O Vizinho Perfeito - Leonetta

13 CAP. 13 - “A tira do jornal, Argas, Emily e Cari.”


Violetta já estava trabalhando. Deixara a janela do estúdio aberta, já que, aparentemente, a pri­mavera havia decidido deixar a cidade com uma temperatura mais amena. Uma brisa deliciosa es­tava entrando no ambiente, juntamente com o ine­vitável ruído vindo da rua.

Depois de desenhar as medidas dos quadrinhos no papel, deixou a régua de lado, passando a se concentrar no que iria desenhar no primeiro deles. Inclinando ligeiramente a cabeça, olhou para o quadrinho com ar pensativo. Ele tinha o dobro do tamanho daquele que iria aparecer no jornal, dali a alguns dias. Já tinha mais ou menos em mente o que iria desenhar. O cenário, a situação e o tema que iriam preencher aqueles cinco qua­drinhos e dar ao leitor do jornal a oportunidade de rir um pouco durante o desjejum.

O esquivo sr. Misterioso, agora conhecido como Argas, encontrava-se em sua caverna, escrevendo um grande roteiro para o teatro inglês. Com seu jeito irresistivelmente másculo e sexy, Argas se encontrava tão concentrado em seu próprio mundo que estava alheio ao fato de Emily se encontrar escondida na saída de incêndio, uti­lizando um binóculo para tentar ler o que ele estava escrevendo.

Riu consigo, pois, à sua maneira, sabia que suas perguntas e indiretas sobre como estava indo a última peça de León eram uma versão mais civilizada do voyeurismo de sua contraparte. Aos poucos, começou a esboçar os primeiros traços de sua interpretação profissional de León.

Por uma questão de estilo, tinha de exagerar certos detalhes na aparência e nas atitudes dele. O porte alto, o corpo atlético, o rosto atraente e o olhar penetrante, tudo servia de base para seu trabalho. O lado bem-humorado das tiras vinha quase sempre do detalhe de ele não saber o que fazer com as coisas que Emily "aprontava".

Quando a campainha tocou, Violetta pôs o lápis atrás da orelha, em um gesto automático, imagi­nando que Fran se esquecera de pegar a chave.

Ao se levantar, tomou um último gole de café, antes de se encaminhar para o andar de baixo.

– Já estou indo — falou, ao se aproximar da porta.

Ao abri-la, sentiu o coração acelerar e teve de se esforçar para conter um suspiro. León estava com os cabelos úmidos do banho e sem camisa. "Ah, meu Deus, veja só esse peito...", pensou ela, mal resis­tindo ao impulso de passar a língua pelos lábios.

Ele estava trajando um jeans desbotado e se encontrava descalço. O rosto... Ah, aquela seriedade sempre a encantava, embora parecesse intimidadora.

– Oi — cumprimentou-o, com um sorriso. — Ficou sem sabonete para o banho? Quer um emprestado?

– O quê? — León franziu o cenho.

– Não, não é isso. — Ele se esquecera de que estava ape­nas parcialmente vestido.

– Quero lhe fazer al­gumas perguntas a respeito disso — declarou, mostrando o jornal.

– Claro. Entre. — Seria mais seguro, pensou Violetta. Francesca chegaria a qualquer momento, e pelo menos a impediria de "atacar" León, em algum momento de fraqueza.

– Por que não se serve de uma xícara de café e sobe até meu estúdio? Estou trabalhando e o andamento dos quadrinhos está indo muito bem.

– Não quero atrapalhar, mas...

– Não vai atrapalhar — falou ela, por sobre o ombro, já começando a subir a escada.

– Há ca­nela em pau em um potinho ao lado da cafeteira, se quiser pôr um em seu café.

– Eu...

"Oh, droga", pensou León, indo se servir do café e decidindo pôr um pedacinho de canela na xícara.

Nunca havia subido aquela escada antes, pois nunca fora até ali enquanto Violetta estava traba­lhando. Ao passar pela porta do quarto dela, ren­deu-se à curiosidade de parar um instante e olhar para a grande cama forrada com um lençol cor de marfim e cheia de almofadas brancas. Abaixo dos ferros trabalhados da cabeceira foi onde ele se imaginou segurando as mãos dela, enquanto finalmente fazia tudo que desejava fazer com ela.

O perfume feminino que vinha do quarto o fez respirar mais fundo. Um perfume adocicado e se­dutor, próprio de ambientes femininos. Ela man­tinha pétalas de rosas secas em uma tigela trans­parente, um livro sobre a mesinha-de-cabeceira e algumas violetas no peitoril da janela.

– Encontrou tudo?

León se sobressaltou.

– S-sim. Ouça, Violetta... — Ele entrou no estúdio.

– Meu Deus, como consegue trabalhar com todo esse barulho?

Ela mal levantou a vista do papel.

– Que barulho? Ah, esse. — Pegou outro lápis e continuou desenhando, como que esquecida da­quele que se encontrava atrás de sua orelha.

– Gosto de ouvir música enquanto trabalho, mas passo a maior parte do tempo sem ouvir nada.

O aposento tinha uma aparência eficiente e cria­tiva, com suas diversas prateleiras repletas de livros, muitos livros, ins­trumentos para desenho e pintura. León reco­nheceu uma aquarela de Marcos(amigo de Violetta) pendu­rada em uma das paredes, e a elegância estilística da mãe dela em dois outros trabalhos pendurados na parede oposta.

Em um dos cantos, via-se uma escultura de me­tal de cor grená e formato complexo, algumas violetas no pei­toril da janela (provavelmente um presente de Madame Olga) e um confortável divã cheio de al­mofadas próximo a ela.

O modo como Violetta ocupava a sala, porém, não transmitia um aspecto de eficiência. Sentada à mesa de desenho, com as pernas cruzadas sob o corpo, exibindo parte dos pés com as unhas pin­tadas de cor-de-rosa, o lápis atrás de uma orelha e duas argolas de tamanhos diferentes na outra, ela era a própria imagem do inusitado. Perigosa­mente sexy, pensou León.

Curioso, aproximou-se por trás de Violetta e espiou o que ela estava fazendo. Uma atitude que o deixaria furioso se fosse ele quem estivesse trabalhando.

– Para que servem todas essas linhas azuis? — perguntou a ela.

– Para marcar a escala e a perspectiva. Fazer isso requer alguns cálculos, antes de se começar o trabalho propriamente dito. Trabalho com tiras de cinco quadrinhos — explicou ela, sem parar de fazer os esboços.

– Costumo colocá-los no papel dessa maneira, trabalhar o tema da piada e de­senvolvê-lo de modo que ele tenha começo, meio e fim dentro dos cinco quadrinhos.

León continuou observando em silêncio. Sa­tisfeita com o resultado do primeiro quadrinho, Violetta passou para o seguinte e continuou a falar:

– Primeiro faço esse tipo de esboço para ver se a idéia vai dar certo. É uma espécie de ensaio, para que eu tenha realmente certeza de que o tema poderá ser desenvolvido nos cinco quadri­nhos. Feito isso, começo a desenhar mais detalhes, antes de fazer o contorno final e de pintá-los.

León franziu o cenho, observando o primeiro esboço com mais atenção.

– Por acaso, este sou eu?

– Hum... Por que não se senta? Está bloquean­do a luz.

– O que ela está fazendo ali? — Ignorando a sugestão, ele apontou o segundo quadrinho. — Está me espionando? Você está me espionando?

– Não diga tolices. Nem há uma saída de in­cêndio em seu quarto.

Ela olhou para o espelho e fez várias expressões faciais, antes de recomeçar a desenhar.

– E quanto a isso? — perguntou León, mos­trando o jornal a ela.

– Isso o quê? Puxa, seu perfume é maravilhoso — disse Violetta, voltando-se para ele e inalando seu perfume. — Que sabonete é esse?

– Vai pôr esse sujeito tomando banho nos pró­ximos quadrinhos? — Quando Violetta apertou os lábios, como que considerando a questão, León balançou a cabeça negativamente.

– Nem pensar. Achei até divertido quando você começou essa pa­ródia a meu respeito, mas...

Ele se interrompeu ao ouvir a porta da sala se abrir e fechar, no andar de baixo.

– Quem é? — perguntou a Violetta.

– Provavelmente Fran e Hugo. Então se re­conheceu nos quadrinhos? — Violetta parou de desenhar e olhou para ele, com um sorriso.

– Al­gumas pessoas nem se reconhecem neles, sabia? Talvez por não terem autoconsciência suficiente. Mas tive a impressão de que você se reconheceria assim que visse os desenhos. Oh, olá, Fran! E aí está Huguinho.

– O-oi — balbuciou Francesca.

Deparar-se com um belo homem com o peito nu não era uma questão fácil nem mesmo para uma mulher casada e feliz no casamento.

– Hum, oi — repetiu ela. — Estamos atrapa­lhando alguma coisa?

– Não. León veio apenas me fazer algumas perguntas a respeito dos quadrinhos.

– Oh, adorei esse novo personagem — afirmou Fran. — Ele deixou Emily maluquinha! Mal posso esperar para ver o que vai acontecer em seguida.

Ela começou a rir quando Huguinho soltou um sonoro "Pa!" e estendeu os bracinhos na direção de León.

– Ele chama todo homem de "Pa"Diego não gosta muito quando o vê fazer isso, mas Huguinho nem se importa com as reprimendas do pai. Já está demonstrando que vai ter personalidade forte — acrescentou ela, com um sorriso de mãe orgulhosa.

– Entendi. — Distraidamente, León passou a mão pelos cabelos negros do bebê.

– Vim apenas es­clarecer algumas coisas a respeito do que está acontecendo nos quadrinhos — explicou ele, vol­tando-se novamente para Violetta.

– Pa! — Hugo repetiu, estendendo os braci­nhos mais uma vez para León, com um sorriso sonolento.

– Quão próximo da realidade é o seu trabalho? — indagou León, pegando o bebê no colo, em um gesto automático.

Violetta se comoveu com a cena.

– Você gosta de crianças.

– Não. Costumo jogá-las pela janela do terceiro andar sempre que tenho uma chance — respondeu ele, com impaciência. Então começou a rir quando Francesca lhe lançou um olhar apavorado.

– Relaxe, ele está seguro. Meu interesse é saber o que sig­nifica isso aqui — acrescentou, apontando o jornal e ajeitando Hugo no colo.

– Oh, o detalhe da "escala" — respondeu Violetta. — Bem, essa é realmente a primeira parte. As duas conversarão sobre a segunda parte amanhã. Acho que vai ficar bom.

– Eu e Diego caímos na gargalhada quando lemos isso essa manhã — comentou Fran, mais relaxada ao ver León acariciando o bebê já adormecido em seus braços.

– Você desenhou essas duas mulheres...

– Emily e Cari — disse Violetta.

– Agora sei quem elas são — respondeu León, estreitando o olhar para ela e Fran. — Elas estão falando... Não — corrigiu-se.- Estão clas­sificando a maneira como Argas beijou Emily al­guns dias antes! — bradou, indignado.

– Hum-hum — confirmou Violetta. — Então Diego se divertiu? — perguntou ela à amiga.

–Fiquei pensando se os homens também iriam en­tender ou se essa seqüência seria mais compreen­dida apenas pelas mulheres.

– Oh, sim, ele morreu de rir.

– Com licença. — Com o que lhe restava de paciência, León levantou a mão.

– Eu só gos­taria de saber se vocês duas ficam comentando seus encontros íntimos e classificando-os com no­tas de um a dez, antes de oferecer isso para o público inglês se divertir durante o desjejum.

– Classificando? — Violetta arregalou os olhos para ele, com ar inocente.

– Pelo amor de Deus, León, isso é apenas uma tira cômica de jornal. Está levando esse assunto a sério demais.

– Então essa história de "não existir escala" é apenas uma piada?

– O que mais poderia ser?

Ele a observou por um instante.

– Não quero correr o risco de, quando finalmente fizer amor com você, ter de passar depois pela si­tuação desagradável de ver meu desempenho ser avaliado nas tiras cômicas do jornal pela manhã.

– Oh-oh. Oh, bem. — Francesca levou a mão ao peito, parecendo embaraçada.

– Acho que vou levar Hugo para tirar uma soneca no sofá lá de baixo.

Dizendo isso, tirou o bebê com cuidado dos bra­ços de León e se retirou em seguida.

– Francamente, León — disse Violetta, rindo e tamborilando o lápis sobre a mesa.

– Esse even­to seria digno de ir parar no caderno especial do jornal de domingo.

– Isso é uma ameaça ou uma brincadeira? — Quando ela apenas riu, ele se aproximou perigo­samente e beijou-a nos lábios.

– Mande sua ami­ga embora e descobriremos logo, logo.

– Não. Não quero que ela vá embora. Foi pen­sando que ela poderia aparecer a qualquer momento que não o beijei assim que você chegou.

León estreitou o olhar.

– Está querendo me provocar?

– Não exatamente — respondeu ela, sentindo a pulsação acelerada.

– Precisa ir agora. Depois de tanto tempo de trabalho, encontrei uma dis­tração com a qual não consigo lidar, e essa dis­tração é você.

Sem dar ouvidos ao pedido, León se inclinou mais uma vez e beijou-a nos lábios.

– Quando falar disso... — Ele capturou o lábio inferior de Violetta delicadamente entre os dentes e provocou-a com sensualidade.

– Espero que sua descrição seja precisa.

Dizendo isso, dirigiu-se à porta e virou-se uma última vez para ela, fitando-a por sobre o ombro.

– Sem escala? — perguntou ele, dando-se conta de que até gostara da brincadeira.

Ver seu beijo ser considerado em uma escala aci­ma de dez não deixava de ser lisonjeador. Ao ver Violetta reagir apenas com um impotente gesto de mãos, começou a rir. E ainda estava rindo quando desceu a escada em direção à porta da sala.

Assim que ele saiu Fran subiu para o estúdio.