O Voo da Fênix
1 Quem é Anna
- Não é fácil esquecer, não é fácil perdoar, não é fácil se acostumar, se adaptar, não é fácil voltar ao normal, não é fácil mudar. Não é fácil viver. Essa é minha filosofia, e sou formada nisso. Acabo de terminar a pós-graduação. Tenho 25 anos. Hoje, quero ir mais longe. Porém, não estou aqui para falar de meus objetivos conquistados, e de meus objetivos que quero conquistar. E sim, tenho licença para isso. Alguma pergunta?
Uma mão se levanta de imediato. Está autorizada a falar, então, sai a pergunta:
- Não é muito nova para isso?
- Nunca se é nova demais para nada. Apenas se é madura para certas coisas. Se for madura para trabalhar, irá trabalhar. Se não for madura para namorar, não irá namorar. Mesmo tendo 12 ou 47 anos. O que vale é o quanto maduro se é, não a idade, propriamente.
Outra mão se levanta, e eu a autorizo a falar.
- Porque está aqui, professora?
- O que adianta ter conhecimento, se for mantido dentro de si? Estou aqui para ensinar, e para compartilhar o que sei.
Caminho até minha mesa, que está mais para o canto esquerdo da sala, observo-os. 30 alunos de 14 e 15 anos, 1º Ensino Médio. Terceira aula deles, primeira minha. Quando aceitei dar aulas, pedi para ser somente para eles, tendo assim, outro professor de filosofia, que eu o veria apenas em intervalos rápidos e o tempo de quando não temos aula para dar. Ainda não o vi hoje, e estou curiosa.
- Bom, eu perguntaria os nomes de cada um de vocês, mas isso é muito chato, e vocês já devem ter se cansado de repetir os nomes uns dos outros. Então, eu prefiro descobrir devagar, tudo bem?
Alguns responderam que sim, outros não abriam a boca, logo, vi que estavam envergonhados. É normal no primeiro dia.
- Espero que percam essa timidez até a próxima aula. Odeio silêncio. Esta será a lição de casa. Valendo um ponto na média, quem for o menos tímido, mas sem perder o respeito na sala, ganhará um ponto e um presente a sua escolha! – Algumas caras se animaram, outros trocaram olhares, e eu? Eu ri. – Estou falando sério! Mas, deixemos as baboseiras de lado. Como primeira lição, eu gostaria que vocês escrevessem o que significa “Filosofia” para vocês. Pode ser desde uma palavra, a várias páginas. Comecem agora e me entreguem conforme forem acabando. Se não terminarem aqui, poderão fazer em casa para me entregar na próxima aula.
- Quando é a próxima aula? – Me perguntou uma garota loira, com cabelos encaracolados e olhos azuis.
- Não faço a menor ideia. Hoje é segunda... hm... acho que na sexta. Se eu estiver errada, vocês todos ganham um ponto!
- E você pode ficar distribuindo pontos no primeiro dia?
- Posso, se você manter segredo, loira. – Sorrio e pisco para a loira.
- Rafa. – Ela responde séria.
- Ok. Rafa. – Respondo com um sorriso.
Os alunos se põe a escrever até bater o sinal, e eu me ponho a escrever, só que outras coisas. Estou travada no final de meu terceiro livro. Isso não é algo muito bom. Não concluo um final bom o bastante. Para mim está tudo insuficiente. O final tem que ser perfeito, sem clichê, algo esperadamente inesperado...
Inusitado.
Perfeito.
Faz um tempo que tenho problemas com Perfeição e Insuficiência, uma cicatriz, como todas as outras, de uma juventude, de uma história que não é mais minha.
A aula acaba, pego 10 redações, nenhuma com menos de 10 linhas, vou para a sala dos professores, onde vejo Sabrina, professora de português e redação, e um homem alto, um pouco forte, bonito, pele clara e cabelos negros, de olhos escuros, com o avental de professor sentado escrevendo no diário de classe.
- Olá. – cumprimento ao entrar na sala. Sabrina que estava tomando café, sentada ao lado do moreno, e o próprio olham pra mim e me cumprimentam.
Sento de frente para eles, e arrumo o diário em cima da mesa redonda, cuidando para não incomodá-los.
Por um momento, olho para o professor desconhecido atraída, isso demora dois segundos até notar que isso violaria minha regra principal e então volto para as redações e começo a lê-las. As primeiras são boas, porém superficiais demais, falam do significado da palavra e um pouco de Tales de Mileto, mas não falam do que significa Filosofia de verdade para eles. De todas, uma me chamou mais a atenção. Era de Rafaela Andrade, o texto era profundo, curto e bem escrito.
Filosofia é nada mais do que um cominho entre tantos para se seguir. Ser filósofo é não se contentar com apenas uma resposta e procurar além do que tantas pessoas procuram. Filosofia, ser filósofo é não dar uma resposta seguindo o coração, e sim a mente, o nosso lado racional. Explorar o que muitos não exploram, questionar o que muitos não questionam. Filosofia é um modo de ver e de pensar, ser realmente amigo do saber.
Curto, simples, belo. Ao ler deixo escapar um sorriso. Que os dois notam.
- Qual o motivo da felicidade, Anna? – perguntou Sabrina.
- Me diz você, que dá aulas disso. – Rio entregando-lhe o texto de Rafaela.
- Anna Toledo? — Pergunta o outro professor. Fechando o seu diário.
- Sim, e você é...?
- Guilherme, o outro professor de filosofia. – Ele estende a mão para mim e eu aperto. – Me falaram muito de você.
Olho para Sabrina que se encolhia na cadeira fingindo continuar lendo o texto de Rafaela. Volto meu olhar para Guilherme e sorrio.
- Bem ou mal?
- Depende do ponto de vista.
Ergo as sobrancelhas para ele que começa a rir. Foi uma piada, e eu a havia entendido. As vezes quando não quero responder nada, eu apenas falo “Depende do ponto de vista.”
- Mal, suponho.
Termino de ler as redações e dou as notas e anoto no diário de classe. Tomo um café quando o sinal bate para a próxima aula, que também é a minha vaga, porém Sabrina já havia se retirado para dar aulas. Guilherme arruma seu material e se levanta, mas para na minha frente.
- Quer dar essa aula comigo?
“Não se envolver, não se envolver!”
- Vai ser legal?
- Depende do ponto de vista.
Reviro meus olhos e deixo minhas coisas na sala e o sigo até o andar de cima. Caminhando até lá, comento:
- Sabe, não precisa zombar de mim e nem roubar minha frase de efeito.
Ele ri, sem olhar pra mim. Para em frente a uma porta e põe as mãos na maçaneta. Antes de abrir, ele diz:
- Não estou zombando, gosto de pessoas que tem bordões. – Dito isso ele abre a porta e entra na sala. Eu o sigo observando os alunos, devemos estar no 9º ano. – Olá Alunos, eu sou o Professor Guilherme, eu darei as aulas de Filosofia para vocês, e está é a professora Anna, que dá aulas no Ensino Médio de Filosofia.
Eu me sento em cima da mesa, e ele põe sua bolsa ao meu lado e se mantém em pé. Olho Para a sala, o nono ano é a sala mais fácil de se identificar, todos são pequenos, crianças, porém, agem como adultos, loucos para atravessar ao Ensino Médio, e ir estudar algo que gostem. Os garotos do nono ano, contemplam o futuro, e tentam agir como se estivessem lá.
Demos essa aula juntos, o que foi incrível. Cada professor tem seu modo de dar aulas, de compartilhar o que sabe, e eu segui sua linha, falamos de filosofia, de mitologia e das mensagens que os mitos gregos transmitem para o homem até os dias de hoje. Estava explicando eu o mito de Sísifo, quando a voz voltou a falar em minha mente, era minha consciência.
“Não se envolver!”
Olhei para a classe, atordoada, olhei para Guilherme, pisquei algumas vezes, eu estava me envolvendo. Droga. Continuei a contar o mito, após terminá-lo passei a palavra ao professor, que perguntou se alguém havia entendido a moral, após ouvir algumas respostas acrescentou algumas coisas que não ouvi bem, apenas prestei atenção no final de suas palavras.
- Fica o alerta para vocês sobre a liberdade e responsabilidade com relação à suas vidas.
Alguns segundos de silêncio quando bateu o sinal, e começou o falatório na sala, alguns alunos foram conversar com o professor, e eu apenas observava até lembrar que tinha uma última aula no 2º Ensino Médio, peguei minhas coisas e me despedi de Guilherme e alguns alunos da sala, caminhando para minha próxima aula.
Dei para a classe o mesmo exercício que dera de manhã para a outra sala, e os observava escrever e conversar com os amigos. Apoiei o cotovelo na mesa e passei os dedos pelo meu cabelo, ele ia até minha cintura, tinha mania de colocá-lo para trás quando estava nervosa ou quando não tinha o que fazer com as mãos. Conversei com alguns alunos que vieram tirar dúvidas comigo, com eles era seguro conversar. Tentava racionalizar-me o máximo possível, porém a verdade é que o ser humano é um animal racional, não 100% racional. O lado irracional, o subconsciente, não pode ser controlado, mas ele nos controla em certos momentos, quando já se é tarde para racionalizar.
O sinal bate. Recolho as redações e as guardo, sem dar nem uma olhada, pego minha bolsa e vou para a sala dos professores, onde deixei meus livros, encontro Sabrina recolhendo seu material conversando com o professor de matemática, Lui, eu os cumprimento e vou ao meu armário, pego meus dois livros e os guardo, saindo da sala trombo com Guilherme, que recua numa risada. Eu o imito, para disfarçar.
- Que pressa Anna!
- Desculpe. – Falo, ameaçando sair da sala quando ele me chama de novo. Eu me viro, estou a três passos de distância dele.
- Anna, quer almoçar comigo? Tem um restaurante muito bom aqui perto.
“Não se envolver! Não se envolver!”
Gritava-me a razão.
- Tudo bem. – Concordo.
O ser humano não é 100% racional.
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