O ar que nos falta
1 A morte bate à porta
Notas iniciais
— Eis um fato: você vai morrer.
Quando termino de ler em voz alta o último capítulo do livro no qual estamos trabalhando em sala de aula, dou-me conta de que toda a classe está perplexa. Ninguém pisca, fala ou se mexe. Parado de frente para todos, de início, penso que é algo com a professora; mas quando me viro para encará-la, percebo que ela está como os outros alunos. Alguns com a boca ligeiramente aberta, todos estão focados olhando para algo atrás de mim. Os curtos movimentos que dão parecerem terem sido tirados de um filme em câmera lenta. Ao me virar para trás a fim de descobrir o que está chamando tanta atenção, um vulto me agarra e bloqueia minha visão enquanto começa me enforcar.
Acordo suado e sem fôlego.
Olho para todos os lados até ter certeza absoluta de que estou em meu quarto. A luz do abajur está acesa, o que torna mais fácil localizar-me. Estou deitado no canto da cama de solteiro, encostado na parede. O travesseiro que coloquei ao meu outro lado antes de dormir está caído no chão.
O cheiro de tinta azul-bebê – que cobre todo o cômodo – faz meu nariz coçar. Tirando meu quarto, a casa inteira foi pintada há dois dias. Esqueceram-se de pintá-lo e quando cheguei junto com as últimas caixas da mudança, o encontrei inteiramente em cor-de-rosa.
Briguei com minha mãe após ela dizer que tinha se esquecido de comprar a tinta que pedi e mandar pintar o meu quarto. É sempre assim, como se fosse minha consciência, minha própria voz ecoa em minha cabeça; quando ela não esquece, simplesmente desiste de fazer algo para mim. Penei até encontrar uma loja de materiais de construção no novo bairro, onde comprei um tubo de tinta azul e misturei com uma lata de tinta branca que sobrou quando voltei para casa.
Como a quantidade de tinta branca era muito maior do que a de tinta azul, a mistura ficou bem clara... Mas eu gostei. Mesmo com a luz fraca, consigo ver o pequeno canto superior em que não pintei direito. A pequena falha rosa me lembrará para sempre que eu quiser alguma coisa, eu mesmo terei de fazê-la ou dificilmente a terei — principalmente se quiser que ela saia do meu jeito.
Depois que a tinta secou, parafusei uma prateleira na parede oposta à minha cama e agora meus livros estão enfileirados nela em ordem alfabética. Coloquei persianas na janela logo em seguida. Por último, após montarem minha cama, enchi a gaveta do criado-mudo com balas, canetas e uma pequena agendinha.
Pego meu fone de ouvido, conecto ao meu celular e começo a ouvir música. Embora seja pequeno – talvez o menor de toda a casa –, o cômodo é aconchegante; o que me faz adormecer rapidamente.
São dez horas da manhã.
Para quem está acostumado a acordar sempre às seis horas da manhã para ir ao colégio, acordei tarde.
Já escovei os dentes, lavei o rosto e agora estou sentado à mesa para tomar o café da manhã com minha mãe em uma cadeira logo a minha frente. Não estamos nos falando desde ontem de madrugada, um pouco antes de irmos todos dormir e eu ter o pesadelo; quando brigamos mais uma vez, após ela já ter bebido demais e querer ligar o rádio no volume máximo.
Mamãe pega a jarra da cafeteira e enche sua xícara até a boca com o líquido preto. Muito me admira ela não querer tomar uma latinha de cerveja no café da manhã... Ela estende a jarra em minha direção e eu recuso. Você sabe que eu prefiro chá, penso.
Minha primeira lembrança de infância é de uma briga entre minha avó e suas duas filhas: minha mãe, Carina; e minha tia, Camila. Não me recordo de como tudo começou, mas a imagem das três, enfileiradas, puxando uma o cabelo da outra, nunca me saiu da cabeça. Sem poder fazer qualquer coisa para pará-las, sentia-me impotente naquele momento.
Lembro-me que gritava, pedindo para que elas parassem. Desejando que pelo menos uma das três percebesse a situação ridícula em que estavam e apartasse as outras duas.
— Vá chamar alguém, Leandro — berrou vovó, enquanto puxava os cabelos castanhos de mamãe e seus cabelos loiros eram puxados por tia Camila.
Desci as escadas chorando e correndo o mais rápido que conseguia, ainda sem entender porque ela não largou mamãe. Se ela a soltasse, mamãe poderia fazer minha tia largar vovó... Ou talvez ela não a tenha soltado porque, alcoolizada, mamãe bateria em minha tia ao invés de separá-las.
Quando entrei de volta em casa, com a vizinha logo atrás de mim, tia Camila desceu as escadas correndo com vovó a poucos degraus de diferença atrás dela. Ela me empurrou e correu para fora da casa.
— Camila! — vovó gritou novamente, mas sua voz falhou.
Enquanto a vizinha a acalmava, corri para o quarto onde a briga acontecia minutos antes. Minha mãe não estava mais lá. Comecei a entrar em pânico novamente quando pensei no que poderia ter acontecido enquanto corri para buscar ajuda. Idiota – minha própria voz em minha cabeça já me perturbava desde pequeno. –, você deveria ter ido mais rápido!
Tentei acalmar a mim mesmo respirando fundo e pensando nas situações mais lógicas. Se mamãe tivesse descido, eu a teria visto... Então ela ainda estava ali, no segundo andar. Caminhei até o outro quarto e tudo o que encontrei foi minha irmã, Jade, dormindo em seu berço. Incrível como ela não acordou com toda a gritaria.
Repeti a mim mesmo que devia me acalmar e continuei pensando. Só havia mais um lugar no segundo andar: a sacada. Escancarei as duas pequenas portas de madeira e encontrei mamãe jogada no chão.
Ela estava de olhos fechados, como se estivesse dormindo. Comecei a chorar novamente depois que pensei no pior que poderia ter acontecido e enquanto me abaixava para verificar sua respiração. Não tinha ideia de como fazer aquilo, então coloquei minha pequena mão embaixo de seu nariz, esperando que o ar saísse dali e esquentasse meus dedos. Os poucos segundos que se passaram até ela expirar foram suficientes para me aterrorizar. Quando o ar finalmente passou por entre meus dedos, uma imensa sensação de alívio tomou conta de meu corpo. Suspirei e sentei ao seu lado, deixando que as lágrimas escorressem livremente por minhas bochechas e o vento frio daquela noite me congelasse.
Notei, então, ao lado de mamãe, algo que não tinha visto antes: um tijolo laranja com uma lateral quebrada. Enquanto chorei, consegui – finalmente – ligar todas as peças do quebra-cabeça e imaginar o que aconteceu enquanto fui buscar ajuda. De algum modo elas saíram do quarto e continuaram brigando pelo corredor até chegarem à sacada; onde minha tia pegou um dos tijolos que sobraram da reforma e estavam empilhados no canto, e bateu com ele na cabeça de mamãe, que desmaiou. Por fim, ela fugiu e minha avó correu atrás dela.
O alívio se transformou em raiva, ódio e depois em preocupação.
Devagar, minha mãe abriu os olhos, vovó me tirou da sacada e não me lembro de mais nada depois disso. Lembro-me apenas de outras brigas, cada uma terminando pior do que a outra. A cada final de semana uma briga; a cada briga os mesmos pensamentos. Acalme-se. Não há nada que você possa fazer, a voz repetia. Chorar e gritar só vai assustar ainda mais sua irmã. Tire-a daqui até tudo se acalmar... Daqui a uma hora tudo terá acabado. É apenas uma questão de tempo.
Tempo. Era disso que eu precisava. Queria que o tempo passasse e eu crescesse logo, queria botar um fim em tudo aquilo. Queria ter autoridade, ter minha própria vida. O fato é que, demoradamente, muito tempo se passou desde a lembrança da primeira briga e eu ainda não tenho nada disso.
Nunca soube ao certo o motivo de a maioria das brigas começarem, mas mamãe sempre estava alterada pelo álcool da cerveja e minha tia pelas drogas.
Há muito tempo que não moramos juntos. Fui morar com mamãe e Jade em outra casa e vovó ficou com tia Camila, sua filha caçula.
— Vou ir ao cinema hoje — informo, após pegar um sachê de chá no armário e afundá-lo em uma caneca com água escaldante e decorada com desenhos de doces de padaria.
— Tem dinheiro? Vai com quem? Que horas volta? — questiona mamãe.
Embora minha mãe seja diferente de toda e qualquer mãe, ela não deixa de ser igual às outras. Preocupa-se sempre aonde irei, com quem estarei e a que horas voltarei.
— Se estou dizendo que vou ao cinema, tenho dinheiro, não acha? — ironizo. Não estou com a mínima vontade de respondê-la educadamente. Quero mostrar que não estou feliz com sua bebedeira. — Ou você acha que vou assaltar alguém no caminho? E sim, vou sozinho.
— Você tem apenas dezessete anos, Leandro — ela me lembra enquanto passa manteiga em metade de um pão. — Por mais que não queira, me deve o mínimo de respeito. Quando tiver sua própria casa e se sustentar, pode fazer o que quiser com sua vida.
— Me respeite como filho e irei te respeitar como mãe.
— Já chega! — ela grita, fazendo com que eu me assuste e derrube. — Vá aonde quiser, mas me deixe em paz. E amanhã é o aniversário de Gilberto, ao menos ligue para dar os parabéns.
Gilberto é o pai de Jade. Mamãe se separou dele pouco tempo depois de ela nascer, assim como fez com o meu. A diferença entre nossos pais, é que o pai de Jade sempre nos visita e dá certa quantia em dinheiro para ajudar a sustentar sua filha; já o meu... Nunca sequer o vi.
Sempre que tentava perguntar algo sobre ele, mamãe fugia do assunto. Agora nem tento mais, já que, do mesmo jeito que ele nunca sentiu minha falta e me procurou, parei de sentir a dele. Chega a ser estranho pensar que antes eu conseguia sentir falta de alguém que ao menos conheci.
Infelizmente nem tudo são flores... Não conheço meu pai, mas em compensação conheço todo o resto de sua parte da família. Conheço seus pais, meus avós paternos; conheço seus irmãos, meus tios; conheço seus sobrinhos, meus primos.
Depois que meu pai “sumiu”, minha mãe continuou amicíssima de sua irmã mais velha, tia Maria. Até hoje, sempre acabamos indo passar alguns finais de semana em sua casa ou sou levado para o litoral da cidade, onde mora a família de meu pai. Foi lá que conheci meus avós, meus tios e meus primos. De toda essa parte da família, apenas tia Maria mora na capital, sendo quase vizinha de nós... Pelo menos era, até antes de nos mudarmos para a nova casa.
Tia Maria mora com seu primeiro e único marido, Nando, e Beatriz, sua única filha. Apesar de passarmos bastante tempo juntos (um dos únicos lugares para onde mamãe costuma sair é para a casa dela), o convívio deles comigo não é dos melhores. Beatriz, por algum motivo que desconheço, me odeia e sempre me coloca nas piores situações possíveis perante minha mãe. Tio Nando... Bom, esse aí nunca gostou de mim mesmo, exatamente como sua filha. Provavelmente só me aceita por conta de tia Maria; que parece gostar de mim apenas por pena, como se se sentisse culpada e quisesse preencher o buraco que meu pai deixou.
Abandono os pensamentos sobre isso que chamo de minha família e retiro-me da mesa sem terminar o chá. Pego uma toalha limpa na lavanderia e sigo até o banheiro para me banhar.
Enquanto a água quente cai sob meu corpo nu, todos os minutos anteriores se repetem em minha cabeça.
Não gosto de tratar mamãe dessa forma, mas estou farto de tudo o que ela vem fazendo e quero mostrar o quanto estou chateado com isso. Odeio os finais de semana porque ela não trabalha, ou seja, são nos finais de semana em que ela bebe até a última gota de cerveja disponível em casa... Isso quando não compra mais em algum bar de esquina. Sei que não está certo. Eu deveria gostar dos finais de semana porque deveria ser nesses dias em que sairíamos para nos divertir; ir a um parque, ao zoológico... Deveria ser nesses dias em que agíssemos como uma família. Como uma verdadeira família.
Termino meu banho, me arrumo e, de longe, me despeço.
No caminho, conecto os fones de ouvido de volta ao celular e vou escutando música para relaxar. Depois que chego ao cinema, escolho o filme que começa mais rápido: Os Miseráveis. Não sabia que era um filme totalmente musical até se passaram mais de quinze minutos e ninguém falar qualquer coisa sem cantarolar. Até o final das duas horas que se seguem, já estou apaixonado pela história.
Quando termina, olho a hora e vejo que ainda são três horas da tarde. Acabo decidindo assistir mais um e, dessa vez, leio a sinopse antes. Escolho O Lado Bom da Vida. No final das contas, fico sem saber se não é falado qual é esse lado ou se eu que não entendi, mesmo.
Talvez esse lado não exista... Pelo menos, não em minha vida.
Passo na livraria e compro o livro de mesmo nome do primeiro filme. Começo a lê-lo assim que entro no metrô. A viagem não é tão longa quanto fica parecendo quando noto que já estou na parte em que Jean Valjean é lembrado pelo bispo da promessa que fez – ele deverá usar a prata que lhe foi dada para se tornar um homem honesto –, e uma voz dentro dos alto-falantes do vagão anunciam que a próxima estação é a qual devo descer.
Espero no ponto de ônibus que me levará de volta para minha casa enquanto leio mais um pouco e torço para não estar esperando o ônibus errado.
Meu celular apita. Tiro-o do bolso e aperto alguns botões, que logo se transformam em outros na tela de vidro do aparelho, até acessar minha caixa de mensagens. Há três novas mensagens, todas de Beatriz.
Continuo olhando para tela quando clico em “LER”.
Vem para sua casa, rápido!
A segunda e a terceira dizem a mesma coisa:
Cadê você? Venha logo!
O ônibus chega e sou um dos primeiros a adentrá-lo. Escolho um lugar para sentar e acabo me distraindo com a leitura, esquecendo-me das mensagens até já estar na metade do caminho.
Respondo dizendo que estou chegando e pergunto se algo aconteceu. Ela não responde.
Começo a imaginar tudo o que pode ter acontecido até chegar a conclusão de que, provavelmente, é apenas algo sem muita importância; que talvez mamãe vá sair para beber e Beatriz esteja em minha nova casa com seus pais, que vieram buscar a mim e Jade para passarmos o fim de semana em sua casa mais uma vez.
Depois de finalmente descer do ônibus e quase me perder por entrar na rua errada, chego à esquina da rua de casa. As ruas parecem ficar mais sombrias e difíceis de serem encontradas e reconhecidas agora à noite, no escuro.
Vejo Beatriz parada no portão. Ela faz um gesto com a mão para que eu corra. Já estou próximo o bastante para ver seu rosto pálido e poder falar sem ter que gritar para ela me ouvir quando tia Maria aparece no portão.
— O que foi que aconteceu? — ela não responde. Olho para sua mãe. — Tia, o que está acontecendo?
Beatriz estica os braços para me abraçar. Ela nunca me abraça, nem mesmo quando ficamos muito tempo sem nos ver... Como se isso fosse possível, diz minha voz para mim mesmo.
Alguma coisa está errada.
— Você precisa ficar calmo, entendeu? — Beatriz orienta enquanto me abraça. Ninguém com um cérebro pode pedir para outra pessoa ficar calma. Isso só deixa qualquer um mais nervoso.
Começo a ficar realmente preocupado quando ouço o choro de uma criança dentro de casa... Jade.
— Tia, o que houve? — pergunto, soltando-me de Beatriz e parando com a falsidade.
Ela não dá voltas:
— Sua avó morreu.
Começo a me sentir mal, como se fosse ter um ataque de asma. Inspiro o ar e não consigo expirá-lo. Inspiro outra vez, de novo e de novo. Beatriz volta a esticar os braços, mas, dessa vez, não me movo para retribuir o gesto.
Quando consigo expulsar todo o ar que se alojou dentro de meu corpo a cada inspirada, tudo se esvai de uma só vez e começo a chorar. Lágrimas escorrem pelo meu rosto como se alguém tivesse aberto uma torneira. Soluços começam a aparecer, numa tentativa de me afogar-me no choro.
Ainda parado no meio-fio, viro meu rosto e olho para dentro da casa. Mamãe está parada na porta de entrada com um cigarro na mão. Pela cara inchada, ela já chorou tanto quanto eu... E parece ter bebido também.
Seu celular começa a tocar. Ela atende.
— Ela morreu, minha mãe morreu! — ela berra com a pessoa do outro lado da linha.
Vizinhos começam a sair de suas casas para darem uma espiada no que está acontecendo.
Enquanto continuo chorando e tentando voltar a respirar normalmente, pergunto-me como tudo aconteceu; como vovó morreu.
Ela tinha cinquenta e dois anos; o que considero jovem para uma avó. Em sua cabeça não havia um fio branco sequer, todos sempre amarelos. Seus olhos eram verdes e claros como os meus. Ela era saudável e não tinha doença alguma. Trabalhava como pediatra em um hospital particular e em um público. Ela até namorava.
A pessoa com quem mamãe gritava ao telefone alguns segundos através deve ter feito a mesma perguntando que eu, pois o próximo grito que ouço responde minha pergunta e eu desmaio.
— Minha irmã a matou!
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