O Volume da Dor
3 A ligação
Notas iniciais
"Todos querem poder, mas eu só me sinto poderosa em minhas decisões, e elas são o que rumam minha vida..." Massari, Lauren.
Abrir o caderno de poesia deu certo, por um tempo não posso negar que deu certo e teria dado por mais tempo se eu não tivesse recebido a notificação que recebi. Meu celular apita, um som chato e irritante, acho que todos os celulares tem sons chato e irritantes para que você queira fazê-lo parar o mais rápido possível, mas no meu caso não seria possível eu estava no banheiro tomando meu banho matinal.
Tivera eu acabado de acordar suada, aquele suor frio da outra noite voltara para me incomodar, claro que com um pesadelo acompanhando, seria pedir muito ficar duas noites sem ter nenhum deles, esse foi normal se é que posso chamar assim, foi como os de sempre nada adicionado como vinha ocorrendo antes do... do corte...
Eu pensei em me cortar novamente na noite passada para talvez tentar me safar do pesadelo, porém seria muita burrice e fraqueza minha fazer isso de novo, não que eu não me sinta burra ou fraca, eu me sinto exatamente assim só não me sentia com dor o suficiente, a cada dia que se passa a burrice e a fraqueza aumentam, porém a dor é muito menos constante varia de uma forma que não posso prever, do tipo amanhã aumentará ou diminuirá, cada dia é um sofrimento diferente não consigo levar na cabeça o pensamento de que é apenas um dia, um período de vinte e quatro horas para passar, parece como fugir e não quero fugir, quero encarar isso, não meus medos esses eu realmente não quero encarar, é a culpa, a culpa e claro a dor que vem de brinde, essas eu quero e preciso encarar.
Queria ter evitado por um bom tempo olhar o celular, o tempo estimado para eu poder passar um bom tempo lendo um bom livro e tendo uma vida longa e feliz, é feliz eu sei eu exagerei, porém eu olhei assim que sai do banho, era uma mensagem da Martha, quero dizer, da tia Martha.
– Olá docinho, claro que está de pé sim a proposta, me ligue se quiser vir e arrumaremos tudo. Espero que tenha finalmente se decido. Beijos da sua tia — era esse o conteúdo da mensagem que eu tentei imaginar a voz dela falando, porém não conheço direito sua voz para me lembrar dela.
Sobre o se decidido finalmente é porque uma vez eu talvez tenha dito que pensaria em ir morar com ela. Claro que falei isso para tentar fugir dessa oferta de morar com quem eu nem mesmo conheço direito, a proposta surgiu logo após o ocorrido acidente, eu achei que seria melhor morar com minha família, não que tia Martha não seja da família ela é, mas digo alguém que eu amo, como o tio John.
A ideia principal com toda certeza ainda é ficar aqui com meu tio, tenho que arranjar um jeito de negar a proposta de tia Martha sem magoa-la, mesmo não sendo família próxima ainda é família, como fazer isso de não magoar eu não sei já que por diversas vezes rejeitei suas propostas, é como uma verdadeira negociação, ela sempre acrescenta algo a mais nas propostas, inicialmente eu moraria lá com ela por tempo indefinido, depois até que eu melhorasse pois de acordo com ela eu estaria em um ambiente propício à minha recuperação clínica, era assim que ela se referia a depressão, posteriormente a proposta voltou a evoluir, o tempo ainda seria até minha recuperação, mas o diferencial dessa proposta é que ela pagaria a faculdade que eu escolhesse no futuro ainda assim rejeitei, pois existe uma cláusula ou duas que ela não muda nesta negociação, a de estudar na escola e também a de ir na psicóloga, porém isso posso superar, o grande problema de verdade é o amor que sinto pelo meu tio e a necessidade de família neste momento crucial.
Ao contrário da tia Martha, John sempre esteve em casa quando eu era pequena por isso cresci criando grande afeto por ele. Estou na cozinha para tomar café da manhã meio sem perceber me sento sem preparar o café.
– Lau, quer que eu faça seu ovo mexido hoje? Andei treinando! — fala meu tio em tom de chacota.
– Claro, sim, sim — respondo distraída sem perceber a besteira que fiz, pois ainda estava pensando em tia Martha.
–Que? O que você tem Lauren? Está doente garota? — indaga ele completamente surpreso já pegando a frigideira sem me dar tempo de desistir da ideia.
– Nada doente, só é bom as vezes ter um empregado para fazer as coisas para mim — brinco com ele para fingir que foi de propósito o pedido e de alguma forma tentar negar minha distração.
– Prontinho sobrinha amada — diz ele depois de um tempo preparando, me chamou de sobrinha amada? Nesse momento antes mesmo de olhar o ovo mexido eu sei que ele queimou, e bingo, eu estou certa. Meu ovo mexido querido todo queimado, tinha que ser ótimo cozinheiro para isso.
– Parabéns careca! — falo ao mesmo tempo que levanto e dou um tapa leve no pescoço do tio John — Belo cozinheiro você, né? — já estou voltando para a mesa rindo quando ele taca água em mim e me viro incrédula olhando para ele.
– Nossa desculpa a chapinha vai embora, né? Eu vou trabalhar não pode devolver preciso estar limpo e principalmente seco — falou ele rindo e saindo quase correndo para a sala — beijos, indo trabalhar vê se toma banho e refaz essa chapinha — posso ouvir sua risada ao sair de casa, eu adoro esses momentos com o tio John mesmo ele falando que eu uso chapinha o que é mentira, óbvio, sempre gostei de cuidar de meus cabelos, e a chapinha não teria um efeito muito bom sobre meu cabelo.
–Eu ainda vou me vingar dessa brincadeira, eu não vou sair perdendo não — penso, um pouco alto demais até. São momentos como esse que me fazem refletir que eu com certeza quero ficar aqui e não ir para minha tia, mas por agora o importante é a maravilhosa televisão, um grande, literalmente grande motivo para que eu fique e é para ela que eu vou agora, deixo a ligação para a, quase tia, Martha para mais tarde por não saber de fato como negar a proposta tendo eu dado o ponto de partida.
***
Acabei não pensando muito na ligação, até chegar no meu quarto, na decisão de ficar ali simplesmente deitada ouvindo música o dia todo e ver meu caderno de poesia no canto jogado me chamando, decidi abri-lo e foi quando o fiz que voltei a pensar na ligação e mais que isso, na decisão, curioso isso, algo que tinha me ajudado antes a esquecer disso agora me faz pensar de novo, leio uma frase escrita no caderno "Nada é mais difícil e, portanto, tão precioso, do que ser capaz de decidir" frase de Napoleão Bonaparte e isso me faz pensar que tivera sido muito fácil minha decisão, eu talvez não estivesse considerando algo, ou propositalmente desconsiderando algo. Porque se eu for pensar de verdade, eu deveria aceitar a proposta, alguma coisa me diz que se eu realmente amo meu tio deveria deixar ele se estabilizar financeiramente e depois quem sabe viver com ele de novo, outro ponto contra minha permanência é o fato de eu não gostar de Springfield, minha tia mora em Oregon também, porém em Portland, que já é um lugar que me agrada mais, pelo menos um pouco mais, ficando aqui ou saindo eu terei que ir a psicóloga, o problema é que aqui meu tio teria problemas para pagar, e minha tia não teria nenhum problema para pagar, talvez eu devesse aceitar a proposta e ir morar com ela...
Depois de pensar tudo isso fico com o celular na mão duvidando do que eu estou pensando em fazer, eu sempre fui muito boa com decisões, pelo menos antigamente, agora me vejo parada olhando a tela do celular sem fazer nada, não sem saber o que fazer, sei que devo ligar para ela e aceitar para meu bem e para o bem do meu tio, porém não quero, esse seria um modo fácil de superar esse problema, um belo modo de literalmente fugir, estou chorando, derrubando as lágrimas mais pesadas que já derrubei desde as lágrimas da morte de meus pais ao perceber que dessa vez o problema não é meu, e eu não estaria fugindo do problema do meu tio, mas sim solucionando-o. Vou aos contatos para enfim ligar para tia Martha sem nem esperar as lágrimas secarem ou o choro cessar, mas desisto, devo falar antes com o tio John, é o mais certo a fazer agora que tivera tomado minha decisão.
Faço minhas coisas diárias, ou seja, nada. Basicamente leio, assisto televisão, e leio e assisto televisão e nos horários de almoçar e jantar obviamente eu almoço e janto, o que venho fazendo por obrigação e não por vontade, existem dias que eu até mesmo me esqueço de almoçar, de jantar nunca pois meu tio sempre está em casa nesse horário e pode me lembrar, menos quando faz hora extra que é o caso do dia de hoje e de todos os últimos o que me lembra que devo voltar para a sala para poder ter a conversa com meu tio sobre minha já decidida mudança, para poder então na manhã seguinte ligar para a tia Martha. Chego na sala no mesmo momento que meu tio está abrindo a porta.
– Ah, tio — dou uma pausa sem saber como começar — precisamos conversar por favor — faço então o pedido para pelo menos abrir conversar.
– Eu sei... Sobre sua mudança estou certo? — pergunta ele um pouco triste.
– Sim, tio, mas como soube? A Martha falou alguma coisa? — pergunto incrédula — tia Martha — me corrijo.
– Que como assim? Eu estava falando da sua mudança tipo os pesadelos, o dia único sem pesadelo. Pera, mudar? Tipo de casa? — agora o incrédulo era ele.
– Droga — dou uma pausa para pensar no que dizer — perdão tio, eu te ouvi falar ao telefone sobre as dívidas, e surgiu uma nova proposta da tia Martha, eu nem gosto da cidade, acho que devo dar uma chance para ela, terei faculdade garantida já se for para lá, você sabe, não quero ser um problema, e eu nem gosto da cidade aqui viu- falo sorridente tentando disfarçar.
– Se é isso que você quer Lau tudo bem, quem sabe algum dia você volta certo? E se o problema é meu financeiro com isso não se preocupe se tivesse realmente apertado eu venderia a televisão — espero que eu saiba disfarçar melhor do que ele.
– Vou subir, esta bem tio? Amanhã tenho que ligar para a Martha e arrumar tudo para a mudança... — estou de costas falando com ele pois lágrimas caem sobre meus pés.
De fato subo para o meu quarto chorando mais do que quando estava ao pé da escada, chorando não por ter que abandonar meu tio, no entanto por magoá-lo eram de novo aquelas lágrimas pesada, que doíam ao sair e também ao cair, fui para o lugar onde as lágrimas sempre somem, para o chuveiro, onde elas se misturam com a água que vem para limpar, porém dessa vez não acontece, a dor continua, e consigo distinguir cada lágrima de cada gota do chuveiro, é então que a ideia imbecil me vem a cabeça, eu preciso de mais dor, mas dessa vez, de uma dor física, preciso me cortar. Levanto do banho sem desligar o chuveiro, deixo o banheiro molhado atravessando-o para pegar a lâmina de barbear, quem dera fosse para fazer a barba ou qualquer outra coisa, mas era para me aliviar, antes mesmo de voltar ao chuveiro estou me cortando, um corte maior do que da última vez, eu sangro e o sangue me faz esquecer as lágrimas ou talvez dê um novo motivo para elas, me sinto aliviada, completamente aliviada, essa é a melhor coisa que eu poderia sentir, alívio dessa dor pesada, como da última vez deixo a água do chuveiro levar o sangue e até desligar o chuveiro por já estar me sentindo melhor o suficiente. Arrumo tudo no banheiro e vou para a cama, penso em dormir para poder acordar o quanto antes e quem sabe me livro do pesadelo desta noite.
***
Acordo na manhã seguinte a conversa com meu tio e ao novo corte, antes mesmo de levantar eu ouço meu celular tocando, um toquei irritante que eu estou arrependida de não ter mudado o que não fiz por pura preguiça, aceito a ligação e atendo-a sem nem olhar quem é, mas já desconfiando de certa forma.
– Alô ! — atendo com a voz de sono, sem saber se estou de fato acordada ou dormindo.
– É a tia Martha docinho, tudo bem? Por que não me ligou ontem a noite? Não vem certo? — perguntou minha tia com um pouco mais de pressa do que eu imaginara que existiria.
– Perdão tia eu estava — dou uma pausa por não poder contar o motivo de não ter ligado — cansada, apenas cansada e precisava mesmo dormir — decido não mentir completamente.
– Já esta descansada? Então pode dar a resposta docinho, sem medo de me magoar por favor ! — encorajou-me ela a responder sua pergunta com a maior velocidade que eu pudesse.
– Estou sim tia, por sinal bem descansada, afinal não tive nenhum pesadelo, e sim tia, eu vou sim morar com a senhora, dessa vez eu aceito — ponderei, finalmente fazendo-a feliz.
– Que ótimo docinho, não sabe como estou feliz em poder contar com você aqui em casa ainda essa semana, passe para o John por favor, para podermos organizar toda a sua mudança o quanto antes está bem? — propôs ela, e eu balancei a cabeça como se ela pudesse ver e me direciono para a cozinha, que é o lugar ondo o tio John se encontra.
– Tio, Martha ligou logo que acordei e agora quer falar com você, para falar sobre... A mudança — termino a frase lembrando de nossa conversa anterior ao dia de hoje. Entrego-lhe meu celular.
Deixo os dois conversando sem querer ouvir a conversa não por educação, mas sim por total falta de interesse, de qualquer forma tio John viria falar comigo sobre toda a conversa e com certeza acabaríamos falando mal da tia Martha, falando mal não, apenas não a elogiaríamos como tio John chama a nossa sessão de xingamentos a Martha. Da sala ainda posso ouvir algumas palavras da conversa, e não quero isso, portanto aumento o volume da televisão, e finalmente não ouço mais nada.
– Você se muda amanhã Lau, acho melhor arrumar suas coisas, sua tia Martha está com muita pressa para ter você ao seu lado, sobe arruma suas coisas e depois desce para tomar um café, tenho um encontro hoje, então vou sair, beijos -falou meu tio mostrando-me que estou enganada ao pensar que não ouço nada pelo fato de ter aumentado o volume da televisão, agora sei que é pela conversa já ter acabado. Meu celular provavelmente está na sala, porém não me importo em pega-lo tão cedo.
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