O Vizinho

25 Intervenção, revolução.


Na manhã seguinte, Henry se reuniu novamente com os amigos, afim de achar uma brecha no processo que condenava Morten. Como exímio advogado, conseguiu, para a felicidade de todos.

Como se estivessem se preparando para uma guerra, os amigos se arrumaram prontamente, usando suas bandanas escuras, jaquetas de couro preto, óculos escuros, coturnos, anéis, brincos e colares pesados, além de um megafone, panelas, colheres de pau e cartazes.

Todos os amigos de Morten queriam sua liberdade, e, para isso, estavam dispostos a fazer a maior algazarra.

Junto com suas panelas e colheres de pau, Vanderlucy , Mrak e Dorcha faziam a maior barulheira. Silas e Mörk se revezavam entre o megafone e os cartazes. Alexandra e Henry encarregaram –se somente dos chamativos cartazes carregados de fotos de Morten, ou de dizeres significativos para a intervenção.

Percorreram a cidade inteira, chamando qualquer pessoa que quisesse a liberdade de Morten. Do megafone, Silas dizia:

– Povo de Transvânia! Morten, nosso amigo, foi preso e condenado injustamente! Viemos pedir apoio a vocês para nos acompanharem em nossa marcha até a delegacia, para o libertarmos! Quem quiser nos ajudar, junte-se ao grupo!

Um senhor idoso, com a barba muito espessa, chega próximo a Silas e sussurra em seu ouvido:

– Quem é esse cabra, o tal de Morten!?

– É o guitarrista da banda “Blooody Glass”, que tocou na Praça Central semanas atrás.

– Aquele com o instrumento de morcego?

– Esse mesmo!

– Eita cabra arretado da gota! Vou agora mesmo! – disse o senhorzinho, entrando numa casa e voltando, rapidamente, com uma panela e uma colher de pau nas mãos.

O estrondoso ruído chamava atenção e atraía a todos por onde passava.

A marcha seguia até a delegacia animadamente. Minuto a minuto, mais gente se juntava a eles. Criança, adulto, adolescente, idoso. Todos se uniam para um único fim: libertar Morten.

Sempre cabisbaixo, o amigo de Silas não disse uma palavra depois da prisão. Ficava sempre quieto, ouvindo o som de seus próprios pensamentos.

Repentinamente, Morten sentiu um cheiro insuportável de verbena. Segundos depois, pôde ver Jack, se aproximando de sua cela.

– O que foi, Interesseiro!? Por que está tão tristonho? Seus amigos ainda não vieram libertá-lo!? – disse ele, franzindo os lábios, tentando aparentar uma cara de choro em vão, pois seu tom de voz denotava profundo escárnio.

Morten começou a ouvir um barulho estranho, como uma banda dessincronizada. Momento a momento, a “música” aumentava de volume. Era como se estivesse se aproximando.

Ao chegar mais perto, o barulho parou por alguns segundos. Uma voz muito parecida com a de Mörk entoou algo, que, apesar de ser em outra língua, todas as outras várias vozes repetiam corretamente:

– Liberté! Igualité! Fraternité! – estas simples três palavras em Francês, já significavam muito. Eram o lema de Revolução Francesa.

Aquelas inúmeras vozes – ele concluiu- eram o povo de Transvânia.

Povo este que não queria somente sua liberdade, mas também uma revolução no quesito segurança pública e jurídica.

Mais do que qualquer coisa, só conseguia pensar em que todos queriam sua liberdade, e estavam ali por ele.

A exigência de mudança só comprovava isso. Orgulhoso pelo trabalho de todos que marcharam até ali, e agradecido, o rosto de Morten se iluminou com um sorriso de orelha a orelha.