O Vulto
1 O vulto
Levanto da cama suspirando, o rosto suado e o coração batendo muito forte. Acordei com um barulho no térreo do meu prédio, e apesar de assustado com o estalo emitido lá embaixo, me sinto aliviado em ver que estou bem. Ao que tudo indica eu acabei de vivenciar mais um daqueles pesadelos bizarros. Sonolento tento lembrar do meu sonho, forço minha mente, mas nada. Sento e encaro o despertador... São três da manhã. Segundo uma publicação na internet, isso quer dizer que há grandes chances de eu ter sido observado enquanto dormia, bobagem.
De repente passos se fazem ouvir, de alguém que sobe a escada muito desastradamente, ele arrasta os pés sem se preocupar em fazer silêncio ou acertar os degraus. Pela pequena janelinha da sala — que fica de frente ao meu quarto — percebo que a luz do corredor está desligada, talvez seja por isso que o individuo não esteja conseguindo subir civilizadamente. Só que há um grande dilema nesse acontecimento... Todos os moradores do prédio sabem muito bem que antes de entrar existe um interruptor lá fora que liga a lâmpada interna do edifício. Logo, eu não consigo parar de me perguntar qual seria o motivo que faria alguém esquecer ou ignorar esse fato em troca de se arriscar tanto na subida? Vou em direção à sala e me aproximo da janela. Não consigo ver direito quem sobe, porque está muito escuro, mas já deve ter passado do meu campo de visão.
Viro-me. De repente ouço uma batida na porta, a maçaneta gira levemente e então volta para o mesmo lugar, observo aquilo apavorado. Vou dando passos leves em direção à cozinha para pegar uma faca, quando mais uma vez a maçaneta cede para baixo (agora com mais força). Abro a gaveta rapidamente e procuro pela coisa mais afiada possível,- enquanto o trinco fortemente mexe para cima e para baixo várias vezes — alguma coisa esta tentando entrar sem ser convidada. Encontro por debaixo de algumas colheres um facão de açougueiro bem pontiagudo. Quem quer que esteja no corredor, está dando batidas de raiva na porta nesse instante. Direciono-me para a entrada da casa e ouço um barulho de chave. Eu moro sozinho... Por que alguém usaria uma chave aleatória para entrar aqui? Será que ele havia feito uma cópia da minha? Será que alguém me seguia durante minha rotina sem eu ao menos perceber?... E agora? Engulo a seco e espero pelo que quer que seja entrar pela porta da frente, mas nada acontece além do silêncio. Ando sorrateiramente escorado na parede, me aproximando da porta, quando ouço passos se direcionando para o outro lado do corredor. Encosto minha face na madeira, enquanto tento enxergar através do olho mágico.
Levou alguns segundos até minha visão se acostumar com a escuridão daquele andar – eu moro logo na primeira porta que fica bem perto das escadas que levam para o térreo – e após uma boa observada, enxergo o vulto parado de costas para mim de frente à vizinha do 102. Não sei o que ele quer aqui dentro, mas não posso deixar os outros moradores correndo perigo. Busquei a chave no criado-mudo e comecei com certa dificuldade a girar o trinco da porta. Escuto uma voz assustada e então novamente passos, vejo rapidamente o olho mágico, mas não há mais ninguém ali. Abro a porta no ímpeto e quando saio do meu apartamento, um enorme estrondo se faz na escada, algo começa a rolar e o som parece infindável até que — o que quer que tenha caído – encontra o chão. Sinto-me ofegante e hesitando muito, mas movo minhas pernas vagarosamente. Estou no topo das escadas agora, tento observar lá embaixo, mas a penumbra é total. Sem esperar, deslizo meus dedos sobre o interruptor na parede. Eu preferia não tê-lo feito.
Estirado de forma contorcida no último degrau se encontra um corpo, aparentemente morto, o sangue do até então vulto, jaz por todo lugar: Nas partes inferiores das paredes, por toda escadaria, no chão do térreo e nas roupas do cadáver. E enquanto eu olho para essa cena, o corpo continua a despejar litros e mais litros de sangue. Desço com cuidado com a faca sempre em riste, medo que o sujeito ainda estivesse vivo ou houvesse alguém com ele. Quando finalmente estou chegando perto do morto, a luz que eu havia acendido se apaga. Apavorado com a escuridão e antes que alguém me encontrasse ali, subi desesperadamente as escadas querendo voltar logo para a segurança do meu quarto, no meio da subida quase piso em falso –o que resultaria numa queda dolorosa –, começo a pular de três em três degraus, me sinto observado.
Quando chego ao meu apartamento, puxo a maçaneta, e nada. A porta não vai, eu não me lembro de tê-la fechado para início de conversa. Começo a suar frio e tento novamente... Emperrada? Transtornado com a situação, puxo mais cinco vezes e nenhum sinal de abertura. Lembro-me então da chave, puxo-a do bolso, é muita sorte estar com ela. Tento pô-la na fechadura com algum esforço, não funciona. Parece que aquela não era mais minha porta, ou que essa chave não era a mesma de sempre, ela nem sequer encaixava. Motivado por um estranho sentimento, descontei minha frustração desferindo um soco na porta. Pus as mãos na cabeça, suspirei fundo. Era difícil ficar em um corredor escuro às três e meia da manhã com um corpo morto dentro do condomínio, trancado do lado de fora do meu apartamento. Tive então que apelar para a "bondade da vizinhança", me dirigi ao apartamento 102. Afinal, eu havia salvado a vida da moradora não? Aquela pessoa com certeza iria assaltar a pobre e velha residente que morava em frente ao meu número.
Olho para a porta, está toda descascada. A julgar pela entrada eu não assaltaria esse apartamento, de fato eu nunca compreenderei o que queria aquele homem com lugar tão singelo. Eu estava pronto para apertar a campainha quando senti um arrepio novamente, como se alguém estivesse me observando e então... Barulhos de chave. Alguém ia sair, mas de onde? O que isso importava, aliás? Ninguém podia me ver ali, se não eu estaria encrencado... Acusado de um crime do qual nem cometi. Mas para onde correr? Seria uma boa ideia tentar entrar no meu apartamento novamente, e correr o risco de ser pego em flagrante no meio do corredor? Ou subir as escadas e fazer mais barulho? Que se dane, eu vou sair do prédio e chamar ajuda no posto policial da esquina, sim, é isso que eu vou fazer!
Comecei a correr em direção a escada assustado, e percebi que o barulho das chaves ficava cada vez mais frenético. "Droga vão me encontrar assim"- pensei. Acelerei o passo e tentei descer de três em três degraus, a porta se abriu lá em cima, virei meu pescoço para ver se alguém me olhava do pé da escada e de repente... Pisei em falso, voei longe, meu braço amoleceu e trouxe a faca pra perto do meu peito que com a queda se enfiou na minha carne e perfurou o meu pulmão, eu ia rolando a escada enquanto sentia aos poucos o repuxo da dor, que ia percorrendo cada vez mais meu corpo, me faltou ar, e eu senti um frio instantâneo, faltava só um pouco agora e logo daria de cara no chão... Maldita hora pra se acordar.
Levanto da cama suspirando, o rosto suado e o coração batendo muito forte. Acordei com um barulho no térreo do meu prédio, e apesar de assustado com o estalo emitido lá embaixo, me sinto aliviado em ver que estou bem. Ao que tudo indica eu acabei de vivenciar mais um daqueles pesadelos bizarros. Sonolento tento lembrar do meu sonho, forço minha mente, mas nada. Sento e encaro o despertador... São três da manhã.
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