O Vulto
8 Paz
Notas iniciais
No domingo Renato estava no culto, aquele era o dia da resposta, mas não procurou por Viviane, na verdade ele nunca procurava por ninguém, gostava de ajoelhar-se e agradecer pelo dia que teve, mesmo que se lembrasse de Cleiton ou seus pensamentos não saíssem do pai. Sentir a música era bem mais do que amor, sempre que ouvia experimentava um sentimento que beirava o amor e a loucura, provavelmente ele perderia o dia inteiro ali. Orar não era um ritual de falar com uma entidade em outro plano, quem sabe Renato falava com ele mesmo em busca de uma força que estava dentro de si mesmo. Ali era um local seguro não do pai ou da violência, mas da vida real, assim deixava fluir sobre ele misericórdia e graça, sentia liberdade dentro daquele lugar e ao fim de cada louvor, ou oração calmaria e paz faziam morada dentro dele, a mesma paz que sabia que não teria em casa e que infelizmente acabaria em algum momento, a pergunta era...
Quando?
Quando aquela paz iria acabar? Já que a bíblia dizia: “A minha paz vos deixo, a minha paz voz dou...” estas foram palavras do próprio Jesus, mas porque chegaria o momento em que ele pegaria a paz de volta para si? Poderia não ser infinita? Faltaria a alguém? Será que havia alguém mais necessitado? Se houvesse, ele abriria mão.
Não faria diferença os “porquês”, nem os “será”, por que no fim acabaria. Assim culto a culto, oração após oração, descobria que esperar não seria sábio, já que a paz iria embora algum dia, assim precisava substituí-la por algo.
A oferta fora recolhida, as músicas cantadas, a palavra ministrada, e por fim...
“Que a graça do nosso senhor Jesus Cristo e o amor de Deus, o nosso Pai, seja convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. – e todos diziam no fim — Amém”
O culto estava acabado, e sem demoras Renato sentiu um braço lhe puxar, era Susana.
— E então? Ela quer saber!
— Eu quero falar com ela.
— Como assim? Você quer falar com ela agora?
— Sim, porque não?
— Claro que não, a mãe dela mata você!
— Tá bom, então amanhã eu falo com ela na saída da escola dela.
— Eu vou dizer pra ela que você quer.
— A menos que você vá beijá-la por mim, recomendo que você não faça nada. Eu falo com ela, não gosto de medição. – Mesmo que não queria, as repostas de Renato o faziam parecer sarcástico.
— Nossa, mas você é difícil em... Mas continue usando essas palavras, ela diz que ouve você dizendo e que acha uma graça. Tudo bem, eu só queria ajudar, – Mentira ela queria saber o que Renato diria. – já vou adiantando que os outros caras estão esperando só um vacilo seu para ficarem com ela. Então aproveita o presente que você recebeu.
Renato? Presenteado? Com o que?
A melhor forma de entender aquela frase foi acreditar que Susana estava dizendo que Viviane era uma moça que valia a pena, e não somente linda. Ser linda não bastava, não era o suficiente para uma relação. Porque Renato sabia que não teria sossego, segurança e paz. Somente ser linda não bastava, afinal a beleza era passageira, Renato buscava sentir-se confiante ao lado dela, pois não queria algo vazio e passageiro, afinal isso só lhe traria problemas, então a definição de “sorte” era relativa.
Renato não queria dar uma de difícil, na verdade nem se esforçava para tal, mas sempre odiou intermediários, era covardia de mais alguém lutar por você as batalhas que eram de seu interesse, por isso passou a perceber que ninguém lhe livraria em casa, contudo Viviane cantava divinamente e voz daquela linda moça começara a chamar atenção de Renato, que surfava nas notas que horas lhe atingia como tempestade e em outros momentos lhe vinha como brisa suave.
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