O assassino de olhos escarlates
1 Boa sorte
1 de Outubro de 1921
Ela caminhou até a porta e se deu conta de que não poderia apenas ignorar os fatos e seguir em frente. Estava envolvida naquilo agora e nada que fizesse mudaria o que viu naquela noite. A adrenalina do momento a fez sentir impaciência e tensão. Só tinha certeza de uma coisa, dali em diante as coisas só iriam piorar.
5 de Agosto de 1921
É um dia de solstício, sra. Elizabeth, contempla a janela com certa insatisfação. Essa é uma esposa exemplar, que consegue cuidar de alguns afazeres da casa e de seus bordados com facilidade. Concorda com o marido em tudo, sentindo – se ele invejado pelos amigos, por causa da esposa praticamente perfeita. Tem olhos brilhantes e os cabelos loiros cortados docilmente ao penteado “La garçounne”. O marido sr. José, sai sempre deixando – a em casa, alegando que vai discutir assuntos de homens. São raras as vezes que sai com ela, aparentando ser um homem muito ciumento, discutindo com a esposa a cada olhadela rápida que ela dá para algum cavalheiro que passa. Seu marido é de mais idade que ela, detalhe perceptível principalmente por suas marcadas linhas de expressão e além disso, é inflexível e controlador. Se soubesse da vida dupla que ela leva, acabaria com o casamento no mesmo instante.
Tudo esta correndo bem, não recebi nenhuma carta sobre o paradeiro do assassino misterioso. A cidade costumava ser tranquila em relação a segurança, os poucos guardas que haviam eram suficientes na ex cidade pacata, isso porque ela mudara muito desde o dia em que os primeiros relatos desse assassino começaram a surgir. Burburinhos por toda a parte acerca de um homem de estatura mediana, cabelos acinzentados e que usa uma capa preta, podendo aparecer e desaparecer em um piscar de olhos. Alguns dizem que ele é alto, usa um chapéu verde e tem cabelos longos e castanhos. Outros que a capa é roxa e ele é calvo. Alguns relatos dizem até que não existe capa. Muito especula-se sobre esse homem, mas pouco se sabe, digo eu pouco porque apesar de sua aparência ser de completo mistério, seus crimes são reconhecidos pela criatividade e marcas propositais que ele deixa para aumentar a fama e o terror dos moradores. A principal delas é um corte profundo no peito próximo ao coração e o costurar da boca dessa vitima.
Muitas buscas foram feitas para saber a sua identidade. Eu inclusive, procurei por todos os lugares atrás de alguma evidência, algum vestígio sequer, mas só encontrei relatos que não condizem uns com os outros. É como se ele fosse um fantasma.
Eu sou o detetive mais respeitado de São Paulo e é uma vergonha não conseguir resolver esse caso, não posso ser ridicularizado. Eu só espero que meu novo plano de certo.
Estive observando a casa dos Fernandes o dia todo. Elizabeth se comportou normalmente até o marido adormecer. Após isso ela saiu com cautela de seus aposentos, andando descalça pelos frios assoalhos, com seu roupão cor de pêssego. Chegando na sala ela o tirou revelando seu vestido branco de sair. Me inclinei um pouco e a vi passando um batom vermelho em frente ao espelho. Arrumou a pena no cabelo e foi. Durante sua caminhada andou até um barzinho de aparência desgastada. Ela entrou e sentou-se em uma mesa perto do pequeno palco onde acontecia uma apresentação de uma cantora novata. Eu fiquei em uma mesa bem mais ao fundo esperando por algo. Ela batia os pés e se movimentava timidamente à batida da música. Estava apertando as mãos com certa impaciência, esperando por alguma coisa.
A movimentação das pessoas dançando me atrapalhou bastante, era difícil vê-la em meio a tantos casais gastando sapatos e balançando vestidos rodados pisando uns nos pés dos outros e se debatendo como cegos em multidões. A fumaça do cigarro criava uma neblina dificultando ainda mais minha visão. Eu me sentia sonhando que estava preso em um zoológico.
Poucas pessoas permaneciam sentadas, ela por exemplo, recusava constantemente os convites para juntar-se à dança, arrancando lamentos dos cavalheiros que a convidavam.
Já passavam das duas da madrugada e ela continuava ali. Comecei a ficar sonolento, até ver um vulto na multidão e me arrepiar, achei que era por causa da presença do sono, então cosei meus olhos, mas vi de novo. Era uma figura que trajava preto em meio a dois olhos avermelhados. Infelizmente não era só eu que havia percebido, as pessoas que dançavam começaram a correr assustadas. Eu corria na direção contraria delas tentando pegá-lo ao invés de escapar, mas quando olhei pro chão já era tarde. Mais um crime foi cometido. Olhei para a mesa onde a Sra. Elizabeth se encontrava só que ela não estava mais lá e não passara por mim ao sair. Não havia mais o que fazer naquela cena. Me aproximando, observei o rastro de sangue que percorria a artéria principal percebendo que era ele que estava na minha frente, o assassino misterioso ou o novo nome que o dei após ter visto seus olhos, o assassino dos olhos escarlates.
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