O Voo Do Passarinho
3 Capítulo 3 - O Sonho

No horizonte o sol já começava a se pôr fazendo com que as paredes de pedra do castelo adquirissem uma cor alaranjada. As velas começavam a serem acesas e o cheiro do jantar era intoxicante. Sansa viu Arya correr para o andar inferior do castelo após sua mãe, Catelyn Stark, anunciar com entusiasmo o regresso de seu pai, Eddard Stark, junto com seus dois irmãos, Robb e Bran, seu meio-irmão, Jon Snow e o prisioneiro/protegido, Theon Greyjoy. Sansa se pôs a seguir os passos da irmã, mantendo a compostura de uma lady embora desejasse se apressar para a reunião familiar. Quando havia se posicionado no último degrau da escadaria que a levaria até o salão principal seus olhos se maravilharam com os seis filhotes de lobos que os homens de sua família traziam nos braços.
– Eu quero essa aqui! – Disse Arya tomando em seus pequenos braços um dos filhotes.
– Muito bem, Arya, como irá chamá-la? Ah! Sansa aproxime-se. – Eddard desviou os olhos de Arya que estava entretida com a sua mais nova aquisição para receber com um largo sorriso a filha mais velha.
– Isso é...
– Sim, menina Stark, lobos gigantes, o símbolo de sua Casa. – Anunciou Greyjoy entregando a ela a última fêmea que ainda não havia adquirido um dono. – Guardei essa especialmente para você. – Um sorriso brotou nos lábios de Theon e em seguida as bochechas de Sansa coraram.
– Durante todo o trajeto esse filhote foi o que menos deu trabalho. Não chorou ou latiu, nem mesmo se moveu mais do que o necessário. – Explicou Eddard.
– Deveria chamá-la de Lady, irmã. – Sugeriu Robb com toda a doçura que tinha pela irmã.
– Ou talvez de Sansa. – Zombou Arya. – Ou quem sabe mosca-morta.
– Arya! – Esbravejou Sansa.
– Arya... – Repreendeu Eddard.
– Como será o nome da sua loba, Arya? – Perguntou Jon.
Arya levantou a loba ainda sem nome na altura de seus olhos e a encarou com as sobrancelhas franzidas como se tentasse enxergar algo além do que era visível.
– Nymeria! – Anunciou esfregando o seu nariz no focinho de Nymeria, que tentou mordê-la. Jon soltou um risinho.
– Não sei, Ned... – Começou Catelyn. – Lobos gigantes são animais perigosos, não acho que seja apropriado tê-los por perto das crianças.
– Bobagem, Cat, ainda são filhotes e poderão ser bem treinados. Caberá a cada um de nossos filhos se responsabilizarem pelo seu animal. – Os olhos de Eddard passaram de um filho para o outro, inclusive para Jon.
Sansa encontrou os olhos da mãe, os mesmos olhos que os seus. Havia preocupação ali, seu coração acelerou e sua coluna gelou, mas estava feliz de mais com o seu primeiro animal de estimação. Lady, um nome perfeito para aquela bola de pelos cinzentos. De repente o cenário mudou e os olhos que encontrava agora eram de uma tonalidade esverdeada. A Rainha Cersei Lannister estava a sua frente e no mesmo aposento se encontrava o Rei Robert Baratheon e o seu filho, Joffrey. A multidão de cavaleiros que estavam atrás dela esperava uma resposta, assim como seu pai e sua irmã e a família Real a sua frente. Suas mãos soavam frio. A dúvida entre contar a verdade e arruinar seu relacionamento com o príncipe Joffrey e mentir e arruinar o relacionamento com sua família.
– Agora criança, me conte o que aconteceu. Conte tudo e diga a verdade, é um grande crime mentir para o seu Rei. – Ordenou o Rei Robert.
Sansa olhou de seu pai para Joffrey. A dúvida do que dizer exatamente lhe causava dor de cabeça.
– Eu não sei. – Foi a resposta que escolheu. – Eu não me lembro, tudo aconteceu tão rápido. Eu não vi.
– Mentirosa! – Exclamou Arya prendendo os dedos nos cabelos rubros da irmã e dando um grande puxão. – Mentirosa! Mentirosa! Mentirosa! Mentirosa!
– Chega! Parem com isso, PAREM! – Eddard interferiu na briga das irmãs. – Arya!
– É tão selvagem quanto o animal. Quero que a castiguem. – Pediu Cersei.
– O que você quer que eu faça? Que a chicoteie pelas ruas? – Perguntou Robert com zombaria. – Isso é briga de criança. Ponto final.
– Joffrey terá essa cicatriz por toda a vida.
– Não acredito. Deixou aquela menininha desarmar você? – Robert se dirigiu para o filho, insatisfeito com as atitudes de Cersei. – Ned, trate de disciplinar sua filha. Farei o mesmo com o meu filho.
– Com prazer, Majestade.
A corte improvisada na Estrada do Rei parecia ter chego ao fim. Eddard Stark havia dado as costas após receber o consentimento de Robert Baratheon para partir e até mesmo o Rei havia se posto de pé, mas a Rainha Cersei não tomou aquilo como ponto final.
– E o lobo assassino? E a besta que atacou o nosso filho?
– Ah... Me esqueci do maldito lobo.– Suspirou Robert, voltando-se para a Rainha.
– Não achamos nenhum sinal do lobo, Majestade. – Prontificou um soldado qualquer que participara da campanha de busca nas matas.
– Não? Então deixa. – E voltou-se mais uma vez para a direção da saída.
– Eles têm outro lobo. – Lembrou Cersei.
– Faça o que quiser. – Robert dessa vez não voltou a parar.
– Não fala sério. – Eddard manifestou-se.
– Lobo-gigante não é animal de estimação. Arrume um cachorro, ela ficará mais feliz. – Foram as últimas palavras de Robert para Eddard naquela noite.
– Não quer dizer a Lady, quer? – Perguntou Sansa depois de um momento em silêncio no qual relacionou um diálogo com o outro e a ausência de Nymeria, fazendo com que sua loba-gigante fosse o único lobo acompanhando a escolta. – Não, não, não! Por favor! A Lady não mordeu ninguém! – Voltou-se para Joffrey. – A Lady é boa!
– A Lady não estava lá! – Ajudou Arya com a súplica. – Deixem-na em paz!
– Impeça, não deixem que façam isso, por favor! – Sansa segurou no braço de seu pai, desesperada. Lágrimas já escorriam de seus olhos. – Por favor, não foi a Lady!
– Isso é uma ordem? – Perguntou Eddard para Robert que estava posicionado a porta da tenda. – Majestade?
Robert olhou para o amigo, mas nada disse. Com o semblante carrancudo terminou sua retirada do aposento.
– Onde está a fera? – Exigiu saber a Rainha.
– Acorrentada lá fora, Majestade. – Informou outro soldado qualquer.
– Ser Ilyn, faça as honras.
Ilyn já havia se movimentado quando Eddard interferiu.
– Não. Jory, leve as meninas para o quarto. Se tiver que ser feito, eu mesmo o farei. – Anunciou Eddard.
– Isso é um truque? – Perguntou Cersei.
– A loba é do Norte, merece mais do que um carniceiro.
Sansa desatou a chorar. Os soluços vieram involuntariamente. Jory a conduziu até o seu quarto, onde se jogou na cama improvisada e chorou até adormecer. Quando acordou novamente estava em seu antigo quarto na Fortaleza Vermelha, mas não estava sozinha. O então rei, Joffrey Baratheon, acompanhado de Sor Meryn Trant, Sor Arys Oakheart e Sandor Clegane estavam aos pés de sua cama.
– Está tarde e a apresentarei na audiência. Trate de se banhar e de vestir algo adequado a minha noiva.
Sansa puxou a coberta até o queixo para se cobrir, demonstrando o quão inclinada se encontrava para acatar as ordens do rei.
– Não.. – Implorou – Por favor... Deixe-me em paz...
– Se recusar a levantar-se e se vestir, meu Cão de Caça fará isso por você.
– Suplico-lhe, meu príncipe...!
– Eu agora sou rei. Cão, tire-a da cama – Ordenou Joffrey.
Sandor se aproximou de Sansa e a retirou da cama, suspendendo-a no ar pela cintura. A coberta já não mais a cobria e sua fina camisa de dormir era o que escondia sua nudez.
– Faça o que lhe pedem, criança – Disse Clegane – Vista-se – Empurrou-a para o biombo com uma gentileza que não convinha a sua figura feroz. Feito isso, foi se juntar ao rei do outro lado.
– A mãe diz que eu ainda devo me casar com você, portanto, ficará aqui e me obedecerá – Proclamou Joffrey enquanto Sansa permanecia oculta por de trás do biombo.
– Eu não quero me casar com você – Choramingou. – Cortou a cabeça de meu pai!
– Ele era um traidor. A única coisa que lhe prometi foi ser misericordioso e isso eu fui lhe concedendo uma morte limpa em respeito a vossa pessoa, caso o contrário teria mandado flagelá-lo ou dilacerá-lo.
Sansa observou seu noivo através de pequenos buracos encontrados no biombo. Joffrey não estava demonstrando emoção alguma, mas os formatos de seus lábios e os conjuntos de seus olhos fizeram com que acreditasse que ele escarnecia do que acontecera com Lorde Eddard Stark.
– Odeio-o – Sussurrou.
Joffrey virou o rosto para a direção em que Sansa se encontrava causando-lhe calafrio. Suas palavras haviam se formado como reflexo de seu pensamento.
– Minha mãe me disse que não é próprio que um rei bata em sua esposa. Sor Meryn.
O cavaleiro de manto branco não tardou a encontrá-la. Sansa entendeu o mal que iria lhe acometer no segundo que o rei terminara de falar. Esticou os braços para defender o seu rosto, mas Sor Meryn prendeu suas mãos em suas costas. O cavaleiro com a mão que estava livre deu-lhe um soco no ouvido. Quando deu por si, estava no chão com o ouvido sangrando e descoberta pelo biombo. Joffrey parecera satisfeito com o resultado.
– Irá me obedecer agora, ou terei de castigá-la de novo?
– Eu... como... – Tocou a orelha e seus dedos voltaram empapados de sangue — ... As suas ordens, senhor.
– Vossa Graça – Corrigiu Joffrey. – Procurarei você na audiência.
O rei e sua guarda se retiraram de seus aposentos, apenas Cão de Caça permanecera a tempo suficiente de colocá-la em pé e lhe dirigir algumas palavras.
– Poupe-se de alguma dor, menina, dê-lhe o que ele quer – Sugeriu.
Sansa ficou estupefata com o fato de ele estar dirigindo-lhe palavras consoladoras enquanto nenhuma outra pessoa que ela tinha confiança o fizera desde o aprisionamento de seu pai.
– O que... O que ele quer? Diga-me, por favor. – Suplicou na ingenuidade.
– Quer vê-la sorrindo, perfumada e sendo a senhora sua amada. Quer ouvi-la recitar todas as palavrinhas bonitas da maneira que a septã lhe ensinou. Quer que o ame... e que o tema. – Concluiu.
Sandor deixou-a com essas palavras para digerir.
Dessa vez Sansa estava correndo em uma escada em espiral durante a noite. Ao longe se escutava o grito das pessoas do outro lado do muro da cidade. Apesar de não conseguir distinguir o que diziam, sabia que pediam por comida e abrigo. Se tivesse como, ela teria os ajudado, porém agora tentava se auto-ajudar voltando para o quarto na Fortaleza Vermelha sem que fosse pega. De repente a pedra da parede ao longo da escada rangeu e uma figura negra saiu dela. Sansa desequilibrou-se ao ser pega de surpresa e agarrou-se nela.
– É uma longa queda pelo caracol abaixo, passarinho. Quer nos matar? – A gargalhada que ecoou era gutural. – Talvez queira.
Sansa reconheceu a voz do Cão de Caça de Joffrey. Tentou esconder o rosto para não ser reconhecida, mas já era tarde de mais.
– Não, senhor, mil perdões, nunca o faria. Por favor, está me machucando. – Pediu, tentando soltar o seu pulso das mãos de ferro de Sandor. Ele não o fez.
– E o que faz o passarinho de Joff voando pelo caracol abaixo na noite escura? – Quando Sansa não respondeu, ele a sacudiu. – Onde estava!?
– No b-b-bosque sagrado, senhor – Respondeu com meias mentiras improvisadas. – Rezando... rezando pelo meu pai e... pelo rei, rezando para que não seja ferido.
– Acha que eu estou tão bêbado que acredito nisso? – Sandor soltou-a e cambaleou para a parede. Os olhos dele estavam depositados sobre Sansa, analisando cada centímetro dela. – Parece quase uma mulher... cara, tetas e também está mais alta, quase... Ah, ainda é um estúpido passarinho, não é? Cantando todas as canções que lhe ensinaram... Cante-me uma canção, por que não canta? Vai. Cante para mim. Alguma canção sobre cavaleiros e belas donzelas. Gosta de cavaleiros, não gosta?
– De cavaleiros v-verdadeiros, senhor... – Corrigiu-o, embora o medo a assolasse.
– Cavaleiros verdadeiros – Zombou – E eu não sou senhor nenhum, assim como não sou nenhum cavaleiro. Será que preciso enfiar isso em sua cabeça na marra? – Oscilou e quase caiu – Deuses! – Praguejou – Vinho demais. Gosta de vinho, passarinho? De vinho verdadeiro? Um jarro de tinto amargo, escuro como sangue, é tudo que um homem precisa. Ou uma mulher. – Riu – Vem agora. De volta à gaiola, passarinho. Eu a levo lá. Mantenho-a a salvo para o rei.
Sansa foi empurrada a frente gentilmente por Cão de Caça que se manteve em silêncio quase até chegarem ao seu objetivo. Quando chegaram a Fortaleza de Maegor, Sansa observou que era o Sor Boros Blount quem estava de patrulha. O pior cavaleiro da guarda-real, sem um pingo de humanidade consigo, rígido como uma pedra. O medro fez com que suas pernas congelassem no lugar.
– Aquele não é nada a temer, moça. – Cão de Caça pôs uma mão pesada no ombro dela. – Se pintar listras em um sapo, ele não se transforma em tigre.
– Sor, onde... – Sor Boros mostrara-se consciente da presença dos dois e começara a demandar explicações.
– Que se foda o seu sor, Boros. Você é um cavaleiro, não eu. Eu sou o cão do rei, lembra?
– O rei andava há um tempo a procura do seu cão.
– O cão estava bebendo. É a sua noite de defendê-lo, sor. Sua e dos meus outros irmãos.
Sor Boros depositou sua atenção em Sansa.
– Por que motivos não está nos seus aposentos a esta hora, senhora?
– Fui ao bosque sagrado rezar pela segurança do rei. – A mentira quase soara verdadeira.
– Espera que ela durma com todo esse barulho? O que houve? – Sandor perguntou.
– Pedem para ser banqueteado assim como o noivo Tyrek. Sua Graça respondeu-os com um ataque surpresa. – Informou Boros.
– Rapaz corajoso – Sandor contorceu os lábios e terminou de conduzir Sansa pela ponte levadiça.
– Por que deixa as pessoas te chamarem de cão e não aceita que ninguém o chame de cavaleiro? – Perguntou a garota Stark.
– Gosto mais de cães do que de cavaleiros. O meu pai era o mestre dos canis de Rochedo Casterly. Durante um outono, Lorde Tytos ficou entre uma leoa e sua presa. A leoa estava se cagando por ser o símbolo dos Lannister. Rasgou o cavalo do meu senhor a dentadas e teria também dado fim à ele, mas o meu avô chegou com os cães de caça. Três deles morreram tentando afugentar a fera. Meu avô perdeu uma perna, mas recebeu do Lannister terras e uma casa-forte, além de ter o filho tido como escudeiro. Os três cães no nosso estandarte são os três cães que morreram no amarelo da grama de outono. Um cão de caça morrerá por você, mas nunca mentirá a você. E olhará diretamente no seu rosto – Agarrou-a pelo queixo, erguendo-o, com os dedos beliscando-a dolorosamente – E isso é mais do que os passarinhos podem fazer, não é? Não cheguei a ouvir a minha canção.
– Eu... eu sei uma canção sobre Florian e Jonquil.
– Florian e Jonquil? Um idiota e sua boceta. Poupe-me. Mas um dia vou conseguir uma canção de você, quer queira quer não.
– Cantarei de bom grado.
Sandor fungou.
– Coisinha linda, e tão má, mentirosa. Um cão consegue farejar uma mentira, você sabe. Olhe em volta e dê uma boa cheirada. Aqui são todos mentirosos... e todos eles são melhores do que você.
Sansa foi deixada em seu quarto sem trocar mais nenhuma palavra com Sandor. A porta de seus aposentou fechara-se as suas costas e imediatamente abriu-se novamente. Era ele, Sandor Clegane entrando mais uma vez em seu quarto, mas dessa o sol estava alto.
– Quanto mais tempo deixá-lo esperando, pior será para você – Garantiu-lhe o Cão.
Sansa estava se arrumando o mais rápido que conseguia. Acabara por descobrir da pior forma possível o que acontecia quando o rei não tinha as exigências cumpridas na hora. O vestido que escolhera para hoje possuía um incontável número de botões e fitas, mas esperava que o pano justo em seus seios aliviasse o castigo. Logo em seguida tratou de se ocupar com as madeixas rubras.
– Diga-me o que fiz – Ordenou, encarando o Cão pelo reflexo no espelho. O que incomodava Sansa não era mais a cicatriz que Sandor possuía no rosto, mas o modo que ele passara a observá-la, causando-lhe pavor.
– Não foi você. Foi o seu real irmão.
– Robb é um traidor – Começou o seu discurso já ensaiado – Não tive nenhum papel no que quer que ele tenha feito.
– Treinaram-na bem, Passarinho – Cão de Caça fungou.
Sansa foi acompanhada por Sandor Clegane até a presença do rei Joffrey sem trocarem mais nenhuma palavra. O medo lhe acometia. Espera que os seus discursos já prontos fossem o suficiente.
– Vossa Graça – caiu sobre os joelhos quando encontrou com o seu noivo.
– Ajoelhar não a salvará agora – Disse o rei – Levante-se. Está aqui para responder pelas últimas traições de seu irmão.
– Vossa Graça, seja o que for que o traidor do meu irmão fez, não participei. Sabe disso, suplico-lhe, por favor...
– Ponham-na em pé! – Ordenou Joffrey sem paciência para as palavras de Sansa.
Sandor foi quem a colocou sobre os dois pés fazendo uso de sua gentileza até pouco tempo atrás desconhecida.
– Sor Lancel, conte-lhe esse ultraje.
– Fazendo uso de bruxaria, seu irmão caiu sobre Stafford Lannister com um exército de lobos a menos de três dias de Lannisporto. Milhares de homens foram massacrados durante o sono sem poderem pegar em suas espadas. Após o ataque, foi servida no banquete a carne dos mortos.
Sansa não conseguiu pronunciar palavra qualquer.
– Não tem nada a dizer? – Perguntou Joffrey incomodado com o silêncio.
– Vossa Graça, a pobre criança está em choque. – Anunciou Dontos, o Bobo da Corte, ex-cavaleiro que por bebedeira se encontrou preso nessa profissão degradante.
– Silêncio, bobo. – Ordenou Joffrey ao mesmo instante que apontava a besta que carregava consigo para o rosto da garota nortenha. – Vocês, os Stark, são tão desnaturados quanto esses seus lobos. Não me esqueci de como o seu lobo me atacou.
– Esse foi o lobo de Arya – Corrigiu – Minha Lady nunca lhe fez mal, mas matou-a mesmo assim.
– Não, foi seu pai quem o fez. Mas eu matei matar seu pai. Gostaria de ter feito isso eu mesmo. Ontem à noite matei um homem que era maior que seu pai. Vieram ao portão gritar o meu nome e exigir pão, como se eu fosse algum padeiro, mas dei-lhes uma lição. Atingi o mais barulhento bem na garganta.
– E ele morreu? – Perguntou, distraída com a ponta da flecha apontada em sua direção.
– Claro que morreu, tinha a minha flecha na garganta. – Joffrey abaixou a besta – Mataria você também, mas, se o fizer, minha mãe diz que matarão meu tio Jaime. Em vez disso, será punida e mandaremos contar ao seu irmão o que lhe acontecerá caso não se renda. – Um sorriso de escárnio brotou-lhe aos lábios. – Cão, bata nela.
– Permita que seja eu a bater – Sor Dontos se prontificou. Utilizando sua maça de armas cuja cabeça era de melão, começou a bater na cabeça de Sansa enquanto a circulava aos gritos de "Traidora! Traidora!". A garota sabia que o bobo apenas a estava ajudando e desejou do fundo do coração que Joffrey estivesse rindo com a multidão ao redor, mas o rei mantinha-se de semblante fechado.
– Boros, Meryn. – Chamou Joffrey sem nem precisar dizer mais nada aos cavaleiros que já sabiam o que fazer. – Não toque em seu rosto, gosto dela bonita.
Sor Meryn se ocupou em afastar Sor Dontos de Sansa enquanto Sor Boros a pegou. O punho do Sor Boros encontrou o estomago da garota Stark deixando-a sem ar. Arqueou-se involuntariamente para frente devido a dor, mas o cavaleiro não parara por aí. Puxando sua cabeça para trás, desembainhou a espada. Parecia que ele pretendia cortar-lhe a garganta, mas o golpe foi proferido em sua coxa com uma forma alarmante. Sansa desatou-se a chorar, o que não resultou na diminuição dos golpes que se seguiram.
– Basta! – Cão de Caça rouquejou.
– Não, não basta. – O rei teimou – Boros, tire a roupa dela.
Boros arrancou o corpete de Sansa, deixando-a desnuda até a cintura. Imediatamente cobriu os seios com as mãos. Risos abafados ecoavam o ambiente.
– Bata nela até sangrar, vamos ver se o irmão gosta...
– O que significa isso!? – Esbravejou Tyrion Lannister chegando a corte acompanhado de alguns de seus homens.
Vendo-se livre no exato momento em que o Duende abriu a boca, entregou-se ao chão de mármore com os seios ainda cobertos.
– É essa sua ideia de cavalaria, Sor Boros? – Procurou saber Tyrion. – Que tipo de cavaleiro espanca uma donzela indefesa?
– Um tipo de cavaleiro que serve seu rei, Duende.
– Que alguém dê à menina alguma coisa para se cobrir – O Duende exigiu em alto e bom som. Sandor despregou o manto e o atirou para ela. Sansa não bobeou ao aceitá-lo, apertando-o contra o peito por mais que lhe fosse desconfortável a sensação. Seus olhos se fecharam e quando tornou a abri-los a sensação do manto branco de Sandor continuava, só que dessa vez Sansa estava de ponta cabeça, olhando as costas do Cão de Caça. O barulho da espada o cavaleiro da guarda-real empunhava era estridente toda vez que encontrava um pedaço de carne humana. Ela sabia que havia acabado de ser salva de um estupro. Suas mãos seguravam com firmeza o manto de Sandor. Estava com medo de cair, mas ao mesmo tempo sabia que ele não deixaria isso acontecer. Quando chegaram em segurança na Fortaleza Vermelha, o Cão de Caça a colocou sentada sobre um banco.
– O passarinho está sangrando. Levem-na para a sua gaiola e dêem uma olhada nesse corte. – Ordenou, já voltando a se ocupar com outras coisas.
– Muito bem, Clegane. – Elogiou Tyrion.
Sansa abriu os olhos abruptamente e encontrou-se, dessa vez, no quarto que lhe foi arranjado na estalagem. Seus olhos doeram ao entrar em contato com a luz do sol que começava a nascer. Sem que se desse conta, ela havia chorado durante o sono. Mas também, não foi pra menos. Sonhara com Winterfell, com sua família e com a sua loba, coisas que lhe foram roubadas e que talvez nunca mais fosse encontrar... Pelo menos não do jeito que era ou do jeito que desejara ter sido. Ela já não era mais a garota Stark de um ano atrás, a vida na corte a mudara. Sansa pôs se de pé e caminhou até o espelho próximo a banheira que utilizara na noite anterior. Ali, deixou que o vestido que trajava caísse aos seus pés. "Como pensei..." As marcas que recebera dos castigos que Joffrey ordenara continuavam ali. O corte da espada que Sor Boros lhe dera nas coxas era o mais profundo. "Talvez nunca se cicatrize" Lamentou-se internamente. Essa era a primeira vez em que Sansa prestara atenção nas feridas que possuía. Algumas ainda estavam em carne viva, outras já adquiriram uma coloração esbranquiçada. "Você não é mais uma Lady, Sansa. Nenhum Lorde se interessará por essas cicatrizes" Mordeu o lábio inferior tentando evitar que chorasse ou que novos pensamentos negativos lhe viessem. De nada funcionou. Caiu de joelhos ao chão abraçando o próprio corpo em prantos. Aquelas marcas era a única coisa que possuía. "Você já não é mais uma Stark... É uma maldita ave, um pássaro que só canta mentiras para sobreviver! E mesmo assim, não conseguiu evitar que lhe ferissem." Se condenou, lembrando de seus sonhos referentes a sua vida na corte. Ela pedira para ir para a corte. Implorara para o seu pai não mandá-la de volta para Winterfell, mesmo depois que sua loba fora morta. Mesmo ela já sabendo, mas não querendo acreditar, como Joffrey, os Lannister, realmente são.
– Amaldiçoada seja, Sansa Stark!
Ficara uns momentos em silêncio e então, voltou a olhar-se no espelho. Sentiu medo no começo. Ela se condenava. Condenava o que via na imagem. Queria poder mudar o que passou. "Nem consigo olhar para mim", constatou.
– Sandor! – Exclamou ao se lembrar das palavras que trocara com ele e que foram reativadas em seu sonho.
Sansa estava tão perdida em seus pensamentos que esquecera de que Sandor não se encontrava presente, embora fosse graças a ele que ela estava ali agora e não mais trancafiada em sua gaiola.
Vestiu-se rapidamente e de modo desajeitado, debruçara-se sobre a cama para apanhar sua capa e vestiu suas roupas intimas e só então deu por falta de algo fundamental: suas joias. Se lembrava que na noite anterior havia deixado elas junto com sua capa, mas agora não estavam mais ali.
– Oh, não... Por favor! – Exclamou em súplica, revirando o quarto a procura de sua pequena bolsinha de couro, mas nada foi achado. A imagem da estalajadeira gorda lhe viera a mente. Sandor estava conversando com ela quando foi conduzida ao seu quarto. Um ronco no estomago fez com que Sansa se desse conta de quão faminta estava, mas não havia tempo a perder. Clegane afirmara que um cão de caça nunca mentiria, mas as palavras dele dizendo que não era mais um cão de caça lhe vieram ao estomago como um soco. Descera as escadas correndo. Uma voz de mulher gritou por ela, mas nem dera atenção. Correu para os estábulos e o que temia aconteceu: o cavalo de Sandor não estava mais ali.
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