O amor em uma mesa de bar
2 Debaixo do viaduto
Carol para @Grupinho:
— EI!!! Sexta-feira! Alguém topa sair? Tô saindo da faculdade daqui a pouco!
Lili para @Grupinho:
– Pilho! Combinei de encontrar duas amigas no baixo Botafogo? Quer vir!?
Carol para @Grupinho:
— Dentro! Quando, onde, como?
Lili para @Grupinho:
— Tô do lado da sua casa! Me encontra nove e meia no prédio da minha avó que a gente vai junta.
Carol para @Grupinho:
— Fechou! Tâ indo pra casa, como uma parada e te encontro.
Perfeito! Eu tinha um plano para sexta à noite. Pensei enquanto olhava pela janela de um ônibus engarrafado na Jardim Botânico. Por algum motivo o trânsito estava pior que o usual.
Fiquei vendo aqueles carros todos parados na direção contrária pensando o porquê de eu querer tanto sair naquela noite. Ok, era sexta, mas não era como seu eu fosse a maior saideira do mundo. Saideira, palavra engraçada até.
Demorei uma hora e meia no trânsito. Cheguei em casa faltando meia hora para encontrar a Lili. Por mais que a casa da avó dela fosse do lado da minha e que certamente aquela doida não fosse descer pontualmente, corri. Comi dois pedaços da pizza que meus pais tinham pedido para o jantar, escovei os dentes e parei na frente do espelho. Eu estava com a mesma roupa que fui pra faculdade, uma camisa listrada e um macacão preto. No pé um All Star preto também. Cogitei mudar de roupa, mas pensei: pra quê, não vou encontrar ninguém que já tenha me visto com a roupa, e ainda está cheirosinha. Taquei o celular, a carteira e a chave de casa numa bolsa e saí porta a fora.
Andei até a porta do prédio da avó da Lili, caia uma chuvinha muito fina, nada que incomodasse. Olhei no celular e já eram nove e meia. Mandei uma mensagem:
Carol para @Lili:
— Portaria.
Lili para @Carol:
— Escovando o dente, dois minutos!
Guardei o celular na bolsa e limpei meus óculos na camisa. Correção: a chuva não incomodava a não ser que você fosse míope e usasse óculos que ficaria com gotinhas na lente e parecia que você estava vendo tudo com um filtro de clipe musical dramático. Daqueles que a pessoa coloca a mão na janela chuvosa, escorre uma lágrima e ela pensa que perdeu o amor dá vida. Ri sozinha, nesse momento ouvi o portão automático se abrindo atrás de mim.
— Chegueeeiii! Nem atrasei muito hoje. Minha avó que insistiu que eu comesse sobremesa! — disse Lili enquanto me dava um abraço apertado.
— Verdade! Estamos numa evolução crescente. Quer pedir o Uber ou eu peço? — falei enquanto dava um beijo no topo da cabeça de Lili.
Nossa diferença de altura era cômica até. Eu no meu auge dos 1,80 metros e Lili com seus 1,58. Mas não duvide do potencial dela, aquela baixinha sabia fazer um barraco melhor que qualquer um.
— Eu peço! Boto pra dividir. — disse olhando para o celular- Aliás, que fogo é esse pra sair de casa, dona Carol?
— Não sei. Juro! Eu só estava muito entediada na aula de Teoria da Comunicação II quando eu mandei aquela mensagem no grupo.
— Percebi, você nem questionou com quem iríamos encontrar! — ela fez uma cara de surpresa.
— Verdade- disse rindo- é com quem mesmo?
— É com a Nani e a Elisa, aquelas meninas da minha turma do ensino médio. Lembra delas?
— Lembro! A Nani faz aniversário no mesmo dia que eu, nunca esqueci disso!
Lili era a minha amiga mais antiga, fizemos a pré escola juntas. Durante boa parte do ensino fundamental ela morou em São Paulo, mas foi só ela voltar pro Rio e ir estudar na minha escola, que a voltamos a mesma intensidade de antes. No ensino médio tínhamos ficados em turmas separadas, eu era da B e Lili da C, mas isso nunca importou muito.
Uns cinco minutos depois um carro preto parou na nossa frente, o Uber tinha chegado. No caminho conversamos sobre as nossas faculdades, a vida e tudo.
— Aí amiga! Eu estou tão feliz que eu troquei a psicologia pela pedagogia — Disse Lili — muito mais a minha cara!
— Que bom! — respondi-Também acho que tem a ver mais com você. Quando eu for mãe vou dar meus filhos pra você cuidar.
Ela riu, Lili era a pessoa que mais gostava de crianças que eu conhecia. Tinha uma energia inacreditável e um poder de controlar monstrinhos de 5 anos de idade absurdo.
— E você? Tá feliz na PUC? — perguntou
— Tô, quer dizer, a PUC não é tanto a minha cara, mas eu gosto do que eu estudo. — Respondi
— E é verdade mesmo que tem muita gente gata lá? — disse ela com uma cara de moleca que só ela sabia fazer
— Ah! Tem bastante, mas sei lá, não presto muita atenção não.
— Óbvio! Você ainda tá com o Léo na cabeça! Você tem que parar de se apaixonar no primeiro beijo!
— Deus me livre apaixonada! Eu hein!? Desde quando querer repeteco é se apaixonar! Se apaixonar só tem dois finais, ou você se fode, ou você namora. O que é quase igual.
— Nossa que exagero Carolina! Namorar é bom! — disse ela meio sonhadora
— Vai brincar de nome completo? Também sei dona Lilia — vi que ela fez uma cara enfezada- Mas me deixa aqui quietinha que eu não sirvo pra isso não.
A verdade é que eu tive uma grande decepção no passado, algo em mim tinha o pensamento que se eu não tinha dado certo com aquele cara, se aquilo tinha resultado em tanto sofrimento, eu provavelmente não daria certo com ninguém e eu não estava nenhum pouco afim de passar por aquilo de novo.
O Uber encostou naquela esquina lotada de mesas de plástico, copos de uma higiene levemente duvidosa e gente falando alto. Muito alto. Saltamos do carro e começamos a procurar Elisa e Nani. Encontramos elas e eu tive o primeiro choque da noite: não eram só elas duas, era uma mesa lotada de gente que tinha feito parte do grupo de teatro da escola. Olhei para Lili e ela só moveu os lábios dizendo "eu não sabia" e puxou uma cadeira para sentar. Sentei do lado dela.
Meia hora e nada daquela situação se tornar menos constrangedora para nós duas, conhecíamos todo mundo de vista, mas estávamos claramente de penetra no que descobrimos ser o aniversário de um menino.
Mais quinze minutos e chega uma mensagem no meu celular
Lili para @Carol:
— Tô exausta, amanhã vou cedo pra casa do meu pai. Acho que vou embora, você vai me matar?
Lancei um olhar levemente furioso para ela.
Carol para @Lili:
— Honestamente, não. Mas eu vou embora também! Nenhuma chance de ficar aqui sozinha. Dá seu jeito e inventa uma desculpa para as suas amigas.
Lili virou para as meninas falou que iríamos encontrar uns amigos que estavam em uma outra mesa e que voltaríamos já já. Ninguém pareceu ligar muito.
Ela me pediu desculpas umas dez vezes no caminho até a rua. Eu falei, mil vezes que tudo bem, tava chato mesmo. Eu estava prestes a chamar um Uber para ir para casa quando ouço alguém gritar o meu nome:
— Caroooool!!! — olhei para trás e era Rosa, uma amiga minha da escola. Ela estava numa mesa com Paula, Caio e Diogo.
— Oi! Tudo bem??? — disse assim que me aproximei.
— Cê tá indo embora já? — perguntou Caio
— Tô, ou tava, não sei — falei confusa
— Então você tava, porque agora você vai sentar aqui com a gente — falou Alice.
Lili estava determinada de ir embora, por mais que eu tentasse a convencer de ficar. Puxei uma cadeira e fiquei conversando com aquelas pessoas que salvaram a minha noite. Falei de futebol com o Caio, roupas com Paula e Rosa sempre nos fazia rir com uma piada. Peguei no bar uma Caipivodka. Até o momento eu não tinha bebido nada. Conversa vai, conversa vem, vejo Dimitri, um dos meus melhores amigos, passando perto de nossa mesa:
— Dimi!!! — disse enquanto dava um abraço nele por trás
— Oi!! Carol! O que você tá fazendo aqui? — perguntou
— Ih menino! Uma história longa, mas basicamente estou com aquela galera ali. — Apontei pra mesa onde estavam os outros.
— Ah maneiro! Hoje eu vim encontrar com uns amigos meus, a gente está ali embaixo do viaduto. Se quiser, passa lá depois.
Sorri e agradeci o convite. Acompanhei Dimi com o olhar até ele sentar em uma mesa bem comprida com uns 10 caras sentados. Voltei para a minha mesa. Quando eu cheguei Caio falou:
— Ei! Estamos indo para a Matriz, vem com a gente?
— Sério isso? Mas tão cedo? — falei decepcionada. Eu realmente não queria ir para uma boate naquela noite
— Sim! Até meia noite não paga para entrar. Já são onze e quinze a gente ainda tem que andar até lá. Vem com a gente!
— Não amigo, desculpa! — disse meio triste- vim direto da faculdade, tô nem com cabeça pra festa.
Eles concordaram e falaram que realmente tinham que ir. Eu assenti, afinal eles me acolheram quando o meu primeiro rolê deu errado. Olhei para o meu copo que ainda em cima da mesa, estava pela metade. Eu tinha três opções, ou eu largava ele ali e ia para casa. Ou eu sentava ali sozinha e bebia o resto. Ou eu aceitava o convite de Dimitri e me juntava a ele e os amigos na maior cara de pau. Fiquei olhando para o copo uns trinta segundos.
Dei um grande suspiro e pensei o quão estranho era aquele sentimento que ainda não era hora de voltar para casa.
Peguei meu copo na mão e olhei para debaixo do viaduto onde Dimitri estava. Encarei a mesa de longe para tentar não ser notada. Percebi que ele estava em uma das cabeceiras. Tomei coragem, juntei toda a minha cara de pau, que eu nunca tive na vida, e fui na direção dele. Eu sabia que apesar do convite muito educado do Dimitri, não era exatamente para eu ir e me aboletar lá na mesa dele. Pensei em desistir, mas já era tarde. Dimi já tinha me visto:
— Oi Carol! – Disse enquanto sorria.
— Oi Dimi! – Falei enquanto me agachava perto de sua cadeira – Então, deu tudo meio errado e a galera foi embora. Posso ficar aqui com vocês um pouquinho? Só o tempo de terminar essa bebida, juro!
— Óbvio que pode Carolina! Puxa uma cadeira e senta aí!
Fui à mesa do lado e pedi a cadeira que estava sobrando, me sentei estrategicamente entre Dimitri e uma cadeira que estava vazia. O dono, pelo visto, estava na outra ponta em pé conversando. Eu estava na esperança de ficar ali uns 15 minutos quietinha e ir embora, mas Dimitri resolveu que seria uma boa ideia me apresentar para as pessoas.
O primeiro foi Bruno, ele eu já conhecia. Saímos algumas vezes com Dimitri antes. Nunca soube ao certo a impressão que ele tinha de mim, mas um rosto familiar não era nada a mal. Depois listou os que estavam do outro lado, confesso que nem consegui assimilar os nomes, só prestei atenção em um deles: o Almeida. Eu conhecia aquele menino, tínhamos uma outra amiga em comum, a Tati, ex-namorada do Dimitri. Ano passado esse Almeida tinha ido, meio que de penetra meio que convidado, para o aniversário da Julieta, minha melhor amiga. Lembro que no aniversário da Ju trocamos algumas palavras e achei ele uma gracinha, mas ele nem me deu bola. Quando eu voltei do flashback, Dimitri estava falando que um dos meninos, o Tom, estava comprando um cachorro quente e por último me apresentou o Lobo:
— E esse é o mais insuportável, Ian Lobo, como você sabe.
— Como eu sei? – Falei espantada. Olhei para o menino na tentativa de reconhecê-lo, mas ele parecia tão confuso quanto eu.
— É, você não lembra? Ele que tava naquele dia que o Lucas te deu o bolo quando nós íamos no Outback com a Tati.
Aí veio como um raio na minha memória: era aquele menino mesmo! Três anos antes eu tinha uma espécie de encontro duplo, eu e um menino chamado Lucas e Dimitri e Tati. Eu tinha conhecido Lucas em uma viagem à Disney que fiz com minhas amigas, incluindo Tati, Ju e Lili, quando tínhamos quinze anos. Eu me interessei logo por esse menino e ele parecia nutrir alguma esperança em mim. Durante um ano fiz o papel de trouxa de gostar dele enquanto ele namorava, mas na época ele tinha terminado, conversávamos até de madrugada por mensagem, eu achava que era minha grande chance. Eis que faltando vinte minutos para o tal do encontro o menino manda uma mensagem dizendo que não iria mais. Afinal ele queria ir de skate e não tinha onde deixar o skate no shopping. Meu ódio era tamanho que depois disso o interesse acabou todinho. Para não me deixar sozinha, Dimitri chamou um amigo que morava perto. Conversamos o suficiente para não ficar um clima esquisito, majoritariamente sobre futebol, mas depois disso nunca mais vi. Até agora.
— Caralho! É verdade – Falei espantada
— Cara pode crer! – Ele disse rindo – Desculpa não te reconhecer, você mudou bastante.
Bastante eu diria que é exagero, mas confesso que eu estava com outros óculos, o cabelo muito maior e uma cara mais de gente e menos de criança. Ficamos colocando a vida em dia quando o menino que estava faltando chegou na mesa e sentou muito perto de mim, deixando só uma cadeira vazia entre nós. Percebi que minha bebida tinha acabado e me preparei para ir embora:
— Dimi! Brigada, terminei minha bebida, vou para casa! – Falei
— Como assim Carol, não é nem meia noite! – Ele falou meio que indignado
— Ué, se acabou a sua bebida você pode pedir outra – Disse Bruno – O companheiro ali traz rapidinho – Olhei para onde ele estava apontando e era um garçom que rapidamente veio em nossa direção.
— Opa Chefe, vê mais um balde de original, por favor? – Falou Lobo
— E mais uma Caipivodka de Limão – Cortou Bruno
— Duas por favor, a minha com açúcar. – Falei meio que num ato de coragem
— Boa Escarola! – Falou Dimitri, eu odiava quando ele me chamava assim
— Escarola? – Perguntou Bruno
— É, esse é o jeito sem graça que o Dimitri me chama pra me irritar – falei um pouco enfezada.
— Mas por que Escarola?
— Quando eu fiz uma viagem para a Disney com várias amigas nossas a guia me chamava de Carola e não Carol. Aí um dia um menino falou que parecia Escarola e o Dimitri achou engraçada essa ideia quando a Tati contou pra ele. Quatro anos depois e ele ainda fala isso.
Eles riram e falaram que realmente parecia Escarola, não consegui nem ficar chateada. Eu não sabia explicar o porquê, mas eu me sentia acolhida ali. Nesse momento Dimitri falou:
—Caramba, agora que eu parei para contar, tem quatro Botafoguenses nessa mesa! Quase a torcida inteira!
Por um lado, eu fiquei com raiva, Dimi sempre fazia as mesmas piadas de flamenguista, mas a curiosidade falou mais alto:
— Quatro? Quem? – Perguntei no mesmo segundo.
— Ué, você, Bruno, Lobo e Tom – Disse apontando para o último, que era justamente o menino que estava ao meu lado.
Eu me virei para ele e vi um menino de cabelo castanho bem desgrenhado, sentado com um copo de cerveja na mão me olhando. Os olhos dele eram um castanho bem claro que pareciam até verdes com a camisa verde que ele estava usando:
— Você é Botafoguense? – Perguntei. Parabéns Carolina, pergunta idiota.
— Mais do que deveria – Disse com uma voz meio infeliz, eu ri.
— Mas não somos todos? – perguntei
— É verdade. – Ele respondeu – Você que é a Carol Casagrande?
— Sou, por que? – Perguntei levemente assustada
— Ah nada! O Dimitri me falou de você, acho que eu li um livro que é do seu pai, sobre o Botafogo.
Fiquei muito curiosa com aquele menino. Começamos a conversar sobre o livro do meu pai, as falhas de ser botafoguense e o time de dois mil e sete que, segundo Tomás, esse era o nome dele, era o ano que nunca acabou. Enquanto estávamos nesse assunto, o dono da cadeira entre nós chegou:
— Opa! Desculpa atrapalhar a conversa, eu poderia me sentar na minha cadeira? – Disse em um tom irônico
Olhei para cima era o Almeida. Fiquei com o olhar meio vidrado. Ele tinha um cabelo castanho daqueles de quem já tinha sido loiro quando era criança, um nariz meio de batata e era certamente bem alto. Estava com uma camisa preta e uma mochila nas costas, provavelmente tinha vindo direto na faculdade. O engraçado é que eu tinha cruzado com ele justamente naquele dia na PUC. Eu estava saindo da minha última aula e ele chegando, acho que fazia no noturno.
— Ei! Você por aqui! – continuou ele abrindo um sorriso e me dando um abraço como se fossemos melhores amigos – Tudo bem?
— Tudo bem e você? – Falei sorrindo
— Melhor agora que a senhorita não está me ignorando como fez mais cedo. – Caralho, ele realmente me viu, pensei.
— Te ignorando? Eu? Como assim? – Resolvi fazer a louca.
— Isso mesmo, eu bem vi a senhora passando por mim na entrada da PUC hoje e fingindo que não tinha me visto.
— Você me viu? Tem certeza? – Mantive a postura de louca. Como que eu ia parar pra puxar papo com o menino que eu tinha visto uma vez na vida?
— Absoluta, estava com a mesma roupa inclusive!
— Nossa, verdade! – Disse olhando para baixo fingindo estar conferindo qual roupa eu estava vestindo – Mas eu não te ignorei! Só não te vi, juro! – Menti, feio, mas menti.
— Que mentira! Não quis falar comigo e ponto. – Verdade Antônio Almeida, verdade.
— Não, é sério! Eu só sou muito avoada saindo da PUC. Ponho um fone e vou embora. – Isso era verdade pelo menos – Como eu pego ônibus lá no Jockey, eu traço uma reta e saio andando sem prestar atenção em nada! – Outra verdade.
— Tá bom, vou fingir que eu acredito. – Disse rindo – Mas você pega ônibus no Jockey e não no terminal? Onde você mora?
— Laranjeiras – Falei agradecendo à todas as entidades divinas o fato do assunto ter mudado.
— Onde em Laranjeiras? – Interrompeu Tomás.
Eu estava tão envolvida na história e na conversa do Almeida que eu nem tinha percebido que o Tomás estava prestando atenção no assunto todo.
– Ali na pracinha do Corcovado. – Respondi
– Ali não é exatamente Laranjeiras, é mais Cosme Velho, né?
– É, mas as pessoas nunca conhecem o Cosme Velho, então eu falo Laranjeiras mesmo. – Falei enquanto me perguntava o por que raios aquele menino estava me questionando a geografia da minha casa.
– Justo. Eu moro em Laranjeiras também, ali na Cardoso Júnior, sabe?
— Óbvio que sei! — falei abismada — Mas como assim? Eu nunca te vi em Laranjeiras!
Laranjeiras era tipo cidade pequena. Todo mundo conhecia todo mundo. Me vi mais uma vez intrigada com aquele menino. Ele certamente não tinha estudado no São Vicente, Dimitri também nunca tinha comentado nada sobre um amigo que morava na Cardoso Junior.
Não se pode ver todo mundo — ele falou meio irônico — Mas é que como eu estudava no Santo Agostinho, eu não passava muito tempo andando por ali. Quem mora em Laranjeiras e não estuda no São Vicente? — falei no impulso e me arrependi logo em seguida. Eu! — Ele disse rindo — Minha mãe nunca gostou muito do São Vicente, não sei porquê.
Eu praticamente me senti ofendida com aquela afirmação. Estudei onze anos da minha vida no São Vicente, aquela escola era tudo para mim.
Humm, entendi — Falei meio desconfiada — Engraçado que o Dimitri nunca tinha falado de você. Eu não acredito que eu estou sentado entre dois botafoguense que moram em Laranjeiras — Cortou Almeida — A chance disso acontecer é de uma em um milhão! Aliás, a gente estava falando justamente de Botafogo antes de você chegar — disse Tomás. Mas é óbvio! Agora que o time está na Libertadores você só fala disso!E tá errado? — Falei rindo
O Botafogo tinha se classificado para a Libertadores da América, a competição mais importante do futebol, e estava na fase de grupos. Num grupo bastante difícil até.
Aliás, quinta tem jogo — continuei — Pegar o Atlético Nacional na casa deles não vai ser fácil! Os caras foram os campeões do ano passado.
Almeida fez uma cara de impressionado. Entrou na conversa falando que seria um jogo difícil, mas que torceria pelo Botafogo porque tinha uma simpatia pelo clube. Eu odiava quem falava isso, mas relevei. Eu sabia que Almeida era flamenguista, e isso certamente não agregava pontos para ele. O Bruno e o Lobo entraram na conversa, aquilo ali estava a verdadeira reunião dos cornetas de futebol, uma confusão.
No meio da conversa bocejei, olhei para o relógio de rua e já era duas e meia da manhã. Além daquela Caipivodka que pedi selando a minha permanência na mesa, tomei mais uma. Era hora de ir embora, por mais que o assunto estivesse bom.
Pedi minha parte da conta e comecei a me despedir, certamente aqueles meninos tinham feito minha noite dar uma guinada.
Quando chegou a vez de me despedir de Almeida, ele me deu um abraço e falou:
Promete que não vai mais me ignorar quando passar por mim na PUC? Eu não te ignorei, eu só não te vi! Mas prometo, só se você prometer também. — falei meio que sorrindoPrometo — ele respondeu — a gente se esbarra.
Dei um sorriso, assenti com a cabeça e me virei para Dimitri, tinha deixado para falar com ele por último:
Dimi! Obrigada por ter me acolhido! — Falei enquanto dava um abraço nele.Que isso Escarola! Foi um prazer, eu realmente acho que eles gostaram de você. Mas você já está indo? Tô, tô cansada. Já tá tarde. Beleza, mas vê com o Tomás, ele também tava indo para casa.
No momento que ele falou isso minha reação automática foi procurar pelo Tomás. Vi ele lá na beirada da rua prestes a atravessar. Berrei bem alto o nome dele enquanto eu corria. No momento que ele parou e olhou para trás na pontinha do meio fio, um carro passou voado. Talvez, naquele momento o meu berro impediu ele de ser atropelado. Cheguei perto dele e falei:
Você está indo para casa? — ainda esbaforida de ter corrido Tô! Quer uma carona? Quero! Por favor!
Entramos no carro e o assunto seguiu sendo o jogo de quinta-feira. O trajeto não foi nem longo, mas a conversa fluiu bem. Me despedi de Tomás e entrei portaria a dentro. Quando dei de cara com a minha figura no espelho do elevador eu ri. Que noite. Quem diria que eu iria passar por três galeras diferentes, usar toda a minha cara de pau para entrar de penetra em um rolê que não tinha nada a ver e conhecer pessoas novas? Certamente aquela Carol, entediada na aula de Teoria da Comunicação II, não diria!
Cheguei em casa, troquei de roupa e deitei na cama. Fiquei repassando os momentos da noite na minha cabeça. Achei que essa se tornaria uma daquelas histórias engraçadas que você conta em programa de entrevista quando fica famosa. Antes de fechar o olho, bateu uma leve tristeza com o fato que eu provavelmente nunca mais iria encontrar aquelas pessoas. Mal sabia eu que eu estaria bem errada quanto a isso.
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