O Vizinho

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Duas semanas depois, Mrak e Dorcha, sabendo da prisão do amigo, foram conversar com ele. Neste momento, eles sabiam, o melhor seria apoiá-lo. A vida não estava fácil para Morten.

Como não sabiam falar Português, levaram Mörk com intérprete:

– Viemos visitar Morten. – disse ele ao carcereiro.

– Estão portando algum tipo de armas ou comida?

– Não.

– Vou revistá-los, mesmo assim. É a norma. – disse o oficial, revistando os visitantes.

Chegaram à cela rapidamente. Morten os aguardava sentado, com a cabeça baixa. Não levantou-a nem mesmo com a aproximação dos amigos. Mörk resolveu dizer, diante da falta de reação do amigo:

– Não se preocupe! Vamos tirar você daqui, como fizemos da outra vez.

– Não quero fugir. Se for preciso, estou disposto a assumir a culpa pelo crime.

– A vida está sendo muito dura para você, mas vamos lhe tirar dessa! Sabemos que não foi você quem matou Harry Johnson. – disse Mörk, resignado.

Os três saíram, embarcando numa longa viagem, cujo destino, nem mesmo eles sabiam. Deixaram Morten sozinho com seus pensamentos cada vez mais sombrios.

Enquanto isso, Vanderlucy se sentia cada vez mais vazia. Pensava que, com Silas partilhando os mesmos ideais que os seus, se sentiria completa,e teria alguém com quem conversar sobre seus assuntos preferidos, além de Alexandra. Porém, para sua infelicidade, o marido não queria falar sobre magia negra ou religião, os temas preferidos da esposa. Nem mesmo sobre política ou esportes, seus assuntos preferidos, Silas conversava. Não dormia mais à noite. Tudo o que fazia era ficar sentado e calado, olhando para o nada. Não emitia um único som.

Numa noite como qualquer outra, Vanderlucy perguntou ao marido:

– Silas,o que acha de comermos lasanha hoje?

Sem nenhuma reação do esposo, já cansada da situação, a esposa de Silas resolveu reagir. Fez o que sabia fazer de melhor: começou a discutir:

– Silas, estou farta dessa situação! Você não fala nada! Não reage a mais nada desde nossa última conversa, quando Morten foi preso! Eu não ligava, mas isso já está insuportável! Diga algo! Nem que seja uma reclamação sobre o almoço de hoje! Ou que seja algo sobre aqueles vizinhos imundos! Diga alguma coisa! Reaja!

Novamente, o marido de Vanderlucy não disse nada. Porém, virou o rosto para a esposa, e fitou-a, perdido, durante poucos segundos. Voltou- se novamente para o nada e continuou a pensar, sem dizer nada.

– Se você acha que continuar assim vai trazer Alexandra de volta, perde seu tempo! Ela não vai voltar mais! A polícia nos fez de idiotas este tempo todo! Não achou o cativeiro e, tenho certeza, Alê está morta! Sei que o delegado disse que ela estava presa em um cativeiro, mas, a essa altura, tenho certeza de que Morten a matou. Não a libertaria do cárcere privado até que outro fosse preso em seu lugar, acusado de cometer o crime. Como o verdadeiro culpado foi preso, mantê-la como vítima não ajudaria em nada. Só pioraria as coisas para ele. A polícia, se fosse rápida, como no país de onde ele vem, encontraria seu esconderijo e salvaria Alexandra, que a ajudaria a descobrir o verdadeiro assassino de Harry, somente com seu depoimento. Por isso, neste momento, não duvido nada, ela já está morta. MORTA, OUVIU!? – disse Vanderlucy.

Subitamente, Silas se levantou de seu assento, consternado, ainda sem dizer uma única palavra.