Era um dia muito nublado. O sol estava descendo no horizonte descolorido pelas nuvens de chuva carregadas. Os prédios bloqueavam a visão impossível do por do sol. A poluição dos barulhentos carros e ônibus, que ensurdeciam a cidade, impossibilitava qualquer tentativa de observar a beleza de Glensday.

Eu, como sempre, estava naquele clima meio estranho depois das várias horas passadas dando uma palestra. Até aquele momento eu lembrava de todas as carinhas dos alunos interessados na invenção do óculos que curaria, com 100% de efetividade, o daltonismo. Até que… CRASH!

Acho que devo começar a minha história do começo. Meu nome é Ashley. Tenho 30 anos e sou uma física experimental, mestra e doutora em ótica. Uma característica curiosa minha que inspirou toda a minha careira, principalmente os últimos anos, é o daltonismo. Caro leitor, não o obrigo a saber o que esta deficiência. Um daltônico é uma pessoa que tem dificuldade de ver as cores, dependendo do grau pode ser que a pessoa seja incapacitada de enxerga-las. Baseei todo o meu estudo nisso, no daltonismo. Recentemente, finalmente consegui chegar ao produto final de minha pesquisa. Um óculos que, enquanto o indivíduo com essa dificuldade o usa, permite-o a vê-las sem nenhum problema.

Desde criança, todo mundo tenta me explicar o que são as cores. É muito curioso a tentativa de descrição de cada um. O mais comum é falarem em pigmentos quentes e frios. Mas como uma pessoa que nunca viu as cores seria, alguma vez, capaz de deduzir o que é uma tintura quente e outra fria? Difícil entender? Deixe te dar um exemplo. Imagine o nada. O que é o nada? A melhor explicação que já ouvi é que o nada não é, portanto ele não existe. Logo, é inimaginável. Isso eram as cores para mim. Até um dia, em que estava com meu amigo almoçando.

Eu tinha 17 anos. John, com a mesma idade que eu tinha, era um amigo meu. Nunca havia imaginado-nos como qualquer coisa a mais. Naquele dia, logo após o almoço, ele me convidou para um jantar a dois. Surpresa, hesitei durante alguns segundos, entretanto eu aceitei o convite. Passei a tarde inteira ansiosa, suando a frio. Quando chegou a hora, por volta das 19:37, eu peguei um táxi e fui até o restaurante italiano onde havíamos marcado. Cheguei as 20:00, em ponto. Paguei 16 dólares de transporte, sobrava apenas 50 dólares para pagar a minha parte da refeição. Fiquei desesperada quando vi o quão chique era o lugar e quando percebi como não tinha me arrumando para isso. Sem muito o que fazer, fui até a recepção do restaurante. Um homem de terno me atendeu falando que um senhor já estava me esperando, e apontou para a mesa logo ao fundo do salão onde John estava sentado. Percebi rapidamente que ele também não havia se vestido de forma que me constrangesse naquela situação. Tranquilizei-me.

Havia vários casais aquela noite, todos comendo a luz de velas pratos que eu nunca tinha visto na minha vida inteira. Um lustre de cristal gigante iluminava todo o local. Bem no meio do restaurante, um bonsai enorme criava uma atmosfera bem agradável, ao lado de um palco onde um pianista tocava a Marcha Turca num volume muito baixo só para compor o ar romântico. Quando cheguei à mesa, cumprimentei-o com um beijo no rosto e um abraço. Ele já havia pedido uma água para dividirmos, como já sabia que eu não tomava nenhum tipo de vinho ou refrigerante. Conversamos sobre os mais diversos assuntos enquanto escolhíamos a comida. Depois de muitas perguntas feitas aos garçons, eu escolhei um prato que era a especialidade daquela franquia. E John pediu uma carne acompanhada de um nhoque.

Estávamos somente nós dois, sentados em uma mesa esperando o jantar naquele caro restaurante italiano. Apesar de tudo que o couver artístico fazia por todos os casais, parecia que não surtia efeito em nós. Continuamos em um clima meio estranho, só de amigos durante muito e muito tempo. Tardou 42 minutos para os pratos chegarem e, quando chegaram, estávamos famintos. Deliciei cada milímetro daquele fettuccine preparado com um molho especial da casa.

Ao final da degustação dos pratos, John me perguntou se alguém já havia tentado explicar como as cores eram. Respondi positivamente, meio sem entender a situação, mas, logo em seguida, falei que todos falharam nessa difícil missão. Em questão de segundos, ele pediu para tentar e sugeriu que, ao final, se conseguisse, ganhava um beijo. Fiquei meio surpresa, mas, ingenuamente e arrogantemente, disse que tudo bem, uma vez que muitas pessoas já tentaram e nenhuma conseguiu.

— Feche os olhos, Ashley, para que eu possa tentar descrever para você.

Cerrei minhas pálpebras cética, meio receosa sobre o que estaria por vir. Não sei de que forma nem por que motivo, mas aquela situação me dava “borboletas na barriga”, como minha mãe costumava falar.