O absimo

1 Prefacio


Eu nunca imaginei que a morte fosse algo tão fácil, tranquilo, era apenas deixar se levar – viver sim, era algo doloroso – Eu podia sentir a sensação de paz me embriagar, e então tudo mais estaria acabado.

Acabado... Aquilo não devia incomodar, não naquele momento. Mas estranhamente sentia que não podia ser o fim.

—Valentina. —Alguém me chamava, uma voz doce, que estava distante mas fazia meu coração se apertar. —Por favor, por favor, não vá. —Ele implorava desesperado, e aquele desespero não combinava com serenidade que me envolvia.

Foi ai que eu percebi que me deixando envolver pelo acalento da morte, eu estaria abandonando meu anjo para sempre, então eu tinha que lutar. Lutar para permanecer ao seu lado.

Minha escolha era entre a morte e a vida. Isso não pareceu uma escolha justa, não quando a morte parecia tão tentadora, mas mesmo assim eu optei por viver, por encarar a dor, por sentir a minha carne dilacerada, meus ossos quebrados, um grito de agonia escapou de meus lábios enquanto eu me debatia para desprender da ilusão da morte.