Capítulo nove

A ordem cronológica do Pi ainda é diferente dos outros personagens. Mas neste capítulo ele volta para o tempo atual.

1

– Pi... Isso quer dizer que quem matou o Kimura foi o Akanishi? Foi por isso que você me pediu para guardar aquela caixa em minha casa? Aquelas coisas são... Do Kimura?

Yamapi fitou diretamente os olhos pequenos e redondos de seu amigo. Até mesmo para Koyama Keiichiro era muito difícil entender Yamapi. Raramente ele demonstrava suas emoções. Naquele momento, porém, ele sorriu de canto e disse:

– Não fale besteiras, Keii... Jin não seria capaz de matar ninguém e muito menos aquele cara. Ele o amava demais para isso.

A convicção nas palavras de Yamapi soou sombria para Keiichiro. Seu amigo era muito devoto a Akanishi. Muito. Ele era completamente apaixonado por aquele cara, que era completamente apaixonado por outro. Não pode deixar de se sentir entristecido pela situação dele. E preocupado.

– Mas o relacionamento deles estava em crise, não? Você me contou como isso estava acabando com Akanishi. Talvez tenha sido pelo calor de uma discussão, nada premeditado. Eles se encontraram como sempre, discutiram e acabou dessa forma trágica.

Yamapi sacudiu a cabeça.

– Não, foi premeditado. Quem quer seja o autor sabia dos métodos que Kimura e Jin usavam para se encontrar. Marcaram um quarto no nome de Hayami e o assassino o esperou. Kimura chegou, foi drogado e morto. Não tem como ter sido um acidente.

– Então tem que ser alguém que sabe bem a sua rotina, certo? Como poderiam saber sobre o romance deles?

– Não é? Eu me pergunto o mesmo. – Yamapi comentou de forma vaga. – E tire essa suspeita da sua cabeça... Não foi o Jin.

Keii fez um bico contrariado diante tamanha a certeza do amigo. Porque quando o assunto era Akanishi, Yamapi era incondicional.

– Ok, não precisa ficar tão bravo.

– Não estou. Keii, preciso de outro favor. Fique de olho nesse jornalista... Ele está investigando o assassinato, certo? Preciso descobrir quem é a fonte desse cara. Preciso saber o que eles estão descobrindo. – pediu com alguma urgência em sua voz.

– Né? Se não foi Akanishi, você não devia ficar tão preocupado com essa história. – ele disse e não se importou com o olhar atravessado que recebeu. – Mas farei isso... Se isso for te deixar mais tranqüilo. Falo com você quando falar com o Murakami...

Alguns dias se passaram até Koyama marcar um novo encontro.

2

Não foi um sono tranqüilo. Ele acordava de hora em hora para verificar o estado de Akanishi até que por fim se cansou e decidiu adiantar algumas pautas de matérias frias. Depois disso, ele voltou ao caso Kimura. Abriu seus arquivos no computador e reviu tudo o que tinha descoberto até ali. Ele listou para facilitar o raciocínio:

1 – Kimura tinha uma amante, mas não era Hayami Minami.

2 – Kimura foi visto discutindo com Yamashita Tomohisa em uma casa de acompanhante de rapazes. (Preciso descobrir que casa é essa. Inagaki não disse o nome e preciso descobrir quem é Yamashita Tomohisa)

3 – Foi encontrado um isqueiro masculino na cena do crime, segundo Nakai, pertencia a Kimura.

4 – Foi encontrado o pedaço de um cartão com uma lua crescente em um fundo roxo. (Sinto que já vi esse símbolo em algum lugar)

5 – Descobrir o motivo da briga entre Inagaki e Kimura.

Olhou para a tela. Ali estava o cenário e os suspeitos. Suspirou, percebendo que não tinha nada de concreto. Aquele caso era mesmo difícil. Colocou mais uma observação:

6 – Descobrir quem é a verdadeira amante de Kimura.

3

Não acordou bem. Teve um sonho que o perturbou e ele dormiu tenso, agora seu corpo estava dolorido e tinha a impressão de não ter dormido nada. Não se lembrava do sonho, lembrava apenas da sensação de estar sendo perseguido.

Yamapi deixou a cama – uma de casal, Jin e ele não se importavam em dividir a cama – e foi para o banho. Tinha combinado de encontrar Koyama mais tarde. Seu amigo disse que tinha algumas novidades.

Koyama já havia lhe adiantado que o jornalista tinha descoberto sobre Hayami Minami. Segundo as investigações feita pelo primo de Murakami, as fontes dos jornalistas foram visto na Casa de Chá e teriam conversado com a acompanhante. Isso era algo preocupante.

Depois do banho, Yamapi verificou suas mensagens. Nenhuma de Jin. Aquele idiota estava mesmo fugindo dele e ele gostaria de ter certeza do motivo. Só podia imaginar.

– Eu o amo tanto que às vezes penso que seria bom se ele morresse... Se ele não existisse, talvez eu conseguisse pensar um pouco mais em mim.

Foi a resposta que Jin lhe deu numa noite em que chegou completamente desanimado. Yamapi lhe fez chocolate quente, e Jin sempre dizia que o fazia se lembrar de sua mãe por isso, e ficaram conversando na sala enrolados em um edredom, no escuro, tendo somente a iluminação da rua que entrava pela janela.

Aquelas palavras tiveram um impacto poderoso em Yamapi e passaram a coordenar suas ações depois disso. Não podia suportar o humor instável de Jin. Se em um dia ele estava incrivelmente feliz, estava triste na mesma proporção no dia seguinte. Tudo porque estava preso aquele homem. Precisava libertar Jin a qualquer custo daquele relacionamento que o estava destruindo.

E, então, Kimura morreu. Pi pensou que esse problema estava encerrado, mas, depois, Jin fugiu.

– Imbecil... O que pensa que está fazendo?

Guardou seus sentimentos e vestiu novamente a sua expressão fria. Ele tinha um controle impecável sobre suas emoções, sabia como não demonstrá-la e isso era a sua maior força, era o que lhe proporcionava fazer o que ele julgava ser necessário.

Saiu e poucos minutos depois estava na praça em que Koyama pediu para encontrá-lo. Era uma noite quente, mas ainda assim Yamapi vestiu uma jaqueta por causa dos bolsos internos.

Koyama estava lá e foi ele quem o viu primeiro. Gritou seu nome e Yamapi se aproximou. Ele não disse nada quando viu um rapaz com ele. Imaginava que fosse Murakami Shingo e Yamapi riu de leve. Koyama estava misturando serviço e paixão... De novo. Não podia brigar com seu amigo, havia se acostumado com o seu jeito romântico. Ele realmente pensa em todos seus namorados como suas grandes paixões, mesmo que durem apenas alguns dias. Mas, além disso, confiava em Keii e, por mais que ele misturasse as coisas, sabia que ele jamais contaria a Murakami sobre Jin, ele e Kimura.

– Yo. – Yamapi sacudiu a cabeça em um cumprimento quando chegou mais perto.

– Pi, este é o Shingo-kun.

– Tudo bem? – o rapaz lhe cumprimentou com uma certa animação. Seu sorriso era sincero, mas recebeu apenas um outro cumprimento frio por parte de Pi. – Bem, meu primo me pediu para entregar isto.

Um envelope, fotos e relatório. O policial, primo de Murakami, era mesmo eficiente com os bicos que fazia. Recebia muito mal em seu cargo e por isso trabalhava como detetive nas horas vagas.

Yamapi acendeu um cigarro, tragou, e só depois pediu para Keii ler o conteúdo enquanot olhava a foto daquele rapaz de cabelos raspados, sobrancelhas finas e uma expressão malvada, mas que não assustou a Pi.

– Tanaka Koki. Vinte e cinco anos. É integrante da Nishikido-gumi. Dizem que é um subalterno do nível mais baixo, mas está sempre próximo a Nishikido Ryo, herdeiro da família.

– Um braço direito? – Yamapi refletiu.

– Talvez nos bastidores esse seja o verdadeiro cargo dele. – explicou Murakami – Meu primo contou que ele, ainda na época da escola, salvou a vida de Nishikido Ryo.

– Hum... E o que tem ele?

– Ele é a fonte do jornalista. – Koyama explicou – Ele e provavelmente Nishikido. São contatos do submundo... Ou seja, eles tem acesso a informações que talvez nem mesmo a polícia saiba ainda.

– Ele é a fonte do jornalista, então. – Yamapi encarou aquela imagem por algum tempo. – Murakami-san... Além de detetive, seu primo aceita outro tipo de bico?

Novamente, Koyama teve a impressão de que seu amigo estava envolto numa sombra quando disse aquilo.

– Que tipo de serviço seria? – Murakami perguntou, sua voz carregada de inocência.

4

Ela o olhou com receio e Pi soube que estava amedrontada. Hayami era uma pessoa muito transparente e ele sempre criticou a Jin por ter escolhido aquela mulher para confiar um esquema como aquele. Assim que teve a primeira crise, ela traiu a Jin e contou que não era amante de Kimura.

– Mas é a máfia! O que eu posso fazer contra a máfia? Não posso perder meu filho. Não teria mais razão para viver... Eu contei ao Jin, ele já sabe sobre isso. E ele não se chateou. Porque você tem que se envolver nisso também? Eu estou ficando louca com essa história. Louca. Se eu soubesse que seria envolvida em um crime horrível como esse... Ah... Eu não consigo mais dormir direito... Foi o Jin? O Jin matou aquele cara?

– Feh. – Yamapi olhou com desgosto para as mãos da mulher, que seguravam a sua gola. – Não fique histérica. Agora a merda já está feita.

–... Mas eu disse que não sabia quem era a amante do Kimura. Disse que nunca a vi. Eu não contei a eles que era o Jin. Não fique bravo comigo. Eles não tem como chegar até o Jin.

– O que eles disseram a você? – ele se afastou dela e observou os quadros que decoravam aquele quarto da Casa de Chá.

– Eles insinuaram que ficariam com meu filho... É a máfia, Yamashita, é a máfia... – ele repetiu e apertou os dedos no casaco que vestia – Eu não queria trair o Jin... Ele fez muito por mim.

– Sim, ele fez. Ele gastou todo o dinheiro que tinha pra te ajudar com seu parto e é assim que você o retribui. Ele pode ser envolvido em um escândalo e pode até mesmo ser preso. E a culpa será toda sua.

– Mas... Mas... – ela gaguejou. Não precisava que aquele homem torturasse a sua consciência, ela própria já fazia isso o suficiente. –... Mas não foi o Jin, não é mesmo?

– Feh... E ainda tem coragem de fazer essa pergunta...

Yamapi parou de andar pelo quarto e se virou na direção de Hayami. Apesar das palavras, ele mantinha o rosto impassível. E era isso o que mais deixava a mulher aflita. Porque ela não sabia como reagir. Não sabia se tentava acalmá-lo, porque ele não parecia bravo, não sabia se o consolava, porque ele não parecia preocupado. Ele estava ali única e exclusivamente para torturar sua consciência. E ela não podia fazer nada.

– Anooo... Hayami-san?

– H-hai?

–... Talvez você devesse tirar umas férias... Sumir por uns tempos.

–... Para onde eu iria? Não posso sair da cidade, a polícia... Meu filho... Eu...

– Não se preocupe. Eu cuidarei de tudo. – e ele deixou um sorriso curto em seus lábios.

5

– O primo dele não tem voltado para casa por causa daquela grande operação que prendeu alguns traficantes, ficou sabendo?

Yamapi fez que sim e depois bebeu um gole de chá. Ouviu e leu vagamente sobre o assunto. Ultimamente ele tinha um interesse especifico nas páginas policiais: o assassinato do cantor. Por isso não estava a par daquele assunto, mas imaginava que o primo de Murakami tinha mais a ver com aquela notícia, já que era um policial da divisão de entorpecentes, segundo Keii havia lhe informado quando contara sobre Murakami e o primo pela primeira vez. Isso foi quando Pi lhe confessou que estava angustiado com o caso do cantor e Keii se propôs a lhe ajudar.

Era fácil enrolar Murakami, ele era ingênuo, apesar da idade, e Keii sabia facilmente como fazer com que ele lhe contasse suas conversas com o primo quando estavam juntos. Além disso, o primo de Murakami era um policial corrupto e trabalhava como detetive particular para conseguir mais dinheiro. Em resumo, o primo era uma pessoa que estava próximo das informações e não se importava em vendê-las. E tinha contatos. Muitos contatos.

–... Mas Shingo-kun me disse que por causa disso, Nishikido e Tanaka estão escondidos.

– Feh...

– Né, Pi? Você acha prudente mexermos com a máfia?

– Não posso permitir que esse jornalista continue mexendo nessa história. Eles já sabem que Hayami não é a amante de Kimura.

– De qualquer forma, porque você não muda o foco então? Porque não ataca o jornalista?

Ele não queria dizer a Koyama que Jin saberia logo que ele estava envolvido se atacasse o jornalista. Além disso, tinha medo de Jin se envolver. Se eles estavam morando junto, certamente ele poderia estar com o jornalista no momento em que fossem agredi-lo. Ele certamente tentaria defender Kamenashi e poderia se machucar.

– Acho que eliminarmos a fonte resolve o problema.

– Demo ne... Matar alguém da Yakuza... Você acha que podemos sobreviver a isso? Sou apenas dono de uma quitanda e você é um puto de luxo! Acorda pra vida, Pi!

Yamapi prestou mais atenção no nervosismo de Koyama. Era um bom amigo. Não era justo envolvê-lo nisso. Viu como seus dedos tremiam quando ele levou a xícara até os lábios carnudos e tomou o liquido quente. O vapor bateu em seu rosto, virado para a direção da janela. Koyama nunca o encarava quando lhe dava bronca. Yamapi nunca entendeu a razão disso, mas ele supunha que deveria ser porque o mais velho não gostava de brigar com ninguém. Então ele desviava o olhar.

– Gomen ne... Keii-chan é o meu melhor amigo e eu só faço pedidos estranhos.

– Não é disso que eu estou falando. É só que...

– Você não será envolvido nisso, Keii... Pode deixar que eu assumo a responsabilidade.

– Não é nada disso, seu imbecil! Se você quer brigar com a Yakuza, então eu estarei com você, é só que você precisa ter consciência do que está fazendo... Eu sei que você não costuma pensar muito quando o assunto é Akanishi, mas...

–... Keii... Eu vou fazer isso. – ele o cortou – Mas não sou assim tão burro. Não me adianta nada salvar a pele do Jin pra morrer em seguida. – ele riu.

– Eh?

– Eu tenho um plano.

– E qual é?

– É simples. O assassinato de Tanaka, nós podemos colocar a culpa na família rival. Matsuoka-gumi.

Koyama não acreditou no que ouviu. Por causa de um homem, Yamapi queria começar uma guerra entra a Yakuza. Suspirou e a sua suspeita de que todos eles morreriam por causa de Akanishi começou a crescer.

Ao menos isso não seria tão rápido. Nishikido e Tanaka, no momento, estavam escondidos.

6

O rapaz dormia profundamente e era uma visão adorável. Masuda Takashisa era um amante perfeito. Não era difícil agradá-lo e ele tinha um bom fôlego. Não reclamava de nada, porque ele tinha uma visão cor de rosa sobre o mundo. Vivia em uma realidade encantada em que tudo se resumia a paz e alegria. E comida. Adorava comer.

Yamapi invejava aquela personalidade. Porque mesmo que não fosse feliz, Masuda acreditava que era e isso bastava. Beijou sua testa e pegou o dinheiro ao lado da cômoda. Tegoshi e Masuda tinham o mesmo hábito de deixar o dinheiro separado antes do sexo, isso era engraçado.

Houve um grunhido feliz e ele deixou o quarto sabendo que Massu não se chatearia por ter ido embora enquanto dormia. Raramente ele ficava chateado com alguma coisa e, se ficava, durava apenas cinco minutos. E por isso Yamapi o adorava.

Ele estava mesmo de bom humor até chegar em casa e se descobrir sozinho. Jin não atendia suas ligações e suas mensagens não tinham respostas havia vários dias. E na noite anterior ele tinha faltado a Casa de Show porque não se sentia muito bem. Yamapi imaginou se aquele idiota teria tomado a chuva da noite anterior. Jin tinha uma saúde sensível. Bastava uma brisa mais forte para que ele logo pegasse uma gripe. E, era evidente, Jin não devia estar com guarda-chuva.

Yamapi parou ao lado da porta e observou os oito guarda-chuvas que havia dentro de um cesto. Jin estava sempre comprando um porque nunca se lembrava de olhar a previsão do tempo antes de sair de casa. E foi assim que ele começou aquela coleção. Suspirou e sacou seu celular, digitou rapidamente mais uma mensagem.

Será que você poderia ao menos mandar uma mensagem dizendo se está bem? Nagase-kun disse que você estava doente. Estou preocupado. Onde você está?

Ele a enviou consciente de que não teria resposta, mas ao menos a sua preocupação chegaria até aquele desmiolado. Depois disso seguiu para o banheiro e foi tomar um banho, como sempre Jin lhe exigia que fizesse. Yamapi sabia que era um pedido de Kimura. Era por isso que Jin se importava tanto em deixar a casa limpa. Ele sabia disso, mas ainda assim obedecia. Mesmo quando Jin não estava em casa.

Muitas vezes eles brigaram porque Jin achava que ele não tinha tomado um banho antes de assistir televisão ou fazer qualquer coisa depois que voltava de um cliente. Mas Jin não sabia que nessas ocasiões ele tinha passado antes em uma casa de banho e que fazia aquilo apenas para provocá-lo.

Yamapi estava sentindo falta de discutir com Jin. Sentia falta daquele ambiente barulhento que era difícil de acreditar ser apenas uma pessoa que o produzia, da bagunça no quarto que dividiam. De repente, a sua organização deixou o apartamento com uma aparência solitária e deprimida.

É. Sentia falta de Jin.

7

Ele se sentia pesado e suas costas doíam muito. Sempre tinha a impressão de que seu corpo havia sido esmagado por um rolo compressor quando estava com febre. Se havia uma coisa que o irritava era o fato de sua saúde ser tão frágil. Era sempre o primeiro da fila a pegar uma gripe e sempre ficava de cama por causa dela. Era algo que realmente atrapalhava a sua vida.

Muitas vezes deixou de se encontrar com Kimura porque tinha adoecido. E muitas vezes ele teve que conter o cantor e lembrá-lo de que uma vista era imprudente. Nunca tinha sido cuidado pelo homem que amava. Nunca tinha sido colocado na cama tendo Kimura ao seu lado para medir sua febre, fazer um chá e lhe dar remédios. E esse tipo de atenção era realmente calorosa. Encheu seu peito com um sentimento quente que rendeu um sorriso involuntário.

Kamenashi, no fundo, era uma pessoa gentil e estava se apaixonando. Não. Já estava apaixonado, Jin podia afirmar, ele tinha aprendido com a sua profissão a reconhecer esses sintomas. Sabia muito bem que o jornalista já estava louquinho por ele. E essa certeza fez seu sorriso aumentar e ele mordeu os lábios e, se estivesse bem, ele estaria eufórico naquele momento. Mas a febre o impedia de qualquer gesto mais animado.

A porta foi aberta e Kamenashi entrou com uma bandeja. Seu rosto ainda matinha uma expressão irritada, mas até assim ele era adorável aos olhos de Jin. Principalmente porque estava novamente vindo para cuidar da sua saúde.

– Ohayou! Quero dizer, já é konnichiwa agora né?

–... Como está se sentindo?

– Minhas costas doem... Estou sem paladar...

Kamenashi apoiou a bandeja na cama e o ajudou a se sentar, ajeitando os travesseiros em suas costas.

– Coma um pouco de arroz e tome chá. Precisa se alimentar. – ele disse – Não fiz nada mais elaborado porque você está sem paladar de qualquer jeito.

Akanishi sorriu, ele sabia a verdade. Algumas horas antes ele tinha acordado e vomitado ao lado da cama. Depois de muito xingá-lo, e depois de limpar o quarto, Kamenashi o ajudou a se banhar e lhe deu o remédio. Jin tinha adormecido na companhia de Kamenashi e só acordou no meio da tarde. Como seu estomago não estava bem, o jornalista preparou algo simples, mas que o sustentasse.

Não sentia fome, mas, diante daquela gentileza ele se forçou a comer. O jornalista não tinha colocado uma grande quantidade, ele realmente era uma pessoa sensata, Jin percebeu. E então ele se deu conta, e ficou espantado por isso, de que estava notando todos os pequenos detalhes nos gestos de Kamenashi e que isso o deixava contente.

– Ainda está enjoado? – Kame perguntou, a voz gentil.

Jin olhou em sua direção. Kamenashi estava sério, mas não bravo, parecia mesmo que estava preocupado. Jin se sentiu satisfeito, mais do que isso, ele foi tomado por um sentimento quente que o fez se lembrar da infância quando era tratado com mimo e carinho. Era um sentimento agradável.

– Um pouco, mas não é nada demais... Você não vai trabalhar?

– Liguei pro meu editor e pedi pra trabalhar de casa. Como eu poderia largar aquele filhote sozinho com você desse jeito? – respondeu, virando o rosto para que ele não visse suas bochechas coradas.

– Anooo ne? Por falar nisso... Que nome você prefere?

– Hã?

– Nosso filho! Não podemos chamá-lo de “aquele filhote” ou “aquele cachorro” pro resto da vida, certo?

Kamenashi teve vontade de dizer que ele já estava mesmo se recuperando, já que voltou a dizer besteiras, mas, perceber que Akanishi estava melhor o deixou aliviado. E era muito bom que ele estivesse animado e falando coisas sem sentido como sempre. Ele tinha se preocupado muito quando Jin acordou no meio da noite passando tão mal que até vomitou. Aquele idiota, além de ficar doente com uma chuva de verão, ainda era sensível também aos remédios, que atacaram o seu estômago e fígado. E depois ele só ficou dormindo, ali, encolhido em sua cama debaixo das cobertas, uma cena que realmente fez seu coração apertar.

Foi por isso, só por isso, em ver Akanishi voltando a ficar bem que ele conteve sua resposta grosseira, sorriu curto, e entrou na brincadeira.

– Sei lá... Bob?

– Bob é nome de cachorro! – ele reclamou.

– Anooo ne? – Kamenashi não acreditou no que ouviu.

–... E ele não tem cara de Bob!

– E tem cara de que?

– Hum... Podia ser algo que lembre a gente!

–... Você não tá mesmo levando isso de filho a sério, tá?

– Que acha de Junior??

– Você não pode tá falando sério.

– É... Não. Ele pode ser zuado na escola.

– Que escola????

– Que tal... Kazu... Jin... Jin... Nossos nomes não combinam muito. – ele inclinou o rosto, pensativo.

– É claro que não! E é totalmente brega isso de misturar nomes pra...

– AKAME!

– EHHHHHHHHH??

– Meu AKA e seu KAME!

– Você só pode estar delirando. Sua febre voltou, vou te dar outro remédio.

– Akame... Gostei desse!

Kamenashi girou os olhos. Aquele cara tinha um gosto duvidoso. Na verdade, a sua mente é que era bem esquisita. Mas ele parecia feliz com todo aquele assunto sem sentido. E Kame não teve vontade de contrariá-lo e nem apagar aquele sorriso. Riu de si próprio. Como podia ter chegado a esse ponto?

Ele se levantou e se aproximou da cama. Tocou o rosto de Jin que o olhou curioso e foi surpreendido com um beijo em sua testa e recebeu em seguida um sorriso do jornalista. Se Kamenashi não entendia muito bem a mente daquele jovem, o mesmo se podia dizer sobre Akanishi.

Akanishi não conseguia compreender esses repentes de carinho por parte do jornalista. Mas gostava quando eles aconteciam. E isso o deixava tímido. Não importava o que faziam na cama, Jin estava acostumado a muitas coisas, mas quando Kame dizia aquelas coisas todas sobre gostar dele, sobre querer que ele fosse seu, quando ele cuidava da sua saúde, quando o beijava na bochecha ou na testa, ou quando simplesmente lhe sorria dessa forma, como agora, nessas ocasiões, Akanishi sentia seu corpo esquentar, sua mente ficava mais agitada a ponto dele não conseguir calcular seus próprios atos e ele reagia de forma automática. Abaixava um pouco o rosto, contraia os ombros e sorria de leve, com alguma insegurança, temendo demonstrar mais alegria que o necessário. Arriscava um ou dois olhares para Kamenashi e desviava quando percebia que ele o olhava também.

– Agora que já está alimentado, vou alimentar a outra criança.

– Akame-kun?

Akanishi deitou e subiu a coberta até o seu nariz, olhando assustado para a expressão, agora sim zangada, que ele exibiu.

– Mas é um nome bonito... – sussurrou pra si mesmo.

A porta se abriu novamente e Jin temeu por uma bronca. Qual era o problema no nome Akame? Não precisava ficar zangado por causa dele. O humor daquele cara era mesmo instável. Como Akanishi poderia entendê-lo completamente?

Mas Kame apenas veio trazer seu celular.

– Recebeu uma mensagem de um tal P-chan.

Kamenashi não teve certeza, mas, por um momento, pensou que Akanishi pareceu assustado. Ele tomou rapidamente o celular de sua mão e esperou. Kame entendeu a deixa e deixou o quarto.

Quem seria P-chan?

Parecia ser alguém importante, logo percebeu a parte de sua personalidade que era ciumenta e possessiva. Fez um bico contrariado e voltou a trabalhar.