O Vulto
3 Benção mãe
Notas iniciais
Os pesadelos se tornavam mais constantes com o passar do tempo, e os mesmos tornavam as noites de Renato intermináveis, assim dormir ou acordar já não fazia diferença, já que o sentimento de insegurança pairava sobe os dois mundos. Mesmo que não percebesse, gradativamente o garoto tornava-se mais morto do que vivo, afinal crianças normais sonhavam com a viagem que fizeram no ano passado, contudo, aparentemente Renato não merecia este privilégio.
Enquanto seguia para o banheiro, notou que os primos estavam acordados e conversando na cozinha, o som das risadas era agradável e trazia o conforto que ele precisava naquele momento, assim, melhorou a cara e seguiu para lá, mas parou ao ouvir a tia falando com a mãe dele ao telefone:
— Lurdes, tenha calma, você quer falar com ele? — O instante da resposta demorou um lapso de tempo, mas que fora uma eternidade entre o “sim e o não”. — Renato sua mãe quer falar com você.
Aquela simples frase o atingiu de uma forma que não pode evitar uma lágrima de felicidade, prontamente Renato seguiu para o telefone e mesmo que não houvesse percebendo estava sorrindo feliz, mas agora era por uma felicidade real, e de alguma forma o peso havia sumido.
— Benção mãe! — Respondeu eufórico, mas triste por sentir-se covarde.
— Deus te abençoe, filho! — A voz chorosa cortou o coração do rapaz, que tentava manter-se firme. — Como você tá?
—Tô bem...
— Você já comeu?
— Vou comer já já...
— Tomou banho? Você está machucado?
— Não, mãe tô bem...
— Meu filho, eu já tinha ligado para todo mundo, você saiu correndo muito ligeiro, não parou de correr mesmo eu gritando você. Seu pai ainda está te procurando, ele está muito preocupado, mas eu vou deixar ele te procurando pra ver se ele aprende.
— Tá bom mãe... mas a senhora tá bem?
— Tô sim meu filho... não se preocupe comigo. Se preocupe com você. Eu vou desligar, seu pai tá chegando, beijo.
Renato não precisaria se preocupar naquele dia, Armando traria presentes, compraria o café da manhã como se nada houvesse acontecido. Sem o álcool Armando seria uma pessoa normal e agora que houvera feito uma besteira ficaria sem beber uns meses, então a casa ficaria bem por um tempo.
Passaram-se dois dias maravilhosas na casa da tia Sandra: vídeo game com o primo; comida maravilhosa, já que a da mãe de Renato era ruim, entretanto naquele dia Renato refletiu sobre isso, quem sabe Lurdes cozinharia bem, mas lhe faltava motivação. Mas por fim chegou o dia de partir, Renato não esperou uma ligação da mãe nem mesmo a tia tocar no assunto, esperou todos saírem para aproveitar e voltar para casa, provavelmente mais rápido do que o pai esperava, Renato deixou um bilhete de agradecimento e retornou.
Ao chegar no barraco, que ficava aos fundos da própria casa e de frente para um lixão, já que o pai estava construindo uma maior na frente que nunca ficara pronta, mesmo que Armando fosse exímio pedreiro. Renato tocou a maçaneta com medo, contudo não fugiria daquilo, não fugiria nunca mais, porém não podia evitar de perguntar-se o que o pai faria ao revê-lo? As mãos tremiam num misto de medo e felicidade, pois sabia que veria a mãe e os irmãos, mas teria que encarar o pai. E quando os ouviu brincando na sala resolveu abrir a porta, tudo estava em ordem e a primeira visão foi a do pai sentado na poltrona assistindo tv na pequena sala, os dois irmãos brincavam no chão e o barulho das panelas no fogo era confortável. Entrou com um sentimento estranho, o pai nada disse ao ver o filho, para Armando nada havia acontecido, mas olhou Renato com surpresa, estava claro que ele não esperava o retorno tão precoce do rapaz. Renato entrou no jogo e nada disse, entrou como quem havia voltado da rua depois de algumas horas brincado com os amigos.
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