O Véu Negro
9 Surpresa de Natal
P.O.V. Ravena Castellyn
O trem iria sair em uma hora. Enquanto o cara das malas as organizava em seus vagões, Scorpius, Alvo e eu estávamos parados, observando os alunos chegarem na estação de Hogsmead. Por algum motivo, nesta manhã o silêncio prevaleceu, deixam um clima pensativo. Noah, como sempre, estava atrasado. Pelo menos hoje ele poderia lembrar o motivo pelo qual estou esperando.
Um braço passou por trás de Alvo e uma mão encostou em seu ombro. Thiago Potter, Fred Weasley, Frank Longbottom e Leonard Zabini, também auto-declarados Os Marotos, chegaram por trás de Alvo para uma entrada dramática que tanto amam. Apenas revirei os olhos, instantaneamente. Eu não gostava de muita gente, isso era bem aparente, mas não suportava Thiago Potter; tão convencido que chegava a doer a alma. Alvo, como sempre, ficou um pouco zangado com a aparição do irmão mais velho.
Scorpius obseravava calmamente o que aconteceria a seguir, quase que como rotineiro já havia formado algum comentário desnecessário para dizer.
— E aí, irmão! Como foi sua estadia nas masmorras? — Thiago o observava como se fizesse meses que não se viam quando na realidade havia se encontrado ontem a noite no jantar, Alvo o encarava como se estivesse suportando mais do que poderia.
— Melhor que nunca. A vista para o Lago Negro é ótimo — foi Scorpius a falar, atraindo a atenção para ele. — E como vai o céu monótono lá de cima?
Thiago apenas riu.
— Nos vemos em casa — ele riu, dando um tapa suave na nuca de Alvo e se afastando.
Os quatro entraram dentro do trem. Alvo e Socrpius, como que cansados de ficarem ali, decidiram fazer o mesmo, me deixando sozinha esperando Noah. Levantei minha coruja, a encarando:
— Acredita nisso, Neji?
Como se não houvesse hora melhor para aparecer, Loren chegou, ela havia começado a querer discutir continuamente depois do tal “sonho” que teve comigo. Atrás dela, as restantes das minhas colegas de quarto, tão propensas a quererem uma discussão que nem dava graça. Espero que elas comecem a falar.
— O jeito que fala com essa coruja é ridícula — riram.
— Pelo menos ela consegue ficar perto de mim, mas e você? Quem além dessas idiotas conseguem te suportar?
Como sempre, ela abriu a boca e a fechou de novo, ficando ainda mais brava. Esses pesadelos estavam mesmo causando uma certa desavença, já que Loren costuma aparecer no pesadelo da maioria das primeiranistas. Conclusão: nos últimos meses, todas elas se afastaram de Loren.
— Não compensa conversar com você — ela fez uma pose, jogando o cabelo para trás. E depois Noah me pergunta onde aprendo essas coisas!
— Concordo — assenti, apontando para a entrada do trem com uma pequena reverência. Como sempre, ficaram ainda mais irritadas enquanto saíam. É, esse Natal será ótimo.
Meia hora antes do trem sair foi que Noah apareceu, quase o último a chegar. Entramos e demoramos anos para conseguir uma cabine vazia, já que não estava com vontade de viajar com aqueles amigos do Noah e ele… bem, ele não ia com a cara de Scorpius.
E, quando finalmente sentamos e soltamos os bichos (depois de fechar as cortinas), estava mais que contente com aquela cabine. Por mais que teria motivos para ninguém estar ali: um menino havia acabado de jogar uma bomba de bosta e o cheiro ainda estava forte. Foi preciso deixar a janela aberta para ser aceitável, valeu a pena se comparado a dividir a cabine com alguém.
Noah estava mais desanimado que de costume. Olheiras enormes, nem parecia que havia dormido tanto, não estava tão arrumado e parecia desconexo, como se algo faltasse, olhando para todos os lados enquanto andávamos, parecia procurar alguém. Agora, dentro da cabine, encarava o chão pensativo.
Tive que quebrar aquele silêncio.
— O que houve, Noah?
Como se fosse uma chave que destrancou no lugar certo, Noah me encarou e contou tudo.
Havia sonhado com uma bruxa que levou algo dele, mas ele não sabe o que é. E, segundo ele, tinha quase certeza que era real, em partes. Talvez o fato dele ter saído do castelo sem me chamar.
Novamente, comentei que não me lembrava de meus pesadelos, que só acordava com medo e irritada, não saberia dizer se havia visto essa bruxa decomposta. De qualquer maneira, ficamos um tempo tensos. Olhando Neji que lembrei da carta do meu tio e que havia esquecido de avisar Noah.
— Ah, meu tio veio da Itália. Está ajudando com a loja nesse feriado, então você vai conhecer meu “pai” — fiz aspas com os dedos.
Ele sorriu.
— Então você foi criada pelos dois? — perguntou.
— É. Passei até uns meses na Itália, mas onde morei mais foi no Brasil, temos uma loja lá. Ela escolheu abrir outra filial no Beco Diagonal, mesmo sabendo que quase cinquenta por cento da razão é Hogwarts, ela sempre quis que alguém da família estudasse lá.
— Ah sim. Vai ser legal passar o Natal em um lugar diferente.
— Sabe que praticamente passaremos o tempo todo sozinhos, não é?
— Sério? Quase como em casa.
Ri. Por mais que sejamos amigos há uns bons meses, não conversávamos muito sobre nossas famílias, trazia desconforto em ambas as partes.
***
Os dias foram se passando com uma certa rapidez. Ali, nem Noah e nem eu tínhamos pesadelos; dormíamos no depósito de minha tia, ela o arrumou com dois colchões e um local onde colocamos nossos malões, meu tio dormia no meu quarto. Durante o dia, andávamos pelo Beco Diagonal e, muitas vezes por tédio, íamos até Londres e ficávamos entre os trouxas.
Até que finalmente a véspera de Natal chegou. Lá estávamos nós dois, conversando e rindo na mesa de jantar pela manhã enquanto meus tios cuidavam da loja; talvez por estar com Noah, minha tia não me dava mais que tarefas domésticas para fazer e aquele dia estava totalmente livre.
Saímos cedo, meus tios já estavam arrumando a loja que abririam pela parte da manhã. Pensamos em dar uma olhada nos trouxas, verem como se comportam nessa data, mas eu que Noah, na realidade, já que o pai trouxa dele sempre o levava para a cidade. Eu só tive contato com trouxas até os cinco anos, quando meus pais me expulsaram de casa.
As ruas estavam cheias no Beco Diagonal, um monte de bruxos procurando seus presentes atrasados. Noah e eu ríamos de uma piada qualquer quando ele abre um enorme sorriso e aponta para um amontoado de gente:
— Matteo! — Grita ele, chamando a atenção de algumas pessoas e correndo ao encontro do amigo.
Revirei os olhos, era a última coisa que eu pensaria que poderia acontecer naquele dia: encontrar os amigos chatos de Noah. Suspirei, tentando me conter e segui Noah pela multidão.
Matteo estava mesmo ali, vestindo roupas bruxas e segurando um alcaçuz enquanto conversava animadamente com Noah. Não tinha ninguém perto deles, provavelmente Matto estava sozinho, o que me deixava um pouco mais a vontade. Cheguei perto dos dois.
— Olá — disse, tentando chamar a atenção. O que funcionou. Ao me olhar, Matteo fez cara de nojo.
— Oi — falou, simplesmente, voltando-se para Noah. — Como ia dizendo antes da naja nos interromper — Noah não gostou do comentário, mas nem teve tempo de o repreender. — Meus pais ficaram o dia inteiro por aqui na loja deles de roupas. Não sei por que, mas parece que passarei o Natal em meio a um monte de túnicas — riu ele.
Noah também riu. Eu não conseguia achar a graça.
— Podia passar conosco! — Noah e sua boca grande… por que diabos eu iria querer um Corvino no meu Natal? Estava ótimo apenas meus tios e Noah. Eu não precisava de mais ninguém.
Como se lesse meus pensamentos, Matteo respondeu sem me encarar:
— A naja não iria gostar.
Naja. Era apropriado por eu ser sonserina, um apelido que na realidade não havia escutado antes (talvez de algumas colegas de casa, mas só) e que não gostava. Me lembrava Loren. Todos do primeiro ano a chamavam assim por suas costas, não dava para acreditar que aquele verme me chamava também. E na minha frente!
Não que eu não gostasse de ser chamada de naja, tinha lá um ar forte e inspirador, mas ser comparada com Loren… me dava os nervos.
— A naja convida você para passar o Natal — falei sem perceber, me arrependendo logo depois. — Vai ter vários ratos. Quer ir?
Noah riu.
— Não vai ter não! O tio da Ravena é um cozinheiro de mão cheia! — Noah não estava mentindo.
Ficaram um tempo em silêncio esperando a resposta. Como demorou muito, já estava quase agradecendo a Merlim por ele recusar e sair como o vilão dessa vez, e não eu.
Mas isso foi cedo demais.
— Pode pedir pros meus pais? — Ele perguntou, encarando Noah. — Não sei se eles deixariam se eu pedir.
Noah sorriu e me deu um abraço de lado.
— Ravena é ótima com pais, consegue tudo. Ela que convenceu os meus, e por carta!
— Demorei duas semanas para conseguir. Seus pais demoram uma era pra responder — complementei. — Mas, sim, sou ótima com adultos. Posso pedir para seus pais, se não for incomodo para você — acrescentei um sorriso.
Matteo ficou mais alguns segundos parado, me encarando, incrédulo com o que escutava. Ao invés de uma resposta, ele formulou uma pergunta:
— É os siameses que te deixam má? Porque realmente não estou te reconhecendo.
Siameses? Deveria estar falando de Scorpius e Alvo, que não ficam um segundo separados. Revirei os olhos, exausta daquele assunto.
— Vai querer ou não? Última chamada.
Por algum motivo, ele riu.
— Sim, quero.
A conversa com os pais de Matteo foi rápida. Aceitaram quase na mesma hora, sorrindo, e comentando “por que não nos disse que tinha uma amiga tão legal?” e eu apenas sorri satisfeita, deixando meu ego inflar. Ao sairmos de lá, Matteo estava um pouco mal-humorado, mas o bom humor de Noah logo fez o que sempre fazia: deixou todos animados, correndo pelas ruas e rindo de coisas aleatórias.
Eu nunca havia gostado de Matteo, só o encontrava nas aulas onde ele competia com Rose Weasley quem sabia mais (sendo ambos da mesma casa) e como sempre fugia de Noah quando ele estava com seus amigos, não tinha muito contato com os amigos de Noah. No fundo eu sabia o que cada um deles pensavam sobre mim e… agia exatamente como eles pensavam. Talvez eu fosse o problema….
Natal mexe mesmo com a mente das pessoas. Eu, um problema? Esquece essa ideia maluca.
O fato é que estava gostando de passar o dia com os dois. Matteo tinha um humor um pouco negro que combinava um pouco com o meu e de Noah, fazendo eu perceber o motivo de serem amigos, por mais de que de todos, Matteo era o menos chegado em Noah.
Por fim, voltamos para casa. Meus tios estavam fechando a loja quando chegamos, despedindo-se dos últimos clientes e indo fazer a ceia. Apresentei a eles Matteo, meu tio sorria muito e minha tia parecia mais que contente.
— Minha sobrinha tem tantos amigos! Que surpresa! Sabia que se daria bem em Hogwarts — por algum motivo, ela me abraçou forte, me amassando.
— Qual a surpresa? Eu sou um amor — disse, tentando afastá-la. Meu tio riu com meu comentário.
— Está mais para uma cobrinha, o que combina com sua casa — ele parecia bem contente esses dias. — Você só é um pouco impulsiva, sobrinha.
Revirei os olhos, passando por eles.
— Ok, meus tios que não têm confiança em minha simpatia — fiz um leve drama enquanto andava, com Noah e Matt em minhas costas. Noah ria, Matt tentava entender o que acontecia. — Como será que isso influencia na minha autoestima?
Minha tia gritou, de trás e com um sorriso enquanto subíamos as escadas:
— A ceia é em três horas!
Matt e Noah ficaram no meu quarto enquanto eu me arrumava. Coloquei o vestido que havia ganhado de meu tio no Natal passado, um vestido que ia até perto dos joelhos, azul com detalhes em prata, rodado e tomara que caia. Coloquei um chinelo bonito, com só uma tira, negro. Era confortável e não iria sair de casa, então estava de bom tamanho. Penteei meu cabelo e coloquei uma tiara para dar um ar de arrumado, uma tiara negra com pedrinhas em seu topo.
Ao entrar no quarto improvisado, acabei interrompendo uma piada. Matt estava sentado na cama improvisada de Noah e Noah estava sentado na minha, sorriu ao chegar e foi se arrumar. Me sentei na cama, quase me jogando e fiquei alguns segundos em silêncio.
— Ravena! — Ouvi minha tia gritar. — Pode arrumar a mesa?
— To subindo! — Respondi, suspirando e me levantando. Encarei Matt que me observa em completo silêncio. — Vem comigo ou quer ficar aqui sozinho?
Ele se levantou e me seguiu. Acabou me ajudando com a mesa, mesmo sem eu ter pedido, meus tios foram se arrumar depois da ceia quase pronta. Acabamos sentando na mesa, Matt se sentou no meu lado esquerdo. Noah chegou bem no momento, sentando do outro lado.
Foi bom. Comemos bastante, conversamos, rimos, meus tios mostraram o quanto são simpáticos e tudo foi maravilhoso (seria mais de Matteo não estivesse lá, mas foi perfeito mesmo com ele). Noah deu presente a todos, novamente: Matt e eu ganhamos dois presentes de Noah, se considerarmos o que ele havia dado em Hogwarts. Minha tia, sempre péssima com presentes, deixou que cada um pegasse duas coisas que quisesse na loja que não passava de dez galeões, meu tio deu um sobretudo para Noah, muito bonito e negro, para Matt ele não havia comprado e pediu para pegar algo da loja, já se desculpando e para mim ele deu uma vassoura nova (parece que não sabia que havia comprado uma antes das aulas e as duas eram iguais), acabei dando uma das minhas vassouras para Matt. Seus olhos brilharam tanto que fiquei confusa. Para Noah, dei um kit bruxo de maquiagem excelente, pois ele havia secado um em uma loja uns dias atrás.
E finalmente a noite acabou. Matt voltou para sua casa em Londres com seus pais, que o buscaram na loja de minha tia. Deitados para dormir, pensando nas aulas que voltariam em poucos dias, Noah puxou um assunto estranho.
— Você foi muito legal com Matt hoje, se fosse assim com todos, todos amariam você.
— Muito trabalho — respondi, simplesmente. — Mas o Matt é legal.
Noah ficou em silêncio por alguns minutos, me fazendo pensar que dormiu.
— Você não se sente incompleta? Como se alguém muito importante para você estivesse desaparecido, mas você não consegue entender?
Sentei na cama, ligando o abajur e o encarando.
— Como assim, Noah?
— Eu sinto que algo está faltando, alguém. Alguém importante para mim. No começo pensei ser os pesadelos de Hogwarts me deixando louco, mas até aqui… até aqui, tão longe de Hogwarts, eu sinto que tem algo errado.
— Como alguém some e você nem sabe quem é? — Perguntei, confusa.
— Não sei — ele estava triste. — Mas tem algo errado. Tem alguém faltando, Ravena.
Suspirei. Poderia dizer que ele estava louco, que era tudo coisa de sua cabeça, uma esquizofrenia ou algo do gênero, mas acreditava nele fielmente. Se ele dizia que tinha alguém faltando, por mais louco que isso fosse, tinha alguém faltando e por esse motivo só tinha uma coisa que poderia dizer com toda a minha sinceridade:
— Nós vamos achar essa pessoa, vamos entender o que está acontecendo e acabar com essa loucura, Noah. Nós vamos, confie.
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