O Voo da Fênix

2 Futuros e passados


Terminei de ler o livro de Anna. As indiretas nele, me machucam, mas tenho o trabalho de escrever uma crítica sobre este livro em meu blog, já que meus fãs pediram. Não tenho idéia do que escrever, se serei honesto contando que o livro se baseia numa relação que tivemos, e me senti ofendido e constrangido, ou digo apenas que o livro foi bem escrito e cheio de descrições excessivamente sentimentais.

Meu blog, funciona mais como uma empresa, ganho dinheiro com ele, com as editoras que querem que eu escreva sobre o livro delas, não sou rico, sou mediano, por assim dizer, me dei bem na vida. Não sei se deveria ainda chamá-lo de blog, já que funciona mais como uma revista virtual, tem os artigos que falam sobre comida, turismo, filmes e celebridades. Hoje vieram uns homens e mulheres bem vestidos no meu escritório, perguntando se eu não queria transformar meu blog em uma revista. Tenho que dar resposta amanhã. Conversei com os blogueiros-chefe, como os chamo, para vermos o que iremos fazer. Se virar revista, aumentaremos a empresa, muita coisa vai mudar. Mas todos concordaram, entusiasmados com o crescimento.

O livro de Anna é pesado em minhas mãos. O próximo passo seria entrevistá-la, sobre o que a levou a escrever o livro, o que a motivou, o que a inspirou. E eu sei essas respostas. A crítica da Anna vai para a primeira edição da revista, planejo. Tenho que ligar para ela. Mas não posso digitar seu número, não posso voltar pra vida dela. Não posso, não posso, não é justo!

Chamo minha secretária, ela fica parada na minha frente, ereta, esperando minhas ordens. Solto o livro na mesa, que faz um barulho ao chocar-se no vidro.

– Clara, você poderia ligar para essa autora, e marcar uma entrevista para falar de seus livros? – Peço, tento amenizar a voz, mas não dá.

– Anna Toledo? Mas, Alex, você sempre gosta de ligar para os escritores, para dar confiança e...

– Faz o que eu mandei! – Mando, mais estressado quase gritando com ela, que se assusta e murmura um “Sim senhor” e sai da sala. Odeio ser esse tipo de chefe. Clara não merece, cuida de seus filhos, chega cedo e vai embora tarde. Ela não é uma inútil.

Fico passeando pela biblioteca que é meu escritório, uma estante cheia de livros, novos e antigos. Passeio meus dedos por eles, lembro do que achei de cada história, boas, ruins, perfeitas. Sento novamente em minha cadeira e olho o livro de Anna mais uma vez. Pergunto-me como foi escrever sobre alguém que a feriu tanto, que a machucou, que a magoou. Quantas lágrimas ela derramou por mim?

Basta.

Não adianta remoer algo de oito anos atrás, tenho minha namorada, meu trabalho, Anna provavelmente deve estar noiva de um cara que a mereça de verdade, que a ame, que a faça sorrir...

– Alex? – Clara bate na porta, me desligo de meus devaneios e a encaro, acenando para que entre. – A Anna Toledo aceitou marcar a entrevista para esse sábado.

Eu assinto. 2 dias. Clara estava se retirando do escritório, quando eu a chamo de volta. Ela me fita, apreensiva, segurando a porta com as mãos, pronta para fechá-la.

– Me desculpe, eu estou estressado, não fgritarei mais com você, juro. Pode tirar o resto do dia de folga.

– Mas senhor, eu preciso das horas extras...

– Clara, eu te pagarei normal, mas pode tirar o dia de folga, não irá se prejudicar, prometo.

Ela sorri e relaxa os ombros, sempre firmes, e agradece, saindo do escritório de vez. Mais tarde, vou embora, decidi não passar o dia lá, pelo menos hoje, eu preciso pensar, espairecer, não sei. Vou pro único lugar que ninguém vai me achar. No bosque, na margem do lago, no Parque do Ibirapuera. Lembro quando Anna ficou revoltada com Caíque e sumiu, eu sabia onde achá-la, ela estava naquela margem do lago, na mesma que eu estou me dirigindo agora. Lembro que esse foi o primeiro lugar onde achei que ela iria.

– Anna? – Eu chamava.

– O que foi? – ela me olhava com seus olhos grandes e negros, com seu cabelo ruivo bagunçado, abraçando os joelhos junto ao corpo.

– Sabia que te encontraria aqui.

– Por quê?

– Porque eu te conheço.

Sentei na margem, com meu paletó funcionando como toalha no chão. Olhei para o horizonte. Olhei para o lado, onde tinha uma árvore. Onde ficavam as cartas. Oito anos atrás. Sinto seu perfume ainda, quando me abraçava, quando chorava, quando me beijava, quando amava. Lembro do modo que sua mão segurava a minha. Então, como um fantasma, lembro de minhas mãos sujas em seu sangue. Choro, lembro de sua última carta, seu último vestígio em minha vida.

Como vou olhá-la, entrevistá-la, se nem sequer me esqueço do que fiz a ela? Do mal que lhe causei, das palavras injustas e amargas. Eu fui seu vilão do conto de fadas, fui seu veneno de Julieta, que por momentos, a matou. Descobri que havia sobrevivido no ano seguinte, quando encontrei Caíque na rua, e ele me informou, ela ainda se recuperava.

– Porque tudo isso Alex?

Suma Anna!

– Alex, eu te amo.

Suma da minha cabeça!

– Estou grávida.

– Aaaaaaah! – Jogo uma pedra no lago, quero que ela suma, que essas lembranças sumam.

É passado, não vai mudar, não adianta. Tenho que seguir em frente, seguir o futuro. Em linha reta, em frente.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.