O Vestido Branco de Rendas
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Era uma vez...
Uma garotinha que adorava seu vestido branco de rendas, herdado de sua irmã mais velha. O vestido era apenas uma roupa simples e com poucas costuras. O seu modelo era reto, com poucos adornos. E a menininha amava-o com todo carinho. Vestia-o sempre que possível e evitava contato com lama e pó para não sujá-lo. Quando brincava, mantinha sua bainha próxima aos joelhos. Pois, assim, conseguia correr e brincar com toda sua alegria de criança.
E, conforme foi usando, sua mãe lavava-o com tamanho cuidado que impedia outras pessoas de o tocar. A menina se divertia vendo o vestido ser lavado, enxaguado e secado com tanto esmero. Ela acompanhava o processo todas às vezes. Com olhinhos brilhantes, ela observava os raios solares secarem seu vestidinho preferido no varal improvisado.
Muitos meses passaram desde o dia que o ganhou de sua irmã, que lhe presenteou por ser um dos únicos artefatos, que eram passados de geração a geração. As mulheres mais novas da família recebiam-o por indicar o momento exato em que elas completavam seis anos. Mas, assim que a menininha o usou pelo décimo segundo mês, ela notou que faltava uma parte muito importante no vestido. Um dos contornos de uma pétala de rosa, um enfeite de renda que fazia um semicírculo com outras flores, estava descosturado. A linha havia sumido.
Surpresa e ao mesmo tempo indignada, a menina sentiu certo calafrio. A peça de roupa estava intacta quando a recebeu naquele verão. Ficou tão assustada que correu para o seu quarto, tentando esconder o fato descoberto de bisbilhoteiras. Enfiou-se abaixo da cama de madeira na esperança de não ser encontrada nas próximas horas. Pelo menos, até arranjar uma maneira de consertar seu vestido.
Só que ela estava num dilema. E um bem cruel, quase uma ironia da vida. Ela não sabia costurar ainda. Sua mãe ensinaria daqui a duas semanas, o dia em que completaria mais um ano de vida, para que pudesse ajudá-la em alguma tarefa. Apesar de não haver comemoração da data de seu nascimento, era um evento importante da vida de uma mulher saber os dotes domésticos. E costurar, remendar qualquer peça de roupa era uma prioridade. Ela estava se sentindo a mais infeliz das mulheres de sua família, uma desafortunada por ter estragado um presente tradicional e maravilhoso.
Engolindo o choro, engasgado em sua garganta, ela resolveu tentar esconder o fato até conseguir arrumar com as próprias mãos. Sem que alguém soubesse. Porém, ela enfrentava agora outro problema, não de menor importância. Todos da casa haviam se acostumado com ela usando o vestido branco de rendas a todo instante. E, principalmente, porque ela brigava quando algum parente questionava se ela não tinha outras roupas para vestir.
O que ela poderia fazer? Dizer que se cansou seria uma mentira. E ela era uma péssima mentirosa. Odiava quem ousasse mentir a ela. Aparentemente, não a restavam muitas opções. Entretanto, quando ela já estava prestes a sair debaixo da cama, soluçando, a porta do quarto se abriu. Ao ouvir o barulho de passos, a menininha arrastou-se apressadamente outra vez para debaixo do móvel.
A pessoa que adentrou o local percebeu o movimento brusco e rápido da menina e viu uma ponta do pano branco correr para aquele canto escuro. Uma voz doce e firme chamou o seu nome, com uma ponta de dúvida que mais pareceu uma certeza. Não obtendo resposta de imediato, chegou mais perto da cama e abaixou-se para olhar a parte inferior dessa. Encontrou os cabelos dourados e encaracolados da menina, que escondiam o rosto dela, e o vestido branco. Chamou-a mais uma vez, agora com certo estranhamento pela situação.
A menininha não respondeu. Ela soluçava já muito descrente da escapatória de uma bela bronca, um sermão com tom de punição. A jovem, em seus quinze anos completos, clamou para que ela saísse debaixo da cama e contasse seus problemas. Elas tinham uma excelente relação fraternal, pois se amavam por demais. A irmã mais velha era paciente e compreensiva. “Ela será uma ótima esposa”, diziam. “Cuidará tão bem dos filhos e é tão amável quanto bonita”, continuavam seus parentes, quando surgia um pretendente novo na cidade.
Ao conseguir retirá-la debaixo da cama, a irmã a acolheu e abraçou-a carinhosamente. A menina chorava baixinho, pedindo perdões e mais perdões, com medo. Sem entender os motivos desses pedidos desesperados, ela tentava acalmá-la. E num repente, sem medir o tom, a menina soltou quase inaudível a razão de sua preocupação e de seus temores. A irmã pediu que repetisse, após afagá-la e limpar as bochechas vermelhas da menina, que respirou fundo para falar. Explicou entre pausas para o fôlego, que, enquanto brincava no jardim, notou a falta de uma pétala de rosa no vestido.
Segurando a região onde estava o erro, a jovem começou a lembrar dessa pequena falha na roupa. Era uma lembrança de infância, de seus nove anos, idade na qual ainda o usava. Recordou o que havia acontecido com essa parte do vestido: era a época em que apresentou sintomas estranhos na própria conduta, quando reconhecia que um vizinho próximo, filho de um marceneiro, que morava há pouca distância de sua casa, começou a lhe apresentar muito atraente. Ele era extrovertido e gostava de interagir com as meninas, ato considerado abominável para os adultos, mas que era apaziguado por fingir desgosto pela presença delas nas brincadeiras.
E um amor de meninice cresceu entre ela e seu vizinho, principalmente durante um pseudo-esconde-esconde, em que somente os meninos contavam o tempo para que as meninas encontrassem um esconderijo. E ele sempre a ajudava, fingindo não vê-la quando a achava e sorria alegremente por ela ganhar todas às vezes. Certa vez, durante essa brincadeira, num impulso de paixonite, ela deu um pedaço de linha do seu vestido a ele, como símbolo de seu afeto. Pois, não só ele, mas toda a vizinhança conhecia a história do vestido branco de rendas.
Era uma recordação muito agradável para a jovem, então com um afago no rosto da irmã mais nova, ela a abraçou sorrindo e disse-lhe que consertaria o vestido e seria um segredo entre as duas.
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