O amor existe
6 Aquele maldito sorriso
Notas iniciais
Sexta-feira. Oito horas da manhã. Ouço o barulho da chuva batendo no telhado. Abro os olhos vagarosamente e fico fitando o teto do meu quarto. Lembrei de muitas coisas que haviam se passado nesse um ano após o transtorno com o Simon. Não levou muito tempo para eu me recompor, já que, a única coisa que ele fez foi ter dito todas aquelas palavras bruscas sem nem ter me conhecido de fato.
Durante todos esses meses aproveitei para curtir. Comecei a sair mais, a sorrir mais e a levar a vida mais leve. Já não sabia mais nada sobre o Simon e, convenhamos, estava feliz por isso. Mas continuei conversando Sebastian durante um tempo e, numa festa qualquer, que estávamos juntos, acabamos esbarrando com o Simon. Lembro dele ter me olhado de cima a baixo, apenas esbocei um sorriso e roubei um beijo do Sebastian enquanto sabia que ele ainda nos encarava. Confesso que foi a minha forma de dizer: "Você dizia tanto que eu queria o Sebastian, então toma. Olha a vadia pegando teu melhor amigo."
Sai do meu devaneio com o meu celular tocando do lado da cama. Olhei no visor e era a Camily
— Fala vadia
— O pegadora, bora sair hoje? Mas nada de Academia, vamos pro star. Vai ter Henrique e Gabriel.
— Bora. Me pega as 23h?
— Mas claro
Desliguei o telefone, levantei da cama e fui arrumar a casa. Era meu dia de folga então tirei o dia pra fazer tudo o que precisava. A chuva parou logo após o meio-dia, me troquei e aproveitei para dar uma volta no centro e comprar algumas roupas.
Algumas horas depois
O resto do dia tinha ocorrido tranquilo e mais rápido do que eu havia imaginado. Comi alguma coisa, tomei um banho. Botei pra tocar Mar aberto e comecei a me arrumar, coloquei um vestido, cacheei o cabelo, fiz uma make caprichada e um scarpin. Me olhei no espelho e estava linda, me sentia deslumbrada.
Mal terminei de me arrumar e Camily estava no portão de casa me esperando. Entrei no carro e em poucos minutos estávamos no tal lugar. Entramos e, confesso, o local parecia ser muito bom.
A noite estava transcorrendo super bem, dançamos muito, rimos muito e bebemos muito. Fazia tempos que não sabia o quanto me sentir mais leve era bom. Não tinha nada melhor do que estar ali, me divertindo, sem ter nenhuma preocupação ou alguém querendo explicações do que faço ou deixo de fazer. Até ele passar por mim e sorrir. Ele era lindo. Tinha mais ou menos a minha altura, olhos castanhos escuros, cabelo preto, musculoso. Foi então que cutuquei Camily.
— Ei, olha aquele ali — disse assentindo em direção à ele
— Uau, que lindo
— Vou pegar
— Duvidei — respondeu-me com tom de sarcasmo
Olhei pra ela e dei uma gargalhada. Fiquei mais alguns minutos encarando-o, tomando coragem para chegar nele até porque, convenhamos, minha alto-estima nunca foi das melhores. E, bom, ele era muito areia pro meu caminhão, por incrível que pareça eu sabia disso. Foi então que o vi vindo em nossa direção
— Gostaria de dançar? — perguntou-me enquanto me encarava
— Claro
— Deixe eu me apresentar. Me chamo Will Capshaw
— Prazer, Addison
Dançamos o resto da noite, quando estávamos de saída e fomos nos despedir, senti a mão dele me puxar pra mais perto. Encarei-o enquanto o via sorrir de canto e então rolou o tal beijo. Confesso que foi um beijo com gosto diferente do que havia sentido até então. Nos despedimos sem muita formalidade e cada um seguiu seu caminho. Um caminho que mais tarde iria acabar nos juntando novamente.
Alguns dias depois
Quarta-feira. Logo após o meio-dia. Os últimos dias haviam sido corridos, muito movimento no trabalho, sem contar que estávamos com gente a menos. Era meu dia de folga, havia aproveitado pra dormir até mais tarde pra ver se conseguia relaxar um pouco, tanto meu físico quanto meu psicológico.
Levantei, abri a janela e deixei o ar fresco balançar meus cabelos enquanto sentia o cheiro de grama molhada e de jasmim. Me peguei esboçando um sorriso de canto e relembrando aquele sorriso. Aquele maldito sorriso não saia da minha cabeça desde que nos cruzamos a poucos dias atrás. Como isso poderia ser possível? Eu não poderia me apaixonar por isso, ou poderia? Bem, sendo eu o assunto, não duvidaria de mim mesma. Não duvidaria de mais nada.
Liguei o spotify e deixei tocando minha play, uma mistura de Fresno, Jéf, Glória, Mar aberto e Tavares. Fiz algo para eu comer, arrumei as poucas coisas que havia para fazer em casa e aproveitei para por minhas redes sociais em dia. Abri o facebook e havia um pedido de amizade que eu não poderia imaginar. Lá estava estampado o nome: Will Capshaw. Aceitei o convite sem pensar duas vezes e quase no mesmo instante aparece uma janelinha piscando
— Oi linda — disse ele
— Oi
— Levei alguns dias até conseguir criar coragem pra enviar o convite, já que desde que nos vimos não tenho tirado você da minha cabeça
— Confesso que às vezes lembro do teu sorriso
O que eu tava fazendo? Nunca agi dessa maneira com ninguém antes, estava basicamente me entregando de bandeja pra alguém que eu não sabia nem quem era direito, havia ocorrido apenas um beijo numa noite qualquer.
Passamos o resto do dia conversando sobre tudo. Conheci ele basicamente assim. Me contou que era separado, tinha uma filha e tantas outras coisas menos relevantes mas que me fizeram conhecer como ele era de fato. Mas, convenhamos, só o fato de ser pai já me deixou com um pé atrás. Vocês sabem, eu não iria querer me envolver com alguém que tinha ligação com o passado, não depois de todas as coisas ditas pelo Simon. O que eu não sabia, ainda, é que isso seria o de menos e eu, mais uma vez, estaria gostando de alguém que não conhecia completamente, apenas a máscara que ele esboçava para mim.
Alguns meses depois
Fazia uns três meses desde que Will havia me mandado a solicitação de amizade e desde então nos falávamos todo santo dia, após eu sair do meu expediente de trabalho e isso incluía, eu dando conselhos e pedindo calma da parte dele quando se tratava da ex mulher. E, bom, eu confesso, ele não só me fazia bem como eu estava me apaixonando por ele. Eu sei, era muito pouco tempo para sentir algo, mas ei, essa sou eu, a paixão em pessoa. Aliás, a pessoa mais desastrosa em relações amorosas, prazer.
Saí do serviço morta de cansada, mal caminhei duas quadras e senti o celular vibrando no bolso da bermuda. Olhei pro visor, esbocei um sorriso e atendi
— Oi meu bem — ouvi-o me chamando do outro lado da linha
— Oi anjo
— Vai estar de folga no domingo? Vamos dar uma volta?
— Estarei sim, pra onde? — perguntei com um pé atrás
— Quero te levar pra chácara dos meus pais, é meu final de semana com a Vic
— Não sei se tô preparada pra isso, tão pouco tua filha
— Ok, nos vemos outro dia então
— Combinamos
Desliguei o telefone com uma dor no peito e um medo profundo disso tudo. Eu ainda não me sentia pronta pra conhecer os pais dele, tão pouco a filha, que só tinha 4 anos. Simplesmente não estava pronta pra ser a madrasta de alguém. Não mesmo. Não quando a gente não tinha nada formal, poucos sabiam que nós estávamos envolvidos.
Cheguei em casa, tomei um banho rápido e me joguei na cama. Fiquei fitando o teto do meu quarto, colocando tudo o que havia acorrido com ele em ordem. Todas as declarações no meio da noite, as ligações para ouvir minha voz, até chegar no momento de ouvir ele dizendo que queria me apresentar para seus pais. Nós estávamos indo muito rápido pro meu gosto, não nos conhecíamos o suficiente e, tão pouco, eramos algo de fato. Estávamos juntos, é óbvio, tinha fidelidade também, mas era apenas isso.
Fechei meus olhos e deixei a escuridão do quarto tomar conta do meu ser, enquanto tentava cair no sono para esquecer um pouco disso tudo e tentar ver o que fazer a seguir.
Uma semana depois
Essa semana tinha passado voando, estava praticamente atolada no serviço, meu psicológico estava praticamente abalado e, acreditem, mal andava falando com o Will. Foi então que resolvi ligar pra ele, assim que sai do expediente
— Alô — respondeu uma voz feminina
— Oi, o Will está?
— Sim, quem gostaria de falar com meu namorado?
Senti como se estivesse ganhando inúmeros socos na boca do estômago de uma vez só, meu coração batia acelerado, minha voz parecia ter sumido de mim. Eu não estava acreditando no que acabara de ouvir, até que ouço a voz dele do outro lado da linha
— Addie, amanhã eu te ligo
Não consegui responder absolutamente nada, minhas pernas estavam bambas, meu coração se comprimia dentro do peito, como se estivesse numa caixa e não pudesse pulsar. Me deu ânsia de vomitar ali mesmo, no meio da rua, como se pudesse com isso tirar de mim todas as palavras ditas ou ouvidas da parte dele. Era como se meu mundo estivesse saindo de baixo dos meus pés e abaixo de mim apenas teria um grande e infinito buraco negro, cheio de pedregulhos e afins, prontos para me arranhar e me despedaçar.
Senti as inúmeras lágrimas tomando conta do meu ser, sendo esparramadas pelo asfalto, enquanto tentava, em vão, caminhar em direção à minha casa. Eu não poderia imaginar que isso estava acontecendo comigo, não de novo. Como ele pôde fazer isso comigo? Cadê todo aquele amor que ele dizia sentir por mim até poucos dias atrás? Pelo visto nunca existiu.
Sai do devaneio com o celular vibrando novamente no bolso da bermuda, olhei no visor e havia um sms vindo dele:
Nós precisamos conversar, não é nada disso que estás a imaginar. Domingo irei ai na tua casa e explicarei tudo.
Como ele queria que eu não pensasse isso quando eu ainda sentia aquelas palavras ecoando em meus ouvidos ininterruptamente. Ele não poderia ser cara de pau de me fazer acreditar que não era nada de mais, eu não era trouxa a esse ponto. Ele pode ter me feito de trouxa, ter me usado e me traído, mas continuar nesse papel de trouxa eu não iria fazer.
O restante da semana passou voando, ele havia me ligado algumas vezes e nem todas eu atendia ou, se atendia, não dava muita moral. Ele falava todas aquelas coisas lindas, como se não tivesse ocorrido nada e eu não tinha um botão em mim pra desligar, ou ligar, os sentimentos ou minha vontade de socar a cara dele. Aquilo estava doendo em mim desde aquela noite, era como se a voz continuasse ecoando em meus ouvidos madrugadas a dentro.
Enfim o domingo havia chegado, estava sozinha em casa, num desânimo sem tamanho. Até que ouvi ele buzinando na frente de casa, abri o portão e deixei-o entrar. Senti que meus olhos estavam cobertos d'água, pronto para derramar mais algumas lágrimas.
Senti minhas pernas trêmulas e um suor tomando conta das minhas mãos, enquanto o via chegar cada vez mais próximo e o ver sorrir. Bastou apenas um sorriso para que eu me entregasse pra ele de corpo e alma. Me senti trouxa, é claro, mas eu era super apaixonada naquele cara, isso eu não poderia negar.
Estava sentada com ele deitado no meu colo, fazendo cafuné exatamente como ele gostava. Sabia que não tinha feito certo, que deveria ter arrancado dele tudo o que eu já sabia mas queria ouvir ele mesmo proferindo aquelas palavras. Sai do meu devaneio quando senti aqueles olhos me fitando e fazendo carinho no meu rosto, exatamente como eu gostava
— Está tudo bem? — perguntou-me
— Você que tem que me dizer
— Claro que está meu amor
Senti meu peito pulsar mais forte ao ouvir aquelas duas palavrinhas saindo da boca dele, mas eu sabia, no fundo, que nada estava bem. Havíamos muito o que conversar
— Tem certeza? Ou será que esqueceu o que houve a poucos dias atrás? — argumentei sem pensar duas vezes
— Ah, a Pâmela
Quando eu ouvi aquele nome eu não pude acreditar, meu mundo caiu no mesmo instante. Como ele poderia fazer isso comigo? Já não bastava ouvir aquilo, tinha que ser da boca da ex mulher dele? Senti meu coração se destroçar em inúmero cacos
— Ela não deveria ter dito aquilo — continuou ele — não daquele jeito
— Daquele jeito? — indaguei já sentindo a raiva crescer
— É... Eu precisava conversar primeiro contigo, te explicar tudo e não, simplesmente, jogar isso no teu colo, como se eu não sentisse absolutamente nada por você
— Pelo jeito você não sente
— É claro que eu sinto, eu realmente gosto de você. Mas a gente está pensando em reatar por causa da Vic
— Como você tem a cara de pau de me dizer isso? Cadê o tal amor que você diz sentir hein? — gritei com ele, já não importava mais se os vizinhos iriam ouvir
— Mas eu realmente gosto de você, mas essa situação que eu me encontro com ela não está fazendo bem pra Vic
— Você me disse inúmeras vezes que odiava tua ex e agora quer voltar pelo bem da filha de vocês? Pelo amor de Deus, Will, cadê tua dignidade ao invés de colocar a menina no meio
Senti as lágrimas caírem como cachoeira pelos meus olhos, eu tremia de raiva, sentia uma vontade imensa de dar um tapa na cara dele, mas eu não conseguia. Não conseguia por conta de todo o sentimento que havia em mim por ele. Percebi que sua mão vinha de encontro ao meu rosto, apenas virei de lado e mandei-o sair da minha casa
— Mas a gente precisa terminar de conversar — indagou-o
— Não temos mais o que conversar, você escolheu ela, que fique com ela e me esquece
Enquanto o via caminhar de costas em direção à moto, senti que uma parte de mim estava indo junto. Poucos minutos após ele sair eu cai de joelhos no chão e chorei. Chorei de uma maneira que jamais havia chorado antes. Ele havia me dado o céus e em questão de segundos me vi caindo num buraco escuro numa profundidade sem fim. Eu havia feito mil e uma coisa por ele e ele em troca me fala todas essas coisas. Simplesmente não tinha mais forças para encarar nada, achava que era o fim pra mim.
Mandei uma mensagem pro James, mas ele não estava online, foi então que Lucas me chamou e eu contei tudo pra ele. Naquele momento não me importei com mais nada, queria apenas alguém pra me apoiar e tentar me tirar daquele abismo. E bem, Lucas tentou me fazer rir, mas foi em vão. Agradeci-o e falei que ia tentar dormir pra amenizar a dor.
Deitei-me na cama, lágrimas teimosas ainda escorriam pelo meu rosto, meu coração parecia não estar mais dentro de mim, era como se existisse um buraco dentro do meu peito. Fiquei me perguntando porque ele havia feito tudo isso, porquê havia feito nascer um amor tão lindo dentro de mim se não havia capacidade ele cuidar e fazer crescer.
Foi então que eu comecei a perceber que eu não tinha nascido pra essa coisa chamada paixão, tão pouco pra amar e ser amada de volta. Vi que eu havia nascido pra ser a outra, um tapa buraco, uma simples noite e nada mais. Senti que eu nunca seria o tudo de alguém ou que, tão pouco, alguém faria mil e uma coisas pra mim.
Deixei as lágrimas e a escuridão tomar conta de mim enquanto sentia meus olhos se fecharem e pedi a um Deus, onipresente, que isso tudo fosse um grande pesadelo ou, quem sabe, que se fosse real ele levasse toda essa dor embora, porque eu não estava aguentando. Eu já não aguentava mais ser aquela qualquer na vida do outro. Aquela que ficava jogada na cama chorando por alguém que não soube me dar meu devido valor. E, eu não poderia imaginar que ainda existiriam outros caras, mais lágrimas e mais dor. Muita dor. Mas, essas são outras histórias. Essa, você já sabe como termina.
Fale com o autor