O Voo Do Passarinho

26 Capítulo 26 - Garota Lobo


Arya não conseguia acreditar que Sandor Clegane fora perdoado de todos os seus crimes pelo julgamento montado por Lorde Beric. A culpa foi dele, culpou o cavaleiro morto-vivo. Se o líder da Irmandade Sem Estandartes não tivesse escolhido o julgamento por combate, então o Cão de Caça não estaria livre agora. Não que o homem estivesse em boas situações definhando em uma cama no Pêssego devido ao seu braço queimado e outros ferimentos menores que recebera durante o duelo. Que a alma dele apodreça nos sete infernos!, desejou em pensamentos. Que os Outros o carreguem! Que Joffrey o encontre e o decapite por traição! Que o meu irmão, Robb, o mate e entregue o corpo dele aos carniçais!, continuou a desejar o mal do mais jovem dos Clegane. Sandor estava na lista de quem Arya desejava ver morto e neste momento ele ocupava o primeiro lugar. Como se matar Mycah e trabalhar para Joffrey não fossem ruins o suficiente, ele confessara que fizera algo impróprio com Sansa, algo que nem ela tinha coragem de dizer até mesmo em pensamento.

Não que Arya defendesse a irmã por ter uma predileção por Sansa, ela era sua irmã, é verdade, contudo elas eram o mais diferente possível. A caçula gostava de cavalgar, de espadas, de histórias e de couro, já a mais velha gostava de carruagens, de costura, de canções e de seda e isto era só o que dizia respeito à questão de gosto. No quesito físico Arya era baixa em comparação a estatura de uma garota em sua idade, tinha cabelos castanhos escuros e olhos cinzas, enquanto Sansa era esguia, possuía cabelos cobre-claro e olhos azuis. Todos consideravam a sua irmã uma bela donzela, já ela era chamada de Arya Cara-de-Cavalo pelos conterrâneos; ela odiara profundamente Jeyne Poole por ter lhe dado este apelido ridículo.

Ela é minha irmã, disse a si mesma, é uma Stark de Winterfell e teria desejado me vingar do Cão de Caça mesmo que Sansa fosse uma estranha pra mim. O que ele fez não se deve fazer com nenhuma mulher, não existe justificativa para isso! Se convenceu e sabia que estava com a razão. Por ter os seus catorze anos e ter vivido uma vida confortável e protegida, a menina não entedia muitas coisas a respeito da vida conjugal e os fatores que a envolvia, como o nascimento dos bebês, entre outras coisas, mas ela sabia que a palavra foder e suas variações não era algo bom e estava relacionada à imposição física a outro indivíduo e que arrancar sangue significava ferir gravemente alguém.

– Cão de Caça, Cão de Caça, Cão de Caça — Murmurou entre dentes o nome do objeto de seu sentimento mais forte enquanto esfaqueava a mesa na lateral esquerda de seu prato de mingau. O café da manhã que estava comendo tinha uma aparência tão feia e um gosto pior ainda que se sem querer errasse o alvo não iria lamentar a perda.

– Se continuar a fazer isto, em breve fará um grande buraco na madeira — A voz de Limo fez com que Arya despertasse de seus devaneios — e tenho certeza que Tanásia não aprovará esta atitude, talvez até tenha que trabalhar aqui para recompensar os danos que causou — A informou com um grande sorriso maroto no rosto.

– Eu prefiro morrer — Respondeu de prontidão. Recusar-se-ia até a última instância a se vestir com as sedas que as mulheres que trabalhavam ali usavam. Se Arya fosse menos ingênua, saberia que a pior parte do serviço não eram as roupas e sim os clientes que podem ser muito severos quando acreditam não estarem sendo bem atendidos.

– Então ponha de lado esta faca de pão — Limo lhe recomendou ao perceber que ela não parara com a ação.

A contragosto, Arya fincou o objeto pontiagudo na mesa pela última vez e lançou um olhar severo ao homem que se sentara à sua frente e que estava ordenando um especial da casa para o desjejum matinal.

A garota não conseguira perdoar a Irmandade por ter levado Gendry para longe dela — mesmo que esta tenha sido a vontade do rapaz -, ela também não conseguia perdoá-la por terem dado a liberdade ao Cão de Caça e acima de tudo por Harwin ter tomado o seu punhal enferrujado que estava aprendendo a gostar tanto quanto gostava de sua Agulha. Naquele lugar cheio de fora da lei, aquele pedaço velho de metal acabara se tornando a coisa mais próxima de um amigo nas últimas semanas.

– Você deveria comer o seu mingau, garota — Limo comentou ao observar o prato intocado.

– Não tenho fome — Respondeu com rispidez, sem desviar os olhos dos de Limo. Ela o estava desafiando, queria que ele percebesse o quanto ela estava incomodada por ela ainda estar ali e por ele estar sentado na mesa dela.

– Então me dê porque eu tenho — Limo não demonstrou perceber a hostilidade que lhe era destinada, apenas esticou a mão sobre a mesa para agarrar a tigela e então, trazendo-a para o seu lado, começou a comer o conteúdo com o auxílio de uma colher de madeira — Apesar da cara não ser muito boa, é muito gostoso!

Arya franziu o cenho com o comentário. Aquela gororoba era uma das piores coisas que já comera. Tinha gosto do fundo da panela em que fora feito e o leite utilizado não parecia ser de vaca e nem de cabra. A garota ouviu um dos habitantes locais comentar que era leite de jumenta e se esta era ou não a realidade, o seu estômago embrulhava sempre que se recordava da origem.

– Quando serei entregue à minha família? — Perguntou. Já perdera a noção de quanto tempo estava sob os cuidados da Irmandade Sem Estandartes, mas não se esquecera da promessa que fizeram de levá-la de volta para a família como honra à memória de seu pai, Lorde Eddard Stark, que de acordo com Lorde Beric Dondarrion fora um grande homem ao prezar pela justiça.

– Mais cedo ou mais tarde — Limo respondeu, entretido em raspar o restante do mingau que grudara no fundo da tigela — Já soube que o número de sua família aumentou? Não, né? — O homem riu ao ver a cara de interrogação que a garota fizera — O Jovem Lobo se casou por volta de três ou quatro luas atrás com uma moça que pertencia a uma Casa menor que era juramentada aos Leões — Interrompeu os dizeres, dando espaço para que a atendente lhe servisse um prato com ovos mexidos e bacon e outra tigela de mingau, aparentemente o especial do Pêssego para o desjejum — E o seu tio, Edmure Tully também se casará, dessa vez com uma garota Frey que o Jovem Lobo descartou.

O coração de Arya disparou e pôde senti-lo bater na garganta. Robb Stark havia se casado; o seu irmão mais velho, filho legítimo de seus pais havia se casado e ela não soubera nada a respeito disso e ainda por cima com uma inimiga. Mesmo que a noiva agora fosse uma Stark, ela havia sido criada por leões e ao redor de leões. Robb era inteligente, ele veria o risco dessa união, ela via o risco dessa união. Os Freys não devem estar felizes com isso, pensou. Não sabia quase nada a respeito do Senhor da Travessia, porém ela conhecia o gosto da traição e da vingança, e se o velho Frey tivesse perdoado os Starks com a perspectiva de um novo casamento, então ele era estúpido. Arya não perdoaria os Lannister nem mesmo se a sua mãe se casasse e ela ganhasse um novo pai. Uma pessoa não pode substituir a outra, mesmo que a função seja a mesma.

– Mentiroso — Acusou o homem que não se separava de seu manto cor de limão — Meu irmão não se casaria com qualquer uma!

– É dessa forma que trata a sua cunhada? — Limo sorriu, revelando os dentes amarelados com pedaços de bacon e ovos presos nos vãos.

– Ela não é a minha cunhada! — Rebateu, pondo-se em pé.

Seu humor ultimamente estava piorando. Qualquer coisa era capaz de irritá-la, talvez esta reação estivesse relacionada com o fato de estar muito tempo no mesmo lugar. Thoros e Beric prometeram que ela seria devolvida à família e ela não estava tão longe assim de Correrrio. Em um dia e meio ou dois a cavalo, dependendo da estrada, ela poderia chegar até lá e finalmente encontraria conforto nos braços de sua mãe. Pediria ao irmão permissão para que ela lutasse ao seu lado, ela já tinha mais experiência com a espada agora, graças às aulas de dança que Syrio Forel lhe dera e o que ela aprendera por conta própria na estrada. Se Gendry não tivesse me deixado, também pediria um lugar para ele na guarda de meu irmão. Robb teria contratado Gendry, ela não tinha dúvidas. Com o tempo era quase certeza que o consagraria cavaleiro.

Limo Manto Limão não a respondeu, nem demonstrou emoção alguma com a conversa que tivera com ela. Isto irritou ainda mais a garota e sem mais nada o que fazer ali, Arya virou sobre os calcanhares e se dirigiu para a escada do Pêssego que a levaria para o segundo andar e então para o seu quarto.

Naquela manhã o Caçador Louco, o Barba Verde e mais alguns outros membros da Irmandade deixaram o Septo de Pedra. Alguns foram para missões de procurar criminosos — além deles — nas terras fluviais e outros para comprar alimentos e armas com o ouro que adquiriam com a venda de Gendry. Em um dia normal, o Septo de Pedra estaria abarrotado de pessoas na praça central, mas hoje o lugar estava vazio, até mesmo o Pêssego que vivia lotado independente da hora do dia tinha menos de meia dúzia de gatos pingados e a garota sabia que continuaria assim por pelo menos uma quinzena. Seria o momento perfeito para fugir, constatou. Ela era pequena e ágil, mesmo que alguns homens fosse atrás dela, ela poderia facilmente desaparecer por entre as árvores. A mata ao redor da fortaleza da Irmandade era vasta e não havia tantas pessoas ali para que vasculhassem todos os cantos, nem mesmo havia cães para farejá-la, o Caçador Louco levara todos os cães de caça consigo, deixando para trás velhos vira-latas e cães domésticos.

Arya fechou a porta de seu quarto às suas costas e hesitou por um momento. Ela estava sozinha naquele aposento, poderia mexer nos pertences de todas as pessoas com quem dividia o quarto. Sabia que Harwin deveria ter uma ou duas moedas no meio de suas cobertas e Limo poderia ter um broche de menor valor em algum lugar ali, presente de alguma de suas conquistas ou saqueado de foragidos que por azar caíra nas mãos dele.

Depois de ter remexido quinze dos dezesseis colchões de palha postos no chão, a fortuna dela crescera, apesar de ainda não ser muita. Agora a garota possuía um dragão de ouro, quatro veados de prata e nove estrelas de cobre. Arya também achou algumas joias fáceis de esconder e que poderiam valer alguma coisa, mas na última hora preferiu deixar no lugar em que estavam. Era mais fácil fazer as moedas desaparecerem do que um objeto pessoal com detalhes únicos.

No próprio colchão Arya não tinha nada escondido. Não possuía roupas além daquela que vestia e não tinha mais nenhuma arma. Harwin fiscalizara os seus bens depois dela ter tentado atacar o Cão de Caça depois do julgamento em que ele fora absolvido.

O medo corta mais profundo do que a espada, disse para si mesma. O medo de ser encontrada em meio à fuga a assolava. As pessoas presentes ali conheciam aquela região melhor do que ela. Arya só conhecia o Septo de Pedra e tinha certeza de que havia segredos ali que ela nunca descobriria. A vantagem em sua ação é que ela não estava levando consigo nada que chamasse atenção. Quem a visse no pátio pensaria que ela estava fazendo o seu passeio diário. Eu só farei o meu passeio diário, tentou se convencer. Se ela acreditasse nisso, nada em sua expressão e em sua ação chamaria a atenção de outrem.

Respirando profundamente, Arya tornou a abrir a porta, deixando o quarto coletivo que usara como refúgio no último mês.

Quando pôs o pé para fora do quarto uma porta também se abrira no fim do corredor e uma das atendentes saiu de lá com o semblante carregado e trazia nos braços uma bacia com panos ensanguentados. Arya prendeu a respiração ao ver a mulher, acreditando que a desconhecida podia ler os seus pensamentos e quando ela passou por si sem vê-la, a garota voltou a respirar, acompanhando a atendente com os olhos até que ela saísse de seu campo de vista. Essa foi por pouco, pensou e seus olhos se voltaram para o lugar de onde a mulher saíra.

Arya se recordava de que quando o Cão de Caça fora ferido no julgamento, Lorde Beric ordenara que ele fosse transferido para o Pêssego e tivesse os ferimentos tratados, o que explicava a presença daquele pano ensanguentado que acabara de ver. Arya não o visitara nenhuma vez, não desejara fazê-lo e nem deixaram que fizesse. A Irmandade conhecia a real intenção da garota e sabia que tendo a oportunidade, ela se vingaria da morte de Mycah.

Eu poderia matá-lo agora. Não havia ninguém no quarto. A atendente acabara de descer. Quem ficava no quarto com Sandor era Thoros, mas com ele fora, não havia ninguém para protegê-lo. Eu posso matá-lo e ninguém saberá. Ela estava de partida, quando descobrissem o que ela fez, ela já estaria bem longe dali. Entretanto, não tinha muito tempo pra perder. Às oito horas o único portão de entrada do Septo de Pedra era aberto e ficava desta forma por trinta minutos, dando a Arya nada mais do que quinze minutos para realizar sua grande fuga. Com os portões fechados novamente, os foras da lei a procurariam por todo o local antes de cogitarem a ideia de que ela poderia ter saído dali. Se ela perdesse essa oportunidade agora, só conseguiria uma nova chance às quatro da tarde e também por meia hora.

Silenciosa como uma sombra, Arya esgueirou-se pelo corredor até a porta do homem que tinha o nome no topo de sua lista e após lançar um olhar furtivo pelo corredor e garantir que estava sozinha, ela entrou no aposento, trancando a porta às suas costas.

O lugar era bem diferente de seu quarto. Ali havia uma cama de verdade, com um colchão macio e um travesseiro tão fofo que afundava a cabeça do Cão de Caça que estava deitado nele. O homem era o único inquilino naquele aposento, mas o lugar também não era muito grande, mal tinha espaço para a cama, para a cômoda e a poltrona encapada de um amarelo que se assemelhava a bosta fresca de cavalo.

Deitado de barriga para cima sobre a cama no que parecia ser um sono profundo estava o Cão de Caça, despido de sua armadura e com o semblante relaxado. Os braços, Arya percebeu, estavam dobrados sobre o corpo e o antebraço esquerdo, que estava voltado para Arya, trazia as faixas brancas de tecido que ocultavam suas cicatrizes causadas pelo fogo. O rosto do homem, que era uma ruína, porém mais antiga, também estava voltado para ela. Ele é tão feio, pensou, curvando os lábios e enrugando o nariz em desgosto.

Arya olhou para os lados, procurando algo que pudesse utilizar como arma. Se tivesse sorte, poderia atacá-lo e talvez até matá-lo antes que ele percebesse o que estava acontecendo. A garota sabia que se ele acordasse antes que tivesse terminado o ato ela viria a sofrer consequências. O homem podia estar ferido, mas ela era só uma garota de catorze anos com pouca massa muscular.

Próximo à porta, Arya encontrou o objeto mais propício para o que almejava: uma pedra que servia como peso de porta. A garota a agarrou com as duas mãos. A pedra era lisa e bem pesada, talvez tivesse uns três quilos ou mais. Um movimento rápido e letal naquela cabeça feia, planejou, caminhando suave como uma seda até onde Cão de Caça estava.

O peito do homem subia e descia, seguindo o movimento de sua respiração. Arya prendeu a própria quando elevou a pedra acima de sua própria cabeça para dar mais intensidade ao golpe. Agora que estava prestes a retirar um nome de sua lista, ela sentia uma estranha energia percorrer o seu corpo. Esperara tanto tempo por essa oportunidade e nenhuma vez imaginara como seria a morte destinada a cada um de seus desafetos. Matar o Cão de Caça do Rei Joffrey com uma pedra não parecia uma boa morte em comparação a todo o mal que ele fez. Ele deve ter matado outros cem Mycah, constatou. O Cão era um assassino com um histórico familiar de violência e seu dono, Joffrey, não era nenhum Baelor, o Abençoado. O garoto demonstrara desde cedo o gosto pelo sangue e com toda a certeza o seu animal de estimação saciara boa parte de seu desejo sádico. Joffrey é um covarde, se recordou. Mycah lutava com um graveto quando o então Príncipe o atacou com aço de verdade e quando a sua loba, Nymeria, veio ao auxílio dela e do filho do açougueiro, Joffrey gemeu e chorou como uma garotinha, embora Nymeria só tivesse mordido o braço dele. Preferia abrir o crânio de Joffrey com esta pedra, pensou, mas o Cão de Caça deve bastar por enquanto.

– Eu lhe darei uma chance, garota lobo, se errar quebro suas mãos — A voz rouca e áspera do Cão de Caça tirou Arya de seu objetivo.

O homem o tempo todo fingira estar dormindo. Arya sentiu as mãos tremerem. O medo corta mais profundo do que as espadas, relembrou os dizeres de Syrio para criar coragem e mordeu o lábio inferior. Os olhos de Sandor permaneceram um instante a mais fechados e então se abriram. Duas esferas acinzentadas se fixaram nela. Havia tanto ódio naquele olhar que transformava a massa de pele derretida na face esquerda do homem em algo inofensivo, até talvez inocente.

– Não é próprio de uma lady atacar um homem enquanto ele está dormindo — A avisou, sem desviar os seus olhos do dela, mesmo a pedra ainda estando pairando sobre sua cabeça — Sua irmã nunca faria isso — Um sorriso amarelo brotou nos lábios dele.

– Eu não sou uma lady! — Gritou as palavras como se estivesse rebatendo um insulto — E Sansa é estúpida!

Odiava ser comparada com a irmã. Sansa sempre era considerada melhor do que ela e um exemplo a ser seguido. Para Arya, sua irmã mais velha não passava de uma garota estúpida que não entendia como a vida funcionava. Enquanto Arya estava na estrada lutando pela sua vida tentando voltar para a sua família, a irmã provavelmente estava em Porto Real se empanturrando de bolos de limão. Espero que ela engorde tanto que não seja capaz de passar por nenhum dos sete portões da capital!, desejou com amargura.

– Sim, o passarinho é estúpido — O Cão de Caça concordou e por um breve instante, Arya pensou que a raiva nos olhos dele tivesse suavizado, contudo foi só por um rápido momento — E se você não abaixar esta maldita pedra também será!

O mais sensato seria fazer conforme ele dizia, não queria correr o risco de ter suas mãos quebradas, mas simplesmente não conseguia. Arya mordeu o lábio inferior até sentir o gosto de sangue em sua boca e se recordou dos dizeres do Cão durante o julgamento. Ele dissera que fodera com sua irmã até arrancar sangue e agora ele estava a chamando de estúpida. Sansa era família dela e não dele e cabia apenas a um Stark determinar o que outro membro de sua Casa era.

– Minha irmã não é estúpida! — Exclamou, mostrando incoerência com a sua primeira frase que dizia respeito à Sansa e sem pensar duas vezes, abaixou a pedra com tanta força na direção da cabeça de Sandor que o seu golpe teria sido capaz de matá-lo ou pelo menos deixá-lo inconsciente se ele não tivesse se movido no último instante fazendo com que a pedra não lhe causasse um dano maior do que um corte superficial com início na sobrancelha e término na orelha do mesmo. Por cima daquela pele queimada, o resultado do golpe só foi percebido quando um filete de sangue deu sinal.

– Cadela desgraçada..! — O Cão resmungou, levando a mão do braço bom ao corte fresco. Quando as pontas de seus dedos vieram empapadas de sangue, Arya sentiu que era hora de deixar sua resolução para trás e sair correndo daquele quarto.

A sua condição física a tornava mais rápida do que forte, porém entre ela e a liberdade havia uma porta que ela mesma trancara quando adentrara o aposento e suas mãos trêmulas com o medo a fazia lutar com a fechadura. Arya não queria colocar mais pressão em sua ação, todavia o seu instinto a fez lançar um olhar furtivo ao Cão de Caça, que já deixara o leito e pusera-se em pé. O homem cambaleava, fosse pelo ferimento recente ou pela quantidade de tempo que passara trancafiado naquele lugar. Com apenas três passos os separando, a garota sentiu um grande alívio quando ouviu o barulho da porta se abrindo. Como uma ventania ela se atirou para fora do quarto e tropeçando nos próprios pés disparou-se corredor a fora, descendo a escada que levava para o salão principal e quando chego lá mirou a porta de entrada e não parou nem mesmo quando Limo e Tom das Sete chamaram o seu nome e perguntara o que estava acontecendo. As suas costas Arya podia ouvir os passos descalços e pesados do Cão de Caça. Ele vai quebrar minhas mãos!,desesperou-se.

Do lado de fora do Pêssego caia uma chuva fina e fria, entretanto constante. Já não sabia mais as horas muito menos se o portão do Septo de Pedra estava ou não aberto. Só havia uma maneira de descobrir e era indo até lá. A ação podia ser perigosa. O Cão de Caça poderia alcançá-la e puni-la por seu mau comportamento, mas a perseguição de ambos chamaria a atenção dos transeuntes e a Irmandade remanescente podia vir ao seu auxílio, o que podia ou não ser algo bom. Arya correu com todas as suas forças por aproximadamente cinco minutos e por sua sorte o portão ainda estava aberto. Aparentemente a chuva atrasara a entrada e a saída dos comerciantes. Não se importou com nada disso, a não ser correr ainda mais, dessa vez sentindo o gosto da liberdade junto ao sabor do medo. As suas costas ainda conseguia ouvir o barulho de passos espirrando água das poças que desviava às suas costas e cada vez ficando mais próximo a ela. A garota já estava ficando exausta do exercício, se tivesse um cavalo teria sido diferente. Seu correr diminuiu de velocidade e então uma mão forte, mas não tão grande e pesada como a do Cão de Caça agarrou o seu ombro e a atirou de frente contra uma árvore.

– Me solta! — Exigiu, debatendo-se. Sua bochecha direita estava comprimida com força contra o tronco úmido, fazendo com que falar e engolir saliva fosse o suficiente para machucá-la.

– Por que você está fugindo!? — A voz de seu captor revelava sua identidade. Ela teria reconhecido a voz do escudeiro Ned em qualquer lugar.

– Eu não estou fugindo! — Mentiu. Poderia dar infinitas razões para justificar o seu ato, mas não ousava. O rapaz de quinze anos nada poderia fazer a respeito de suas queixas a não ser levar para os seus superiores e eles, Arya sabia, nada fariam a não ser talvez jogá-la dentro de uma daquelas jaulas em praça pública para fazê-la pensar em seus erros e se contentar com a sua condição.

– Então por que é que correu até aqui fora!? — Exigiu saber o escudeiro de Lorde Beric.

– O Cão de Caça estava me perseguindo! — Respondeu de prontidão. Poderia ter mentido sobre este fato também, mas não convinha. Era melhor que toda a culpa caísse sobre o homem do que sobre ela.

– E por que o Cão de Caça te perseguiu? — Questionou. Ned acreditara no que ela estava dizendo, contudo sabia que o Cão de Caça não iria por livre e espontânea vontade caçá-la sem uma razão para tal.

Preciso pensar em algo, determinou-se. Não podia contar a verdadeira história do que ela fizera com o peso de porta. Antes que pudesse determinar algo convincente que justificasse a ação de seu perseguidor, ela fora salva pela aproximação de outro indivíduo.

Ned também ouvira os passos se aproximando e retirou o peso de seu corpo de cima do de Arya e voltou-se para a direção de onde vinha o desconhecido, mantendo a garota presa a si pelo braço direito.

– Você a encontrou, Ned!? — A voz vinha do ex-cavalariço de Winterfell, Harwin. A voz do homem carregada de sotaque nortista o tornava tão reconhecível quanto Ned, que carregava Dorne em cada palavra dita.

– Sim — Avisou, quando Harwin estava a menos de quatro passos dele — Ela disse que fugia do Cão de Caça.

– O que você fez com ele? — O ex-cavalariço voltou-se para ela. Ele a conhecia bem o suficiente para saber que ela havia aprontado algo.

Arya deu de ombros. Não iria confessar o seu crime.

– Que seja — Harwin suspirou — Venha, agora — Estendeu o braço para recepcionar a garota que fora liberta por Ned e empurrada pelo mesmo na direção do conterrâneo dela — Devemos retornar.

Arya engoliu em seco, mas fez o que lhe foi dito. Não queria retornar para o Pêssego e nem para o Septo de Pedra. Lá no covil dos fora da lei estava o Cão de Caça e em seu próprio bolso estava o ouro que saqueara das pessoas com quem dividia o quarto. Em qualquer lugar dos Sete Reinos o roubo era punido com a perda de uma mão ou a ida para à Muralha. Sendo ela uma garota, não havia opção a não ser escolher qual das mãos ofereceria ao carniceiro. Provavelmente a direita, pensou, já que ela fazia tudo com a mão esquerda. A ironia disso era que tanto o Cão de Caça quanto a Irmandade desejaria ferir suas mãos se fosse pega. Não serei pega, disse a si mesma. Havia tantas pessoas ali para que culpassem que as únicas coisas que ela tinha que fazer era esconder as moedas em um lugar seguro até que voltasse a ter uma oportunidade de escape e permanecer fora do campo de ataque do Cão.

– Malditos sejam, seus filhos da puta! — Cão de Caça esbravejava à porta do Pêssego.

A chuva persistia em cair, agora com maior intensidade. As terras fluviais tinha um constante clima úmido no outono e na primavera. Arya sentiu um calafrio percorrer o corpo e sabia que não tinha relação com a chuva. Conforme se aproximou, a garota percebeu que o grande homem tinha as mãos amarradas e o rosto coberto por um saco de estopa.

– O que está acontecendo, Limo? — Harwin perguntou assim que se aproximara. Limo, Tom e mais dois outros membros da Irmandade estavam controlando o grandalhão.

– Parece que o Cão acordou agitado esta manhã — Limo o informou.

– Estamos levando-o até Lorde Beric. Já faz tempo que Clegane está aqui e ele nem ao menos é um dos nossos — Tom acrescentou — E além do mais ele já está bem melhor.

Todos podiam ver o quanto Sandor Clegane havia melhorado. No primeiro dia após o duelo com Lorde Beric o homem mal saiu do leito, gemendo e reclamando da dor da queimadura. Agora, com uma semana tendo se passado o homem já conseguia se por em pé e até mesmo cuidar de sua própria ferida, mesmo que não deixasse o quarto por ordem da Irmandade que desejava ter o esconderijo protegido, o que justificava o fato dele estar vendado.

– Eu os acompanharei — Harwin os avisou — Você — Apontou para Arya, tirando o seu braço que estava apoiado no ombro dela — Nem pense em repetir o que quer que tenha feito — A advertiu — Ned — Chamou o rapaz que os acompanhava — Fique de olho nela, sim?

Arya sentiu um formigamento percorrer por todo o seu corpo. Ela estava a salvo. O Cão de Caça não quebraria suas mãos e ela não precisaria encontrar uma justificativa para a sua imprudência e o melhor de tudo, ela não precisaria se encontrar com Lorde Beric. A garota se recordava de como aquele líquido grosso que deveria ser sangue e se assemelhava a lava retornara para o corpo do homem que o derramara após ter sido morto pelo seu oponente no duelo que ele mesmo provocara. Havia um novo ferimento mortal adicionado à carne do Senhor do Relâmpago e nos últimos dias o homem parecia mais depressivo do que nunca.

– Pode deixar, Sor — O garoto corou ao receber a missão.

Eu não preciso de alguém para me vigiar! desejou gritar e só não o fez porque sabia que não iria adiantar. Harwin não confiava nela e não tinha motivos para fazê-lo, porém isso não mudava o fato dela estar ofendida. Ned deveria ser no máximo um ano mais velho do que ela e fazer dele o seu vigia era inadmissível. O que ele deveria fazer? Convencê-la a não deixar o Septo de Pedra?

Arya assistiu o Cão de Caça e os seus captores se afastarem do Pêssego e então se afastou da estalagem. Tinha planos de esconder o dinheiro nas ruínas da cidade onde quase ninguém andava. Tinha algumas gaiolas de corvos nessas ruínas que serviria de forma excelente para o que queria. Arya não havia chego ao chafariz quando percebeu que o rapaz ainda a seguia. De supetão ela parou, girou sobre os calcanhares e então ordenou:

– Vá embora!

O garoto a imitou, inclinando-se levemente para frente ao parar de repente, sinal de que perdera o equilíbrio. Ned tinha a pele clara, grandes olhos azuis que dependendo da luz pareciam ser violetas e o cabelo tão loiro, mas tão loiro que parecia platinado, embora fosse possível enxergar a coloração amarelada nos fios. Se fosse Sansa ou Jeyne Poole em seu lugar, elas provavelmente diriam que ele era um rapaz muito bonito, mas Arya não o julgava dessa forma. Ele não tinha músculos e parecia mais infantil do que ela, com o rosto ainda carregando traços de criança e pouco desenvolvido, servindo como prova de seu crescimento apenas uma pequena penugem no queixo que seriam os primeiros fios de barba.

– Não posso — Respondeu com tranquilidade, crispando os lábios em desgosto.

– Se você não contar, eu não conto — Ela e seu meio-irmão Jon sempre tiveram este acordo quando um era pego pelo outro fazendo algo errado.

– Não — O garoto parecia ser honesto demais, mas Arya sabia que isso era apenas bajulação à Irmandade para que pudesse impressioná-los. Espero que você tenha o mesmo fim que Gendry, desejou por vingança para que Ned aprendesse que isso não o levaria a nada além de uma grande decepção.

– Você não deveria estar com Lorde Beric? Você é escudeiro dele — Acusou e as bochechas do garoto ruborizaram.

– Eu estou em uma missão — Disse com orgulho. Arya não precisou perguntar qual era. Não via o papel de Ned de acompanhá-la como uma dama da corte uma missão, mas se ele colocara a sua ação naquele patamar, então não seria ela a contrariá-lo.

– Há quanto tempo é escudeiro de Lorde Beric? — Questionou.

– Desde os meus treze anos, mas estou com ele desde os meus dez anos, quando Lorde Beric assumiu compromisso com minha tia e me tomou como pajem — Disse com certa timidez que não afetou em nada sua simpatia — Lorde Beric me ensinou a usar a lança e uma vez ganhei um prêmio avançado contra anéis – Gabou-se.

– Eu não sei usar a lança — Arya confessou. Adoraria aprender. Quanto mais arma conhecesse, melhor seria a sua chance contra os Lannister — Mas podia ganhar de você com uma espada — Se ele a desafiasse poderia lhe dar uma surra que a livraria do olhar vigilante do rapaz. Arya matara pela primeira vez com a espada com doze anos e poderia fazer de novo se precisasse, a única coisa que ela lamentava é não ter mais a sua Agulha– Já matou alguém? — Perguntou, quando Ned não respondeu ao seu desafio.

– Eu só tenho quinze anos! — O garoto se alarmou e Arya riu internamente daquilo. Ele deveria ser o garoto de quinze anos mais verde que se intitulava um fora da lei. Percebendo que estava sendo julgado de forma negativa, o rapaz se defendeu contando que participara de uma batalha no Vau do Saltimbanco, mas que não fora atacado e nem levantara a arma contra ninguém, pois Lorde Beric havia sido ferido e ao ajudar o seu senhor a sair do rio com uma lança espetada nele, os combatentes não desperdiçaram mais do que um breve olhar sobre os dois.

Arya podia ter rido dele por ter sido ignorado por outros combatentes, mas não o fez, havia algo que há tempos ela desejava saber, só não havia encontrado a oportunidade para tal e de certa forma achava que tinha relação a este episódio que Ned acabara de narrar.

– Por que o chamam de Ned? O meu pai era chamado assim.

– É pelo meu nome — O rapaz corou — Me chamo Edric Dayne, Senhor de Tombastela.

Os olhos da garota se arregalaram e ela mordeu o lábio inferior. Estava determinada a não deixar transparecer suas emoções, contudo a surpresa foi tão grande que ela reagiu por instinto. Não imaginava que aquele garoto magricela pertencia a uma grande Casa de Dorne. Quem me vê me toma por um garoto órfão, pensou e constatou que não deveria chegar logo a conclusões precipitadas. Syrio Forel teria batido nela com a espada de madeira se soubesse que ela estava olhando ao invés de ver as coisas ao seu redor

– Lamento não saber quem você era, Senhor — Disse com sinceridade.

– A culpa é minha, Senhorita — Respondeu, abrindo um pequeno sorriso tímido repleto de simpatia. Se fosse Gendry a dizer esta frase seria com ironia, comparou.

– Por um acaso você viria a ser parente de Sor Arthur Dayne? — Arya se recordava de como o pai enaltecia a imagem da Espada da Manhã, mesmo tendo sido ele a matar o cavaleiro durante a Rebelião de Robert.

– Ele era o meu tio. Meu pai era o irmão mais velho dele. Também tive e perdi uma tia antes de nascer, Lady Ashara, ela se jogou ao mar do alto da Espada Branca — O garoto contou.

– Por que ela fez isso? — Franziu o cenho ao ouvir sobre a forma que Ashara Dayne morrera. Não entendia como qualquer pessoa podia pensar em tirar a própria vida.

– Ela teve o coração partido — Edric a analisou e então continuou — O seu pai nunca falou de Lady Ashara Dayne, de Tombastela?

Sansa teria soltado um gritinho e talvez até derramado uma lágrima por ouvir esta trágica história de amor, mas não Arya. A garota não via beleza em amores trágicos, na verdade, não via beleza no amor, visto que nunca o experimentara e se fosse toda aquela melação sem fim que existia nos livros e nas canções, então ela estava muito bem sem este sentimento.

– Ele tinha razão para mencioná-la? — Arya devolveu o olhar e o garoto corou.

– Eles se conheceram durante o ano da falsa primavera em um torneio que ocorreu em Harrenhal. Minha tia Allyria... — Ele hesitou e Arya o instigou para que continuasse — Minha tia disse que Ashara e o seu pai se apaixonaram em Harrenhal.

Arya não acreditava naquela história. O seu pai amara apenas sua mãe, Catelyn, e ninguém mais. O seu pai era um homem muito honrado e mesmo que isso tivesse acontecido antes da Rebelião de Robert, antes de Catelyn deixar de ser noiva de Brandon para ser de Eddard, Arya acreditava piamente que o seu pai nunca tivera nenhum envolvimento romântico fora do casamento. Então como é que o Jon nasceu?, uma voz em seu interior a questionou.

– Você mente! — Acusou — Meu pai amou apenas a senhora minha mãe. Era a única mulher que ele amava.

Edric deixara transparecer em seu rosto o arrependimento por ter entrado no assunto.

– Eu sei que sim, senhorita, mas se bem me lembro você tem um irmão bastardo, não tem? — O rosto de Edric corara. O rapaz podia ser simpático e tímido, contudo agora ele se mostrava defensor de sua palavra. Arya gostaria mais dele se este novo atributo continuasse sendo um mistério.

– O que está supondo? — Arya o enfrentou, já sabendo a resposta. Ela mesma havia se questionado a respeito disso.

– Seu pai conhecera uma mulher além de sua mãe — Disse de prontidão o garoto — Eu conheci a mãe de Jon, ele é o meu irmão de leite.

– Irmão de leite? — Arya franziu o cenho. O pai nunca mencionara a mãe de Jon, poderia ela vir a ser a tia de Edric? Seria Edric um parente seu? Seria Jon no fim das contas um Sand e não um Snow? A menina sentiu o estômago embrulhar.

– Sim, de leite e não de sangue. Apesar das línguas dizerem a história de Lorde Eddard com a minha tia Lady Ashara, foi com Wylla que ele teve o bastardo — O garoto explicou — Quando eu nasci a minha mãe não tinha muito leite e contratou Wylla para servir de ama de leite.

Mais uma, pensou. Em menos de dez minutos ela soubera sobre dois casos que o pai tivera. Não, não é verdade. Os dorneses mentem. Meu pai não era assim, não era! disse para si mesma. Não conseguia acreditar que o seu pai se envolvera com duas dornesas. De tudo o que ouvira só havia uma informação que ela julgara vital: Dá próxima vez que ela se encontrasse com Jon ela contaria a respeito da mãe dele. Wylla, ela se chama Wylla, lembre-se Arya. Se o pai dela continuava ou não a ser honrado era indiferente neste caso. Jon sempre quisera saber quem era a mãe e agora ele poderia saber. Ela viveu em Dorne, em Tombastela, talvez você até tenha parentes lá.

– Se estiver mentindo eu lhe dou um murro na cara — O ameaçou.

– Juro pela honra da minha Casa! — Ergueu as mãos em sinal de rendição.

– Quero ficar a sós agora – Disse.

– Esqueceu? Eu não posso deixá-la – Edric a recordou e Arya o amaldiçoou por isso. Queria ficar a sós com os seus pensamentos. Além de ter de absorver as informações que acabara de receber também tinha de lidar com o fato de estar com provas incriminadoras em seu bolso.

– Até mesmo se eu for para o meu quarto? – Perguntou.

– Neste caso, talvez não... – O garoto não tinha certeza. O Pêssego era um lugar bem movimentado tanto por clientes quanto por atendentes e não havia outra forma de sair do segundo andar que não fosse pela porta principal e se Arya descesse por ali todos perceberiam inclusive ele.

– Ótimo – Arya fez o caminho de volta até o lugar em que estava hospedada.

O Pêssego continuava com uma movimentação fraca e os homens que saíram com o Cão de Caça – inclusive o grandalhão – ainda não haviam retornado pelo o que ela pôde perceber com uma rápida olhada.

Sem parar para pensar duas vezes, ela subiu as escadas que levavam ao andar superior e adentrou o seu quarto, ouvindo os passos de Edric morrerem na escadaria, onde ele ficara sentado. Arya pensou que ele poderia ter optado por se sentar ali e não em uma das mesas do salão por insegurança de que ela pudesse escapar de seus olhos e a Irmandade o castigasse por isso.

Dentro de seu aposento, Arya examinou cada cantinho visível em busca de um lugar para descarregar o seu saque, mas não encontrou nenhuma brecha. Até mesmo o buraco na parede que um rato fizera não serviu por ser grande e muito aparente. Se Ned não estivesse me seguindo eu poderia ter escondido estas moedas em um lugar que somente eu as encontraria, lamentou e caminhou em direção ao parapeito da janela, olhando para baixo. O térreo não era tão alto de onde ela estava, devendo ter no máximo uns seis metros de queda, o suficiente para quebrar um membro se caísse de mau jeito. Se eu usasse os lençóis e amarrasse um no outro poderia fazer uma corda, arquitetou, mas todos me veriam quando eu descesse pela janela, exceto se fosse à noite. O único problema é que à noite o seu quarto não estaria mais vazio. Dos dezesseis leitos – contando com o dela –, seis estavam ocupados, o restante estava vago, pois seus donos saíram para mais missões. Quando eles voltarem para os seus leitos esta noite eles procuraram por seu ouro. A garota cambaleou para trás, jogando-se em seu próprio colchão de palha.

Contudo, antes de atingir a superfície ela ouviu um passo seu soar oco. Se sentando em seu colchão e lançando um olhar mais demorado pelo chão ela percebeu que todo o quarto tinha piso de madeira que por ser tão velho era desgastado e possuía frestas. Tocando o taco, Arya percebeu que alguns deles se moviam e utilizando a ponta dos dedos conseguiu erguer um deles.

Mais do que imediatamente a garota esvaziou o bolso neste compartimento secreto que encontrara, todavia ao tampá-lo o taco ficou alto e qualquer um que passasse por ali poderia tropeçar e facilmente identificar que havia algo errado. Não vou poder guardar todas as moedas juntas, compreendeu e então dividiu a sua conquista em baixo de cinco tacos diferentes e um distante do outro. Se encontrarem um, pelo menos terei outros quatro em segredo, disse para si mesma satisfeita com a descoberta.

Aquele dia no Septo de Pedra foi um dos que mais demorou a passar depois do dia seguinte em que se separara de Gendry. Algumas noites Arya deitava a cabeça em seu travesseiro e se questionava por onde o rapaz andava e o que teria acontecido com ele. Depois que se afastara da família de Winterfell e de sua irmã que estava em Porto Real, a garota tivera a mesma reação, mas com o tempo os pensamentos foram diminuindo e de vez em quando ela ainda se pegava questionando a respeito de Jon Snow na Muralha. Arya sabia ou pelo menos desejava que em breve o espaço de Gendry em sua mente também viria a diminuir e não sabia se ficaria agradecida ou emburrada por isso.

Naquela mesma noite durante o jantar em que ela estava tendo com Edric os irmãos que ficaram responsáveis em levar o Cão de Caça até Lorde Beric retornaram com um grande ar de satisfação e avisaram a todos os presentes que o Cão dos Lannister finalmente os deixara, levando consigo apenas o cavalo, a armadura e alguma comida. Eles também ressaltaram o fato de que Sandor Clegane não ficara satisfeito quando descobrira onde fora parar o ouro que outrora pertencera a ele, ameaçando retornar para pegar o que lhe foi tomado.

– No fim Lorde Beric lhe deu uma nota promissora no valor do ouro e disse que quando a guerra terminar que ele venha nos procurar e então terá a quantia de volta – Tom das Sete contou, soltando uma grande gargalhada. Era óbvio que aquilo não passava de uma grande piada.

Arya não riu com os demais. Aquilo ainda era pouco em comparação ao que o Cão de Caça realmente merecia, a única coisa que lhe trazia um pouco de contentamento era saber que ela não seria punida por ter batido com o peso de porta na cabeça feia do homem e também que nenhum de seus colegas de quarto procurou o próprio ouro como ela temia que eles fizessem. A felicidade dela em contra partidade durou pouco. Na manhã seguinte ela fora chamada por Lorde Beric na antiga forja em que Gendry trabalhara por pouco tempo.

No Septo de Pedra a chuva persistia em cair, hora mais grossa, hora mais fina, mas sempre constante, do amanhecer ao anoitecer. O vento frio também acompanhara o clima e a garota ganhara uma feia capa esverdeada que lhe resultou o apelido de pequeno Limo. Se não estivesse com tanto frio teria de bom grado aberto mão daquele ridículo pedaço de pano que servia muito bem para o seu propósito.

A forja ficava próxima à parte velha da cidade e era um dos poucos prédios em que permanecia inteiro, ou melhor, quase inteiro. Em uma parede ou outra se encontrava grandes rachaduras e as paredes possuíam diversas cores, indicando reformas recentes aos danos que sofrera. Com dois andares, a forja apresentava no andar inferior a estação de trabalho do ferreiro e no andar superior as acomodações do trabalhador. Gendry havia dormido algumas noites ali, talvez até tivesse algumas roupas que lhe foram dadas perdidas naquele lugar, mas ela não saberia disso hoje. Hoje ela iria se encontrar com Lorde Beric e assim que se aproximou do ponto de encontra vislumbrou a capa vermelha desbotada do sacerdote de Myr aparecendo e desaparecendo pela porta de entrada indicando que ele estava em movimento. Lorde Beric não estará sozinho, constatou.

Arya se recordava de como o Senhor do Relâmpago voltara à vida depois de ter sido morto pela lâmina do Cão de Caça. Nunca havia visto uma pessoa voltar à vida, nem sabia que isso era possível. Ela tentara se convencer de que o que vira fora uma ilusão, um truque, uma mágica barata. Quando uma espada perfura um ser vivo, este ser vivo ferido morre. Syrio lhe dissera que o ser humano é feito de água e quando é furado, a água vaza e a pessoa morre. Aquilo nunca aconteceu, o Cão de Caça não chegou a atingir Lorde Beric, disse à si mesma, porém se realmente tivesse sido como se obrigava a acreditar, então não teria como todos os presentes terem visto a mesma coisa que ela. Foi R'hllor, algumas pessoas gritaram em meio às preces que faziam de agradecimento e admiração. A garota pouco sabia a respeito daquele Deus, mas se ele era capaz de trazer alguém de volta a vida, ela queria conhecê-lo um pouco mais. Syrio disse que só há um Deus e este Deus é a morte, se lembrava claramente da primeira vez que ouvira o professor de dança lhe dizer isto e daquele dia em diante ela adotara a fé do braavosiano. Poderia haver o oposto ao Deus da Morte? Poderia R'hllor ser o Deus da vida e aquele quem ela realmente deveria seguir?

Mordeu os lábios, hesitando à porta, já do lado de dentro forja.

Lorde Beric estava em pé, encostado na única mesa em que havia no aposento enquanto Thoros de Myr andava de um lado pro outro lançando constantemente um olhar furtivo ao fogo que ascendera dentro da forja a carvão. A chama não era tão alta quanto de uma fogueira e ainda assim parecia afetar o sacerdote da mesma maneira.

– Você tem medo de mim, criança? — Lorde Beric perguntou, observando a hesitação de Arya.

Eu não sou criança, pensou.

– Não — Respondeu, mordendo o lábio inferior — É só que... Pensei que o Cão de Caça o havia matado — Revelou — Mas para você estar vivo, o ferimento deve ter sido superficial — Não é? acrescentou em sua mente.

– Pessoas que não aguentam a verdade se fazem de cegas quando vê sua realidade ser abalada — Lorde Beric voltou-se para Thoros que depois que Arya entrara, manteve os seus olhos fixos sobre ela — Thoros, quantas vezes você me trouxe de volta à vida?

O sacerdote estudou o seu mestre antes de responder.

– Não sou eu quem o trago de volta a vida, é R'hllor — O corrigiu e estava decidido a dizer só isso, mas Lorde Beric insistira em saber o número de vezes que havia sido morto e ressuscitado — Seis — Disse por fim — E não acredito que terá uma sétima. Cada vez mais tem se tornado difícil trazê-lo do mundo dos mortos. Tornou-se imprudente, meu Senhor. Gosta tanto da morte assim?

Arya desejou que aquela conversa não tivesse acontecido em sua presença. Sentia-se estranha vendo o sacerdote repreender o Senhor do Relâmpago.

– Gostar da morte? Acredito que ninguém goste da morte — O homem respondeu com o semblante fechado, entretanto a mente dele parecia estar em outro lugar. Provavelmente deve estar pensando no mundo das almas, tendo se deixado morrer tantas vezes teria sido comum Lorde Beric ter tido uma experiência de vida após a morte. Arya gostaria de perguntar como é o outro mundo, isso é se realmente existe outro mundo.

– Então seja mais prudente. Nenhum grande senhor luta na frente da batalha. Lorde Tywin e Lorde Stannis lutam na retaguarda. Deveria fazer o mesmo.

Onde Robb luta? se questionou. Ouvira dizer que o seu irmão estava presente em todas as batalhas junto com Vento Cinzento, mas não se recordava de ter ouvido a respeito da posição dele.

– De seis, três vezes fui morto por um Clegane — Lorde Beric deu um sorriso cansado — O pior de todos foi o estrago que o punhal do Montanha fez no meu olho – Definitivamente aquela não era uma cicatriz bonita, mas estava longe de ser pior do que o afundamento da têmpora esquerda — Também deveria ter aprendido a não desafiar um Clegane.

– Não pense muito nisso — Thoros recomendou com seriedade o que para o líder da Irmandade não passava de sarcasmo.

– Como posso pensar naquilo que não me lembro? Sei que uma vez tive um castelo na Marca e que havia uma mulher com quem estava prometido, todavia só sei disso porque meus irmãos me contaram. Não recordo quem me fez cavaleiro, qual era a minha comida favorita e nem o que me prende à vida. Às vezes penso que nasci na relva ensanguentada do bosque de freios que você me trouxe à vida pela primeira vez. Diga-me, Thoros, você é a minha progenitora? — Lorde Beric zombou e Arya estremeceu. Aquele humor que o cavaleiro demonstrava era o mais mórbido que conhecia e preferia não ter tomado conhecimento deste lado dele.

– Pode-se trazer um homem sem cabeça de volta à vida? — Thoros de Myr não se enquadrava na descrição de feiticeiros que a Velha Ama lhe dera, contudo ele conseguira trazer um homem seis vezes de volta a vida, mais do que qualquer um daqueles feiticeiros das histórias conseguira. O maior feito deles era se transformar em um animal — Não seis vezes, só uma vez — Se o sacerdote vermelho conseguisse fazer isso, ela diria para ele a levar até Porto Real. Talvez não fosse tarde demais para trazer o seu pai de volta para ela, e se fosse tarde, bem, ela queria saber se teria tido uma chance se o sacerdote estivesse no lugar certo e na hora certa. Se há como trazer um homem sem cabeça de volta à vida, então eu quero aprender a fazer isso.

– Eu não tenho magia — Thoros a informou da mesma forma que fizera com Lorde Beric, lhe contando que quem agia por intermédio dele era o próprio Senhor da Luz — Foi minhas preces que trouxeram Lorde Beric de volta ao nosso mundo. As seis vezes em que o vi morrer eu não tinha esperança de que ele voltasse à vida e para guiá-lo para o submundo eu orei e lhe dei o último beijo, que é um ritual avançado aprendido por sacerdotes vermelhos de nível mais avançado. Já vi este ritual ser feito inúmeras vezes entre sacerdotes e servos do Senhor da Luz. Deve-se encher a boca com fogo e então soprar as chamas para dentro da garganta do morto de modo que o fogo chegue até os pulmões e ao coração. Com Lorde Beric foi diferente. Quando eu fiz o ritual ele voltou a respirar. Pensei que ele não tivesse ido de verdade, mas quando ele voltou... — Os olhos de Thoros se encontraram com o de sua senhoria — ... Ele não era o mesmo. Ele havia visto coisas que não foram feitas para olhos humanos — Arya quis saber quais eram aquelas coisas, mas não ousou questionar — R'hllor não permitiu que ele morresse porque ele ainda tinha uma missão a ser cumprida.

As longas palavras de Thoros tentavam mascarar o não sobre o fato de trazer de ressuscitar um homem sem cabeça. Arya sentiu um nó se formar em sua garganta. Significa que o meu pai era inútil para R'hllor, interpretou os dizeres do sacerdote, se o meu pai fosse útil, o Deus Vermelho não teria o deixado morrer. Entretanto, o sacerdote também julgara não ser capaz de trazer Lorde Beric de volta à vida e seis vezes fora surpreendido. Talvez Eddard Stark tivesse uma chance se algum sacerdote vermelho estivesse lá. Arya gostaria de aprender a dar o último beijo, se ela aprendesse da forma certa mais ninguém com quem ela se importasse morreria, nem mesmo Sansa, concluiu em sua mente.

– Seu pai foi um bom homem, criança — Lorde Beric se dirigiu à ela depois de ter ouvido Thoros falando sobre ele e sua condição em silêncio.

– Por que eu fui trazida aqui? — Arya não queria ouvir aquelas pessoas falando sobre seu pai. Se o assunto continuasse, ela acabaria chorando na frente daqueles dois estranhos e ela se odiaria por ter se mostrado frágil perante eles.

– Nós ouvimos o que aconteceu entre você e Sandor Clegane ontem — A garota sentiu um soco no estômago. Então de fato ela seria questionada pelo seu mau comportamento — E soubemos que você tentou fugir de nós. Quero que saiba que temos a intenção de devolvê-la para a sua família. Em honra ao seu pai poderíamos fazer isso sem cobrar a taxa de resgate, mas precisamos de ouro para sobreviver ao inverno — Era Lorde Beric quem falava — Contudo, teremos de adiar o reencontro com sua família.

– Por quê!? — Arya soara desesperada, ela sabia disso.

– Diga-lhe — O Senhor do Relâmpago ordenou a Thoros.

– Tive uma visão nas chamas — O sacerdote começou — Vi Correrrio como uma ilha em um mar de fogo. Em breve o lugar será sitiado pelos leões — A expressão de Arya deve ter revelado os seus sentimentos, pois o homem continuou — Talvez o seu irmão não esteja em Correrrio quando isto acontecer, ele pode ter ido para as Gêmeas com a sua mãe para o casamento de seu tio, Edmure.

– Se vocês não tivessem me capturado, se não tivesse perdido tempo fazendo estas merdas que vocês chamam de justiça eu poderia estar lá agora! — Esbravejou, pondo para fora uma parte do que pensava. Ele diz que talvez o meu irmão não esteja lá, significa que ele não tem certeza, ele não tem certeza de nada!

– Não podemos arriscar sua segurança — Lorde Beric interveio. Thoros parecia gravemente ofendido com aquilo. Enquanto para Arya o que eles faziam era brincar de guerra, para eles era uma verdadeira guerra que enfrentavam — Poderia devolvê-la para Peixe Negro e conseguir algumas moedas pelo seu resgate se ele te reconhecesse, mas o que aconteceria com você quando Correrrio fosse dominada pelos Lannister?

Viveria ou morreria e estaria mais perto da minha família do que estou agora! desejou gritar, mas em contrapartida o que disse foi:

– Mentirosos! Vocês são todos mentirosos! — E sem dizer mais nada ou esperar por uma resposta, girou-se sobre os calcanhares e correu para fora da forja.

Ela não queria voltar ao Pêssego, aquele lugar imundo carregado com cheiro de essências para disfarçar a podridão dali. Ela queria ficar longe das pessoas que a viam como um grande saco de moedas. Ela estava sozinha, sabia disso, não tinha uma alcateia, nem mesmo uma matilha e teria ficado grata por ter pelo menos um dos dois. Seu pai dissera uma vez que no inverno o lobo solitário morria, mas a alcateia sobrevivia. O inverno estava chegando e ela não queria morrer como o pai. Lágrimas surgiram em seus olhos e quando ela entrou na construção em que estivera pela última vez com Gendry ela permitiu-se chorar como alguém da idade dela.

Com o olhos embaçados pelas lágrimas, subiu as escadas da velha torre de corvos até chegar ao último andar e uma vez ali, sentou-se no último degrau e afundou o rosto nos joelhos. Seus pensamentos vagaram em todos aqueles que um dia fizeram parte de seu cotidiano. Ela sentia falta de todos eles, desde Mycah até sua família. Tudo que ela mais gostara fora separado dela. Mycah foi assassinado pelo Cão de Caça e sua família desmembrada pelo Rei Robert e os Lannister, até mesmo Gendry e Torta Quente se separaram dela, assim como Yoren, Syrio e Jaqen H'ghar. Se Jaqen estivesse aqui lhe daria o nome de todos da Irmandade! tinha certeza que ele seria capaz de matar Lorde Beric de uma vez por todas. Ele também venerava o Deus Vermelho, se recordou de quando o assassino que mudava de rosto lhe disse que ela roubara três vidas do Senhor da Luz e só agora ela entendera o significado daquilo.

– Senhor da Luz... — Murmurou de forma zombeteira — Da falsa luz, só se for! — Definitivamente preferia o Deus da Morte de Syrio Forel. Pelo menos este Deus não era falso, não encobria com a luz o rastro da morte.

As lágrimas já não escorriam mais por suas bochechas e por esta razão ela ergueu a cabeça, secando o rosto com o dorso das mãos. Estava decidida a deixar aquele lugar. Sabia onde estava a sua família. Sabia que não era muito longe. Tinha ouro, não era propriamente dela, mas ainda assim eram moedas e podia muito bem pagar uma balsa até Correrrio ou as Gêmeas. E ainda tenho a moeda que Jaqen me dera, se nada desse certo, ainda poderia ir para Braavos e encontrar um de seus raros amigos.

– Se ao menos eu tivesse asas... — Comentou, olhando a chuva que caia do lado de fora da janela no lado oposto ao do centro do Septo e então, como se fosse pioneira em uma descoberta, ela constatou que o que ela via era o outro lado do muro da cidade. Como não percebi isto antes?

Pondo-se de pé e sentindo o coração disparar contra a caixa torácica ela correu até o parapeito da janela que havia sido destruída pela metade. A torre diferente da maioria das construções do lugar era a mais alta, todavia a sua diferença não era muito grande, tendo no máximo uns oito metros a mais do que o seu quarto no Pêssego.

Arya permitiu que um sorriso vitorioso escapasse de seus lábios. Ela tinha a solução de todos os seus problemas. Sabia como ia se ver livre de uma vez por todas da Irmandade. Ela só tinha que agir com cautela e depressa antes que os outros irmãos voltassem. Será nesta noite, determinou.

E como pensara ela fizera. No pôr do sol enquanto todos estavam se banqueteando no jantar oferecido no Pêssego, Arya se trancou em seu quarto, atenta a qualquer barulho que vinha do corredor, temendo que fosse um companheiro que dividia o aposento consigo buscando o conforto do leito ou fosse alguém querendo saber por que ela não descera. Com dedos rápidos e fortes ela fez nove nós, ligando o lençol de dez camas no outro. Aquela seria a corda dela. Quando terminou sua ocupação, embolou o emaranhado de panos em seu ridículo manto cor de limão e jogou a corda do lado de fora da janela do quarto depois de garantir que não havia ninguém passando ali em baixo. A trouxa emitiu um barulho oco ao aterrissar no chão e graças à chuva ninguém aparecer para ver o que caíra do lado de fora do Pêssego. A garota decidira que sairia pela porta da estalagem com o bolso cheio das moedas que roubara.

Aja naturalmente, aconselhou-se e respirou fundo diversas vezes para controlar a respiração quando desceu para o salão da estalagem. Agora à noite o lugar recebera mais visitante, embora não houvesse mais de vinte pessoas ali, contando com as atendentes. Alguns comiam e bebiam e outros flertavam com as mulheres, e sentado em um banco próximo ao balcão estava Tom das Sete cantando uma de suas canções.

– Você não vai comer conosco, senhora? — Ned lhe dirigiu a palavra. Arya pensou que conseguiria passar por eles sem ser notada, mas estava enganada.

– Não tenho fome — Disse, parando no lugar em que estava. Poderia se alimentar uma última vez, não sabia quanto tempo seria privada de alimento na jornada que estaria começando se sua fuga fosse um sucesso. E será um sucesso, se convenceu.

– Aonde está indo? — O escudeiro tornou a lhe dirigir a palavra e a garota se viu obrigada a abandonar a caminhada por um instante, pois se não o fizesse chamaria atenção e seria seguida.

– Lá fora — Respondeu e dessa vez não mentiu.

– Fazer o quê? Está chovendo — O garoto rebateu. De fato estava chovendo e o que antes era uma garoa se tornou uma pequena tempestade.

E agora? Não sabia que desculpa dar e disse o que primeiro surgiu em sua mente.

– Vou até a forja, acho que derrubei minha moeda da sorte quando estive lá hoje.

O garoto a estudou por um tempo em silêncio. Arya entendeu o gesto como uma análise se ela dizia ou não a verdade. A garota sentiu o coração bater na garganta. Não posso agir de forma suspeita, disse a si mesma.

– Não sabia que tinha uma moeda da sorte — O garoto comentou — Na verdade, nem sabia que tinha uma moeda.

Há muitas coisas que você não sabe sobre mim, pensou.

– Ela não é uma moeda qualquer. É do outro lado do mar. Ganhei de um amigo que conheci na estrada — Contou.

Ned pareceu acreditar no que ela dizia e de fato não havia muitas mentiras ali.

– Gostaria que eu a ajudasse a encontrá-la, Senhorita? — Ofereceu já se pondo em pé.

– Não é necessário! — Arya rebateu desesperada — É só uma moeda e o lugar não é tão grande. Eu tenho certeza que a encontrarei em menos de um quarto de hora e se eu precisar de sua ajuda eu o avisarei, Senhor — Disse, tentando suavizar a situação forçando-se à se lembrar das cortesias que sua Septa uma vez a ensinara. Sansa teria se saído melhor, pensou.

O rapaz deu de ombros e tornou a se sentar. Arya entendeu a ação como uma deixa para continuar com o seu plano.

A chuva havia intensificado e esfriado. Os pingos pareciam pedras ao atingir o seu corpo magricela. É um bom presságio, decidiu. A chuva ajudaria a apagar os seus passos na lama. Eles nunca me acharam. Sorriu com o pensamento, ocupando de forma desajeitada os seus braços com a trouxa que fizera.

As ruas do Septo de Pedra estavam vazias, não havia viva alma fora do aconchego de um teto, exceto ela. Sinto-me como o fantasma de Harrenhal novamente, o pensamento a esquentou.

Os degraus da torre dos corvos estavam úmidos. A chuva entrou pelo lugar através dos rombos que tinha no teto e Arya escorregou duas vezes não ganhando nada mais grave do que o joelho esfolado. Havia algumas aves escondidas ali dentro e ratos, a garota ouviu o barulho de asas e de pequenas patas quanto mais ela subia a torre até que finalmente ela chegou à sua janela da liberdade. Se tivesse procurado por uma saída além da altura de seus olhos ela teria percebido esta oportunidade antes de Gendry ter ido embora. E ele podia estar fugindo comigo agora, pensou. Ela teria gostado de fugir com Gendry, mas sabia que ele chamaria mais atenção do que ela e talvez não tivesse nem conseguido chegar até onde ela chegara.

Com pressa, Arya desatou o nó do manto e libertou os lençóis. Uma ponta ela amarrou na janela de ferro que estava presa ao chão e a outra ponta atirou para fora da janela. A torre com um pouco mais de dezesseis metros era menor do que a corda que a garota criara, pois cada lençol tinha dois metros e ela usara dez deles. Eu não vou cair, se recordou da queda que o seu irmão, Bran, tivera ao escalar uma torre. O menino era um ótimo escalador e caíra, enquanto Arya apresentava certa dificuldade até em andar em terreno plano. Eu não vou cair, disse novamente para si, dessa vez com mais segurança.

Garantindo que a corda estava bem presa, sentou no parapeito da janela, agarrou o lençol que estava ali com ambas as mãos e começou a descer.

Os primeiros quatro metros foram fáceis. Os seus braços não estavam cansados e havia pedras na parede em que podia apoiar os pés, sem contar a segurança que sentia ao saber que se subisse um pouco mais podia voltar a segurança da torre. É mentira, eu não estou segura ali, convenceu-se e desceu mais um pouco. Quando atingiu a metade do trajeto suas mãos estavam tremendo. O seu peso parecia que havia dobrado e os seus pés bamboleavam pisando nos nós do tecido em busca de um apoio qualquer para aliviar a pressão da mão. Arya conseguiu descer ainda mais dois metros dessa forma e então ela parou.

Lançando um olhar furtivo ao chão percebeu que havia alguns lençóis a mais para descer, apesar da queda não ser grande. A garota voltou os olhos para cima e viu o quanto já havia descido. Só mais um pouco, encorajou-se, contudo não conseguiu cumprir suas palavras. Ao mesmo tempo em que um relâmpago rasgou o céu noturno o lençol em que estava segurando com ambas as mãos se soltou do restante por estar com o nó enfraquecido pela força que fizera com o pé e o seu mau trabalho ao fazer as amarras.

Antes que Arya tivesse tempo de se conscientizar do que estava acontecendo, sentiu o impacto de sua cabeça no solo. Sua cabeça doía assim como as mãos e as pernas. Seus olhos faziam força para manter-se aberto. Aquele relâmpago foi enviado pelo Senhor do Relâmpago, pensou e ouviu passos se aproximar de onde ela havia caído. Tentou virar a cabeça para identificar quem era a pessoa que estava ali, mas não enxergou nada através da chuva e não teria o reconhecido se a voz áspera de Sandor Clegane não tivesse ressoado na noite.

– A garota lobo pensou que era como o passarinho. Pensou que tinha asas e que podia voar – O homem desatou a rir e Arya decidiu que o odiava ainda mais e antes que pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, viu tudo ficar escuro.

Notas finais
N/A: Diversão. É essa palavra que descreve o que eu senti enquanto escrevia este capítulo! A Arya sempre foi um desafio pra mim, mas de alguma forma este capítulo fluiu que foi uma maravilha! Agora, se ficou bom ou não caberá ao leitor definir. ;) Sobre quando será postado o próximo capítulo: Deixa eu ver... AMANHÃ! rs Terminei o capítulo 27 (O Inverno Está Chegando) antes mesmo de terminar o 26, só falta fazer uma revisão e pronto. Já vou avisando que o próximo capítulo será um pouquinho menor do que este e será com o PoV da Sansa. Sei que tem pessoas assim como eu que desejam muito que SanSan volte a se encontrar, prometo que não falta muito para isso e compensarei o casal quando eles estiverem juntos novamente! Comentários são sempre bem-vindos! ;)