O amargo doce da vida
1 Capítulo 1 - Vida velha e pensamentos novos
Sai correndo daquela sala, precisava de ar fresco, na verdade, de uma vida bem nova e fresquinha pra mim. Eu queria esquecer tudo que passei esse ultimo ano e refazer tudo de novo. Ou não. Metade de mim se magoou demais com tudo isso. Mas a outra metade estava contente por felizmente poder encontra-lo.
Fui direto para o primeiro andar, onde estava tendo uma mini-exposição do Jorge Amado, Capitães de Areia, Gabriela, Dona Flor e Seus Dois Maridos, e mais tantos, tantos, tantos clássicos, que eu não sabia para onde olhar. Era hipnotizante, não dava vontade de sair dali!
Eu andei mais um pouco por lá, observei, e depois peguei o elevador para ir no segundo andar.
Assim que eu sai, o vi sentado, olhando para a direção do elevador, como se esperasse ansiosamente pelo momento em que eu chegaria.
- É, eu estava esperando o momento em que você fosse chegar — e me abraçou. A voz dele era como o melhor abraço, tão bom, tão bom. Agora… imagine o abraço. Nada se comparava, nada me dava essa sensação de proteção.
- Eu sei — e ri, abraçando-o e dando um beijo, bem discreto — E ai, tudo bem?
- Tudo, eu estava com saudades — e me abraçou de novo.
- Eu também. E você sabe disso, não é? — sorri para ele.
- Sei — ele riu, e segurou meu rosto. Se vocês pensam que ele ia me dar aquele beijão de cinema, como faz todo homem que segura o rosto de uma mulher com delicadeza, não. Ele não fez isso. Me olhou nos olhos e… me olhou nos olhos; depois me olhou mais um pouquinho, e mais um pouquinho, e ficamos assim…
Já ouviu dizer que um olhar vale mais que mil palavras? Pois é. Nós sempre fazíamos isso, e era neste momento que nós sabíamos o que estava acontecendo com um e com o outro. Ele sabia quando eu estava triste, e eu sabia quando ele estava triste. Ele sabia quando eu estava feliz, e eu sabia quando ele estava feliz. Ele sabia de mim, e eu sabia dele.
- O que foi, ainda está preocupada? — ele me perguntou.
- Claro que sim… Não sai da minha cabeça.
- A gente vai resolver isso. Vamos resolver juntos.
- Acho que nem nós dois juntos damos conta. É coisa demais, gente demais, problema demais, e ninguém pode saber! Só eu e você. Não podemos contar com mais ninguém. E logo a gente, que sempre tivemos tantos amigos, e ainda temos, não poder contar para nenhum deles. Eles não aguentariam saber a verdade, ficariam longe de nós, iam nos repugnar, e você sabe que eu não conseguiria viver sem isso, sem eles. Você, eles, me completam, e eu não tenho mais ninguém… ninguém.
Ele me abraçou de novo, e sabia que nada que ele falasse iria adiantar. Nós já havíamos conversado sobre isso, e as coisas boas nunca entravam na minha cabeça. Sempre tive esse costume de só ver o lado negativo das coisas. Dava até para entender, só coisas ruins aconteciam comigo.
Ficamos abraçados mais um tempo, pois só o que adiantava era eu saber que ele estava comigo, do meu lado, para qualquer coisa. Sentir a pele dele, o cheiro dele, uma mão na cintura, e outra mexendo no meu cabelo, me confortando. Não tinha nada melhor, nada.
- Vamos dar mais uma olhada na exposição? — ele perguntou, e sabia que aquilo também, nem que fosse um pouco, me reconfortava.
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