado banho, os cabelos estavam molhados. Pediu vodka e se sentou próximo ao jornalista. Conversou de forma descontraída com Sato, o bartender.
Era a sua chance. Precisava encontrar uma forma de entrar na conversa sem levantar supeitas. Prestava bastante atenção no que estava sendo dito, mas eles falavam sobre seus amigos, sem brecha para o jornalista dizer coisa alguma.
Então ele notou a televisão desligada, ela estava pendurada próxima ao balcão. E se lembrou do calendário da J-league.
– Sato, poderia ligar a TV? – ele cortou o assunto. Notou vagamente o olhar do rapaz sobre si – Deve estar passando a reprise da final da J-league.
– Ok. – o bartender procurou pelo controle em alguma estante abaixo do balcão e depois colocou no canal – Mas que graça tem a reprise? Todos já sabem quem venceu. – comentou rindo.
– Preciso escrever um artigo sobre o desempenho do Matsukawa. – Kamenashi explicou – Já vi a partida, mas é sempre bom rever alguns lances.
– Ah, dizem mesmo que jornalistas são neuróticos com seus trabalhos. Pensando em um artigo à meia noite em um bar? – o rapaz disse em um tom de voz humorado.
Ele sorriu simpático para o jornalista, que percebeu que ele estava disposto a conversar. Toma apoiou os braços no balcão e se inclinou na direção de Kamenashi. Ponto ganho. A atenção do rapaz tinha sido conquistada.
– É meio que automático. – Kamenashi riu e se justificou: – Principalmente quando estamos entediados. – disse e passou rápido a língua em seu lábios inferior, como se estivesse apenas secando-o da bebida que tomava, mas notou que o movimento foi registrado pelo outro rapaz. Novo ponto: ele era no mínimo bissexual.
– É difícil se divertir sozinho, não é? – Toma concordou.
– Às vezes encontramos boas companhias. – Kamenashi respondeu, com um meio sorriso, que foi retribuído.
– Ikuta Toma. – ele ergueu o copo que bebia.
– Odagiri Ryu. – Kamenashi disse um de seus nomes falsos que usava em suas matérias policiais.
Uma pausa para beberem, mas o clima entre eles se tornou evidente. O sorriso de satisfação estava no rosto de ambos.
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