O assassino Aesir
1 Capítulo 1 - O princípio das mortes
Notas iniciais
Enquanto estava deitado em minha cama, olhando para o teto e pensando em como minha vida estava uma porcaria, o telefone tocou em cima da pequena cabeceira ao lado. O som no modo vibratório rompeu meu estado de inércia e me fez lembrar que, apesar de todos os problemas, a vida continuava.
Levantei e fiquei sentado na cama, por alguns instantes, olhando envolta e tentando esquecer do que poderia acontecer, depois virei para o lado e peguei o celular. Ao ver o nome da pessoa que estava ligando eu já tinha certeza que a minha noite seria longa e muito louca. Era o Jake, a pessoa mais próxima de um "melhor amigo" que eu tinha, ele estudava comigo desde a sexta série e era uma pessoa bacana de se lidar, só que era um sujeito engraçado.
Se fosse qualquer outra pessoa no mundo eu teria desligado o telefone e teria voltado ao meu estado de pensamento, mas se eu não atendesse seria pior, porque ele viria na minha casa, e como minha mãe o adora, ele estaria aqui me perturbando, então deslisei a aba de atender e coloquei o celular no ouvido.
– Alô. — falei, voltando a me deitar na cama.
– Alô nada, venha logo, Alexander, o pessoal já vai sair. – disse ele apressado enquanto alguns estalos ofuscavam sua voz.
– Fazer?
– Ah, isso veremos. – falou ele com uma gargalhada. – Não reclame comigo, quem deu a ideia de te chamar foi a Lana. Ela disse que faz questão que você venha.
– Hmm, então eu não tenho escolha? – perguntei, levantando-me e olhando pela janela para contemplar a paisagem.
– Para de papo e vem logo.
– Mano, meus pais estão na cola.
– Eu sei lidar com eles, lembra? – perguntou Jake com um animo inevitável na voz. – Venha logo, eles nem vão perceber sua falta.
– Ok. – respondi – Só vou tomar banho e em alguns minutos eu lhe encontro na sua casa.
– Certo. – disse ele rapidamente e desligou o celular.
Por ser o menino mais educado e mais inteligente que minha mãe já conheceu, ele tinha certos créditos que ninguém mais tinha, tipo: entrar na minha casa a qualquer momento ou então fazer a cabeça dos meus pais. Por isso, talvez eu não tivesse o que temer, afinal eu estava com o certinho da rua.
Tomei banho e me arrumei o mais rápido que eu pude. Ao final já eram mais de nove horas e a noite estava começando a ficar escura e vazia. A essa hora meus pais estariam no quarto e com certeza vendo canais de notícias, ou então de filmes. Como eu estava brigado com eles, talvez eles devessem nem perceber minha falta, exatamente como Jake tinha falado, porque eles não costumam falar comigo depois de uma discussão. Ótimo!
Parei de frente ao enorme espelho do banheiro e avaliei se minha imagem estava boa para uma noite longa. Os cabelos escuros estavam no lugar, apesar de meio bagunçados, e envolta dos meus olhos pequenos e castanhos, havia uma pequena sombra de olheiras, além de que minha boca estava seca, coisa que logo logo não aconteceria — beber a noite toda!
Passei pela porta do meu quarto e lentamente fui pegando o celular e colocando no bolso da minha calça jeans escura. Depois tirei a chave do quarto e tranquei a porta. Fui descendo a escada vagarosamente e ouvi os passos de meu pai no andar de cima, passando pelo corredor e indo até o seu quarto. Era o meu momento. Sai correndo silenciosamente e fui até a porta de frente, abri-a com a chave e depois sai.
A rua estava toda vazia e o frio era tortuoso. Sorte a minha que tinha pegado a jaqueta para me agasalhar. O sereno estava pairando na noite e começando a embaçar os vidros das casas que ofuscavam as luzes do pessoal cujo estava descansando depois de um dia de trabalha.
Atravessei a rua e fui andando em direção a esquina, até chegar a casa de Jake, que era umas cinco casa depois da minha, no outro lado da rua, próximo à virada para a outra esquina. Lá dentro estava tudo apagado, com certeza os tios dele não estavam em casa ou já estavam dormindo. O Jake não conhecia os pais porque foi abandonado no início da vida e os seus tios decidiram adota-lo. Eram gente boa, mas muito velhos para se conseguir ter uma conversa muito longa, então raramente eu os via.
Assim que cheguei de frente a varanda da casa, Jake apareceu com um sorriso largo. Ele bem baixinho, com mais ou menos um metro e sessenta e pouco, e tinha dois anos a menos que eu, era branco e seus cabelos eram liso e escorridos, enquanto que seus olhos eram castanhos claros. Conhecemos-nos depois que eu reprovei alguns anos e acabei estudando com ele na mesma série. Atualmente ele fazia faculdade de engenharia mecânica, enquanto que eu fazia de Geografia. Contudo, mesmo com a distância, ele sempre encontrava um jeito de me perturbar e quebrar o meu tédio no vídeo-game. Só achava ruim quando ele ganhava.
– Olha só, achei que não viria! – disse ele sorrindo e estendendo a mão.
– Para de reclamar e vamos logo, antes que alguém veja a gente. – retruquei, aperto a mão dele e começando a andar. – Para onde vamos?
– A Lana disse que encontraram uma boate incrível.
– E qual é o nome?
– Sei lá, não perguntei, só ouvi ela dizer. – respondeu ele pegando o celular e avaliando as mensagens. – Bem, vamos nos apressar porque eles só estão nos esperando. – finalizou Jake aumentando o nível de suas passadas.
Andamos pela rua paralela a nossa até chegarmos em uma avenida grande e larga com alguns poucos carros que ainda passavam rápido e distraídos. Atravessamos a avenida e entramos em uma pequena rua, depois viramos a esquerda e estávamos na rua da Lana, a garota mais fantástica deste mundo.
Não demorou muito para avistarmos o pessoal aglomerado envolta de carro um cinza. Aproximamo-nos e não pude deixar de reconhecer a galera que estava ali. Meus olhos primeiro bateram em Lana, ela era um pouco baixa e tinha pele morena, seus cabelos eram negros e lisos, exceto por uma mecha verde do lado direito de sua cabeça, ela era magra e tinha uma aparência frágil, mas ao mesmo tempo se mostrava cheia de vida e esbelta, sempre sorrindo e tendo uma brincadeira. Ao lado dela estava Enzo, ele era alto e tinha um excesso de tecido adiposo — muito gordo!!! -, tinha cabelos e olhos castanhos claros, além de ser o mais bobão da turma e o único que não fazia nada na vida. De frente a Enzo, estava Emilly, uma espadachim, pelo menos era assim que eu a chama, ela era coreana e bem parecida com aquele povo de filme chinês, ela era ninja. E por fim, Henry estava do lado de Emilly, ele era afrodescendente, além de ser todo fortão, acho que era o único que tinha coragem de sair para treinar na academia.
Cheguei e cumprimentei todos com apertos de mãos e alguns abraços, até que eufóricos entramos no carro, apressados para conhecer a nova boate que Lana havia falado. Quem dirigiu foi o Henry, ele era o mais cuidadoso quando se trava de volante.
Não demorou muito para que chegássemos na tão esperada casa da noite. Logo de frente ela tinha um enorme letreiro chamativo onde estava escrito "Hot" com letras onduladas e vermelhas. Na parte de baixo havia uma enorme porta de vidro escuro e suas paredes possuíam listras grossas de diversas cores. Do lado direito da porta grande, tinha uma pequena janela com um indivíduo sentado no tédio.
Saímos do carro e nos aproximamos da pequena janela que tinha escrito: Bilheteria. Pagamos pelas entradas e partimos para o mundo de fantasias.
Não preciso nem falar que foi uma loucura, né?! O jogo de luz era incrível, lasers e linhas imaginárias enfeitavam as alucinações da noite e uma fumaça obscura vagava pelo lugar. Pequenas bolas piscavam na parede e se desenhavam aos poucos, formando coisas abstratas sob o efeito de luz. A pista de dança estava lotada, e as pessoas dançavam e pulavam conforme a música, e junto a elas sempre tinha um copo ou uma garrafa na mão. Ao lado, no canteiro, ficava um balcão onde era servido as coisas que as pessoas compravam e logo a cima tinha um outro andar com mais festa e bagunça.
Comecei a me soltar e a galera me levou à loucura. Bebidas, comprimidos, pós e muita música fizeram parte da minha noite inteira. O som super alto me levava a um ritmo dançante muito gostoso e eu pulei feito um maluco em alguns momentos. Talvez de fato eu estava maluco naquela noite. Já fazia tanto tempo sem uma farra que eu nem conseguia me controlar aos efeitos da bebida e das drogas, sem falar que misturei muito.
A noite não poderia ser melhor se não tivesse meu momento com a Lana — aquele momento no banheiro, sem ninguém para incomodar, só eu ela nos amasso.
Por fim, depois de horas que nem mesmo eu sabia contar, a festa acabou e a última música da noite foi acompanhada por luzes florescentes e tudo pareceu ficar iluminado com uma animação contagiante.
Depois da última música, que era a mais animada, a boate começou a se esvaziar e eu fui um dos últimos a sair. A visão atordoada, a energia no meu corpo e o excesso de felicidade artificial era quase impossível de ser controlada. Fui saindo pela porta da frente e a rua estava voltando a ficar sem ninguém. Os carros indo embora e os jovens voltando para suas casas em suas vidas idiotas. Aproximei-me do carro e logo avistei que todos já estavam a minha espera, sorrindo e até gritando, enquanto que Jake estava no volante, era o único que não tinha bebido nada.
– Alexander – disse ele sério. – Entre logo no carro.
– Ah, você de novo Jake. – falei meio arrastado, a minha cabeça estava girando em um mundo luminoso ainda, cambaleei para o lado sem direção, aquilo era demais! – Espera, eu vou tirar água do joelho.
– Ande logo, temos que ir para casa. – falou Jake sem paciência.
– Você sempre preocupado, careta. — falei dando a volta e indo para a boate novamente.
Entrei meio atordoado e comecei a dançar e cantar no meio da pista vazia, exceto por algumas pessoas no palco na parte da frente que estavam desmontando o cenário da noite. Entrei no banheiro deserto e fui para o primeiro vaso-sanitário que vi. Depois voltei tonto e com os olhos fechados, sem olhar oque estava em minha volta, até que bati a cintura na quina da pia de mármore. Quando abri os olhos e finalmente olhei para o enorme espelho da pia, minha boca caiu. Talvez fosse só alucinação da minha cabeça, porque estava vendo tudo muito embaçado com mais de uma projeção da imagem. Todavia, quando finalmente foquei em um lugar e olhei direito, apavorei-me com a cena. Era um tipo de símbolo que estava desenhado, um círculo talvez, e dentro deste círculo, tinha um "E" com um "A" saindo do lado esquerdo, de forma que os dois estivessem unidos, desenhado. Olhei atentamente para o símbolo e fiquei analisando sem entender, talvez eu estivesse louco mesmo. Esfreguei meus olhos e percebi que a tonalidade em que o desenho tinha sido feito era vermelho, como o sangue e lembrava uma tinta que ainda estava fresca. Parecia que fora desenhada com os dedos recentemente. A tinta ainda escorria devagar no espelho e demostrava uma imagem perturbante. Fui para mais próximo e fiquei olhando o desenho até que o espelho me revelou pés suspensos no ar. Olhei assustado para trás e me deparei com um cena pior que o símbolo da base espelhada. Pelo chão pingos finos e vacilantes da suposta "tinta" levavam a um pequeno caminho e no fim, havia pingos maiores e mais intensos. Enquanto que os pés estavam suspenso, junto com o corpo completo e o rosto desfigurada. Dali vazava uma poça de sangue que se aglomerava no chão.
A cena foi terrível e eu quase desmaiei de tensão, meu estômago embrulhou na hora e eu senti um calafrio percorrer pelo meu corpo: a mulher estava sem os olhos. Fundos e escuros as órbitas sem os globos oculares mostravam uma imagem monstruosa e diabólica. Um fino fio de sangue escorria deles e ela estava pendurada pelo pescoço em uma corda que foi amarrada no teto, ao lado do banheiro que eu havia entrado.
O desespero roubou a cena e me tomou sem outros resultados, a não ser sair correndo do lugar, gritando e sem planos de volta. Assim que cheguei na pista de dança as pessoas que ainda estavam arrumando o lugar me olharam assustados, só que mal sabiam que o susto real restava dentro do banheiro. Tropecei no chão liso e cai de joelhos, sentindo um dor repentina e fina, até me colocar a vomitar toda a bebi de meu estômago.
As pessoas vieram em minha direção e começaram a me analisar sem entender.
– O que houve? – perguntou um senhor estranho, baixinho e de nariz enorme, olhos completamente esbugalhados e rugas a mostra.
Parei por um momento e comecei a soluçar. Olhei para o lado e tentei falar, todavia nada saia além de grunhidos e sons de desespero. Eu estava tremendo sem parar, queria acreditar que era apenas um efeito dos entorpecentes, contudo aquilo me parecia muito real. Então soltei uma risada estranha e me coloquei a chorar sem entender nada em minha volta. Tudo rodava sem fim e eu não tinha mais o controle de minhas sensações.
– Vocês está bem? – perguntou o homem de novo.
Olhei sem rumo envolta e depois despenquei no chão, inerme e me tremendo. Depois desmaiei e fiquei em um estado pesado e inquietante. As coisas ocorriam em minha volta, e, de quando em quando, eu abria os olhos e me avistava sendo carregado, depois dentro de algum lugar branco e logo uma luz grande em meu rosto foi despertada.
Não entendia oque estava acontecendo e não sabia como iria me explicar depois de tudo, mas uma coisa era certa para mim, depois daquele dia, nada seria o mesmo. A dor não seria mais uma opção, o desespero estaria em todos os cantos e enquanto eu respirasse do mesmo ar que o assassino, o inferno estaria presente na minha vida. Nada mais me ajudava a esquecer o sofrimento daquela mulher, e algo dentro de mim dizia que mais estava por vim, muito mais. A partir daquele dia, a morte era a melhor válvula de escape para uma vida tranquila
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