O Visitante
1 Capítulo 1 - O velho "Bil 'n Beer"
Ainda ouço o tintilar das cortinas acuadas pelo vento que vem de fora, me convidando como se tivesse boca para apreciar aquela tarde umedecida pela garoa precoce.
Lá fora o céu ainda é azul, de forma mórbida, como se as cores esvaecessem a cada segundo... E esvaíram.
Desço, visto meu casaco e sorvo mais um copo de café numa tentativa de reanimar meu corpo. Saio.
Através do fumê vejo o quão escuro já se tornou.
Ligo o rádio, e as musicas lembram-me de coisas que não vivenciei.
Passo por uma ponte que me leva a outro cenário, desta vez estou no controle. Tudo parece tão lento agora. Vejo pessoas me encarando. Não enxergo seus olhos, mas sei que me seguem pelos sutis movimentos que seus pescoços fazem a medida que avanço.
Paro em frente a um velho salgueiro. Mal saio do carro e meus pulmões gritam por cigarro. Alimento-os enquanto observo um grande letreiro de um motel qualquer oscilando entre vermelho e azul. Pouco mais a frente outro, desta vez leio "bill 'n Beer".
Empurro a porta de madeira velha e o cheiro inconfundível de cerveja me da 'boas vindas'.
Minhas botas grudam no chão, dificultando meu caminhar um tanto lento. O cenário é típico. Na minha direita dois homens traçando barbas longas e amareladas, jaquetas de motoqueiro e pesando cerca de 140 kgs discutem sobre regras de black Jack, outros dois logo atrás apenas observam rindo como se tivessem tirando sarro da situação. Um casal a frente se beijam de forma abrupta assim que passo, e pelo desenrolar a coisa vai acontecer alí mesmo.
Um homem no canto aprecia uma garrafa quase vazia de conhaque sentado sozinho em uma mesa pra quatro. Este me encara.
Desvio o olhar e continuo meu caminhar decidindo oque pedir quando chegar no balcão...
De repente alguém me segura pelo ombro. Me viro de forma ágil e antes de me dar conta da situação não vejo mais nada. Breu.
Uma mistura de madeira podre e cerveja me faz acordar, um fodido cheiro azedo. Ainda desnorteado junto forças e me levanto. Esfrego os olhos procurando nitidez em minhas retinas, mas apenas espalho o muco engrossado da cerveja velha que horas atrás estivera no chão.
Olho para os lados e não vejo nada. Somente agora sinto uma dor na barriga e descubro o motivo da minha visão turva.
— Que merda foi essa? — Me pergunto alisando a maçã do rosto inchado.
Minha atenção é cortada por um barulho estranho que vem de fora. Este que não é humano.
Mesmo enxergando pouca coisa ou merda nenhuma consigo me jogar para a parte de traz do balcão e me escondo ao perceber o som se aproximando. O grunhido da velha porta anuncia o momento da sua estadia.
Me mantendo em silêncio, mas solto um ligeiro ar pela boca ao notar que estivera encima de um corpo desanimado.
Neste momento o barulho de passos para, e torna tudo ainda mais tenso. Minha respiração se torna ofegante e desritmada. Tento retomar o controle e fecho os olhos buscando concentração. Apenas respiro, por longos minutos, torcendo para que meu visitante tenha saído.
Novamente ouço um estranho barulho, desta vez paira sobre minha cabeça. Um jato quente declara que meu visitante está perto demais. Me sinto inerte, mesmo que quisesse me mexer não conseguiria. Junto com o jato quente vem aquele fedor putrifico que me obriga a comprimir o rosto. Me mantenho da mesma forma, calmo, silencioso.
Os passos retomam, e isso me alivia. Sinto agora que ele desistiu de seu pedido. Junto com a ausência do fedor, vem o rangir da velha porta. Abro meus olhos e tomo coragem para olhar o ambiente. Me levanto ainda trêmulo, mas focado, atento.. Vejo tudo como estivera antes, exceto... pela vida. Os velhos do Black Jack tiveram suas cabeças esmagadas, e o fluído já seco fazia grudar suas roupas entre os destroços da mesa e o chão de madeira. Vejo outros dois desfigurados a alguns metros, com suas pernas num movimento não natural para trás. Me dou conta do cadáver que me acompanhou durante o suporto pedido do visitante.
─ Seria o dono? — Me pergunto, mas logo sou respondido quando vejo em sua jaqueta as inicias do bar: "Bil 'n Beer". Este me parecia menos agonizado.
Me levanto, lentamente me aproximo da saída refazendo o mesmo caminho de antes. Me mantenho atento, curvado e emitindo o menor ruido possível. Minha cabeça trabalha para tentar explicar oque aconteceu aqui. De repente me vem uma imagem, o homem misterioso que me encarou.
─ Seu corpo.. Não esta aqui.
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