O assassino Aesir

9 Capítulo 9 - Desapontado, mais uma vez


Notas iniciais
Talvez esse seja um dos capítulos mais interessantes da história e macabros. O quebra-cabeça irá se desenrolar logo e há muitas surpresas. Mais morte, mais dor, mais sofrimento, contudo mais próximo do fim de tudo. Boa leitura!

Já fazia um tempo desde a última vez em que meus machucados tinham doído. Apesar não estarem completamente sarado, ele estavam estáveis. Talvez meu corpo estivesse com demasiado sofrimento e tinha se acostumado aos poucos.

De quando em quando Ryan vinha me visitar e trazia boas-novas. Contudo, aqui entre nós, ele é um porre! Não sei se é o fato de que ele prever tudo o que eu vou falar, ou então a ideia de que eu tinha aceitado tudo o que ele falava. Megan parecia duvidar continuamente dos planos dele e antes mesmo de ser posto em prática já previa as turvas linhas que estariam por vir. Ela dizia que nós estávamos construindo uma estrada retilínea direto para a morte. Todavia, não obstante, ela aceitou em nos ajudar da forma que podia para que tudo saísse na mais perfeita harmonia.

Um dia antes do escolhido, Ryan apareceu no meu quarto com um mapa e explicou escondido para mim e para ela, como se sucederia tudo. Simples: eu estava proibido pelos policiais de sair do hospital e eles constantemente apareciam no meu quarto dizendo que ainda avaliavam os CD's sem nenhum sucesso — eles achavam que eu um mongoloide, estava evidente que só queria me enrolar com essa historinha, enquanto eu mofava no hospital -, para se livrar deste fardo Megan iria causar um "acidente" tirando a atenção de todos os guardas que havia no lugar. Nessa hora, eu sairia da minha sala e ela me guiaria pelos corredores brancos do hospital para garantir que eu chegaria na saída. Lá, Ryan estaria me esperando com outras roupas e um destino certo no mapa que nos levaria ao lugar em que o médico estava.

Assim foi feito

Megan causou uma confusão gigantesca, quando desligou os aparelhos de um paciente, aparentemente sem saber, e começou a berrar por ajuda. Os policiais, pensando que se tratava de mais um surto do assassino, foram até o encontro do chamado, entretanto quando lá chegaram, encontraram uma equipe de médicos equipados para o caso religando os aparelhos. Enquanto Megan me levava as correria entre os túneis frios e puros do hospital esterilizado. As pessoas nos olhavam estranhas e algumas até chegaram a indagar aonde eu iria, e então ela dizia que eu receberia alta.

Quando chegamos na saída, Ryan me esperava no estacionamento com o fardo certo. Fui rápido o suficiente na troca da roupa, e em alguns minutos tudo estava pronto e eu rumava à estrada impaciente com ele. Todavia, antes de sair, olhei para Megan e perguntei-lhe:

– Por que está nos ajudando?

– Porque não quero mais ninguém morra. — respondeu ela.

– Está colocando seu trabalho em risco só por isso?

– Alex, não é só por isso. São vidas. Como médica preso a vida mais que tudo. É por isso que sacrifico meu trabalho. Eu ainda sou jovem, com certeza consigo outro. Agora, vá! O tempo passa, os policias já devem estar notando. — apressou-me um pouco pálida e nervosa.

Obedeci e me distanciei dela.

Ryan foi na frente com passos enormes, quase correndo, a fim de chegarmos ao ponto certo. Não pude deixar de notar uma certa furtividade em seu jeito de agir. Afinal, estávamos indo contra as leis agora, já que ela não serve para nada. Depois de um longo tempo correndo atrás dele, pelos cantos das ruas, escondendo-se dos conhecidos e seguindo o percurso resolvi fazer-lhes a mesma pergunta.

– Não sei bem. Sempre quis ser um dos cara da série CSI. Talvez seja por isso que eu estava entrando nessa. — respondeu.

– Mas, pode perder a sua vida nisso.

– Eu já iria perder não acha?

– Como assim? — indaguei

Enquanto corria e olhava para o pedaço do mapa em sua mão ele explicou: — Comecei a estudar o caso do nada e não esperava me envolver assim, até o dia em que o assassino Aesir mandou o CD para minha casa. Daí pude perceber que seria uma das suas vítimas.

– Como assim?

– Bem, ele matou dezessete pessoas, algumas até consecutivas, e então parou. Isso me deixou um pouco perplexo, mas percebi que ele já escolheu suas vítimas. E eu estou no meio delas, a julgar pelo CD.

– Você não me deixou ouvir o quarto CD.

– Não. Porque foi para mim!

– E o que tinha nele?

– Nada mais que o ego daquele cara. — respondeu ele atravessando a rua e indo para uma esquina deserta. — Ele me falou sobre as mortes, e contou algo sobre quando era criança que tinha se decepcionado.

– Será que Jake ainda está vivo? — perguntei.

– Tenho certeza que sim.

– Como?

– Estamos lidando com um cara que quer chamar a atenção. Ele não matou o Jake. Quer lhe atrair. Só irá matar se demorarmos muito. Se tivesse matado o Jake ele estaria pendurado em algum canto com um símbolo enorme ao lado e os olhos rolando no chão.

– Você me contou de como sair do hospital, mas não me contou o que faríamos fora. — comentei.

– Ah, isso é algo complicado. — respondeu ele distraído.

– Por quê?

– Não sei bem o que fazer. Creio que estamos dando alguns tiros no escuro.

– Isso eu tenho plena consciência desde o dia em que comecei a lidar com esse assassino. Mas, o que planeja?

– A casa do velho na sua rua — respondeu.

Continuamos a andar apressados com medo de algo desagradável nos atingir naquele estado lastimável de fuga. Era perceptível para qualquer humano que em nossos olhos os traços do desespero se desenhavam repentinamente na nossa face, o que nos preocupava mais ainda. Não podíamos criar desconfianças. Tentei manter o mesmo passo de Ryan, que estava quase correndo no asfalto escaldante das ruas.

Foi preciso um tempo longo até estarmos em minha rua, mas não entramos de vez nela. Assim que chegamos perto, Ryan tirou a jaqueta que estava usando e entrego-a rapidamente para mim, pedindo que eu colocasse-a a fim de esconder minha face para as pessoas mais próximas que moravam lá. Obedeci sem nem pensar muito e logo paramos em frente a casa do homem suspeito. Tudo estava fechado e da janela da frente pude avistar ele sentado no sofá da sala tão distraído a ponto de nem notar os movimentos exuberantes que as águas faziam do outro lado, enquanto o vizinho lava o carro.

– E agora? — perguntei.

Ryan engoliu um seco e então avaliou a porta da frente.

– Não podemos descobrir se não entrarmos na casa.

– Como assim? — indaguei.

– Se ele faz tudo isso mesmo, tem que haver uma pista ai dentro, nem que seja um simples gota de sangue.

– Mas se ele não faz? Seremos presos por invasão de domicílio. Eu serei preso, né!? Porque você é menor de idade.

– Sem discutir isso agora, por favor! — retrucou — Precisamos ser frios e calculistas. Ir com calma. Contudo, se mesmo assim formos pegos, você terá finalmente um lugar para ficar sem ser perseguido pelo assassino, a prisão.

– É não parece tão ruim. — respondi.

– Ótimo. Agora... vamos arquitetar bem o que faremos. Eu irei bater na porta e chamar o homem para me atender, enquanto você vai pelos fundos escondido tentar encontrar algo. Certo?

– Você vai ficar cara a cara com o assassino? — indaguei surpreso.

– Mais ou menos. Se as coisas ficarem pior, chame a polícia! — exclamou ele.

– Ok. E o que eu faço?

– O que tem que fazer, oras! Procure pistas. Procure tudo que ligue ele aos assassinatos.

– Como conseguirá tanto tempo? — perguntei.

– Eu pedirei aulas. — respondeu Ryan pegando a bolsa, abrindo-a e mostrando os cadernos dentro.

– Aulas?

– Sim, desde que comecei a desconfiar dele, pedi aulas sobre mitologia.

– Não tem medo?

– Claro que tenho! Mas, é o necessário. Vamos logo. Não enrole. Faça o necessário. — finalizou indo para a calçada meio alta da parte direita da rua, onde a casa do suposto assassino pousada.

Eu o segui pelas costas e assim que parou de frente ao hall de entrada da casa, ele olhou com desdem em minha direção e então me empurrou para o lado da casa de forma que eu me escondesse na parede esquerda da fachada que dava em um beco direto para o quintal do homem. Olhei assustado para o garoto ali parado na frente da casa e não entendi sua atitude. Ele, impaciente, apontou para o corredor, todavia, neste momento o velho abriu a porta e ele olhou para frente rapidamente sorrindo. Depois sumiu para dentro da casa.

Com sorte, tinha entendido o que ele queria dizer. Entrei pelo corredor até o portão que dava entrada para o quintal. Abri com cuidado o ferrolho meio enferrujado e entrei agachando e furtivamente no quintal espaçoso e vazio do homem. Logo me dirigi para a porta de entrada e em poucos segundos estava dentro da casa dele.

Indaguei-me se não havia mais ninguém ali, entretanto se Ryan tinha me mandado fazer aquilo, com certeza não havia ninguém. Esse garoto é um gênio. Sabe tudo.

Avaliei sutilmente o local, eu estava na cozinha. Sim, ótima cozinha! Minha barriga roncou quando pensei na ideia de ter comida ali próxima. Contudo, engoli um seco e parei de pensar na minha fome. Comecei a andar abaixado entre as cadeiras que estava na frente de uma mesa longa. Fui até a pia de mármore e analisei envolta. Levantei-me e, bem, ali não haveria nada que me ajudasse.

O suor começou a me corroer quando olhei para o lado e, pelo reflexo do espelho que estava suspenso na parede que dava início a porta de saída, pude ver que o mesmo refletia a imagem do homem sentado em uma mesa com Ryan a sua frente, de modo que ele ficasse de costas para a cozinha. Ryan olhava desesperadamente para mim, tentando me passar a mensagem, mas eu realmente compreendi, tinha que me abaixar. E assim eu fiz. Foi por pouco, visto que quando me abaixei o velho tinha olhado para trás desconfiado e por uma pontinha não me viu.

"O que é que está olhando?" perguntou ele, ouvi Ryan soltar um gargalhada e então respondeu. "Não é nada. Pensei ter visto algo, mas não é nada". Para a minha tristeza o homem respondeu a favor da desconfiança. "Eu também vi. Geralmente o nada não é visto por duas pessoas ao mesmo tempo". Comentou e ouvi o barulho da cadeira se arrastar pelo chão. Depois passos começaram a se propagar no silêncio. Estava vindo para cozinha, em minha direção.

Meu coração saltou do lugar e o nervosismo tomou de conta de mim. O homem estava vindo até a cozinha, e eu estava ali abaixado ao lado de sua pia. Como explicar?

Engatinhei aos tropeços e desesperadamente passando por baixo da mesa e indo para um porta que se erguia logo a frente. Quando passei pelo portal, bati minha perna na parede e senti um dor infernal. Quase soltei um xingamento alto, mas minha voz estava falha demais para sair. Na minha mão o suor se inundava e quando passei pela dobradiça que a merda da porta dava eu escorreguei e quase meti minha cara no chão. Por sorte, mantive-me firme com força e depois ajeitei-me voltando a engatinhar e entrando em uma outra porta. Estava agora em um quarto. Corri para de baixo da cama e não demorou muito, pés apressados apareceram no recinto.

A minha respiração era irregular e o suor pingava no chão em minha volta. O medo me domou e eu fiquei paralisado em baixo da cama. Os pés calmos do dono da casa vieram em minha direção, como se soubesse que eu estava ali em baixo. Um desespero me arrebentou e eu senti um calafrio forte, seguido de um peso no peito. Estava tudo perdido! Ele ia me achar.

No entanto, os pés param por um minuto e ficaram imóveis. "Estranho..." começou a voz do velho, "Acho que é coisa de minha cabeça. Mas, jurei ter visto alguém aqui". "Não se preocupe", era agora a voz de Ryan que estava falando. Espiei pelos lado e pude ver que os pés dele estavam parados na porta. "Acho que é nada demais. Meu pai sempre fala que costumamos ver coisas demais."

"Seu pai é sábio", confirmou o velho e eles saíram de novo.

Um suspiro aliviou meu coração. Finalmente pude sentir algo bom no meio daquele inferno. A sensação de não ser pego me deu uma falsa ilusão de estar livre de grandes problemas. Dei um certo tempo até que o nervosismo fosse domado e minha respiração voltasse ao normal, depois sai de baixa da cama devagar sem fazer barulho, não queria o velho de novo ali me vigiando.

O resto do tempo eu fiquei andando na parte da casa que não tinha ninguém, mexendo em tudo. Pastas, armários, guarda-roupa, mesas, quartos, salas, estantes e todo resto foi avaliado com rapidez e furtividade. Contudo, não encontrei nada. Seja lá o que for que ele fizesse, tinha escondido muito bem. Sem gotas de sangue, as facas eram quase todas sem pontas, sem nada de Aesir. Estava voltando a ficar nervoso com a ideia de não ter nenhuma prova contra aquele demônio mortal.

Sem pistas, deixei-me cair no chão de cansaço e dor. Olhei envolta e percebi que a voz de Ryan e do velho não podiam mais ser ouvidas. Estranho, a poucos minutos eu estava ali ouvindo de longe e abafadamente toda a aula que ele estava tendo.

Levantei-me de vagar e fui andando para a cozinha de novo. Lá pude perceber que o relógio marcava já quase três horas da tarde. Fiquei espantado com o fato de eu estar ali a tanto tempo. Voltei para o quarto que eu estava de baixo da cama para ver pela janela se avistava alguém no corredor, pois iria embora.

De repente meu celular soltou um apito e eu tirei-o do meu bolso quase deixando ele cair. Olhei e vi que era uma mensagem que havia chegado. Minha nossa, quanto tempo sem receber mensagens?

Era Megan. "Onde você está?", perguntava ela na mensagem. Fiquei sem entender o motivo daquela pergunta, mas logo me lembrei que ela não tinha descoberto onde eu e Ryan iríamos, então digitei a resposta. "Na casa do homem suspeito. Depois lhe ligo!". Então deliguei meu celular para evitar que ele apitasse de novo.

Atrás de mim, pensei ter ouvido passos de novo, e então corri para de baixo da cama novamente. Mas, dessa vez parecia que era tudo ilusão da minha simples cabeça. Os passos não continuaram, muito pelo contrário, o silêncio pairou mais que tudo. Isso me levantou uma suspeita enorme. Sai devagar de baixo da cama e fui de vagar até a cozinha, tentei olhar pelo espelho, mas depois de ter "pensado" que havia visto algo, o homem e Ryan tinha mudado de ângulo ao qual não refletia no espelho. Isso era uma droga!

Para olhar para o ângulo em que eles estavam eu teria que colocar minha cabeça na frente da porta e avaliar. Isso seria muito perigoso, mas seria rápido. Eu conseguia. De vagar, apoiei meu peso na pia de mármore e fui guiando minha cabeça até a porta. Lentamente meu corpo se esticou e começou a aparecer na porta. Avistava a sala. Olhei pelos canteiros e tudo estava certo até que cheguei na poltrona virada para mim.

E eu que tinha pensado que já tinha visto de tudo desse assassino. Aquilo foi inusitado demais. Minha reação? Simplesmente, perdi o controle e o equilíbrio. Cai no chão com força e soltei um grito altíssimo. Depois fui me rastejando de costa para o canteiro da sala a fim de fugir daquela imagem hedionda. Meu estômago se revirou, ainda não estava acostumado a digerir as mortes cabulosas, e eu virei para o lado vomitando. Um calafrio, mais ferrenho e tentador, percorreu meu corpo inteiro e a adrenalina se tornou ativa em meu sangue. Levantei sem jeito e tentei me fixar o mais rápido possível para correr na direção da porta. Mas, escorreguei em meu próprio vômito e voltei a levar uma queda que não foi suficiente para me parar. Continuei a rastejar até a porta, onde peguei fôlego novamente e sai correndo pelo corredor, chegando a rua, meus órgãos sensoriais falharam e por questão de segundos eu não tinha consciência de meu corpo ou atos. Tudo estava girando, eu não ouvia nada. Tudo era embaçado. Tudo era medo. Tudo era morte.

Do nada uma dor forte em minha pernas fez com que eu perdesse o equilíbrio e logo a dor passou para o meu tronco, depois fui arremessado ao chão e bati a cabeça no chão. Que ódio!! Fiquei tonto e a dor foi tão intensa que podia jurar que estava quase morrendo. Mas logo ela se tornou sutil e ardida o que piorou tudo, porque de quanto em quando ela latejava tanto, a ponto de me fazer chorar sem fim.

Olhei envolta e quando pude ter domínio sobre sensos do corpo, avistei um carro parado bem na minha frente e o motorista com os olhos arregalados. No chão as marcas escuras e densas dos pneus eram visíveis, e ainda tinha algumas poeiras pairando envolta. Ele tinha freado com força, com certeza.

Mas, ninguém podia me julgar por entrado na frente de um carro como louco. Estava fugindo da morte. Porque, naquela sala, dentro da casa, um homem vazia sem seus olhos, com órbitas profundas e sangrentas. Era uma das coisas mais tenebrosa que eu nunca poderia superar. Os olhos não estavam em seus lugares, e ali um ar de dor e medo se mantinha firme. Ele estava nu e em sua barriga um corte tão grande que ia de ponta a ponta de seu quadril dava saída a seu intestino, que o assassino tinha tirado e pendurado no lustre da casa em todas as direções. No chão o mesmo símbolo diabólico de sempre desenhado com o sangue, enquanto que os olhos estavam amaçados no chão, mostrando uma gosma branca e avermelhada em determinadas partes. Não havia mãos ou pés. Todos foram decepados. Os dedos foram colocados macabramente na boca do senhor, enquanto que o resto sumiu. No chão uma mensagem: "Este não é o assassino. Tente melhor da próxima! Ele está bem próximo de você".

Voltei à meu estado lastimável depois de pensar em tal cena que eu tinha presenciado. Gritei como um louco "Não, não, nãooo, eu não aguento mais. Eu quero morrer!! Não, alguém faz isso tudo parar".

A loucura batia na minha porta e estava sendo recebida com cortesia. Onde estava Ryan? Onde estava o assassino? Não era o velho, quem era? O que é eu não posso esperar? Como vou superar? Como posso viver com isso?