O Violino

1 Capítulo Único


Fechei os olhos enquanto abria o envelope... Não tinha endereço ou destinatário... Não sabia o que era ou o que escondia. Seria uma carta? Seria uma história? Ou apenas uma simples memória?

Retirei o papel, abri os olhos e analisei o manuscrito. Era antigo, amarelado e nele tinha algo lendário gravado. A história de uma besta mal amada...

“Detentor de uma beleza sublime, vive nas profundezas do oceano... Os seus olhos são tão azuis e a sua música tão doce. Porque vive ele na escuridão? Todas as noites de lua cheia, ele surge por entre as ondas e com um violino na mão, senta-se nas rochas. Começa então a tocar uma triste e bela melodia... julgava-se inofenciva, mas nada era o que parecia.

Diz a lenda, que nessas noites algumas raparigas desapareciam e nunca mais eram vistas. Seguiam o magnifico som, que as hipnotizava, até à praia... onde se dirigiam ao mar e não mais voltavam.

Um velho pescador vivia numa pequena casa, junto à costa, com a sua linda neta. Era uma jovem com longos cabelos negros e invulgares olhos violeta. Ele temia o Demónio dos Mares, pois não queria perder a sua menina. Por isso, sempre lhe dizia:

- Minha querida, nunca mas nunca, vás até à praia de noite! Não se sabe o que pode acontecer...

- Sim avô, não te preocupes. – respondia ela.

Era novamente noite de lua cheia. As chamas, já fracas, crepitavam na lareira. A jovem, de nome Serenidade, dormia tranquilamente na sua cama, até que... foi acordada por um som invulgarmente belo...

Decidiu desobedecer ao avô e saiu atrás da música. Correu até à praia, parando junto de umas rochas, sobre as quais estava sentado um belo homem a tocar violino. Ao contrário das outras raparigas, ela não se hipnotizou por completo. Os seus olhos cruzaram-se, mas o violionista não parou de tocar. Serenidade sentou-se ao seu lado e ouviu-o sem se cansar.

Ficou apaixonada, não o queria deixar... Ele por ela encantado, decidiu levá-la para o mar. Com os seus poderes mágicos, deu-lhe a capacidade de respirar debaixo de água. De mãos dadas, partiram rumo ás profundezas... A escuridão desapareceu e o monstro nunca mais apareceu na superfície.

Ficaram ambos nas profundezas, onde vivem felizes. Ele a tocar violino e ela sem nunca se cansar a ouvi-lo.

Eis o conselho: se alguma vez ouvirem a música de um violino, não fiquem para a escutar. Corram o mais que puderem ou na água irão se afundar.”

Terminei a carta e com ela a história de encantar. Fiquei então a saber que um monstro também pode amar. O único objectivo que ele tinha para aparecer em terra firme, era encontrar o seu verdadeiro amor. E a rapariga merecedora do seu coração, seria a que se hipnotiza-se por ele e não pela sua canção.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!