Notas iniciais
Bem, semana passada não pude postar o capítulo por questões pessoais e isso me forçou a só posta-lo hoje. Mas, foi só esse descaso e próxima semana o cronograma de postagem continua. Boa leitura.
Olhar para a janela do meu quarto, enquanto os médicos passam por mim aflitos é como estar observando uma pintura dramática. Uma arte que ainda está por se completar, mas que provavelmente nunca terá fim. Nela, o elemento mais comum é a dor. Ou será que estou sendo muito melancólico? Está certo... então o medo, talvez o desespero caia bem. Não, não é dor, não é medo, não é desespero. É um assassino maldito que saiu das raízes infernais e entrou na minha vida. É quase um devaneio lembrar do passado da forma que era. Todos os dias eu acordava cedo, para minha ruína, e ai para o trabalho, depois passava a tarde inteira dormindo, até chegar a hora de ir para a faculdade. Será que era tão ruim assim? Quando tempo perdi? Talvez as duas respostas, todos nós sabemos.
Será que um dia eu poderia abrir a boca para reclamar da minha vida de novo? Creio que não terei nem mais tempo para reclamar.
Olho para os dias do passado e vejo alguém que nunca vi, alguém que eu mesmo sucumbia, e agora queria ser esse ser sucumbido, mas é tarde. Agora, minha vida é invadida pela polícia e por um assassino.
Já perdi o número de vezes que eu já fui atentado de morte. Nunca ela chegava para o meu alívio. Tinha certeza que a esta hora ele estava rindo da minha cara, porque era só o que lhe restava. Olhar para meu estado de ruína e sorrir. Que cara mais louco e inteligente.
Fazia cerca de duas semanas que eu não dava nenhuma palavra com ninguém. Os psicólogos ficavam falando sozinhos enquanto eu me encontrava perdido na escuridão de meus olhos. Meus pais sempre ai me visitar, mas nunca olhava em seus olhos, talvez porque não quero que vejam a dor e o medo. Ou então, porque eu esteja cansado de viver e queria que ninguém me visite. Megan não podiam mais ter acesso ao meu corredor e ela havia perdido tanta credibilidade no hospital e estavam levando em consideração a ideia de demiti-la. Eu, sem sombra de dúvidas, iria reprovar na faculdade. Jake estava sumido a semanas, bem como Ryan. O que mais me faltava?
Três CD's haviam sido encontrados na cena do último crime, todavia eu ainda não tinha coragem de pega-los e vê-los, na verdade, não iria fazer aquilo nunca mais. Não tinha mais a mesma coragem que tive no primeiro dia que afrontei esse monstro. O mais viável seria ficar ali e esperar que por vontade dele de me matar.
A polícia inteira da cidade estava atrás dele, mas nenhum suspeito. A força nacional já havia sido acionada e agora eles tinham o CD para estudo, enquanto que os noticiários do mundo inteiro contempla a arte deste serial killer. O assassino Aesir, responsável pela morte de dezoito pessoas, dono dos mais terríveis métodos de morte. Quer coisa melhor para ele?
Na internet os assuntos mais comentados no país giravam envolta dele, alguns faziam especulações sobre quem seria ele, outros criavam teorias conspiratórias que diziam que ele era da própria polícia, por isso que nunca era encontrado. Não sei bem como descrever isso, digamos que o momento era dele. Não havia nada atualmente que não tivesse a ver com ele.
Peritos em mitologia ficavam intrigados com a forma que ele usava as lendas do passado nórdico e alguns loucos diziam que ele era encarnação do mal na terra... Patético, tudo isso. Eu sei porque eles fazem esse sensacionalismo todo, essa alusão toda ao assassino e ficam em suas cadeiras rindo da situação. É porque não é com eles que situação esta acontece. Nós nunca achamos que irá acontecer conosco e somos egoístas o suficiente para não se preocupar com o sentimento dos outros. Não posso falar nada... durante longos anos, eu fui assim.
Ryan? Onde estava Ryan? Muito estranho ele ter saído do nada. Será que ele também tinha sido raptado? Mas, ele disse que esse era o jogo certo, e ele nunca errava.
Na verdade, eu já havia perdido as esperança de que talvez Jake estivesse vivo, era só uma questão de tempo para o corpo dele aparecer e meu sofrimento aumentar 15 por cento.
Vanir e Aesir, que coisa mais estranha para um assassino usar como vocativos. Fico pensando, quanto tempo sem fazer nada esse cara deve ter, acho que deve morar de baixo da ponte! E tomara que um dia morra de fome.
É, mais um delírio da minha cabeça, como ele moraria de baixo da ponte e conseguiria desviar toda a polícia de uma vez só?
Minha única esperança agora era que as forças nacionais consigam algo e encontre ele. Contudo, pelo tempo que venho lidando com esse cara, tenho certeza que isso não irá acontecer. Ele é superior a todos, e de algum modo ele conhece as manhas de investigação.
Pensando melhor, Ryan tinha me dito que ele precisava de conhecimentos médicos para poder conseguir fazer o que ele fazia, contudo para que conhecimentos médicos, se na verdade você só vai matar a pessoa? Creio que encontrei um furo no raciocínio do jovem gênio. Talvez o conhecimento das táticas da polícia seja mais útil que as médicas... E se fosse alguém, de fato, como os conspiradores diziam, de dentro da próprio força e investigação? Isso poderia explicar o motivo dele não ser pego, mas mesmo assim, ele não pode ser qualquer um. Talvez um chefão lá de dentro conseguiria tal proeza, mas entramos em uma situação complicado, porque não se sabe ao certo o que um chefão quer comigo. Então, Ryan deve ter pensado nisso. Talvez eu quisesse que ele estivesse aqui comigo, ele era o único que tinha sido amigo naqueles dias, sem que tentasse tirar algo de mim. Até mesmo Megan havia sido mandada até mim no início das investigações para tentar conseguir alguma informação.
Eu não conseguia andar, minhas pernas tinham sido afetadas demais no último acidente com o carro. Na verdade, costumo não mexer membro nenhum, só ficar parado olhando para a janela, enquanto os médicos giram em minha volta. Eles olharam-me e perguntaram se eu estava bem... Bem? Nunca estarei bem, enquanto que o assassino viver neste mundo.
Não lhe respondi, como de costume, e eles se retiraram da sala. Depois um policial entrou e ligou a TV, mas não me olhou, estava acostumado com meu silêncio. Pegou uma cadeira e colocou de frente a TV e começou a assistir descansado.
A tarde foi volátil. Aos poucos pedaços de um céu escurecido e cinzento começou a invadir o céu azul sutilmente. À medida que o tempo passava as nuvens tornavam-se mais escuras e pesadas. Um ar sombrio começou a invadir todo meu quarto e o frio aumentava vagarosamente.
Carregado e sombrio.
Aos poucos gotas profundas de água começaram a surgir do cinza escuro e cair distraídas nas partes da cidade. A janela começou a apresentar pequenas gotículas. Em questão de minutos tudo estava tomado de água fria.
Vaga e turva, a água cai sem nenhuma demanda e encontrava obstáculos comuns no caminho, um teto de uma casa, um carro ou até um guarda-chuva. As gotas então escorria por esses lugares para o seu destino final: o chão sujo. E assim seguia seu percurso escoando para poças de esgotos, amontoados de lixos e asfaltos empoeirados. Passavam horas, ou, dependendo da chuva, dias no mesmo lugar, até evaporarem. Assim, entravam em outra viagem distante dali, levada pelas nuvens em forma condensada até mais um dia difícil de pancadas de chuva. E, desse modo, seguia a vida. Dias de sol em que o vapor corria livre e em harmonia, e dias de chuva em que ele teria que passar pelos mais difíceis processos. Mas, depois da tempestade, sempre há o dia limpo.
A temperatura dentro do meu quarto passou de frio para super gelado. Calafrios começaram a me corroer e eu me afundei na coberta direcionando meu olhar agora para o teto branco. Fechei seus olhos e engoli um seco repleto de medo, dúvida e peso. Talvez era necessário mais tempo para que eu me recuperasse de tanto. Talvez eu nunca conseguisse... Era difícil lidar com tudo.
Na minha mente imagens assustadoras se projetavam aos poucos, enquanto que com toda a minha força interior eu tentava tira-las de meu consciente, contudo parecia tão surreal essa ideia. Não conseguia esquecer nada e nem domar minhas emoções. Foi tão rápido que não tenho mais sistema nervoso o suficiente para lidar com isso.
Abri os olhos de novo para desviar minha atenção para algo que valesse apena, mas foi terrível. Era como se as coisas estivessem acontecendo na minha frente novamente. As mortes hediondas não saiam da minha cabeça. Meu corpo reclamava do acidente e me cérebro sucumbia aos fatos.
Na televisão, um jornal matinal passava dando as últimas notícias mundiais, e, é claro, sempre deixavam um espaço sobrando para o serial killer contemporâneo.
Ainda deitado, ouvi a voz da jornalista, suave e serenamente atravessar o quarto:
"E agora, vamos as novidades sobre o Assassino mais comentado da atualidade. A polícia local ainda não encontrou nenhum suspeito, mas parece que o caso tem ido muito além das teorias de conspiração e encenação dos moradores da cidade. A força nacional já está envolvida no assunto e parece que as internacionais estão muito interessadas no assunto. Hoje foi dado uma confirmação que a polícia federal está mais que empenhada no caso, e a CIA, agência de inteligência dos Estados Unidos, disse está interessada na ideia como o assassino se escondeu. Por enquanto, o assunto ainda está contido em um único lugar e o Governador da região já se prontificou dizendo que o máximo está sendo feito para ajudar na busca pelo assassino. Mas parece que os moradores do lugar não estão felizes com o resultado das investigação. Cerca de 75% estão levando em consideração a ideia de irem embora da cidade por segurança. Por isso a presidência do país, preocupado com a ideia de o assassino se espalhar para o país, está preparando uma equipe dos melhores especialistas para lidar com o caso. Até agora não se sabe quem são os nomes do seleto grupo, todavia já se é de esperar que a atitude seja um desespero do próprio presidente do país. Por enquanto não se sabe bem o tempo necessário para a descoberta da identidade desse sujeito, mas o presidente garantiu que o caso terminará logo e sem mais perdas. O presidente do Supremo Tribunal assegurou que o culpado deve receber mais de 150 anos de prisão, sem direito à condicional ou então serviços coletivos."
E então ele logo passou para um próximo assunto mais entendiante.
Virei meu rosto para o lado e fechei os olhos novamente... "Chega de assassino por hoje, preciso de um sono profundo que me relaxe e leve-me para um paraíso imaginário para ver se a realidade se torna menos dura comigo", pensei e respirei fundo.
Não demorei muito para cair no sono.
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