O Vórtice Encantado

1 Um Desafio na Cidade


Notas iniciais
Este capítulo foi deveras trabalhoso e espero piamente que você aproveite a história. Nesse prelúdio são apresentados apenas algumas das personagens, as demais aparecerão no decorrer da narração. Em uma sinopse improvisada do capítulo, pode-se dizer apenas que Charles, Mike e Douglas aventuraram-se no caminho do museu, mas que não se encerra por aí.

Uma árvore centenária projetava-se majestosamente em uma elevação de terra, rodeada por pedras de tamanhos e formas distintas, que se assemelhavam a animais. As folhas acobreadas reluziam um brilho espelhado, que empapava a planta com a luz proveniente do sol. O tronco era negro com vários nós e no centro localizava-se uma fenda do tamanho de um punho fechado. Havia um silencio perturbador no lugar, nenhum animal se quer vozeava como se receassem alterar a calmaria do ambiente.

Após um segundo ou talvez uma eternidade, uma película esverdeada pareceu tremular no ar e a árvore com o tronco negro e folhas acobreadas fora substituída por uma árvore excepcionalmente comum, embora a fenda permanecesse no mesmo lugar. As pedras estranhas, que pareciam animais petrificados ou quem sabe esculpidos também desapareceram.

Agora, nem sequer uma árvore existia mais, continuavam apenas como resquícios, ora vindo à tona ora no esquecimento. Era apenas mais um na lista de muitos sonhos estranhos. A luz matinal atravessava as cortinas semiabertas da janela defronte à rua e um turbilhão de carros parecia ziguezaguear lá fora. Charles também pôde sentir um delicioso aroma do café da manhã: ovos com bacon, que circundava o quarto e parecia flertar com ele.

Férias faz bem a qualquer um e funciona como um banho quente depois de uma caminhada muito, muito longa. É um momento de relaxar, curtir e devemos aproveitá-la ao máximo. Para Charles, porém, não são muito vantajosos esses dias, pois apesar de todo amor que possa ter para com o irmão, a peculiaridade deste ocupa muito tempo de todos, principalmente de Charles.

Ao se levantar, caminhou em direção à cozinha com passos vagarosos. Viu que todos já estavam postos à mesa, fora o último a despertar.

­— Bom dia, querido. Estou preparando o seu prato – disse Dona Madalena sorridente, enquanto desligava a boca do fogão e depositava a comida em uma tigela sobre a mesa.

— Bom dia, a senhora vai a algum lugar agora de manhã? — Perguntou, embora já soubesse a resposta muito bem.

— Sim, irei à casa da tia Nancy, prometi que iria visitá-la essa manhã e você sabe que cumpro com as minhas promessas. Seria uma desfeita não ir, ainda mais agora que está morando na cidade. Charles fique com seu irmão e, já que está de férias, pode leva-lo a algum lugar hoje.

Confirmou com a cabeça e começou a comer antes que perdesse a fome. Mike estava sentado com os fones no ouvido, ouvindo música clássica ou quem sabe ouvindo uma história. Tinha os olhos cinzentos fixos na parede, os cabelos desgrenhados percorriam até os ombros como uma cascata. Os óculos escuros estavam a alguns centímetros da mão esquerda e a bengala ajustável estava encostada à cômoda ao lado.

Charles tocou de leve em seu rosto, para não assustá-lo e retirou um dos fones do ouvido.

— Quer ir ao museu comigo, Mike? Eu sei que você gosta de lá. Também poderíamos ir ao parque pegar uma brisa no rosto.

— Está bem. — respondeu ele, completando com um aceno — O Doug também vai com a gente? Ele é bem legal comigo.

— Bem, então vou andando. Volto de tarde e tem comida na geladeira. Não passem fome, não se metam em confusão, não saiam desatentos pelas ruas, não abram a porta para estranhos... Está bem, tenham cuidado. Beijos. — Deu uma série de beijos em cada um e saiu.

Dona Madalena costumava fixar sob a geladeira as regras da casa e, ainda que tenha deixado de redigi-las por insistência do filho, gostava de ditá-las antes de ausentar-se. Era uma forma de deixar os dois filhos seguros do mundo, talvez ela esperasse que todas as mães fossem assim, que resguardassem suas crias para educá-las a serem pessoas de bem.

— Então é melhor você ir se arrumando — começou Charles. — Eu vou falar com o Doug agora, quando voltar eu quero você na porta.

— Na ultima vez que saímos, fui com a blusa vermelha? — indagou Mike. — Não quero que as pessoas achem que só tenho uma roupa em casa.

— Não, foi com a azul — informou Charles com um sorriso no rosto, pois embora o irmão não percebesse, ele ficava feliz pela rápida ‘’independência’’ em casa.

Desde pequeno, Mike mostrava-se muito dependente de tudo e de todos e, embora de vez em quando precisasse de ajuda, gostava de resolver seus próprios problemas. Mike não poderia distinguir as cores — é claro — mas sabê-las já bastava para ele. Dona Madalena adaptou a casa no quesito: identificação. Pequenas placas estavam, nesse exato momento, fixadas por toda a casa com palavras em braile. As gavetas dos armários, guarda-roupas, estantes e escrivaninhas estavam todas identificadas, pelo menos até Mike ficar mais velho. Sem contar que todos os objetos da casa deveriam ficar em seus respectivos lugares para não causarem confusão.

Charles calçou o par de sapatos e caminhou em direção à passagem que ligava os dois terrenos. Ele poderia simplesmente direcionar-se para o portão da casa vizinha como as outras pessoas faziam, todavia Charles gostava da passagem secreta do muro, localizada no fundo do terreno, que continha uma portinhola escondida no meio de um espesso arbusto. Após afastar com as mãos os galhos frágeis da planta e abrir a passagem irregular feita à mão, que permitia a travessia de uma pessoa engatinhando, deparou-se com a tão conhecida casa do Pipoca.

Pipoca era o cachorro da família Magalhães. Ninguém soube como realmente Pipoca recebeu o nome: Pipoca, pois fora aderido quando ainda era um filhote e ‘’pegou’’ desde então. Talvez seja pela baixa estatura ou quem sabe devido à coloração branca, mas isso não importa.

A casinha permitia duas pessoas de cócoras e, embora vazia, continha uma sandália mordida, um osso e uma tigela com água. Uma aranha sorrateira que esperava na parede caiu no ombro do Charles assim que passou, fazendo com que ele desse uma cabeçada no teto da casinha e assustasse o aracnídeo.

— Merda, — vociferou Charles enquanto massageava a cabeça com as mãos e a aranha saía em disparada. — odeio essas desgraçadas.

Após sair e direcionar-se à área de serviço, Charles pôde ver a esbelta Dona Esperança na sua habitual limpeza diária. Havia algumas caixas de papelão cheias de objetos inimagináveis e um amontoado de sujeira recostado à parede.

— Hum, hum. —Charles pigarreou para não causar alarde.

— Ah, tudo bem Charles? Sua mãe está precisando de alguma coisa? – indagou Dona Esperança com um resquício de susto. — Quer falar com Douglas, não é?

— Sim, só vim perguntar se ele quer acompanhar Mike e eu ao museu. Prometo que voltamos antes do almoço.

— Bem, — analisou Esperança— quando ele terminar de limpar o quarto dele, Douglas poderá ir. Se quiser ajuda-lo para que termine logo, fique a vontade e pensando bem... Já faz um bom tempo que o deixei lá em cima.

Dona Esperança é enfermeira na maternidade Bárbara Heliodora e seus plantões alternavam-se durante a semana. É casada com Marcos, que também trabalha como enfermeiro e têm um casal de filhos: Douglas — mais conhecido como Doug — e Eliza. Eliza, porém, estava na casa da avó materna.

Assim como muitas das vezes que fora visitar Doug, Pipoca foi quem o recebeu primeiramente com latidos e depois com muitas lambidas. Logo em seguida se acomodou aos pés do dono.

—Está muito bem arrumado esse quarto. — disse Charles debochadamente. — Apenas imagino como seria o ‘’bagunçado’’ daqui.

— Vai se danar Charles, não vê que estou ocupado — responde Doug dando risadas.

Na verdade Douglas jogava um jogo de tiros no computador, enquanto o quarto permanecia bagunçado. Era uma aversão total ao resto da casa, pois as roupas estavam espalhadas e havia latas de Coca-Cola e livros diversificados semeados pelo chão.

— O que vossa senhoria deseja? — retribuiu o sarcasmo com um aceno bajulador.

— Você vai comigo e com o Mike ao museu, pode ir se arrumando. Vou esperar lá em casa. — Charles clicou em algumas teclas simultâneas do computador e a maquina desligou logo em seguida. — Também já falei com sua mãe.

— Desde quando você está mandando em mim? E eu não tinha salvado o jogo.

— Não importa, cuida logo seu preguiçoso. Vou está esperando.

—Você deveria ter chegado e perguntado: você tem algum compromisso para hoje? — informou Doug, sentando-se na cama e consequentemente atraindo o Pipoca para lá.

— Você tem algum compromisso para hoje? — indagou Charles olhando de esguelha para o amigo.

— Hum... — Hesitou Doug — Bem, talvez...

— Então daqui dez minutos. Deixei meu irmão sozinho. Até mais.

Charles, Mike e Doug pegaram juntos o ônibus Custódio Freire. Realmente deram muita sorte, pois estava parcialmente vazio. O ônibus seguiu pela Avenida Ceará com algumas paradas solicitadas e prosseguiu até o Parque da maternidade, antes de subir algumas ladeiras e virar à direita. O parque da Maternidade pode-se dizer que é curioso para a região. Funciona como uma rede de esgotos em série (a céu aberto), que percorre a cidade por muitos e muitos quilômetros. Em seus contornos há ciclovias, ruas, calçadas, quadras, parques, praças, centros para Skate e patins, arcos e entre outras coisas. Ademais, é muito útil para caminhadas e treinamentos físicos, todavia que seja em grupo ou cedo, pois há muitos marginais e usuários de drogas espalhados pela rede, apesar do policiamento.

Os muitos pontos turísticos que existem no estado do Acre localizam-se na capital de Rio Branco, sobretudo no centro da cidade. É um local de muitos comércios e às margens do rio, há camelódromos em demasia com um verdadeiro ruge-ruge de pessoas. O Palácio Rio Branco, Museu da Borracha e dos Autonomistas, Praça da Revolução e os Povos da Floresta, Catedral Nossa Senhora de Nazaré, Passarela, Igreja de Ferro dentre outros, são os pontos turísticos principais.

Desceram em frente à Biblioteca Pública e caminharam até o Palácio Rio Branco. Claro que muitos olhos os seguiam e fingiam ver uma vitrine quando eram percebidos. Não que houvesse poucos deficientes visuais, mas a bengala e os óculos escuros não passavam despercebidos por ninguém.

Algumas pessoas entregavam panfletos de lojas, cartomantes e cursos a Charles e Doug. Quando passaram por uma lixeira próxima, fixada em um poste elétrico, livraram-se dos papeis. Todavia antes que pudesse desviar a atenção da lixeira, o papel pequeno, impresso em letras vermelhas, brilhou e um nome escrito apareceu repentinamente. Charles pôde ver o próprio nome estampado na base do papel.

— Mas... Como isso é possível? — Admirou-se Charles pegando o papel novamente.

— O que? — Indagou Mike para o irmão. Douglas também esperava a resposta.

— Meu nome não estava aqui e agora está. Como ele poderia aparecer assim? Olhe. Está nesse papel da cartomante Safira: Venha e descubra sua sorte.

— Charles, não liga para essa besteira. Olhando bem... Parece escrito à caneta e você não é o único com o seu nome na cidade. Você viu quem entregou o papel? Pode ser o nome do homem que estava distribuindo. Olha esse aqui que está na lixeira, está escrito Priscila.

— É Charles, deixa isso para lá. Você agora está acreditando em visões e adivinhadores charlatões? São apenas pessoas querendo ganhar dinheiro à custa da ingenuidade alheia— informou Mike com as mãos postas sobre a haste da bengala.

— É Mike está certo. Nós também podemos ter falado seu nome e a pessoa anotou para fazer que fiquemos confusos. — Completou Douglas já impaciente.

— Vocês não estão me deixando falar. O nome não estava aqui. Eu vi quando ele brilhou e apareceu do nada e o seu papel não está com nome nenhum. — Charles pegou o mesmo papel da Cartomante Safira, mas desta vez o que pertencia a Doug.

— O sol está queimando os teus miolos. Quando tu cismas com uma coisa...

— Doug e Mike fiquem ali debaixo da sacada do prédio e me esperem. — disse Charles dando meia volta para investigar. — Eu não vou demorar. Tenho uma sensação de que devo averiguar o problema.

— Não há problema nenhum. E isso só pode ser uma coisa... — continuou Doug.

— O que? — questionou Charles.

— Loucura — Mike apressou-se em responder e os três riram.

Charles não andou muito, apenas atravessou uma rua e chegou mais ou menos no local onde lhe entregaram o papel. Observou atentamente por alguns minutos até que viu um rapaz alto com várias pulseiras penduradas e um bloco de papeis nas mãos.

— Rapaz. Ei, com licença. — Chamou.

— Você já pegou um desses não? — levantou um papel na altura dos olhos. — Posso lhe ajudar em alguma coisa?

— Sim, meu nome é Charles. — demorou um pouco esperando alguma expressão facial do desconhecido. — e o seu é?

— Lucas. Por que a pergunta?

— É porque meu nome está nesse papel e pensei...

Antes que Charles pudesse terminar de falar, um calafrio perpassou seu corpo e parece que o mesmo aconteceu a Lucas. Lucas, porém, começou a se tremer e o maxilar permaneceu cerrado como se uma dor imensa atravessasse seu corpo e ficasse privado de gritar. Os papeis em sua mão voaram pela calçada e um ataque de tremores o assolou. Mas, antes que Charles pudesse pedir ajuda ou tentasse lhe ajudar, Lucas, o rapaz simpático que distribuía panfletos, gargalhou.

Charles, que não entendia mais nada, pensou em deixar a curiosidade de lado para que voltasse ao verdadeiro propósito de cedo. Antes que pudesse afastar-se, uma mão repleta de pulseiras agarrou seu braço.

— Desculpe-me, não era minha intenção lhe assustar. Como ele disse, meu nome é Lucas. Madame Safira quer ter algumas palavras com o senhor. — Informou Lucas, com um sorriso estranho no rosto.

— Tudo bem — prosseguiu Charles desvencilhando-se do rapaz. — Se não me custar nada, tudo bem. Apenas mostre-me onde ela se encontra.

Quando uma pessoa está sozinha em casa e por acaso ouve um barulho estranho vindo de um cômodo, é natural que ela vá investigar a origem do som. A curiosidade é bem vinda em certas situações, mas deve ser tratada com a devida perspicácia e cuidado. Charles não costumava seguir uma rota alternativa da inicial, muito menos seguir um desconhecido, entretanto a espontaneidade do surgimento do nome era deveras curiosa. Sem contar que uma cartomante, sendo charlatã ou não, queria ter algumas palavras com ele.

O rapaz Lucas não chegou a entrar na salinha, pois voltou para juntar os papeis que haviam caído e voado em diversas direções. A sala da madame Safira ficava no térreo de um pequeno apartamento, adjacente às lojas de roupa local. Um lugar apertado atrás de uma cortina florida e em vários pires havia uma substância que esfumaçava. Uma mulher de meia-idade encontrava-se vestida em panos maltrapilhos de cor azul. Estava atrás de uma mesa redonda com marcas de riscos e manchas, mas que não continha a famosa bola de cristal, que tanto aparecem em filmes e livros. As paredes não se encontravam forradas, estavam apenas com uma tintura bege desgastada que eram iluminadas com duas lâmpadas de teto.

— A senhora quer falar comigo? — Charles acomodou-se em uma cadeira velha do lado oposto da mulher. — É alguma coisa importante.

— Não entendi querido. Na verdade as pessoas que veem falar comigo. — Disse Safira em uma voz arrastada.

—Bem, uma coisa estranha aconteceu e eu fiquei curioso apenas. Também tenho a sensação estranha, como se eu devesse estar aqui hoje e agora. Mas...

A mesma coisa que antes ocorrera com Lucas, acontecia à madame Safira: os tremores constantes e a pressão sob o maxilar. A mulher debruçou-se sobre a mesa e Charles não conseguia ver seu rosto. Inúmeras teorias abraçaram a mente do garoto, que partiam desde um estratagema para parecer verídico, a um possível ataque de nervos contagiosos. Charles poderia levantar-se e sair daquele lugar estranho de pessoas estranhas, no entanto não conseguia esboçar reação nenhuma.

— Dona Safira? — recorreu Charles, levantando-se de leve e pousando os dedos na mulher que jazia de borco. — Dona Safira? Eu sinceramente tenho de...

— Aaahhh. — Ofegou a cartomante como se estivesse saindo de um rio em que ficara por muito tempo. Em seguida levantou o tronco lentamente e fixou o olhar no garoto. — No torpor noturno, no divagar da mente, duas indagações surgem: como despertar o plano quando este permanece desligado? E como desatar os nós que tendem a prender as amarras? — romperam palavras da mulher que sequer piscava.

— Eu não estou entendendo. Qual o significado disso?

— Para a primeira, basta perscrutar e a resposta surgirá para aquele que for merecedor de perpassar a tênue barreira entre os espaços. — continuou sem ao menos o escutar — Para a seguinte, apenas um verdadeiro sacrifício em ato de bondade permitirá o ingressar contínuo.

— Novamente digo: não entendi o que a senhora disse. Poderia ser mais clara? —respondeu enfaticamente. — Pensando bem já devo ir embora. A senhora poderia ao menos dizer se estou lhe devendo algo?

Charles arrependeu-se amargamente por isso. Para ele aquilo fazia tanto sentido como uma vaca andando de patins. Nesta hora, Charles, Mike e Doug poderiam estar no meio do tour pelo Palácio Rio Branco. Madame Safira deu uma leve piscada depois de um tempo e abriu um sorriso, que aos olhos alheios pareciam divertir-se com a confusão estampada no rosto do rosto do cliente.

— Não temas meu querido, foram apenas palavras que alguém predisse a você, mas não ligue para isso.

— Como não ligar? É sério, isso não faz sentido nenhum. — Charles continuava exposto ao ignoto.

— Tenho algumas palavras de última hora, pois não posso demorar-me. — proferiu a cartomante com os dedos entrelaçados sobre a mesa. — É crucial que você não me interrompa até eu ter dito tudo. Você, Charles, não veio aqui por acaso. Não é nenhuma coincidência seu nome ter aparecido naquele papel e só você ter percebido. Também não é nenhuma coincidência que você tenha sonhos tão reais, muito menos a sensação que o fez não sair correndo daqui. Não posso lhe ajudar muito, mas farei apenas o suficiente. Ser merecedor é ser digno de algo ou alguma coisa. É transpor limites para um bem maior. As pessoas não estão acostumadas com o incomum, diferente, ilógico... Com o desconhecido, em palavras mais claras. Antes de você partir, peço que leve de presente, esta pedra — Madame Safira pôs sobre a mesa uma pedra pequena, chapada e escura com um redemoinho esculpido em relevo. Havia um furo que atravessava o material e vários elos dourados constituíam uma corrente. — Não é apenas uma pedra, é claro, é um colar amuleto. — continuou quando viu a dúvida novamente apossar-se de Charles. — Há outro presente para lhe dar: uma pulseira de posse. — retirou dos bolsos da veste uma pulseira preta com uma esfera azulada encrustada. — Não se preocupe. Esses objetos não são caros e eu lhe disse que são presentes. Só tenho um pedido a fazer: nunca mais procure-me, que eu não hesitarei em negar-te como cliente. Direi que não lhe conheço e não quero pessoas interrogando-me sobre o futuro ou coisa parecida.

Charles agradeceu Madame Safira por nada. Para ele não passaram de palavras vazias e sem nexos. O colar amuleto estava nesse exato momento pendurado em seu pescoço. Colocou-o apenas para dar sorte. A pulseira, que Charles não recordava o nome, seria um presente para seu irmão. O que ela quis dizer com: planos, sonhos, amarras? Absolutamente nada tinha lógica.

Quando voltou ao ar livre, sem o incenso perfumado que já fazia seus olhos lacrimejarem, Charles viu que Lucas já estava com alguns papeis em mão e teve a certeza que muitos papéis ainda permaneciam no chão.

— Está melhor? Já falei com a cartomante e para falar a verdade, deixou-me mais confuso que nunca. — pronunciou Charles.

— Não sei por que estaria melhor se não estive doente. Porque madame safira queria falar com você? — interrogou Lucas com admiração nos olhos.

— Tchau, não tenho tempo para isso.

Para o seu bem, achou melhor esquecer a maluquice que fora seu dia e voltou sua atenção ao verdadeiro propósito da ida ao centro de Rio Branco: o tour pelo Palácio Rio Branco. Deixaria Lucas e a cartomante Safira de lado, não valiam a pena serem mencionados. Evitaria perguntas, cujas respostas não existiam, seria o melhor a se fazer. Planos, sonhos, amarras, provações? Seria algo relacionado a destino? Ou apenas um acaso do dia a dia? Teria que se apressar, quando viu que se passaram vinte minutos ausente. Talvez esperasse descobrir algo mágico, pensou, contudo quem liga? Loucura é o nome disso. Riu de si mesmo, atravessou a rua e caminhou até a sacada do prédio e, depois de esquivar-se de algumas perguntas, dirigiram-se ao Palácio.

Notas finais
Como escrevi na nota da história, eu aceito críticas para saber se realmente o trabalho está rendendo. Porém, isso só é possível, se você comentar.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.