O Vizinho
20 A surpresa
Ao abrir a porta, Alexandra se depara com um policial com o braço estendido, mostrando-lhe um papel e dizendo, com o rosto impassível:
– Este é um mandato judicial. A senhorita deve comparecer à delegacia manhã, para prestar seu depoimento sobre o crime de assassinato do Sr. Harry Johnson.
– Não! Não posso depor! Não! Não posso! – diz Alexandra, sentando –se no sofá, debulhando-se em lágrimas e deixando o oficial sozinho, aguardando sua assinatura no documento.
Diante da confusão na sala, Mörk, pedindo licença aos convidados, dirige-se ao cômodo. Assim que se depara com o choro convulsivo da namorada, recolhe o documento das mãos do policial e senta-se no sofá, dizendo:
– Você não pode continuar fugindo! Cedo ou tarde terá que depor!
– Eu não quero! Não posso! Você não entende! – dizia ela, chorando cada vez mais.
– Meu amor, eu sei que está com medo, mas vai ficar tudo bem! A polícia pode proteger-lhe! Não adianta fugir, onde quer que esteja, a polícia vai achá-la e requerer seu depoimento!- disse ele, abraçando a namorada.
– Não! Eu não posso! Se a polícia é tão sagaz a ponto de me proteger e não deixar que nada de ruim me aconteça, por que não acha o assassino sozinha? Para que precisa de meu depoimento?- disse ela, se desvencilhando do abraço de ele.
– Justamente para saber quem é o assassino é que a polícia precisa de seu depoimento! Você é a única pessoa que testemunhou a morte do Sr. Johnson!
– Não posso depor! É difícil demais para mim! Você não entende! Além de tudo isso, tem a morte de Harry! Ele era amigo do pai de Silas, e, depois do acidente na Lua de Mel, quando minha mãe ficou paralítica, ele nos custeava. Pagava nossa escola, alimentação, enfim, mantinha nossa casa, já que minha mãe não poderia trabalhar. Harry foi um grande amigo, quase um pai, para mim e Silas, apesar de diminuir sua quantidade de visitas, ao longo dos anos. E, nesse turbilhão de emoções, Harry ainda foi o pai de meu primeiro namorado: Henry. Não quero lembrar que ele morreu! Dói muito, Mörk! – disse ela, abraçando-o.
– Você não quer acabar de uma vez por todas com esse sofrimento? Não quer que descubram o assassino de Harry, contando à polícia o que viu naquela noite? Não precisa ter medo, não deixarão que nada de mal lhe aconteça!
– Não Mörk, eu não quero lembrar daquela noite! Tenho medo! Muito medo! E não quero lembrar de Harry estirado no chão, morto! Não quero, Mörk! Não quero!- disse Alexandra, em meio a lágrimas de choro convulsivo.
– Alexandra, Morten precisa de seu depoimento! Ele é acusado de assassino e, como eu e você sabemos, nosso amigo nunca faria mal a uma mosca! Ele precisa de você! Ou quer vê-lo atrás das grades para sempre? Porque eu não duvido nada que a polícia vai prendê-lo, mesmo não tendo provas concretas sobre sua culpa, já que ele é acusado de outro assassinato e, portanto, terá suas penas somadas.
– Você tem razão. Vou depor amanhã. – disse ela, resignada, enxugando o rosto e assinando o mandato.
Ao voltar para a varanda com os olhos inchados e um refratário de pavê em mãos, questiona:
– Alguém aí quer sobremesa!?
Dorcha, esganado, foi o primeiro a se servir, seguido por Mrak, Silas, Morten e Mörk.
– O que foi que aconteceu?- pergunta Vanderlucy à amiga.
– Nada de mais. Vou depor amanhã pela manhã.
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