Capítulo catorze

1

Não tinha conseguido dormir, por isso, deixou a cama e foi para a sala assistir um pouco de televisão. Seus olhos, no entanto, se cravaram no relógio que havia na estante. Não conseguia prestar atenção em outra coisa que não o fato de que Yamapi estava chegando sempre de madrugada em casa, praticamente quando o Sol estava nascendo. E tinha dias que ele nem voltava. Estava preocupado e incomodado. Não gostava de ficar sozinho.

– Fui promovido. Meu horário não é mais fixo... Tenho que acompanhar clientes em bares, fazer um social. Algumas vezes terei que fazer hora extra...

– Pi... Você não está mentindo, está?

– Porque eu mentiria?

– Você me deu o dinheiro para pagar minhas divídas... Não está trabalhando mais que o necessário porque fez algo estranho para conseguir a grana... Está? – Jin o olhou, incerto se queria mesmo saber a resposta.

– Você se preocupa demais. – ele disse e lhe sorriu, daquela forma que sabia que acalmaria o mais velho.

Yamapi se aproximou para tomar seu queixo e depositou um pequeno beijo, sentindo que Jin afastava o seu rosto, achando um erro essas demonstrações de carinho porque ele não o amava da mesma forma.

– Pi... Sobre isso... Sobre o sexo que fizemos... Eu... Acho que...

– Eu sei o que você acha. Você já me cansou de dizer. Mas nem sempre o que você acha é o que vai prevalecer.

Jin estremeceu com aquelas palavras duras, ao mesmo tempo em que se sentia protegido por elas. Às vezes precisava que alguém tomasse as decisões por ele.

– Pi...

– O que eu sinto é o suficiente. – ele disse, como se isso encerrasse a questão. – Mesmo se ficarmos juntos ou não. Não vou mudar o que eu sinto porque você não sente o mesmo.

– Isso é tão... Masoquista?

– Isso é ser honesto com meus sentimentos.

Ser honesto com seus sentimentos. Jin não entendia aquele ponto de vista. Se ele fosse sincero com o que sentia, ele não deixaria mais Yamapi tocá-lo. Achava que era errado se divertir com Yamapi se não o amava. Mas, o problema é que se ele fosse sincero com o que sentia, ele também continuaria a deixar Yamapi a tocá-lo. Era contraditório, mas ele gostava muito quando transavam. Ele até mesmo desejava que fizessem mais vezes...

Estava confuso e não sabia o que fazer. Por hora, estava seguindo o conselho do próprio Yamapi. Ele não devia se preocupar tanto e deixar que tudo se desenrolasse naturalmente até que se sentisse confortável para tomar uma escolha. Ambos eram solteiros e o mais novo parecia mesmo não se importar com a sua indecisão.

Se ao menos ele não estivesse tão fragilizado quando Yamapi o levou para cama a primeira vez. Se ao menos tivesse resistido naquela noite em que chegou tão cansado de tudo, frustrado, triste, sufocado e começando a sentir o desespero das cobranças dos credores... Não tivesse tomado aquela dose a mais de tequila, não tivesse deixado Yamapi abraçá-lo com aquele corpo quente ainda com o cheiro do sabonete em sua pele. Não devia ter permitido o beijo em seu pescoço, que ele o levasse até a cama e o deitasse com cuidado.

Deveria ter ao menos fechado os seus olhos quando eles se encontraram aos de Pi. O encanto, porém, era mais forte e parecia que, pela primeira vez, estava realmente prestando atenção aos olhos do amigo. Sabia que ele era estrábico, mas, não era algo tão perceptível. Isso lhe dava até um charme a mais, Jin descobriu naquela noite, que eles sabiam ser profundos e inquietantes. O modo como ele o olhava mexeu com seu sangue e seus desejos...

Yamapi era sempre tão gentil e carinhoso com ele, diferente do modo como agia com as outras pessoas, e naquela noite ele precisava tanto desse conforto que simplesmente se rendeu. Deixou Pi tomar a sua boca e fazer do seu corpo o seu território.

Apenas a lembrança daquela noite provocou desejos em Jin. Sacudiu a cabeça, desviou-se do rumo de seus pensamentos e se perdeu novamente nas carícias de Yamapi. Não devia estar pensando nisso, tinha que descobrir o que Yamapi estava fazendo todos os dias. Trabalho extra? Jin tinha quase certeza de que isso era uma mentira. Tinha que confirmar.

Ouviu um barulho na porta, então se enrolou no cobertor e fechou os olhos. Ouviu o barulho da chave e, algum tempo depois, Yamapi certamente estava tirando seus calçados e deixando seu casaco no cabideiro, ele se aproximou do sofá. O silêncio veio quando ele desligou o aparelho e depois Jin sentu a sua mão deslizar em seu rosto.

– Jin... Hey Jin... Vamos dormir na cama. Acorde...

Esperou o momento certo para fingir que estava acordando naquele momento.

– Eh? Pi? Que horas são?? Já passou os gols da rodada do futebol europeu? – ele bocejou, piscou os olhos e se espreguiçou: – Estava esperando a reprise...

– Não sei se já passou... Mas são quase seis da manhã... Vamos pra cama.

– Você chegou tarde de novo... – ele reclamou. – Você precisa mesmo fazer tanta hora extra?

– Eu não me importo Jin. De verdade, eu gosto de trabalhar tanto assim pelos objetivos que eu tenho.

– E que objetivos são esses?

Yamashita lhe sorriu, beijou-lhe a testa e não respondeu. Jin realmente não era capaz de perceber seus atos. E era melhor assim.

– Vamos dormir.

Jin não protestou, sabendo que não conseguiria a verdade. Quando Yamapi teimava em ficar quieto, não havia maneira de fazê-lo falar. Apenas formou um bico e se levantou para irem dormir.

2

Ele saiu daquele prédio que tinha um pouco mais de luxo do que os lugares que ele costumava trabalhar, mas não era por isso que ele estava assombrado e mantinha a testa enrrugada. Foi o que lhe contaram lá que o tinha deixado confuso.

– Yamashita Tomohisa não trabalha aqui há mais de seis meses.

A recepcionista, de rosto frio, cabelos perfeitamente alinhados naquele coque e de voz rouca, não se importou com a sua confusão e se irritou com a sua insistência em não querer acreditar naquela resposta. Disse mais uma vez, de forma seca, que Yamashita não trabalhava mais ali. Ela pediu desculpas, ainda com a voz carregada de impaciência e se afastou para atender outra pessoa.

Jin ainda permaneceu parado na recepção alguns minutos. Yamapi não trabalhava mais naquele lugar. E o tempo coincidia com a época em que ele pagou a sua dívida.

Com que dinheiro Yamapi pagou o que devia?

E onde ele estava trabalhando agora? Porque não lhe contou que havia mudado de emprego?

3

Jin não estava nada satisfeito com aquela situação, então decidiu investigar. Tirou folga no seu trabalho noturno, agora trabalhava na limpeza de um shopping, e não avisou a Yamapi. O amigo amante pensou que ele trabalharia normalmente, não podia imaginar que seria seguido naquela noite.

Foi assim que Jin descobriu o que Yamapi estava fazendo. Ele viu o amigo sair do seu emprego no período da tarde e tomar um táxi no mesmo horário de costume, essa informação Jin descobriu logo nos primeiros dias de investigação. Agora ele estava preparado e, tendo esperado de dentro de outro táxi, o seguiu.

Aquela casa noturna era famosa na região. Casa de Show. Diziam que o dono, Nagase Tomoya, era amigo de infância de Matsuoka, líder da facção local da Yakuza. Todos respeitavam essa ligação e também a elegância e requinte das atrações do estabelecimento. Os rumores eram de que os homens mais bonitos da cidade trabalhavam ali.

Jin mordeu os lábios quando viu Yamapi entrar. Então, pagou o seu taxista e tentou entrar na casa. Não deixaram. Suas roupas denunciavam que ele não tinha condição financeira o suficiente para ser um cliente. Ele tentou encontrar alguma entrada nos fundos, ou uma janela, ou qualquer coisa. Mas foi retirado do local pelos seguranças.

Emburrado, ele esperou do outro lado da calçada, agachado e encostado a um poste, observando o movimento. Pessoas importantes e ricas começaram a chegar. E, entre elas, ele viu Nagase Tomoya. Sabia que era ele, tinha visto uma foto sua nos jornais quando a casa foi acusada de pedofilia. Ele conseguiu se livrar das acusações.

Yamapi já tinha vinte anos, agora. Jin se lembrou.

4

Aquele rapaz era bonito e Nagase notava cada olhar que as pessoas em volta depositavam nele. Mas ele mesmo não era capaz de perceber o quanto eram cobiçados seu rosto delicado, seu olhar ora malicioso, ora infantil, seu sorriso sedutor e sua gargalhada contagiante. Ele era naturalmente sedutor e não tinha a menor ideia disso. Estava diante de um diamanete, só que ainda em seu estado bruto... Nada que um pequeno treinamento não resolvesse.

– Bem, Akanishi Jin... Ainda é menor de idade, vai beber suco! – ele brincou.

– Sou mais velho que o Pi. Já tenho vinte e um. – ele retrucou.

– Ah, então quer beber? O que quer pedir?

– Qualquer coisa. Pode escolher.

Troca de olhares. Os de Nagase, com descrença. Os de Akanishi, convictos.

– Você tem certeza?

– Sim. O mínimo que eu posso fazer... É fazer o mesmo por ele.

Akanishi permaneceu dias diante da Casa de Chá até conseguir a atenção de seu dono. Não foi difícil, os clientes começaram a notá-lo e um pequeno burbuinho sobre um belo rapaz despertou a curiosidade de Nagase. Marcaram um encontro. Nagase sabia quem era Akanishi Jin, Yamapi havia lhe contado muitas coisas quando foram dar uma lição naquele cozinheiro, algum tempo atrás. Mas ele não sabia que Akanishi era um rapaz tão bonito. Uma rápida olhada e Nagase o avaliou com o preço do seu terceiro host. Um pouco de treinamento e seu preço aumentaria rapidamente.

Yamapi certamente ficaria chateado com que estava fazendo. Poderiam brigar por isso. Colocar Akanishi para trabalhar naquele negócio, certamente estava pisando um território muito sensível. Contudo, podia prever que Yamapi não abandonaria o trabalho. Não poderia deixar Jin sozinho. Depois de algum tempo, a sua raiva diminuiria. E se não diminuísse, Nagase sempre estaria de olho nele. Não seria um menino como ele que o pegaria desprevenido.

Ele pesou as conseqüências daquela proposta. Então se inclinou na direção de Akanishi, sorriu para ele e explicou os detalhes.

– Um treinamento? – ele perguntou após ouvir a explicação.

– Sim, por um mês, talvez menos. Acho que você pega o jeito rápido. Não se preocupe, Akanishi... Eu supervisionarei o seu treinamento. Você vai se tornar o Host número 1 da região, talvez até do Japão, em pouco tempo.

Nagase estava certo sobre isso. Seu sorriso refletia a sua segurança. Apenas não imaginou que o destino daquele rapaz se cruzaria com o do famoso cantor Kimura Takuya.

5

– E isso é tudo. Essa é a história daqueles dois.

Nagase disse e se se encostou à poltrona com mais conforto para observar seus convidados. O jornalista estava digerindo todas as informações e Tanaka, a bebida. O yakuza virou todo o conteúdo e depositou o copo de volta à mesa.

– Sobre o crime... Você acha que um deles pode ser o assassino? – Koki perguntou

Ele ergueu uma sobrancelha e refletiu.

– Posso responder apenas me baseando nas personalidades deles. Não sei como eles teriam ligação com este caso. Yamashita seria capaz de matar alguém, se esse alguém o provocasse com o que lhe é mais precioso. – Nagase se calou por algum momento para acender outro charuto. – E Akanishi... Não sei. Como disse, Akanishi é um mistério. Não sei o que ele pensa, não sei o que sente, não sei como agiria. Ele pode agir de todas as formas que ele quiser. Ele é, de alguma forma, livre. Não se pode dizer nada concreto sobre ele. No instante seguinte, ele pode ser totalmente contraditório.

6

Queria outra possibilidade. Na sua cabeça, Kamenashi não conseguia tirar que Yamashita amava a Jin, sendo, portanto, Jin o amante de Kimura. E um deles matou o cantor e o outro está encobrindo. Fugiram. Devem estar juntos. Fazendo sexo em algum motel ordinário em algum canto distante da sua província.

– O que você está pensando, Baby? – Koki andava com seus passos largos e jogados ao seu lado.

– Akanishi é o amante de Kimura.

– Como tem certeza?

– Pelo relato de Nagase, Yamashita só ama a Jin. Talvez Kimura pudesse ser um cliente, mas, Nakai contou que Kimura estava feliz com a amante. Não era apenas uma relação cliente e puto, como seria com Yamashita. E Nagase disse que Jin parece amar a todo mundo, enquanto Yamashita é sempre impassível. Se Kimura foi iludido ou não, o único que conseguiria fingir ou mesmo amá-lo, entre Yamashita e Jin... É Jin.

– Un. Isso se o amante for mesmo um garoto de programa.

– Isso eu já não duvido. Você viu o cartão de apresentação dos Hosts? O pedaço que encontrei na cena do crime se encaixa na parte inferior do cartão. Akanishi se aproximou de mim intencionalmente por causa das investigações. – disse e seu tom de voz soou amargurado.

Koki o olhou curioso e Kamenashi teve que admitir, contra a sua vontade:

– Uma noite, depois de transarmos, ele murmurou “Ta-chan”.

– Pode ser outro nome.

– Pode. Mas seria muita coincidência, não acha?

– Eu acho que...

Koki não continuou o que dizia, um veículo preto diminuiu a velocidade e se manteve próximo a eles. Alfa Romeo 147, preto. Foi quando Koki percebeu que eles estavam em uma rua deserta demais, mesmo para o horário, e alguns postes de iluminação não estavam funcinando. Seu instinto o alertou. Por puro reflexo, ele empurrou Kamenashi para uma ruela no instante em que a janela do banco de trás se abria e uma pistola começou a disparar.

– Mas que merda é essa?

– Corre, Baby!

Eles correram com as cabeças baixas, rezando para escaparem dos tiros, que cessaram rápido. Olharam para trás e viram o carro entrando pela ruazinha.

– Droga, venha... Vamos correr pela contramão. – Koki sugeriu, mas sabendo que não adiantaria quase nada. Não havia trânsito àquela hora da noite.

Enquanto corriam, Kamenashi notou Koki com a mão no bolso. Ele também sacou uma pistola e atirou contra o veículo. Não sabia que seu amigo andava armado, mas agradeceu por isso.

– Baby, disca o 1. – ele jogou seu celular para o jornalista.

– O que eu falo?

– Não precisa dizer nada. Apenas aperta o botão e vamos correr para o centro.

Kamenashi não questionou. Era óbvio que, fazendo parte da Yakuza e estando em uma posição favorecida, Koki teria seus planos para situações como essa. Apesar do tratado entre as duas famílias de manterem a paz e evitar derramamento de sangue à toa, não era algo que deixasse ninguém realmente tranqüilo. Conspirações e ataques podiam surgir de uma hora para a outra.

Koki parou mais uma vez e mirou com mais precisão. Atingiu o pneu do carro e sorriu quando ele derrapou e girou.

– Agora está mais justo. – ele disse, quando os viu descer do carro e começar a correr na direção de Kamenashi e ele: – Vamos Baby, vamos.

Koki o puxou de novo e, desta vez, para entrarem em um bar. Kamenashi sabia por alto sobre as localizações dos pontos da família Nishikido. Aquele bar não era um deles e ele torcia para que não fosse da Matsuoka-gumi. Koki não seria idiota a esse ponto, logo pensou e refutou essa ideia.

O bar era neutro, um estabelecimento dentro das leis e freqüentado por jovens que consumiam apenas álcool. Estava lotado e isso favoreu a Koki e Kame quando o yakuza atirou para o alto e correu para os fundos. As pessoas correram na direção da porta, bloqueando a passagem da família rival.

Eles correram pela cozinha e saíram pelos fundos. Kamenashi se apoiou nos joelhos por u instante para recuperar o fôlego.

– Baby, não podemos ficar aqui parado. – Koki disse, respirando pesado, mas, com mais resistência que o jornalista. – Vamos.

– S... Sim... Vamos... – ele disse.

Eles seguiram para a direita. E, então, um novo veículo surgiu, bloqueando o caminho.

– Merda! – Koki exclamou, enquanto contava mentalmente quantas baladas ainda lhe restavam. Não era animador.

– Vamos para o outro lado. – Kame o puxou pela camiseta.

E, do outro lado, aqueles que os estavam perseguindo antes já estavam bloqueando o caminho por ali também. Kamenashi lambeu os lábios e sentiu o suor escorrer de sua testa. Estavam ferrados.

– Konbawa. – um homem tomou a frente entre todos. Ele apontava a sua pistola contra os dois: – Está uma bela noite para um passeio, vocês não acham?

7

Ela estava bonita. Mesmo naquela roupa de luto, a viúva Kimura estava muito bonita naquela foto da revista que Nishikido Ryo estava folheando. Era irônico pensar que muitas mulheres invejavam a vida dela. Rica, bonita e, até pouco tempo atrás, bem casada. Duas filhas e um marido cobiçado e admirado pelo país inteiro. E, então, do céu ao inferno. O marido é assassinado.

Ryo sabia, porém, que essa não era a maior tragédia na vida daquela mulher. Talvez fosse, até mesmo, a sua libertação, aquele crime. A sua liberdade um casamento fadado ao fracasso, que ainda não tinha sido dissolvido porque ambos eram teimosos. Haruka era uma mulher aparentemente frágil, mas ela sabia brigar pelo que queria. Na sua frente, ela não escondia as suas forças. Quando ela entrou no quarto, Ryo não se surpreendeu com o seu rosto sério e seu olhar firme, tão diferente do que mostra a mídia...

– Hisashiburi... Há quanto tempo. – ele deixou um sorriso se formar em seus lábios.

– Sim. Já faz algum tempo. Você sabe... Eu estava, mais do que antes, sob a mira da imprensa. Esses dias têm sido muito cansativos.

Ela se aproximou e se sentou na poltrona ao lado dele, cruzando as pernas e retirando um maço e isqueiro da bolsa de marca famosa. Acendeu o cigarro e fumou.

– Estou muito cansada...

– Você precisa relaxar um pouco.

Ryo se levantou e se colocou atrás da poltrona dela. Deslizou suas mãos de forma firme pelos ombros e braços da mulher, subindo e descendo vagarosamente. Ela fechou os olhos e sorriu quando ele apertou seus ombros.

– Sim, estou precisando... De descanso e carinho... – levou o cigarro novamente aos lábios pintados de rosa. – Cuide de mim, Ryo-chan. Eu senti a sua falta.

Ele aproximou seu rosto ao dela e beijou-lhe o canto dos lábios.

– Eu também. Eu senti muito a sua falta.

8

Suas costas estalaram quando foi jogado bruscamente para a parede. Escorregou até o chão e gemeu. Era uma grande dor e ele não estava acostumado a brigar. Não enxergava direito, um olho estava inchado e o sangue também atrapalhava a sua visão. Um corte no supercílio e sangue manchou seu rosto.

Estavam em um galpão, mas Kamenashi não tinha a menor ideia de qual era a localização. Foram rendidos, amarrados, vendados e levados até ali. Parecia abandonado e a sua estrutura lembrava a do colégio em que ele tinha estudado. O teto bem alto, arredondado, com telhas velhas. A luz da Lua entrava por um buraco considerável. Ele gostava da Lua. Quando menino, gostava de ficar deitado na grama observando o céu noturno.

Kamenashi não achou muito ideal relembrar seu passado em um momento como este. Não dizia que você via seu passado quando está a beíra da morte? Ele não pretendia morrer ali. Não fazia sentido algum morrer agora e desse modo. Sua mente estava confusa por causa dos golpes que tinha levado, mas ele precisava procurar por alguma coisa que pudessem ajudá-los.

Mas não havia nada. Era um galpão grande e deserto. Eles estavam mesmo ferrados. E ele não estava entendendo nada. O motivo do ataque, ele sabia que era Koki o alvo, e não ele. Provalvemente uma provocação a Nishikido Ryo. Mas Kamenashi não entendia por que um ataque como este, que provocaria uma guerra entre as famílias, estava acontecendo. E o acordo de paz? O que tinha acontecido para Matsuoka-gumi quebrar o acordo?

Alguém puxou seus cabelos e ergueu o seu rosto. Conseguiu enxergar, mais a frente, Koki. Dois homens grandes o seguravam e os outros se revezavam para agredi-lo. Seu amigo não tinha perdido a consciência e nem o olhar arrogante e fiel a sua família. Estava sem a camisa e Kamenshi viu a grande tatuagem que cobria metade do tórax e, ele sabia, as costas de seu amigo. Era um tigre duelando com uma cobra gigante. Uma pata do animal cobria o peito esquerdo de Koki, em cima de seu coração.

Kamenashi não sabia dizer o quanto ele estava ferido no corpo. A tatuagem escondia e o sangue se misturava ao colorido do deseho. Mas o rosto estava cheio de hematomas e com sangue escorrendo de sua boca.

– Koki... – Kamenashi murmurou baixo.

Koki não gemia, não demonstrava medo e nem respeito pela família Matsuoka. Não se deixava intimidar pelas palavras ameaçadoras daquele homem, que Kamenashi tinha entendido ser o líder entre aqueles presentes. Era alto, robusto e forte. Tinha cabelos curtos alinhados e usava óculos retangulares. Ele parecia empresário e parecia mais refinado que os outros. Devia ter mesmo alguma posição dentro da família.

Já Koki o conhecia bem. Toyama Kiryu. Lembrava-se de algumas histórias sobre os confrontos dele com Sejima, o braço direito do pai de Ryo, na época anterior ao acordo de paz. Ele chegou a ser testemunha de algumas hostilidades, mas, como estavam sob o acordo, não resultou em brigas épicas.

Contudo, se ele estava liderando esse ataque, Koki sabia muito bem o que significava. Uma declaração de guerra.

– Vamos. Diga que a família Nishikido reconhece a superioridade do Matsuoka-gumi.

– Vá se foder. – foi a resposta dele.

– Que olhar arrogante. Não deveria manter essa pose na situação em que se encontra.

– Um homem não é nada sem a sua honra. Mas é bom saber que os Matsuoka teriam uma postura diferente, uma covarde, se a situação fosse ao contrário e...

Tomou um soco no estômago e outro na boca. Ainda assim, Koki sorria.

– A Nishikido-gumi vai conquistar a supremacia da região. – ele disse e riu alto. – Nishikido-gumi!!! – bradou.

– Bastardo, cale-se! Já está delirando porque sabe que vai morrer? Quero ver o quão longe vai esse seu orgulho de merda.

– Não me importo em morrer...

– Tudo bem. Porque é o que vai acontecer. Você vai morrer. E não vai ser rápido.

– Koki!!!

Toyama Kiryu olhou na direção do jornalista e ordenou que alguém o fizesse se calar. Kamenashi voltou a ser agredido.

– Malditos, deixem ele em paz!! – Koki rosnou e tentou se soltar, em vão.

– Ah... Você se importa com o seu amiguinho?

– Ele não tem nada a ver com nossos assuntos.

– Não? Que pena. Então ele vai morrer só porque te conhecia... Será que eu devia matá-lo primeiro?

Koki não respondeu e o olhou com ódio quando notou Kiryu fez um gesto com as mãos, sinalizando a seus homens para aproximarem o jornalista. Um bastou para segurá-lo, Kamenashi não tinha mais condições de oferecer resistência e, mesmo se tivesse, o encarregado de imobilizá-lo tinha o dobro do seu tamanho em todas as direções.

O ódio de Koki aumentava a cada vez que ele via o amigo se contorcendo de dor. Fechou os punhos. Não podia fazer nada para ajudá-lo, o que aumentava a sua fúria.

– Maldito! Seu merda! Seu filho da puta! Você vai pagar caro por cada golpe! Cada gota de sangue, seu miserável!!

– Hey, Koki... – a voz de Kamenashi, um fraco golpe de voz, foi suficiente para despertar a curiosidade de todos. Ele ergueu o rosto, abriu os olhos com o que restava de sua força, e sorriu. – Um homem... Não é nada... Sem honra, certo?

Aquele sorriso curto, de lado. Aquele olhar cúmplice. Kamenashi tinha razão. Naquela situação que estavam, de que adiantava se desesperar daquela forma? Morreriam, mas, não poderiam dar essa satisfação aos seus carrascos. Era a única coisa que podiam fazer. Então, eles riram. Como costumavam fazer na época da escola em que aprontavam e eram flagrados pelos professores. Estavam perdidos, simples assim.

Somente Kazuya para fazê-lo rir em uma situação como essa. Mas isso o acalmou e ele pode voltar a olhar com superioridade para seu algoz.

– Farei sumir esse olhar arrogante.

Kamenashi viu, para seu horror, alguém entregar uma faca para aquele homem. Ele se aproximou e segurou o queixo de Koki. Deslizou a arma pelo rosto dele e Koki acompanhou o movimento com o olhar. A lâmina da faca brilhou, refletindo a luz da Lua. E essa foi a última visão de Tanaka Koki.

Kamenashi Kazuya estremeceu por inteiro quando escutou o grito de dor de Koki.

9

O grito foi alto e longo. E o corpo dele estremeceu por cima do dela. A respiração ofegante, o calor, os corpos molhados. Haruka o beijou com necessidade e Ryo apertou seus braços, querendo ter certeza de que estavam juntos novamente. Separaram-se e os olhares atrevidos, fortes e seguros se contemplaram.

– Faremos uma nova tentativa. – ele disse, sua boca a poucos centímetros sobre a dela.

– Quando?

– Em breve.

– Não é muito cedo?

– A mercadoria precisa ser entregue.

– A polícia está em cima de vocês desde a última transação.

– E estão em cima de você por causa da morte do seu marido... Eu sei. Mas a mercadoria precisa ser entregue.

Ryo rolou para o lado e se endireitou na cama. Alcançou o maço de cigarros, estendeu a ela, colocou um em sua boca e depois os acendeu. Fumaram em silêncio, no escuro. Um pouco de iluminação vinha da rua, pela janela, atravessando a cortina.

– Descobriram quem é o delator? – ela perguntou de repente.

– Não. Mas houve a confirmação de que a polícia soube da nossa transação por uma denúncia anônomia.

– O traidor existe, então.

– A informação vazou, é um fato. Ainda não temos certeza se por um traidor ou uma falha.

Haruka terminou o seu cigarro e jogou o toco no cinzeiro. Depois se aconchegou ao peito de Ryo brincou com seu umbigo, deslizando seus dedos ali. Depositou alguns beijos e ele acariciou seus cabelos.

– Sente a falta dele?

– Un?

– Kimura.

– Deixei de sentir a falta dele desde que te conheci.

– Romântica?

– Não. Sincera. Não é uma declaração de amor a você, não seja pretensioso... É só que deixei de lamentar o fato de que meu marido não me amava. Deixei de brigar contra o mar, socar ponta de faca... Porque isso... Ele não me amar, já não fazia mais sentido. Mas sinto a falta do pai das minhas filhas. Porque elas estão sentindo muito a sua falta e esse sentimento é horrível. Vê-las sofrendo desse modo...

Ele a abraçou.

– Elas vão superar. São pequenas e as lembranças dele vão sumir com o tempo.

– De todo modo, isso é muito triste... Esquecer que teve um pai. Um bom pai...

Se acomodou melhor ao peito dele e fechou os olhos. Adormeceu em poucos segundos, embalada pela respiração e calor daquele outro corpo. E também pelo carinho dos dedos que se enrolavam em seus cabelos.

Uma luz vermelha brilhou ao seu lado, chamando a sua atenção. Ele pegou seu celular o símbolo que piscava na tela indicava uma mensagem. Abriu.

– Koki... – murmurou.

10

Ele fechou a mochila sobre os olhos atentos de Koyama. O seu amigo havia lhe dado casa e comida durante este tempo que precisou se manter escondido, além de fornecer a comida que o sustentaria por mais alguns dias. Mas não podia mais ficar em sua casa.

– Tem certeza disso, Yamapi? – a voz vinha de trás dele. Keiichiro estava sentado em sua cama, enrolado no edredom.

– Está feito, Keii... Agora preciso fugir por uns tempos. E você deveria levar sua família daqui... O banho de sangue vai começar. A guerra vai começar. – ele deixou a mochila, mas permaneceu de costas. – Keii... Cuide-se, está bem? Proteja sua família também.

– Não se preocupe com isso. O primo de Shingo-kun vai nos proteger.

– Não confie tanto naquele corrupto.

– Pi, pra onde você vai?

– É melhor que não saiba, Keii...

– E Akanishi? Você sabe onde ele está?

Yamapi sacudiu a cabeça, desolado.

– Aquele imbecil ainda está fugindo de mim.

– Você vai atrás dele?

–...

– Você vai atrás dele. Você me manda me cuidar, mas não se preocupa nem um pouco consigo mesmo. Eu não entendo. Não entendo mesmo você...

– O que há pra se entender? Não é tão difícil. – Pi riu – É só que nada faz sentido sem ele.

Keiichiro o olhou com um bico. Queria que seu amigo se cuidasse também, mas Yamapi perdia a noção de tudo quando o assunto era Akanishi. E Akanishi não devolvia um décimo desse sentimento. Pulava de homem em homem como um beija-flor indo atrás do néctar das flores. Primeiro, Yamapi, depois, Kimura. E agora o jornalista.

– E pare de culpar o Jin.

– Eu não estou fazendo isso. – ele disse, emburrado. – Embora seja verdade!

– Estou indo, Keii.

Colocou a mochila nos ombros e notou a aproximação dele. Yamapi se virou e aceitou o abraço afetuoso.

– Tome cuidado! Se precisar de ajuda, me chama!

– Haiiii... Okaa-san! Cuide-se também...

Trocaram últimos sorrisos e Keii o acompanhou até a porta do apartamento. Depois o viu desaparecer no corredor escuro e o mais velho temeu que aquela fosse a última vez que eles se veriam.

11

A água morna escorria por seu corpo. Aquele era o momento de se limpar e jogar fora toda a sujeira que havia em si. Jin pegou o vidro de sabonete líquido e despejou uma porção considerável na esponja. Yamapi lhe diria que estava disperdiçando, mas, agora, isso não lhe importava mais. Foi realmente uma tortura aquela época em que teve que economizar cada centavo para pagar suas dívidas. Em que não podia comprar seus jogos e seus filmes, não podia sair com os amigos, não podia sequer comer um doce sequer após as refeições. Às vezes, não havia refeições. Não podiam existir gastos desnecessários. Aquela época foi mesmo estressante.

Sentiu a esponja dura arranhar a sua pele quando se esfregou com força. Queria se limpar ao máximo. Mas, por mais que se esfregasse, a pior de todas as sujeiras continuava impregnada dentro dele.

Kobayashi Atsuko estava morta e tudo porque ele a tinha envolvido em seu romance com Kimura. Akanishi Jin se abraçou com força debaixo do chuveiro, deixando a esponja cair ao chão.

Quando seus pecados teriam um fim?

Estava hospedado naquele motel desde que saiu da casa de Kamenashi. Irônico que não o tivessem procurado ali até agora. Era verdade que estava protegido sob o nome de Yabuki Hayato. Como sempre esteve protegido em todos os seus encontros com o cantor. Kimura sempre o amou, sempre o protegeu, só queria o melhor para ele. E o que ele fez? Jogou tudo fora numa crise de impaciência e cansaço. Ele se sentia injustiçado, quando, na realidade, era um mimado cometendo injustiças por causa do seu egoísmo.

Seria melhor se ele morresse.

Porque teve que pensar sobre isso? Porque teve que despertar essa vontade por motivos tão pequenos?

O famoso cantor Kimura Takuya foi encontrado morto, estrangulado.

Seus olhos se encheram de lágrimas quando se lembrou da fotografia de um site sensacionalista que vazou na web. A dor que sentia agora era dilacerante. Pensou que a ferida estivesse cicatrizada, mas, não estava. Apenas havia se distraído porque tinha companhia e uma missão. Agora, ele estava sozinho. Sem Kimura, sem Yamapi, sem Kamenashi. Sufocou um soluço.

Seria melhor acabar com tudo agora.

Deixou o chuveiro e se enrolou com uma toalha branca. Foi para a sala, a televisão estava ligada. Ele não gostava do silêncio. Deixava o aparelho ligado o dia inteiro. De vez em quando, o rádio. Ouvir música o tranqüilizava. Até tocarem alguma música de Kimura. Então ele delsigava o aparelho e chorava. Sozinho, ele não conseguia controlar a saudade e o remorso.

Tentou pensar em seu plano. Precisava se organizar. Havia deixado alguns dias se passarem porque percebeu que não tinha a coragem suficiente. Respirou fundo, tinha que fazer. Só precisava pensar melhor. Acertar os detalhes para não estragar tudo no final.

Chegou até o sofá e foi então que despertou para a realidade, deixando o seu sofrimento de lado por um instante.

– Um confronto entre as duas famílias, Nishikido e Matsuoka, resultou em sete mortos e dez feridos. Sabemos até agora que, entre os envolvidos, estava o jornalista Kamenashi Kazuya, do Diário Tokyo. Ainda não há confirmação das identidades dos mortos.

Os seus olhos se alargaram e sua garganta secou. Sentiu medo. O jornalista. Kazuya está... Morto? Outra morte. E, de alguma forma, ele sentia que era responsável por ela também. Kazuya... Morto. Ele sabia que Matsuoka era cliente de Yamapi. Kazuya... Morto.

– Yamapi... – mordeu os lábios, contendo a sua vontade de ligar para ele. – Kazu...

Não. Não podia pensar no pior. Mas foram sete mortes. Sete. Uma guerra entre a máfia. A Yakuza agiu. Poderia o jornalista ter sobrevivido? Estaria entre os feridos? Ele desejou com todas as suas forças que ele estivesse bem. Precisava descobrir isso, mas, para quem poderia ligar?

Aquele jornalista. O chefe de Kazuya. O melhor amigo de Takuya. Nakai.

Não, não estava pensando direito. Não podia encarar Nakai-san para perguntar sobre outro homem. Seria como confessar a Takuya que tinha se apaixonado por outra pessoa em tão pouco tempo. Não devia manchar a imagem de Takuya dessa maneira, apesar de que, cedo ou tarde, o editor descobrirá que ele se envolveu com Kamenashi.

Porque sim. Nakai sempre soube que ele, Akanishi, era o amante de Takuya.