O ano em que eu me apaixonei pelo Paulo Guerra
4 Em chamas
Notas iniciais
Domingo, 10 de Janeiro
1 viagem emocionante, 250 momentos constrangedores e desconfortáveis (péssimo), 0 motivos pra quebrar o juramento contra os garotos (tanto faz), 1 caixa de lenços (ótimo, já que dizem que chorar faz bem)
20h45. Não sei muito bem como definir a viagem à Ilhabela. A minha única certeza nesse momento é a de que eu estou cada vez mais perdida. Vamos aos fatos.
Na sexta-feira, todo mundo levantou cedo, com a exceção do Caio, lógico, que fez com que a gente pegasse a estrada já quase depois do meio dia. Enquanto esperava a boa vontade do meu querido irmão — me contorcendo da cabeça aos pés pra não puxar ele pela orelha e arrastar até o carro — aproveitei pra dar uma passada rápida na casa da Carmen e pegar o volume 2 de Jogos Vorazes. Não demorou muito e eu já estava de volta, porém dessa vez as coisas aparentemente estavam caminhando pra que a gente finalmente partisse.
Chegamos em Ilhabela cerca de duas da tarde, depois de termos parado três vezes pro Caio fazer xixi e uma quarta no Drive Thru pra pegar uns sanduíches no McDonalds — minha família, como sempre, muito preocupada com a saúde. Comemos no carro, admirando os primeiros matinhos na beira da estrada e ouvindo música country. O cheiro de estrume estava ficando cada vez mais forte mas eu fiz tanta força pra não permitir que nada estragasse aquele dia que nem me importei.
O condomínio onde a gente se hospedou ficava de frente pro mar e a vista era a coisa mais linda que eu já vi na vida. Gaivotas cantando ao longe, brisa suave no rosto, paz, tranquilidade e uma ótima chance de recuperar o juízo. Enfim, estávamos no paraíso. Pelo menos era o que eu pensava.
Depois de andarmos quatro intermináveis lances de escada e espalharmos nossas bagagens pelo chão do apartamento feito dois desesperados, eu e Caio decidimos colocar nossos trajes de banho e descer pra dar um mergulho na piscina. A tarde estava maravilhosa e cada segundo era precioso demais pra ser desperdiçado com qualquer coisa que não fosse divertida.
O melhor de estar longe de casa era saber que ninguém ali me conhecia. Sendo assim, eu poderia vestir o meu maiô à vontade, sem ter que me preocupar com a opinião dos outros, afinal de contas depois dali nunca mais veria nenhuma daquelas pessoas. Desci as escadas confiante, tendo em mente que nada no mundo poderia estragar o meu dia, enquanto assistia o meu irmão correndo em disparada pra chegar primeiro. Mal sabia eu que aquele seria o meu último segundo de paz.
Finalizando o último lance de escada, com o corpo prestes a desabar e transpirando horrores, percebi que haviam duas pessoas na piscina. Ué — pensei — de onde surgiram esses dois intrusos? Mas até ali tudo bem. O condomínio não era só meu — mas bem que poderia ser — e provavelmente estaria lotado de outras famílias. O problema, porém, não era o fato de haver mais pessoas na piscina, até porque tinha espaço de sobra pra todo mundo. Acontece que, quanto mais eu me aproximava da borda, mais forte se tornava a impressão de que eu conhecia aquelas duas silhuetas que brincavam aos gritos na água. Foi então que eu parei, completamente em choque, duvidando do que os meus olhos insistiam em me contar. Aquilo não poderia estar acontecendo comigo. Aquelas duas crianças eufóricas eram nada mais nada menos que Paulo e Marcelina Guerra.
A primeira coisa que pensei foi: EU PRECISO DAR O FORA DAQUI AGORA! Nem morta que eu ia aparecer de maiô na frente do Paulo. Seria a maior vergonha do mundo. Por sorte, eles ainda não tinham me vista, então dei meia volta e caminhei apressada em direção a escada. Eu só tinha esquecido de uma coisa…
– Ué... Onde o Caio se meteu? — pensei aturdida.
– Licy, olha só quem ta aqui! Aquela sua amiga da escola! — gritou a coisinha irritante o qual dizem ser meu irmão.
Droga, droga, droga, mil vezes droga! Aquele pirralho tinha acabado de destruir completamente a minha vida social. Olhei pra trás e vi a cara de emoção da Marcelina ao me ver ali. Em outros tempos, seria muito legal ter encontrado com ela do nada em um lugar tão lindo como aquele. Mas acontece que depois do beijo, da mensagem e da discussão na porta do banheiro, eu não queria, em hipótese alguma, dar de cara com o idiota do Paulo em qualquer situação que fosse. O que eu não conseguia entender era por que aquilo estava acontecendo comigo. POR QUE JUSTO COMIGO?
Sem coragem alguma de fingir que não tinha ouvido o grito estrondoso do meu irmão, tornei a caminhar em direção à piscina a fim de acabar logo com todo aquele drama. Lá no fundo, Paulo se apoiava diante da borda — será que estava vindo me cumprimentar? — e deu pra ver o short maravilho que estava vestindo. Infelizmente, eu preciso confessar que me sentia ligeiramente — ok, talvez um pouco mais que isso — atraída por aquela imagem. Ele era um garoto muito bonito. Pena que dentro daquele corpo tinha uma alma podre e um coração de pedra.
– Oi, amiga! Que coincidência, não é mesmo? — falei tentando disfarçar a vergonha que me corroía por dentro.
– Alícia! Que bom te encontrar aqui! Entra logo, a água tá perfeita!
A essa altura, o Caio já estava lá dentro, agarrado a uma boia — que eu não faço a mínima ideia de onde surgiu — tentando aprender a nadar sozinho. Olhei pros lados e senti falta de alguma coisa.
– Peraí, cadê o P…
O idiota, imbecil, retardado e maldito do Paulo me empurrou em cheio na água, fazendo todo mundo — tudo bem, só tinha a Marcelina e o meu irmão ali além de nós dois — rir da minha cara. Em seguida, ele correu até o outro lado e pulou, parecendo um mergulhador profissional, exibindo habilidades que eu até então desconhecia. Depois veio nadando até onde eu estava — ainda tentando tirar toda a água que tinha entrado no meu ouvido — e sorriu como se nada tivesse acontecido entre nós desde a virada do ano.
– Oi, estranha.
Estranha??? Como assim??? Aquele garoto estava ficando a cada dia mais doido da cabeça. Fingi que não era comigo e comecei a conversar com a Marcelina sobre qualquer coisa. No decorrer da conversa, vi com o canto do olho que ele estava ensinando o meu irmão a nadar e não tive como deixar de achar aquilo a coisa mais fofa do mundo. Os dois se pareciam tanto. Não tinham medo de nada, eram travessos e sabiam muito bem como acabar com o meu dia em poucos segundos. Vai ver todo irmão era daquele jeito.
Um pouco antes de anoitecer, minha mãe apareceu na janela do apartamento e pediu que subíssemos pra tomar banho. Antes de ir, combinei com a Marcelina de nos encontrarmos mais tarde no deck. Paulo se despediu do meu irmão com um cafuné na cabeça — oi?? como assim, gente?? — e em seguida cochichou algo no ouvido dele, enquanto apontava para mim. Será que estavam rindo do meu maiô? Das minhas pernas finas? Seja como for, mantive a postura e levei Caio comigo.
– O que o seu amiguinho falou pra você? — perguntei enquanto estávamos no meio do caminho.
– Ele disse que você parece um pelicano assustado.
Ok, agora ele tinha conseguido me tirar do sério. E o pior de tudo é que eu ia ter que ficar ali, aguentando todo o tipo de humilhação possível, até domingo. O paraíso se transformou em inferno e a promessa de paz e tranquilidade foi embora levando consigo a minha vontade de viver. Tudo bem, eu admito que sou bastante dramática, mas esse menino já tinha passado dos limites. ALGUÉM ME TIRA DESSE LUGAR POR FAVOR!
Depois do jantar, esperei Caio sair da vista e fui até o deck. A noite estava calma e silenciosa, com umas poucas pessoas fazendo barulho na piscina e grilos, muitos grilos. A Marcelina já estava lá me esperando, escrevendo alguma coisa num caderninho que parecia um diário — outra coincidência, será?
– O que você ta escrevendo aí? — perguntei enquanto puxava uma cadeira pra sentar. Estávamos numa mesa um pouco mais afastada da piscina, onde dava pra observar as pessoas se divertindo ao longe.
– Nada demais — respondeu assustada.
Se não era nada demais, por que será que ela guardou o caderno tão rápido? — pensei. Bem, ela já vinha aparentando estar estranha desde um bom tempo — desde a festa de ano novo, pra ser mais exata — e eu não aguentava mais ficar sem saber o que estava acontecendo.
– Marce, você tá tão estranha ultimamente. Aconteceu alguma coisa?
Ainda bem que eu perguntei, senão talvez eu tivesse perdido a única chance de saber que ela tinha ficado com o Mário na festa da Maria Joaquina. Inclusive fiquei chocada.
– Como foi isso, amiga? Me contaaaaa! — ufa, até que em fim alguma fofoca pra me fazer esquecer da minha história com o Paulo.
– Foi tudo muito rápido — enquanto falava, seus olhos brilhavam como se estivessem revivendo um momento muito bom. — A gente tava com medo do Paulo aparecer.
Hahaha. Se ela soubesse onde o irmão dela estava… Mas será que eu devia abrir o meu coração também? Enquanto eu decidia se contava alguma coisa ou não, ela começou a detalhar como tudo aconteceu, como se nós fôssemos grandes amigas. Ai droga, acho que vou ter que contar também.
– ...nessa hora a gente tava com o rosto quase colado um no outro, sem dizer nada. Foi naquele mesmo quartinho de limpeza onde nós duas ouvimos a conversa dos meninos, lembra?
– Claro que eu lembro. Nossa, você é esperta hein. Aquele era um ótimo lugar pra beijar alguém sem ser vista — não tão melhor quanto o muro do vizinho, mas tudo bem.
– Na verdade foi ele que me levou até lá dizendo que queria me contar alguma coisa antes da queima de fogos. Eu não fazia ideia do que era. Achei que fosse me perguntar sobre a Maria Joaquina. Aí, do nada, ele começou a dizer que me achava muito bonita e que sempre quis ter um momento a sós comigo.
Ela parou de falar de repente, como se lembrar daquilo tudo a entristecesse de alguma forma. Foi então que eu resolvi abrir o jogo com ela. Em poucos minutos estávamos rindo de nós mesmas, guardando segredo uma da outra esse tempo todo e sofrendo sozinhas. Depois ela me contou que o Mário tinha ignorado ela no dia seguinte e fingido que nada aconteceu. Foi então que eu entendi porque ela estava com tanta raiva dos meninos, assim com eu e a Valéria. Pelo menos agora, mais do que nunca, eu tinha uma amiga pra contar os meus segredos.
Não demorou muito pra minha mãe me mandar uma mensagem pedindo que eu fosse dormir. Nós nos despedimos e juramos nunca mais sofrer caladas, além do mais éramos garotas unidas e juramentadas. Antes de sair, combinamos que aquilo ficaria somente entre nós. A Valéria estava completamente descontrolada e poderia muito bem ferrar ainda mais com os nossos problemas amorosos.
A manhã de sábado foi perfeita. Eu, Caio, Marcelina e Paulo acordamos bem cedo e passamos boa parte do tempo brincando juntos na piscina. E mesmo com toda aquela torta de climão entre eu e o Paulo, nós fizemos o máximo de esforço pra não transparecer que havia alguma coisa errada. O Caio parecia um peixinho nadando de um lado para o outro, e tudo graças ao seu mais novo amigo — e, quem sabe um dia, cunhado.
De tarde eu e a minha família saímos pelos arredores buscando tirar umas fotos e aproveitar um tempo juntos. Até o meu pai estava contente com a viagem. Ao que tudo indicava, tudo estava voltando ao normal e a promessa de felicidade crescia novamente em nossos corações — lá vai eu sendo brega, mas dessa vez era por uma boa causa.
Quando retornamos ao condomínio, vi que o carro da família Guerra não estava mais ali. Será que tinham ido embora de repente? Mandei uma mensagem pra Marcelina mas ela não me respondeu. Talvez tenham saído pra comer fora — pensei. Subi para o meu quarto e comecei a ler "Em Chamas", o segundo volume de Jogos Vorazes. Em pouco tempo já estava perto da metade e resolvi pausar a leitura pra comer alguma coisa. Saímos pra jantar em um restaurante que ficava na esquina do condomínio, ainda de frente pro mar. Aquilo sim era um momento inesquecível: um prato de camarão ao molho, peixe frito e purê de batata — ai meu deus, será que substituíram o meu estômago pelo da Laura?
Se não fosse pelo fato de a noite ter terminado com uma guerra de comida entre eu e o Caio, o que nos levou a ficar de castigo até o dia seguinte, talvez eu tivesse ficado mesmo no meu quarto terminando a minha leitura. Mas, como sempre acontece quando sou impedida de fazer alguma coisa, senti uma vontade enorme de desobedecer e escapar. Em pouco mais de três minutos, tempo suficiente pra passar despercebida pelo quarto dos meus pais e pela sala, onde Caio estava vendo tevê, — isso mesmo, enquanto eu fico trancada no meu quarto, o castigo do Caio era FICAR VENDO TEVÊ — abri a porta sem fazer barulho e desci os dez mil degraus da masmorra onde estava presa.
Para a minha surpresa, lá embaixo estavam Paulo, com uma mochila enorme nas costas, e Marcelina olhando fixos para a escada por onde eu estava descendo. Parecia até que tínhamos combinado de nos encontrar ali.
– Ufa, ainda bem que você apareceu. Nós já íamos te ligar — havia uma certa tensão na voz da Marcelina.
– Aconteceu alguma coisa? — perguntei assustada.
– Eu e o Paulo vamos até a praia fazer uma fog…
– Xiii… Fala baixo sua tampinha! — cortou Paulo sem um pingo de delicadeza. — E então, estranha, você vem com a gente ou não?
De novo essa história de estranha? Bem, seja como for, a ideia me parecia muito interessante. O difícil seria conseguir sair àquela hora da noite mas, pelo visto, os dois tinham tudo muito bem planejado. Eu não tinha notado mas do lado do portão principal tinha uma portinha onde colocavam o lixo. Para a nossa sorte, naquele dia o lixo tinha sido completamente esvaziado, tornando a escapatória ainda mais fácil.
Chegando na praia, nós duas sentamos na areia enquanto Paulo tirava algumas coisas da mochila. Na nossa frente foram enfileirados alguns pedaços de madeira, um vidro de álcool e uma caixa de fósforos — sabe-se lá onde eles arranjaram aquilo tudo.
A brincadeira estava ficando cada vez mais séria. Nós três demos um jeito de arrumar a lenha como nos filmes e ateamos fogo com todo cuidado. Em pouco tempo tínhamos uma linda fogueira à nossa frente, coberta por um céu repleto de estrelas e com a vista para o mar. Aquela era uma das cenas mais lindas que eu já tinha visto em toda a minha vida.
Ficamos até tarde rindo dos nossos pais, achando que estávamos dormindo, e lembrando de alguns amigos que poderiam estar ali com a gente. O tempo foi passando e aos poucos notamos que a Marcelina estava cada vez mais quieta. Depois ela deitou a cabeça no colo do Paulo — era a primeira vez que eu via os dois como irmão e irmã — e pediu pra que a gente continuasse conversando. Será que tudo aquilo fazia parte de um plano dela pra me deixar à sós com ele? Se for, ela atuou muito bem porque em poucos instantes tinha pegado no sono pra valer. De repente éramos só eu e ele no meio daquele cenário lindo e romântico.
Ficamos em silêncio por um bom tempo. Eu observando as estrelas e ele procurando outro lugar pra apoiar a cabeça da Marcelina. Após alguns minutos sem se mexer, ajeitou a mochila da forma mais confortável possível e forrou a cabeça da irmã. Em seguida, afastou os pés dela para o lado contrário à fogueira e se levantou. A princípio eu fiquei parada, esperando algum sinal da parte dele — nem morta que eu ia me iludir à toa achando que aquilo era um convite pra qualquer coisa.
– Vai ficar aí? — ele perguntou olhando nos meus olhos.
– Ué, e pra onde eu iria? — respondi esperando que ele erguesse o braço pra me ajudar a levantar.
– Você que sabe — falou e seguiu na direção do mar.
Eu sabia que não deveria ir atrás, mas alguma coisa dentro de mim estava gritando para que eu me arriscasse, como se não tivesse mais nada a perder. Levantei sozinha e fiquei observando ele se molhando. Parecia uma criança entrando no mar pela primeira vez. Aguentei mais alguns segundos parada até que ele fez um gesto com a mão, me convidando pra perto dele.
As ondas estavam mais fracas do que o normal e o vento frio fazia os nossos corpos tremerem. Mesmo assim, nos divertimos por um bom tempo naquela imensidão escura e silenciosa. Éramos como dois bons amigos, rindo, pulando e jogando água na cara um do outro. Com o tempo fomos ficando cansados e decidimos voltar pra perto da fogueira. Ao ver que eu estava tremendo de frio, tirou com cuidado uma toalha da mochila, sem acordar a irmã, e sentou do meu lado fazendo com que nós dois ficamos embrulhados.
Olhei pra ele sem dizer nada — era extremamente difícil arranjar alguma palavra no meio daquela confusão toda de sentimentos — e percebi que ele também não sabia o que dizer.
– Por que você ta me olhando desse jeito? — ele perguntou me deixando completamente constrangida.
– Porque você é a pessoa mais inconstante que eu conheço. Um dia me beija como se sentisse alguma coisa por mim e no outro me manda uma mensagem como se aquilo não tivesse significado nada. E agora me abraça ao redor da fogueira como se…
– Como se o quê?
O que ele queria que eu dissesse? Que a gente parecia um casal? Que naquele momento ele parecia gostar de mim de verdade? Tirei o braço dele do meu ombro e fui me afastando devagar. Não era justo comigo mesma ficar naquela posição, sabendo que no dia seguinte ele iria fingir que não havia acontecido nada entre a gente.
– Eu não sei o que sinto por você. A gente sempre foi amigo e… — ele continuou.
– E o quê, Paulo. Fala logo.
– E eu não queria estragar a nossa amizade. Talvez a gente devesse só…
Eu não tava acreditando no que aquele idiota tava dizendo. Como assim de repente a gente é só amigo? Depois de toda aquela noite juntos! Mais uma vez eu tinha sido a trouxa da história. Ai que ódio!
– Quer saber de uma coisa, tá na hora da gente entrar. Os nosso pais já devem estar preocupados — falei enquanto me preparava pra levantar.
– Espera um pouco — ele disse, chegando bem perto e segurando o meu braço.
– Esperar o quê? Você mesmo disse que a gente é só…
Ele calou a minha boca com um beijo. Dessa vez, um bem mais suave e molhado que o primeiro. Ao me dar conta de que estava caindo na mesma armadilha, empurrei ele pro lado e me levantei às pressas.
– Eu vou entrar. Boa noite pra você — falei ríspida olhando pra cara de coitado dele.
– Me ajuda ao menos a apagar a fogueira…
Apaguei o fogo depressa enquanto ele acordava a Marcelina sem um pingo de delicadeza. Andamos os três em silêncio até o condomínio e passamos pela porta de colocar lixo. A essa altura, eu seguia na frente sem me importar com mais nada a não ser em deitar na minha cama e esquecer aquela noite. Quando entrei no apartamento, vi Caio dormindo no sofá, tremendo de frio. Desliguei a tevê, peguei ele no braço e levei até o quarto. Depois entrei no meu e capotei. Alguma coisa no meu coração doía insuportavelmente — e eu juro que dessa vez não estou sendo brega.
Hoje, pela manhã, acordei sem saco pra curtir o último dia de viagem. Fiquei no quarto lendo Jogos Vorazes até a hora do almoço e depois desci com a minha família pra comer alguma coisa pelas redondezas. Não havia sinal algum dos Guerra, como se eles nunca tivessem estado ali.
Voltamos para o apartamento no final da tarde, depois de darmos uma volta enorme por todos os lugares que ainda não tínhamos visitado. Por fim chegou a hora de partir, o que pra mim era mais que um alívio. Minha mãe ficou com Caio na piscina até o último minuto, assistindo emocionada o filho nadando pela primeira vez, enquanto eu e o meu pai colocávamos as malas no carro.
Chegamos em casa no início da noite, totalmente acabados. Pensando bem, a viagem teve momentos excelentes, dignos de ótimas lembranças, mas alguns deles eu prefiro deixar enterrados no fundo da memória. Enquanto escrevo, algumas lágrimas caem e mancham o papel. No meu celular tá tocando uma música de um cantor chamado Cícero que diz:
"Se tu soubesse como machuca, não amaria mais ninguém."
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