O Vírus Isaac
5 Capítulo 5 - Juliano
Minha garganta se enrola em um nó intragável, minhas mãos suam frio e meu rosto arde tanto que meus olhos ficam marejados. Eu me sinto terrivelmente miserável. Eu sou terrivelmente miserável. Droga, qual é o meu problema? Eu não tinha direito algum de dizer essas coisas. Eu não tenho porque dizer essas coisas. Juliano nunca fez nada para merecer ser tratado tão mal assim.
Então por quê? Por que eu não consigo simplesmente parar?
O que infernos está acontecendo comigo??
— Desculpa — eu murmuro, baixinho e estúpida.
— Não, Sofia — Juliano me corrige. Ele alisa o queixo com pouca barba e, mesmo nessa situação, parece achar graça de alguma coisa.— Você está certa, na verdade. Muito certa. É verdade. As pessoas mudam o tempo inteiro. Mas... Eu sei, da mesma forma que sei que o sol vai nascer amanhã, que ainda vai existir dentro da nova Giovana, a velha Giovana por quem eu me apaixonei. Não importa se agora ela gostar de tomar café, ou se vier com um tentáculo saindo do meio da testa. Ela ainda vai ser a garota mais bonita, adorável, determinada e engraçada que eu já conheci na minha vida. Se, por acaso, ela não me amar mais, eu só preciso fazer com que se apaixone por mim de novo. Vou trabalhar nisso com todas as minhas forças, vou dedicar a isso todo o resto da minha vida, se for preciso. Mas sabemos que não vai ser tarefa difícil quando você tem um corpo gostoso como esse — ele conclui, modesto, largado na cadeira com olhar sonhador, muito orgulhoso por todos seus atributos físicos.
Eu engulo duramente, porque não quero voltar outra vez para a minha versão demoníaca e amarga, mas a pergunta que eu tentei sufocar como a ânsia de vômito por imaginar Juliano peludo e pelado me escapa.
— E se... E se ela não quiser mais voltar? E se ela escolher ficar lá?
— Então eu vou usar o dinheiro que estava economizando para A Grande Coisa e vou atrás dela — responde, sem pestanejar, como se já tivesse essa resposta pronta dentro do seu coração por muito tempo. — Não importa onde eu esteja, ou o que eu faça, eu sei que meu lugar é ao lado dela. Eu sei disso desde o dia em que a vi pela primeira vez, batendo em um garoto com um caderno, com todas as folhas voando pra todos os lados e uma baba de ódio escorrendo pelo queixo. Desde então meu coração não pertence mais à mim, mas à ela. Não tenho muito mais o que fazer sobre isso.
A cena poderia ser mais tocante se eu não percebesse que Juliano está piscando para o próprio reflexo em uma das panelas brilhantes de aço inox, seu ego maravilhoso e estupendo dando cambalhotas pela cozinha, provavelmente satisfeitíssimo com a poesia das suas próprias palavras. Ele se inclina sobre a mesa, de braços cruzados, e volta-se para mim.
— Já que estamos contando histórias, que tal me dizer de onde afinal veio essa lagosta, hm?
Ele aponta para Gezebel na mesa. Contar a verdade para Juliano é o mínimo que eu posso fazer, depois de ser tão absurdamente chata e por ter falado coisas tão ruins, mas não é como se ele precise saber de toda a história.
— Pipa do Sapão me emprestou pra que eu conseguisse marcar uma consulta com o Oscar, o meu veterinário. Eu precisava de um remédio novo.
— São as melecas brancas? — ele pergunta. — Achei que aquele corante que eu te arranjei ia dar conta.
— Não, não, as melecas estão bem.— Eu ter dado um surto psicótico semana passada por causa da falha na clorofila do ecossistema do meu nariz começa a parecer um exagero até mesmo pra mim. — É outra coisa... Tem... — Suspiro, dando-me por vencida. — Tem alguma coisa terrivelmente errada comigo. Alguma coisa dentro do meu corpo. Uma verdade errada que apareceu escrita em mim.
Juliano franze a testa, intrigado.
— Isso é bem novo, até mesmo pra você. É alguma nova epidemia das ilhas? Eu achei que aquela gripe do caranguejo que ainda fosse notícia.
— Não, sou só eu — eu digo, assumindo meu posto de condenada como o mártir da nossa geração. — E é tudo culpa do Isaac.
Posso sentir o interesse de Juliano aumentar, como toda vez que menciono o nome do meu vizinho por livre e espontânea vontade. Ele me olha curioso e roda o indicador para mim.
— Hmm... Só por curiosidade... O que exatamente está escrito por aí, Sofia?
“Eu quero que você fique”, é o que diz minhas costelas desde que Isaac resolveu viajar para o outro lado do mundo. Eu preferiria mastigar vidro do que contar isso ao namorado da minha irmã. Pior ainda, posso sentir o sangue fervilhar nas minhas orelhas, e tenho certeza que quanto mais a cor do meu rosto aumentar, menores são as chances de conseguir burlar o interesse policial de Juliano no assunto.
— Umas coisas bem erradas. Super erradas. Tipo, as coisas mais erradas das coisas erradas. Com... erros. É. Muitos erros bem errados.
— Hm — Juliano faz, os olhos afilados me perscrutando como uma máquina de raio-X. Ele suspira e cruza as pernas, com uma expressão enigmática que eu conheço bem o suficiente para saber o que vem a seguir. — Sofia, eu já te contei a história sobre as verdades escritas?
Ah, não. Isso de novo, não.
Algum professor de alguma faculdade contou essa história nos primeiros e únicos dias que Juliano frequentou as aulas e desde então ele deve ter repetido a mesma coisa umas duzentas vezes, em conversas, palestras, karaokês e discursos de casamento, sempre que tem a mínima chance ou um microfone à disposição. Eu poderia recita-la de trás para frente de tanto ser obrigada a escutar.
— Na verdade, já, sim. Umas duzentas vezes. Até mesmo cantando. Uma vez você dormiu enquanto contava.
— Mesmo? Eu me lembrava de você ter dormido — ele diz, revirando os olhos como se tentasse recordar, então dá de ombros. — Bem, não importa. Nunca é demais. É o seguinte...
— Acho que vou ao banheiro...
Ele me puxa pelo braço e me obriga a sentar.
— Quietinha aí e escute. Era uma vez, há muitos e muitos anos atrás, quando frutas existiam fora de latas e todas as ilhas do Sul formavam um único continente chamado América... Pare de me imitar, Sofia, está tirando minha concentração. Como eu dizia, em tempos passados, as pessoas viviam suas vidas cheias de mentiras, sem que ninguém se importasse. Mentiam umas para as outras no dia-a-dia, mentiam no trabalho, para suas famílias, algumas mentiam para um país inteiro. As mentiras construíam relacionamentos. Até que, um dia — ele levanta o indicador para dar ênfase —, um rapaz foi preso por atropelar uma senhora, quando estava passeando de carro com a namorada. Durante o julgamento ele se declarou completamente culpado e aceitou sem discutir a sentença. O júri decidiu que, por um crime tão terrível, de atropelar um ser humano inocente e fugir sem prestar ajuda, ele deveria ser executado. A família e a sua namorada ficaram desesperadas, mas não podiam mudar a decisão do juiz. O fato curioso foi que — Juliano me puxa pela bochecha, para prestar atenção, já que aparentemente eu estava muito distraída oferecendo sopa para Gezebel experimentar —, após a execução, a família foi preparar o funeral e encontraram no corpo dele a mesma palavra escrita várias e várias vezes por toda parte. “Inocente”, dizia, atrás do pescoço, debaixo do braço, entre os dedos do pé, mesmo que a família garantisse que o rapaz não tinha aquelas palavras gravadas antes de ser preso. Quando a autópsia foi retirar os órgãos do condenado para a doação, encontrou a mesma palavra por baixo de toda a sua pele, escrita com tinta nas suas veias, até mesmo nos músculos do coração. Foi a primeira vez que uma pessoa ficou marcada com palavras. Na época, aquilo foi considerado um milagre. Teve tanto impacto que a namorada não mais suportou e confessou que fora ela quem dirigia na noite do crime e por culpa dela estava morta a moça inocente, mas que seu namorado, para protegê-la, tinha aceitado assumir toda a culpa e lhe obrigado a jurar que nunca diria nada.
Ele me encara por um longo tempo depois de ter terminado e pergunta, pausadamente.
— Você entende o que a história quer dizer, Sofia?
— Cuidado quando for atravessar a rua?
Juliano bufa.
— Não, sua cabeça-de-vento! — Ele belisca minhas duas bochechas dolorosamente, arreganhando meu rosto em um sorriso grotesco. — Nada fica marcado em você, a menos que seja o que seu coração sofre por guardar! Esse é o presente e a condenação da nossa evolução. Será que você entende alguma coisa agora?
— Tá doendo!
— Eu vou continuar puxando até você tirar alguma conclusão filosófica e profunda disso tudo!
— Gezê, me salva!
— É capaz dessa lagosta ter mais sensibilidade que você!
Eu estou me contorcendo e gritando por socorro enquanto Gezebel descontraidamente belisca o que sobrou da sopa e Juliano estica minhas bochechas o suficiente para arrancar toda a carne do meu rosto. No meio da tortura facial ouço um baque alto e metálico de alguma coisa jogada bruscamente na mesa de aço, que treme. Uma bacia de metal enorme e brilhante é atirada bem na minha frente, raspando o meu nariz e não esmagando Gezebel por questão de centímetros. Ao meu lado está o corpo imenso e rabiscado de Cachorro Louco, com a sua carranca furiosa, respirando ruidosamente.
— Jantar — ele anuncia e sua mão gigantesca avança, para roubar Gezebel, jogar dentro da bacia e sair correndo, eu imagino, mas ao invés disso, ele puxa o gancho do topo que eu não tinha percebido e remove o que na verdade não é uma bacia, mas uma tampa metálica, revelando o prato escondido debaixo dela.
Não posso acreditar no que meus olhos vêem. Não pode ser real. Nem tenho certeza se isso é comida. É um milagre. Acho que vou chorar.
Deitada no prato de porcelana está uma lagosta de casco dourado reluzente, feito de caramelo, decorada com banana caramelada e bolinhas de chocolate ao redor.
É... É a coisa mais linda que eu já vi em toda minha vida.
— Jantar — Cachorro Louco repete o grunhido, lança um último olhar para Gezebel, sua musa inspiradora, se vira e volta pra cozinha, me deixando com os olhos cheios de lágrimas.
— Ai meu coração. — Eu tampo a boca, tentando conter a emoção, que é gigantesca. — É... É perfeito...
— É só comida — Juliano interrompe.
— Cala a boca, você não entende.
Gezebel se aproxima, desconfiada, da sobremesa, e balança suas anteninhas para ela, a reconhecendo como se fosse uma irmã. Ela belisca ao redor da casca doce brilhante, interagindo e se apresentando pra amiga.
— Será que eu posso levar pra casa? — Eu viro meus olhos suplicantes para Juliano.
Ele ri e espeta um dedo na lagosta, empurrando a crosta e mostrando algo macio e molenga por baixo.
— É melhor você comer, antes que derreta. Cachorro Louco adorar rechear as coisas com sorvete.
Eu me preocupo que isso possa ferir ainda mais os sentimentos da pobre Gezebel que já passou por maus bocados hoje, até que percebo que a danada canibal estava mastigando uma antena decepada da nova amiga. Me sirvo com a colher deixada ao lado do prato e, juro, o gosto chega a ser tão inacreditável quanto a aparência. O contraste do caramelo morno e do sorvete gelado juntos entorpecem minha língua e mais uma vez preciso engolir as lágrimas do meu choro comovido. Isso não é comida, é arte!
— Bem legal, han? — Juliano comenta do meu lado, contente, e rouba uma das patinhas de caramelo da minha sobremesa. — Foi por isso que eu escolhi o Cachorro louco para A Grande Coisa.
— Você vai contratar alguém pra fazer sobremesas só pra você? Vai acabar ficando do tamanho de um planeta. Eu posso ir te visitar todos os dias? Claro que posso. Vou fazer uma cópia da sua chave.
— Não vai ser só pra mim, boboca — resmunga. — Além disso, eu tenho o metabolismo de um coelho, poderia comer um oceano inteiro feito de caramelo e ainda estaria com minhas formas delgadas e firmes prontas para exibição.
— Eu não sabia que alguém que mente tanto poderia cozinhar tão bem — eu suspiro, entre uma colherada e outra, pensando seriamente em adotar Cachorro Louco como meu novo pai.
— Mente? — Juliano franze a testa, confuso, mas logo seu rosto relaxa – seja por entendimento ou pela sua preocupação obsessiva com rugas – e ele sorri. — Sofia, aquilo no braço dele não são verdades escritas. São tatuagens.
— Tatuagens?
— Você sabe, eu já te falei sobre elas. Antigamente, quando as pessoas não ficavam marcadas por palavras, elas costumavam furar a pele com agulhas molhadas em tinta de osso de animais em decomposição e se encher de desenhos que falassem sobre a sua vida.
Realmente, Juliano já tinha me contado histórias sobre isso, mas pareceu ridículo demais para acreditar que as pessoas se esforçariam tanto para serem vistas, e não para se esconderem.
— Cachorro Louco escreveu o nome de todos os cachorros que ele já teve, para nunca se esquecer deles — completou. — Ele é louco por cachorros. Entendeu? Cachorro Louco, louco por cachorros — Juliano conclui, se achando estupendamente engraçado com o trocadilho, e eu preciso fingir rir com uma careta pra ele parar com a palhaçada.
Outra vez, o garçom de sardas mete a cara para dentro da porta da cozinha, zangado e apressado, quebrando meu momento de contemplação do gigante cozinheiro de sobremesas – que, realmente, tem “Flocos”, “Romeu”, “Gaivota” e “Princesa Fada” formando os elos da corrente que sobe até o seu pescoço.
— Não acredito que você tá aí de novo — ele bufa, com a voz fanha. — A senhora da mesa 20 derramou comida na roupa e tá gritando por toalhas quentes. Aproveita e leva o pedido do casal na oito.
— Já tô indo — Juliano se levanta, pegando o capacete do uniforme que deixou de lado.
Eu volto a ler as tatuagens de Cachorro Louco — um “Goiabada” e um “Empadinha” perto do ombro —, pronta pra ser deixada sozinha outra vez, mas antes de sair, Juliano se volta de repente pra mim.
— Olha só, eu sei que isso realmente não tem nada a ver comigo, mas não tome esses remédios, Sofia. Só converse com o garoto, tá legal? Diga a ele o que você sente.
A seriedade dele me pega de surpresa com uma garra inteira de lagosta enfiada na boca. Tudo bem que eu já estava entalada com isso há uns cinco minutos, mas foi surpresa de qualquer forma.
— Eu não... — A única coisa que eu consigo fazer é me engasgar, com sorvete gelado escorrendo pelo meu queixo, me sentindo patética. — Eu não sinto... Arrgh... Eu não sinto nada pelo Isaac!
— Por favor, Sofia — Juliano insiste, rolando os olhos. — Qualquer um pode ver.
Finalmente consigo desgrudar a pata de caramelo do céu da minha boca. Sinto meu rosto arder de vergonha. Eu...
— Talvez eu realmente tenha ficado triste quando Isaac disse que precisava ir. Mas isso não mudaria nada, não é? Ele continuaria indo embora e eu continuaria sozinha. E doente. Admitir pra ele só me faria parecer mais idiota ainda. Não importa o que eu sinto ou deixo de sentir, ele vai embora.
— É claro que importa, Sofia. — Os olhos castanhos de Juliano parecem verdadeiramente indignados até que ele sorri, de verdade, enquanto diz. — Seus sentimentos são importantes. Você é importante.
Com isso, ele desaparece no salão, me deixando abobalhada e sozinha com minhas duas lagostas — uma semidevorada. Eu volto a roer a pata de caramelo duríssima da minha lagosta, que, agora, apesar de saborosa, não tem o mesmo gosto incrível de antes. Droga, Juliano tinha que acabar com o meu ânimo devorador com essa baboseira inteira de sentimentos. Só porque ele acha que vive no centro de uma novela não quer dizer que precisa envolver todos ao redor nessa atmosfera de desafios pessoais e aceitação. Não consigo nem mesmo terminar a sobremesa sem ser assombrada novamente por pensamentos irritantes cheios de Isaac.
É só então que eu vejo. O meu reflexo no aço brilhante da mesa. Eu, com uma pata marrom enorme de crustáceo enfiada na boca e uma frase flutuando na minha testa, ainda quente. Estampado na minha cara como um outdoor maligno.
“Eu gosto do Isaac”.
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