Era um dos maiores invernos tido pela cidade; naquela tarde a neve tinha deixado de cair por algumas horas, o chão permanecia completamente branco, contrastando apenas com as árvores e os moradores da cidade que transitavam por entre aquelas ruas com casas de tonalidade clara. Úrsula Reios caminhava com pressa ao lado de seu amigo Eddie Hamm e do inspetor da cidade, Arthur Allan, em direção a igreja da cidade, totalmente coberta por neve. Úrsula trajava um grande manto negro com capuz, prendida na cintura por um grande laço que se cruzava enquanto os outros dois utilizavam-se de grossos casacos. Ao se aproximarem da igreja, passaram pelo cerco de pessoas paradas em frente à igreja e pela policia que guardava a entrada.

“Estão comigo”, disse o inspetor, adentrando naquele lugar escuro de paredes cinza escuro e vitrais. Úrsula puxa um cachimbo de meerschaum do bolso, mas o inspetor reprova dizendo: “O lugar é bem apertado, não seria uma boa hora acender isso agora”, mas Úrsula retruca dizendo: “Não acenderia algo em um cenário de um crime do qual desconheço, o cheiro poderia atrapalhar a investigação. Apenas estou entediada; quis apenas manusear meu meerschaum que adquiri ontem na Turquia”. Os três dão de cara com o bispo em frente a uma pequena sala vedada com pedras e uma porta de madeira robusta no final de um corredor.

“Pois bem, tratem de irem falando”, disse Úrsula enquanto retornava seu cachimbo ao bolso, “ não quis que o inspetor dissesse do que se tratava o crime antes que pudéssemos chegar ao local; além de me impedir de tirar conclusões precipitadas, ainda preserva a surpresa”; “Quem seria essa senhora, senhor inspetor?”, perguntou o bispo, enquanto olhava fixamente para o rosto magro e o cabelo loiro e preso de Úrsula, que rodopiava levemente o recinto. “Essa é a detetive Úrsula Reios, que felizmente passava uns tempos na cidade e esse é seu amigo professor universitário Eddie Hamm. Ela tem certa fama investigativa, segundo pude apurar, e talvez seja nossa melhor cartada contra o caso do...”; “Assassino do Desenho”, intercalou Úrsula por cima do inspetor. “Como sabe senhora?”, perguntou o bispo, “contou algo para ela inspetor?”; “Nem foi preciso”, disse Úrsula agitadamente, “embora eu já tenha sido “senhor”, bem, isso não importa, o que importa é que eu sei de coisas, eu leio coisas, sou uma detetive, não sou? E o fato que mais está intrigando essa cidade é o serial killer conhecido como Assassino do Desenho; gostei bastante dos seus métodos, menos de matar pessoas, claro, mas prossigam”.

“Bem”, adiantou o inspetor, “como gostaria de ter dito antes...”; “Por favor, comece me falando do provável assassino”, interrompeu Úrsula; “Bem, há entre nós uma assassino em serie conhecido como O Assassino do Desenho, um serial killer que matou treze pessoas em uns três anos pra cá, cometendo esses assassinatos em cômodos fechados, desferindo uma facada no pescoço da vitima e deixando na cena do crime um desenho perfeito de toda a cena do crime, com todos os detalhes do cômodo e da posição do corpo da vitima. Descobrimos que a escala do desenho é perfeita, cada objeto tem sua escala de 1:20”; “Interessante”; “Ainda descobrimos um boato em meio a população de que seria um ‘fantasma vingador”; “Fantasma?”; “Sim, mas não os julgo, já foi divulgado que o assassino consegue sumir em questões de minutos da cena do crime e ainda deixa um desenho perfeito do cenário, como se o desenho se projetasse instantaneamente”; “De certo modo há um limite de agilidade em que um homem consegue desenhar, ainda mais com perfeição e em escala precisa, isso eu devo explorar, mas o fato de sumir sem deixar rastros não é um problema, pois veja, onde está meu amigo Eddie?”; o inspetor e o bispo olharam ao redor e não conseguiram encontrar Eddie de forma alguma. “Aquele seu amigo redondo, eu não o vejo em lugar algum, tenho certeza de que ele estava aqui”, disse o bispo, abismado; “É isso que eu digo, sumir não é tão difícil para quem tem habilidades como meu amigo Eddie, mas o fato de conseguir desenhar tão rápido é intrigante. Deixe-me ver o desenho deste ultimo assassinato”; o inspetor retirou do casaco um papel em folha A4 com um desenho a lápis de um pequeno quarto com uma mesinha e três velas em archotes e no chão, um corpo caído de uma pessoa com um grande manto e uma poça que escorria de seu corpo, presumivelmente sangue. “Posso crer que esse desenho detalha fielmente o cenário que se esconde dentro dessa sala?”; “Sim”; “Em quanto tempo ele pôde ter feito isso?”; “O intervalo em que o padre saiu das escadarias e seu corpo foi encontrado morto nesta sala, uns 10 minutos”; “Inacreditável”, disse Eddie.

“E se o assassino tem tido acesso a esse cômodo antes do padre entrar e estivesse esperando por ele enquanto desenhava?”, indagou Úrsula; “Impossível, só eu tenho a chave da sala e fui eu que abri a porta para o padre, conferindo que tudo estava em ordem, além disso, ninguém tem a permissão de entrar nessa sala a não ser eu. O corredor também recebe bastante vigilância”, disse o bispo; “Nós também já havíamos cogitado essa hipótese, de que o assassino conheceria o local do futuro crime, desenharia antes e na hora do assassinato, tivesse apenas que desenhar o corpo, que por mais que continuasse difícil, seria bem mais fácil, por isso trouxemos você, Úrsula, quando descobrimos que mesmo em locais onde ele não poderia ter entrado, ele consegue desenhar a cena do crime com tanta perfeição, no tamanho certo em escala”; “Ele não costuma roubar nada nos locais do crime, certo? Mas pelo que eu percebi, essa sala esconde algo muito valioso, ele roubou algo desta sala?”; “Não, nós conferimos tudo e está tudo em seu devido lugar”; “Vou ter que entrar na cena do crime para analisar melhor. Já tenho algumas hipóteses sobre o caso e espero resolver ainda amanhã. Por favor, Eddie, me acompanhe”; Úrsula e Eddie adentraram a pequena sala revestida com grandes blocos de pedras escuras e iluminada por três archotes e um corpo no chão, exatamente como estava no desenho. “Quem troca as velas?”; “Eu, senhora”; “Sempre?”; “Sempre”.

Úrsula permaneceu algum tempo observando o local do assassinato e após alguns minutos, saiu apressadamente do local. “Eddie, creio que possa saber quem é o culpado, mas preciso tirar algumas conclusões com você, preciso que me acompanhe até o hotel para que possamos testar minhas hipóteses. Enquanto aos dois – disse se virando para o bispo e o inspetor -, não há nada de sobrenatural nisso tudo; daqui de fora dá posso ver claramente onde as pedras que vedam essa sala estão posicionadas, com base nisso e um pouco de calculo, posso medir o tamanho do cômodo lá de dentro e os posicionamento das pedras, enquanto o corpo, o sangue em algumas partes distintas do corpo sugere que ele foi posicionado a força, corroborando a tese de que desenha antes a cena do crime para depois cometer o assassinato, apenas deixando um tempo para desenha alguns detalhes do cenário na hora. o que foi muito fácil nesse caso, já que só possui três archotes e uma mesinha; 10 minutos para desenhar apenas isso deve ser mais que o suficiente para um profissional; o caso do sumiço rápido, creio que já deixei claro, mas tem algo que me intriga; quer dizer, intrigava, já que provavelmente terei a resposta correta, que é o fato de que o assassino pudesse saber como é lá dentro porque aqui por fora, ele não poderia se arriscar de que algo muito diferente de apenas pedras pudesse estar revestindo as paredes, creio que ele sabia que pouca coisa havia de diferente. Como podem ver, é muita coisa, vou ter que analisar quando chegar no hotel. Talvez nem consiga dormir hoje”.

“Ajude-nos, senhora Úrsula, a pegar esse serial killer”; “Calma inspetor, precisarei da ajuda da policia; como podem ver, sou bastante magra para me envolver com capturas e perseguições; por enquanto voltarei para o hotel ao lado de meu amigo Eddie e discutirei sobre o crime; espero que a policia esteja preparada. O quão bons vocês são em revistar casas?”; “Somos muito bons, sem duvida”; “Ótimo, então, relaxe; a menos que o assassino tente cometer outro assassinato hoje, está tudo sobre controle”.

Úrsula se ausenta da igreja ao lado de seu amigo Eddie pelas ruas cobertas de neve da cidade. “Estou com muita vontade de chegar ao hotel e acender meu cachimbo, estou bastante agitada”; “Em que nível está o assassino dos Desenhos para você?”; “Eu diria que ele é melhor que o Sinal Escarlate e pior que o Barão Canibal”; “Você quer brincar de adivinhar o passado dele? Parece interessante”;“Eu diria que ele teve bastante cobrança dos pais na infância para que fosse o melhor possível, não aceitando nenhum erro, sofrendo agressões físicas e psicológicas caso isso acontecesse. Acho que ele devia ter um avô que o incentivava, mas ao contrario dos pais, com amor e compreensão; creio que o avô possa ter segurado a sanidade do garoto por algum tempo, mas quando o avô morreu, ele pode ter dado vazão a raiva e matado sua primeira vitima, arquitetando tão bem quanto era bom em seu trabalho, mas claro que não falo de gêneros, o avô pode ser avó e o garoto pode ser garota”.

No dia seguinte, Eddie, que havia se ausentado do hotel, volta para o quarto que dividia com Úrsula e a encontra com uma capa vermelha que descia até um pouco além da cintura e que era prendido por um laço amarelo na gola e uma saia vermelha que ia do busto aos pés enquanto se deliciava com seu cachimbo turco. “Me acompanha”, perguntou; “Claro, espere só eu guardar umas coisas”; “Você e seus ‘saquinhos’”; “Eu não tive como não comprar. Eu não demoro”. Foram até a delegacia do inspetor Allan e se reuniram com ele em sua sala. “Estão prontos para revistarem a casa de alguém enquanto essa pessoa está no trabalho?”; “Como assim?”, perguntou o inspetor a Úrsula; “Demoraria alguns dias para que vocês pudessem conseguir uma autorização para entrar e vistoriar a casa do criminoso atrás das provas que o incriminem, que provavelmente daria espaço para que ele cometesse outro assassinato”; “Pelo amor de Deus, mulher, diga quem cometeu os crimes”; “Ora, inspetor, não é obvio? Quem mais teria acesso a interiores de casa e que possuíssem tamanha familiaridade com elas e tivessem habilidade necessária para produzi-las em escala precisa, além de ser uma pessoa que visitou aquela sala da igreja onde o padre foi morto? Essa pessoa tinha acesso a todas as informações da arquitetura da igreja e de suas estruturas, o que pode esclarecer como ele pôde ter sumido sem que ninguém tivesse-o visto. Ele não precisa visitar o local duas vezes, já que além de ter as plantas, ele deve ter uma ótima memória fotográfica”; “Você quer dizer que você acha que foi um arquiteto?”

“Sim; Natanael Agosto, para ser mais exata”; “Mas como...”; “Com um pouco de investigação, pude comprovar sua participação nas construções das casas que se tornaram cenários dos crime, além de que o bispo falou que era praticamente impossível alguém ter tido a chance de calcular aquela sala mesmo de fora, graças ao fluxo de vigias no corredor, então me fez pensar que as pessoas que construíram aquela sala, eram pessoas suspeitas, então fiz uma triagem e descobri que Natanael era a única pessoa que se ligava aos outros cenários, além de ser o único a ter as ferramentas certas para os desenhos, já que trabalha com desenhos arquitetônicos. Ontem à noite invadi seu escritório de arquitetura e não encontrei nenhum desenho de um futuro crime, mas também não encontrei nenhuma de suas ferramentas de trabalho, o que me leva a crer que ele realiza seus desenhos macabros em casa, já que me abstenho de pensar que ele transitava por ai com os desenhos, podendo ser roubado e ser descoberto; então, se puderem invadir a casa dele enquanto ele está no trabalho e provar que eu estou certa, eu agradeceria. Ah, não se esqueçam de que estará bem escondido, então façam uma vistoria minuciosa em cada parte da casa”. O inspetor ficou alguns segundos tamborilando os dedos em sua mesinha e disse: ”Tudo bem, vamos averiguar”, e saiu levando seu casaco. “Você trouxe seu saquinho?”, perguntou Úrsula; “Deixei-os no quarto do hotel”; “Então é para lá que vamos”.

Naquele mesmo dia, Ursula recebeu uma ligação no quarto de hotel. Arthur Allan comunicava-a de que o Assassino do Desenho havia sido preso e decidido contar toda a verdade, mas com uma objeção: de que Ursula estivesse lá. Ursula havia ficado interessada no intelecto de Natanael e decidiu ir ao seu pedido. “Eddie, venha comigo”, chamou após explicar o acontecido.

Ambos chegaram a delegacia e foram encaminhados para a sala de interrogação onde Natanael e Arthur estavam. “Então foi ela que me capturou?”, perguntou Natanael com um sorrisinho. Ele era um homem de meia idade, calvo, magro, com óculos e com uma face bem tranqüila. “Sim, fui eu; você foi um bom adversário”; “Se eu soubesse que estava jogando com alguém tão brilhante, eu teria me esforçado mais”; “Você foi um bom adversário, como já havia dito; eu não pude pega-lo no flagra, mas não havia como você ter vencido”; “Com a cara que o inspetor me olha, eu acho que você está preocupado se eu vou dar queixa por vocês terem invadido minha casa sem autorização, mas não se preocupe, eu vejo como apenas um golpe de misericórdia que decidiu minha derrota. Alias, como é seu nome?”; “Ursula Reios”; “Ah, antes que pergunte, senhorita Ursula, eu sei como fui descoberto. Na verdade, era meu único erro mas minha melhor tática: matar ex-clientes. Me admira não terem visto isso antes”; “Então você assume que desenhava o cenário antes de matar juntamente com o corpo que você colocava na posição do desenho e se ocupava apenas com os pequenos detalhes diferentes quando já estava na cena do crime?”; “Sim, e esse era meu erro. Eu tinha que conhecer bem as dimensões para poder desenhar antes e por isso eu atava casas em que eu já conhecia”; “Nós também pudemos, disse Arthur, “analisar os desenhos e coletar algumas fuligens que denunciaram o local em que você guardava os desenhos na sua casa: debaixo de uma fina folha de compensado em seu quarto, mas admito que foi bem difícil de encontrar o local”; “Foi um bom trabalho, inspetor”.

Ursula e Eddie ainda permaneceram algumas horas na delegacia e depois voltaram para o quarto de hotel. Úrsula havia acertado boa parte do passado do criminoso, onde o único ponto que errou foi que a vazão para seus crimes foi o assassinato do pai, até hoje nunca esclarecido. Ursula passou a manhã do dia seguinte olhando a cidade da janela de seu quarto fumando em seu cachimbo enquanto Eddie ficava entretido com seus livros sobre política. “Sabe Eddie”, disse Ursula se virando para Eddie, “Ontem a noite eu só consegui pensar no Natanael como adversário e não como criminoso, e isso me faz uma sociopata”; “Você conseguiu prender um criminoso que planejava cometer mais mortes, você deve pensar nisso”; “Eu faço o certo mas não por motivos nobres, é isso que você quer dizer?”; “De certa forma. O que eu quero dizer é que você salva vidas. Mas desde quando você tem essas preocupações morais?”; “Não deve ser nada, talvez a viagem”.

Notas finais
Minha intenção foi começar criando uma historia curta para que futuramente eu possa acrescenta-las e tornar-las maiores em outros contos. Criticas e sugestões são bem-vindas, para que possa vir a melhorar futuramente
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!