O amor pode te quebrar?
15 Quando uma voz pode te fazer parar
Notas iniciais
Flashback
Enzo tentava chegar à casa de Malu, andando como qualquer outra pessoa, mesmo estando completamente bebado. Porém, aos olhos de Beatriz, ele estava rodopiando ao invés de andar, e por muitas vezes tropeçava e pedia desculpa aos postes e lixeiras que via pela frente.
—Desculpe! — Pediu, dessa vez é um carro, que para ele parecia apenas uma mulher acima do peso.
—Não sei como me convenceu a vir até aqui. — A morena disse, de braços cruzados e tom de quem estava super irritada. Porém, andando e falando como se estivesse sóbria.
Apesar de não beber muito, Beatriz tinha muita resistência à bebida, coisa que Bianca invejava com todas suas forças.
—Talvez porque você esteja tão ruim quanto eu. — Disse, olhando a garota que estava com uma sobrancelha arqueada. — Quase tão ruim quanto eu.
—Você conheceu essa menina a tipo, uma semana. Por que está tão preocupado com o que ela acha ou deixa de achar de um beijo? Você é solteiro. — Perguntou revirando os olhos diversas vezes durante a frase. — Ah, já sei. Porque ela é especial e deve ser o amor da sua vida, vocês vão se casar ao por do sol em uma praia deserta, se amar muito, aí vão descobrir a cura da AIDS e vocês baterão o recorde dos meus pais em fazer filhos. — Ironizou. — Que linda história de amor!
—Por que eu te contei sobre o beijo? — Enzo perguntou retoricamente, ainda cambaleando pelas ruas.
—Porque se não contasse eu não teria vindo. — Disse a garota de cabelos longos e olhos castanhos. — Eu sei que preferia estar na presença da minha irmã, mas entre vir comigo ou vir sozinho...
—Eu optei pela primeira opção e me arrependi. — O loiro a interrompeu.
—E onde é a casa dessa menina? — Perguntou brava, praticamente gritando.
—Eu... — começou, olhando ao redor e percebendo que nem mesmo se lembrava da casa de Malu. — Não sei exatamente.
—Eu vou te matar. — Exclamou baixo, tentando manter a calma, mas Enzo jurava que havia visto fogo saindo de seu nariz e orelhas. Talvez fosse efeito do álcool. — E agora, bestão, o que a gente faz?
—Sai batendo de porta em porta? — Perguntou tentando aliviar sua barra e dando um leve sorriso, que foi desfeito quando viu o rosto da irmã de Bianca.
Ficaram um tempo ali, conversando sobre assuntos banais e rindo de algumas besteiras que eles diziam. Beatriz observava as ruas desertas e se perguntava que horas seriam. Chutou 04:00, e mesmo não sabendo naquele momento, havia errado apenas por alguns minutos.
Quando viu a primeira pessoa passando, imaginou que fosse mais cedo, afinal, que tipo de ser humano andava nas ruas de madrugada, era perigoso. Foi aí que se tocou, as ruas eram perigosas porque bandidos passavam por lá, isso explicaria a arma na mão do rapaz encapuzado.
—Enzo, não fala nada. — Avisou amedrontada. — A gente tem que sair daqui.
Naquele momento foi como se os dois estivessem em um filme de ação. Se levantaram o mais silenciosamente possível, e começaram a andar devagar, para não chamar a atenção do homem. Mas foi aí que tudo desandou.
Por um milésimo de segundo, Beatriz esbarrou em uma lata de refrigerante jogada no chão, fazendo um barulho quase mínimo, mas que fez o rapaz à sua frente levantar a cabeça e olhá-los.
—Corre! — Enzo gritou, fazendo esforço para não cambalear e puxando Beatriz, que havia ficado em choque por alguns segundos.
Foi o momento mais tenso da vida de Beatriz, mas não se pode dizer o mesmo de Enzo. Talvez o momento mais tenso de sua vida foi quando esperava os exames que o disseram que era portador do vírus HIV, ou talvez quando acordou e Melissa não estava mais ao seu lado, difícil dizer. Mas com certeza aquele momento estaria em sua lista.
Ouviram alguns tiros serem disparados, inclusive um que bateu no vidro de um dos muitos carros que estava ali. Se tivesse olhado direito, Enzo veria que era o mesmo carro que tinha pedido desculpas minutos atrás.
Também não estavam olhando quando viraram uma rua e quase foram atropelados por uma moto que vinha em suas direções.
—Tem um bandido correndo atrás da gente, corram! — Beatriz disse, avisando o motoqueiro e as duas garotas que estavam com ele.
No mesmo momento, o garoto virou a moto e seguiu pela direção contrária, mas Enzo e Beatriz ouviram a garota que estava atrás dizer “sigam a gente”.
Essa hora realmente foi tensa, mas também não foi o momento mais tenso da vida das pessoas que estavam na moto, infelizmente já tinham passado por situações piores.
Os cinco se esconderam atrás de uma casa e foi aí que umas das garotas olhou direito à sua volta e notou quem estava à sua frente.
—Enzo? — Alice perguntou olhando o garoto, que pela primeira vez notou que aquela garoto que o mandou segui-los, era a mesma garota que havia salvado de um estupro dias atrás.
—Meu Deus, que história louca. — Bianca disse enquanto comia uma pipoca que Malu havia oferecido.
—Então eram vocês duas que estavam na moto? — Beatriz perguntou se referindo à Alice e Malu.
—Não exatamente. — Alice respondeu pegando um pouco da pipoca.
—Quem estava na moto era eu. -Sophia disse, respondendo à pergunta de Beatriz.
—E você é... — Bianca perguntou.
—Minha irmã.
—Pera, explica essa história direito. — Enzo pediu com calma.
—Então... — começou.
Flashback
—Eu falei que não era pra beber tanto. — Alice dizia para Malu, que vomitava dentro de um balde, que as duas haviam achado no meio da rua.
—Mas eu não bebi muito. — Disse, tentando se levantar mas sendo impedida pela amiga.
—Bebeu sim, Maria Luiza! — Falou, repreendendo Malu.
—Eu só quero ir pra casa. Vamos pra casa, Ali? — Pediu fazendo bico, e depois vomitando de novo, deixando Alice com uma cara de nojo.
—Eu tenho que ir em casa antes, buscar a Sophia. — Disse, se levantando e puxando a morena à sua frente.— Ela pode dormir na sua casa também? É que a minha mãe vai ficar até de tarde no trabalho e pediu pra gente não dormir em casa com o meu pai.
—Claro que pode. — Respondeu se levantando com dificuldade e começando a andar.
—Querem carona? — Pedro perguntou passando pelas meninas em uma moto que provavelmente seria de sua mãe.
—Sua? Dispenso. — Malu respondeu ao vizinho, que riu.
—E pretendem ir a pé até a sua casa com você desse jeito? — perguntou sarcasticamente. — Olha, se quiserem eu levo vocês, e podem até dar uma passadinha lá em casa. — completou piscando.
—Você não presta mesmo. — Malu falou, revirando seus olhos verdes.
—Anda logo, eu to brincando, acha mesmo que eu vou querer ficar com você? Você já é figurinha repetida, bebê. — Falou rindo.
—Que ótimo, porque pra mim você foi só um contatinho. — Provocou.
—Alice, convence a sua amiga, porque tá tarde e ela tá morta de bêbada.
—Eu não to bêbada. — Começou, mas foi incapaz de terminar a frase porque vomitou no chão.
—Eu disse. — Pedro falou. — Anda logo que minha bondade está acabando.
—Nós três nessa moto? E se ela cair? — Alice perguntou, fazendo o garoto ir.
—O único perigo é vocês se apaixonarem por mim. — Disse.
—Você vai no meio porque eu não quero nem encostar nesse cara. — Malu sussurrou para a amiga.
As duas subiram e ele as levou até a casa de Malu, parando por diversos enjôos da morena.
—Estão entregues. — Pedro disse e as duas desceram.
—Quer que eu vá buscar sua irmã com você? — Ouviu Malu falando para Alice.
—Se quiser eu posso ir com você. — Disse. — Não to fazendo nada da vida mesmo.
—Vai lá, sua casa é longe e já tá tarde. — Malu aconselhou.
—Eu não quero incomodar. — Disse sem graça.
—Vai, não tem problema nenhum. — O garoto disse e ela subiu novamente na moto.
—Se vai comigo é melhor se segurar. — Aconselhou, vendo que a menina não estava se segurando direito, provavelmente por vergonha, e colocando seus braços em volta dele. — Não tenho medo, eu não mordo.
—Seu ex? — Bianca perguntou à Malu, se referindo a Pedro, enquanto comia, dessa vez, brigadeiro. — Se não quer encostar nele, ou ele tem rubéola, ou é seu ex.
—O que é rubéola? — Sophia perguntou, fazendo Alice revirar os olhos com a pergunta besta da irmã.
—É uma doença contagiosa que provoca febre e erupções vermelhas na pele, mas, que normalmente ocorre na infância. — Davi respondeu, fazendo Bianca repetir o gesto de Alice, dessa vez com a extrema “nerdice” do irmão. — Felizmente, o Brasil está livre de rubéola.
—Era só dizer “uma doença”. — Bianca reclamou, terminando de comer o brigadeiro. — Tem alguma coisa pra beber? Um suco? Refrigerante?
—Vou procurar. — respondeu Malu, abrindo a porta da geladeira e tirando uma jarra de suco de maracujá e uma garrafa de refrigerante. — E, não, ele não é meu ex, tivemos apenas um caso. Suco ou refrigerante?
—Suco, é mais saudável, preciso manter a dieta. — Bianca disse, provocando diversas risadas em Beatriz. — O que foi?
—Nada, Bia. — respondeu, tentando parar de rir. — Mas, então, o que aconteceu depois?
—Ah, sim. — Alice falou, lembrando que não tinha terminado de contar a história. — Continuando...
Flashback
—Alice? — Enzo disse, começando a se lembrar dela, afinal, não teria como esquecer da garoto que salvou de ser estuprada pelo próprio pai.
—Vocês se conhecem? Que ótimo, mas lembrem que tem um bandido atrás da gente, não é hora pra conversa. — Pedro ironizou, parecendo bastante irritado.
—Quem é o idiota aí? — Beatriz perguntou, fazendo o garoto revirar os olhos.
Foi quando ouviram o barulho de um tiro, e enquanto Enzo e Bianca voltavam a correr, Pedro ligou a moto e falou para Alice e Sophia subirem.
—Se segurem. — avisou, ligando a moto.
Pedro acelerou o mais rápido que pôde, fazendo com que Alice tenha quase caído, e começou a correr, logo alcançando os dois.
—Querem carona? — perguntou, e Beatriz o olhou como se fosse louco.
—Nós cinco, nessa moto? — perguntou arqueando a sobrancelha.
—É isso, ou morrer. — disse. — Bem, na melhor das hipóteses você pode ser roubada, ou estuprada. Anda logo.
Os dois subiram rápido, e quase caíram quando Pedro acelerou a moto e correu como se sua vida dependesse daquilo. Bem, talvez dependesse.
Foram ruas e mais ruas assim, os cinco, tentando não cair. Não dava pra saber se era pela velocidade exagerada ou pelo fato de serem cinco, em uma moto onde normalmente caberiam dois.
Pedro os levou até sua rua, onde parou em frente à casa de Malu.
—Alice, Sophia, estão entregues. — disse, e as duas desceram da moto.
—Obrigada, Pedro. — Sophia agradeceu sorrindo, coisa que o garoto retribuiu.
—É, obrigada. — Alice falou, dando um leve sorriso, que foi retribuído com um outro sorriso, que na visão dela, era bastante sexy.
—Não tem de que. — exclamou. — Ei, amiguinho da Alice e garota estressadinha, posso deixar vocês em casa, se quiserem.
—Eu não sou estressadinha. — Beatriz disse, soando ofendida, e Enzo arqueou uma sobrancelha, como se dissesse “sim, minha querida, você é”.
—Não precisa não, mas obrigado. — Enzo disse, descendo da moto e ajudando Beatriz.
—Se mudarem de ideia, minha casa é ali, adiós! — disse, se virando, acenando para Alice e Sophia e entrado em casa.
—Adiós, ojos hermosos. — Beatriz exclamou quando viu Pedro bater à porta. — Então, señor, vamos pra casa?
—Vamos. — disse, suspirando. — Tchau, Alice, se cuide.
—Será que toda vez que nos vermos vai ser assim? — perguntou retoricamente, com um sorriso no rosto.
—Espero que não, até mais. — disse, sorrindo.
—Até. — disse, virando-se para a porta e tocando a campainha.
—Vamos agora? — Beatriz perguntou impaciente, provocando risadas em Enzo, que passou o braço por seu ombro e começou a andar.
—Hey, por que demoraram tanto? — E foi aquela voz que o fez parar, que o desestabilizou.
Seria mesmo obra do destino? Ou, talvez, de Deus? Do Deus que Beatriz tanto falava. Do Deus que ela dizia que faria um milagre na vida de Enzo, que seria o único que o poderia curar. Seria obra Dele? Talvez. Só sabia que algo, ou alguém, realmente planejava os encontros de Enzo e Malu.
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