O aniversário de Luthién Nogard
1 Capítulo 1
A cidade de Forte Maximillius estava em polvorosa. Uma das poucas ocasiões onde se via aquele lugar tão movimentado, cheio de comerciantes vendendo joias, tecidos e todo sortilégio de presentes. Afinal, era uma data especial. A princesa e sucessora do trono dos Maximillius, Luthién, estava prestes a comemorar seu décimo nono aniversário.
Toda a realeza estava meticulosamente planejando aquilo que seria uma festa tão épica que faria inveja aos festejos de quatro anos atrás, quando a princesa completou 15 anos e realizou um rito de passagem, sendo condecorada como a mais jovem aprendiz a dominar a magia de vento, considerada a mais poderosa magia elemental que existe. Os cozinheiros se desdobravam para fazer os doces e quitutes, bebidas e tudo mais. Forte Maximillius era uma cidade bastante conhecida pelos viajantes e pelos aventureiros que volta e meia se metiam a explorar os arredores, instigados pelas diversas histórias que sempre ouviam.
Luthién Nogard era uma garota que estava dentro dos padrões de beleza daquele local. Possuía uma pele alva, os cabelos castanhos, pendendo para o tom de ruivo, e os olhos verdes (Uma quase Aeris Gainsborough), embora bastante bonita, estava longe de ser considerada perfeita – pelo menos o que ela realmente considerasse como sendo uma pessoa linda...
... Um rapaz de cabelos longos e aparência andrógina que volta e meia costumava prestar favores para os membros da realeza, e que cuja afeição por Luthién era tanta que ela sempre retribuía sua atenção com um carinho quase exagerado. Chris Falcon, um praticante de uma arte marcial chamada Amakura-Ryu Ninjutsu, havia se tornado íntimo de Luthién por ser o único ser vivo na face da terra capaz de enfrentar abertamente um vampiro que constantemente lhe causava dores de cabeça.
Enquanto passeava calmamente pelos inúmeros labirintos de tendas de roupas e adornos, o rapaz procurava algo em especial. Não era nenhum colar ou nenhuma daquelas vestimentas orientais, Yukatas ou Qipaos, coisas tão exóticas que Luthién parecia devorar com os olhos quando avistava mesmo que de relance. Sem se dar conta daquela euforia toda, e com algo em mente, Chris calmamente caminhava pelas tendas, e enquanto as pessoas pechinchavam por vestidos e roupas luxuosas, ele apenas procurava por coisas simples. Era talvez, a única pessoa interessada em comprar coisas como leite, ovos, farinha e chocolate quando praticamente a cidade inteira se degladiava por vestidos e ternos de popeline.
Enquanto Luthién estava ajudando seus serviçais com os toques mais delicados da decoração do palácio, ela não conseguia parar de pensar em uma única coisa: saber se aquele ninja de traços afeminados que parecia deixar a garota nas nuvens iria aparecer pra visita-la durante a comemoração. Quando seus pensamentos foram interrompidos por uma risadinha, ela simplesmente se virou na direção de dois serviçais que deixaram de lado seu serviço de arrumar as bandejas de bombons.
*PLÉIM!*
— Algum problema, alteza? — Um deles perguntou, enquanto passava a mão sobre o galo que havia se formado de uma maneira quase cômica.
— Não quero ver vocês conversando, temos um dia cheio pela frente! – Luthién estava visivelmente irritada com aquela interrupção. Além disso, pelo tom das risadas, algo muito sério parecia ter a incomodado mais.
— Desculpe alteza, mas... – O outro serviçal respondeu em tom de deboche – É difícil trabalhar sabendo que você está mais preocupada com o garoto raposa, se é que ele pode ser chamado de garoto...
A princesa fitou os dois com um olhar enfurecido, bastou apenas uma breve provocação para que eles voltassem correndo a seus postos. Mais calma, ela suspirou, olhando a janela.
— Eles estão certos... – Suspirou. – Eu realmente adoraria vê-lo aqui. Depois de tudo que ele me fez... quero ser a primeira pessoa a dançar com ele! – Ela já sorria, sonhando acordada. Se Chris estivesse vendo aquela cena, iria ficar tão acanhado que seu rosto ficaria vermelho por uma semana.
Enquanto isso, Chris Falcon aproveitava e abusava de seus dotes culinários, uma especialidade que aprendeu a admirar e dominar graças à influência de sua mentora, Suelo. Aos poucos, bandejas de prata foram ficando recheadas de cupcakes, e tão logo terminou de arrumar os doces, deu os últimos retoques em um generoso peru assado.
— Meninas, podem me ajudar aqui? – Perguntou, com uma voz dócil e um sorriso em seu rosto capaz de fazer até mesmo uma súcubo se apaixonar por ele. As maids seguiram em sua direção, estavam tão animadas pela presença dele que tão logo saíram de perto, carregando as bandejas com cupcakes, começaram a murmurar.
— Esse que é o tal Chris? – Uma delas perguntou. Marie Rose, uma garota de cabelos louros e cacheados, olhos castanhos, carregava um brilho nos olhos de tanta admiração. Não era difícil entender qual o segredo de ser tão adorado pela princesa. Prestativo e com um senso de humor único, bastaram apenas alguns momentos de intimidade com Luthién para que ambos formassem um laço afetivo tão intenso. Além disso, usou seus conhecimentos ninja em várias ocasiões, sem ter qualquer pudor de manchar as mãos de sangue quando preciso.
Marie Rose, e a outra maid, Pauline, trocavam entre sussurros, elogios dos quais iriam fazer com que ele ficasse com torcicolo de tanto que iria virar o rosto acanhado. Embora já estivesse habituado a tratar Luthién com um jeito extremamente dengoso, quase que com uma admiração infantil, bastava ela mencionar o quanto adorava o aroma adocicado de incenso que seus cabelos possuíam ou dizer o quanto aqueles traços femininos de seu rosto o deixavam bonito.
Tudo isso inflamava seu ego de tal forma que seu espírito guerreiro se manifestava no primeiro sinal de hostilidade. Havia se acostumado a acompanha-la em caravanas e viagens, quando repousavam em moradias reais, não havia outro meio de mantê-lo tranquilizado que não fosse dormir sobre o colo dela e sentir o leve toque de seus dedos a acaricia-lo.
Após carregar aquela enorme ave, sozinho, uma coisa que já estava acostumado a fazer graças a seu intenso treinamento, ele viu a princesa a olhar pela janela, e a chamou calmamente enquanto ela parecia pairar em pensamentos.
— Lu-chan?
Luthién se virou de costas e quando viu o rosto de Chris, havia acordado de um transe e ficou praticamente eufórica ao ver sua face andrógina.
— Raposinha! – O abraçou forte, sorria deitando a cabeça em seu ombro – Você vem na minha festa, não vem?!
Chris sorriu e acariciou os cabelos dela, depois olhou em seus olhos depois que ela parecia esmagar suas costelas com aquele abraço.
— Claro, afinal de contas, é seu aniversário, e eu quero ter a certeza de que vou celebrar junto de você! – Quando terminou, uma mudança curiosa aconteceu em seu corpo. Um par de orelhas e uma cauda de raposa haviam surgido em seu corpo. Porém, aquilo não passava de mero fanservice, já que praticamente ninguém ali naquele lugar fora a princesa que pudesse cativar o ninja daquela forma.
Ao ouvir aquelas palavras, ela sorriu e o abraçou forte mais uma vez. – Aiii! Você sempre tão lindinho, sempre dizendo essas coisas... você realmente sabe como me animar, sabia? E essas orelhas... – Ela respondeu, se derretendo toda ante a sua presença.
Claro que, naturalmente, o que mais interessava naquela cena de afeto exagerado eram os risinhos e murmúrios entre os servos. Bastava apenas uma insinuação jocosa e Chris era tomado pela timidez. Depois que ficaram conversando por alguns minutos, o ninja havia deixado o palácio e estava cuidando das decorações do lado de fora. Foi quando um dos serviçais se aproximou dele.
— Ah, você está aí, cara! – Disse, dando um tapinha em seu ombro.
— Ah, o que foi?
— Que inveja de ver você e a princesa, hein? Precisa me ensinar essas coisas.
Naquele instante o rosto de Chris havia ficado com as bochechas rosadas. Por mais que ele adorasse Luthién, bastava apenas uma breve insinuação e pronto, sentia como se todos estivessem na expectativa que ambos fossem se casar ali mesmo. Foi lentamente ficando irritadiço com aquele comentário.
— Pra que exatamente você quer aprender essas coisas, afinal? A arte ninja é uma coisa muito séria!
— Ora, cara, é fácil! Tá certo que eu não tenho essa tua cara de menino-fada, mas... Olha só. Você consegue fazer uma donzela de sangue nobre te tratar com a maior intimidade do mundo, peita uma meia dúzia de vampiros de alta periculosidade... Cara, sério! Olha a situação privilegiada em que você tá! Você pode ter um reino só pra você... E uma noiva bem gatinha, se é que me entende.
Aquilo fez com que seu sangue fervesse de tal forma que o rapaz andrógino prendeu o serviçal em uma chave de braço, e pelo tom de voz altamente intimidador que veio a seguir...
— Primeiro, nunca mais me chame de “menino-fada”. – Respondeu. – Segundo, eu não estou interessado em privilégios ou em ser regente de nada. Terceiro, eu não quero que você diga esse tipo de coisa sobre a Lu-chan na minha presença. Entendeu?
O serviçal já estava quase sem ar quando assentiu com a cabeça. Chris o soltou e estava tentando se concentrar em seu trabalho enquanto o serviçal recobrava o fôlego.
O dia passou, e quando o crepúsculo se aproximou, uma fervorosa multidão se aproximava da morada real. As ruas de Forte Maximillius estavam rodeadas de pequenas flâmulas e comerciantes aproveitavam o festival que acontecia naquela ocasião. Cantores e Arlequins faziam apresentações inusitadas, divertindo e comovendo as pessoas que saíam aos montes às ruas para celebrar.
Quando Luthién apareceu na morada real, trajando um vestido azul, e o cabelo preso em uma única trança (tal qual a rainha Elsa), todos ao redor faziam questão de admirar o charme e elegância que ela esbanjava ao caminhar calmamente pelos corredores. Acenava vigorosamente a seus súditos e aos moradores que clamavam fervorosamente pela sua presença.
Chris Falcon, por sua vez, permanecia meio que um anônimo na multidão, embora seus trajes orientais e sua aparência denunciassem a presença de tal maneira que era preciso realmente fazer muito esforço para sequer fingir que ele estava ali, mas assim que entrou, foi bem recebido por todos ali. Sentia-se amado e respeitado, e não foram raras as ocasiões em que isso não havia terminado em uma desilusão amorosa, afinal, antes de conhecer Luthién, ele havia tido azar em sua vida sentimental, mas finalmente havia encontrado alguém que parecia respeitá-lo e admirar sua lealdade e gentileza.
A festa seguia animada, com os músicos alegrando o ambiente. A princesa seguia cumprimentando os convidados que a agraciavam com adornos e roupas, perfumes e todo sortilégio de presentes. Quando chegou a vez de Chris dar seu presente, ele deu um sorriso sem graça.
Não havia comprado nenhum presente.
Havia se dedicado tanto a tornar aquele momento tão especial pra uma pessoa que tanto adorava, que mal teve tempo de comprar uma lembrança para o dia em que a princesa ficava mais velha. Os dois seguiram até a varanda, e ficaram contemplando a noite estrelada, vendo as crianças brincarem do lado de fora.
— Desculpa, Lu-chan. Eu...
Ela olhou em seus olhos, viu que ele parecia chateado com alguma coisa. Porém, sorria tão radiante que ele ficou um pouco mais animado ao ver a sua reação.
- Chris. O que você fez hoje, e não só hoje... – O abraçava carinhosamente. – Eu sei, eles trazem presentes caros, perfumes, joias, mas... olha o que você já fez por mim. Você sempre me protegendo e me tratando como uma pessoa de verdade, enquanto eu sempre vivi trancafiada, da academia de magia, pra morada real, todos os dias. Quando saí pra conhecer o mundo e você se pôs na minha frente pra me proteger, mesmo sabendo que eu era apenas mais uma princesa, que parecia que não sabia me defender...
Ele sorria mais e a abraçava carinhosamente.
— Não faço nada demais. O mundo lá fora é perigoso, é verdade, e eu já perdi muita gente que eu gostava muito. E também conheci gente que não presta. Eu só queria ter um lugar pra descansar, alguns amigos pra rir e brincar um pouco, quando eu te conheci, me deu isso e muito mais, Lu-chan!
Luthién riu e deu um beijo em sua testa. – É que não dá pra resistir com esse seu jeitinho de moleque querendo ser um super-herói, mas sabe? Isso é uma coisa que você sempre foi pra mim. Um super-herói, corajoso, incrível... pra quê eu iria querer um monte de tecidos e brincos e pingentes, quando eu tenho alguém que me enxerga como um ser humano, e não como uma joalheria?
— Até porque você não precisa disso pra ser a princesa que você é, já que você praticamente aguenta a minha presença todo dia... – Dizia já com as orelhas e a cauda de raposa balançando.
— Naah, isso é fácil. – Luthién sorria mexendo naquelas orelhas, como se fossem dois pompons de líder de torcida. Com um ninja tão bonito e adorável como você por perto, minha vida deixa de ser uma chatice. Olha pra você! Todo dia fazendo coisas pra me alegrar. Eu acho que é você quem me atura, raposinha!
— Eu acho que o mundo fica mais fácil de se encarar quando estamos juntos, afinal, é pra isso que servem os amigos! – Chris sorriu, olhando o show pirotécnico que se formava no céu. – Eu te amo, Lu-chan, e feliz aniversário!
Ela sorriu e ficou abraçada com ele. Depois de terminada a festa, foram até um bosque próximo à cidade, e fizeram uma fogueira. Ficaram rindo, trocando pequenas gentilezas, e adormeceram juntos. Chris Falcon e Luthién Nogard estavam felizes, ele por ter conhecido uma garota que o motivava a fazer jus à sua classe de ninja, e ela havia nele um grande amigo que via em sua pessoa um ser humano que o inspirava a ser forte e ter um motivo para viver.
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