O Vulto
1 O Vulto
Notas iniciais
Tantas coisas maravilhosas poderiam ter acontecido naquela noite em que a lua brilhava poderosa e o vento soprava como o toque de uma namorada apaixonada, desde o nascimento de um filho até um casamento inesquecível. Noites como àquela motivava o amor e trazia consigo a inspiração que era ofertada aos músicos e poetas com alegria e sugadas por quem tentava desistir da vida, contudo em alguns instantes a lua se esconderia e um vulto que caminhava sobre a terra obrigaria as estrelas que brilhavam como diamantes a fugirem para de trás das nuvens.
Renato, de apenas 14 anos; Camila, a irmã do meio de 10 anos; Tiago, o mais novo de 6 anos; e Lurdes, a mãe das três crianças, voltavam para casa divertindo-se no caminho como a família feliz que eram, acabavam de sair do culto que havia sido maravilhoso, todas as terças, quintas e domingos caminhavam 3 km para ouvirem o pastor Itamar lhes dar uma palavra de motivação e esperança. Naquela noite Renato fora atingido de tal forma a gerar dentro de si uma crença de que o mundo poderia ser melhor, mal sabia ele que precisaria desta mesma fé em alguns instantes. Assim, culto após culto aprendia e entedia que dia após dia Deus poderia se manifestar de diversas formas, contudo o Diabo também possuía o mesmo dom.
Na volta para casa atravessaram um campo de futebol sem gramado, no meio daquele caminho viram um vulto que caminhava firme na direção da família, por algum motivo em alguns momentos a coisa que se aproximava trocava os passos como quem estava desviando de muitos obstáculos, mas o caminho estava livre. Por fim, o vulto pareceu avistá-los e se dirigia para a família, agora com passos fortes e pose digna, parecia meticuloso como uma fera que avistou a presa. Sem mais demoras Lurdes reconheceu como sendo o marido, o que para muitas pessoas fosse uma boa noticia, afinal quando encontramos um membro tão próximo de nossa família ouvimos: “Que bom encontrá-lo!” ,mas não... não com o pai do Renato, não naquele dia.
— Onde vocês estavam? — Armando trovejou, claramente tomado pelo álcool, mais parecia uma árvore que era balançada pelo vento, no entanto o vulto aproximava-se com passos firmes e os olhos vermelhos que reforçavam o hálito de fogo que o deixavam irreconhecível fazendo toda a família tremer na base.
— Na igreja, Lindo — Lurdes respondeu ao marido usando do pelo apelido que usou a vida toda, e que somente ela achava bonito, mas estava claramente com medo, não por ela, mas por seus três filhos que já estavam amedrontados.
Renato sabia que aquela noite seria como muitas outras que gostaria de esquecer, mas aquele comportamento do pai já estava em dias tão distantes que por um segundo tentou entender como aquela fera adormecida havia saído de seu estado de hibernação.
“Então porque raio de motivos apareceu embriagado?”
“Porque ele tinha que estragar tudo?
Renato se fez diversas perguntas, e as respostas que obteve de si mesmo o deixaram ainda mais confuso e irado, afinal quem sabe um copo de cachaça valia mais do que a felicidade de sua família, ou o cheiro do vinho fosse melhor do que o de sua esposa. Na verdade Armando nunca fora alcoólatra, começava a beber e parava quando achava melhor, entretanto o álcool possui um poder diferenciado sobre cada indivíduo, alguns ficavam chatos; outros alegres; outros sinceros; alguns chorões;
O pai de Renato... violento, assim o garoto tinha consciência do que estava por vir.
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