Bem, por que o Vincent se vingou de apenas uma garotinha? Está aí uma pergunta que eu o vi fazendo para si mesmo várias vezes.

E, ainda por cima, era sua própria irmã.

- Por que me fez matá-la, Joseph? – perguntou ele, engolindo em seco enquanto me olhava com olhos impiedosos.

- A escolha foi sua – eu disse, sem realmente olhá-lo – Não fiz você matá-la, Vincent. Mas, realmente, esse foi seu começo, não é? Agora você realmente se enxerga como um vampiro – passei uma de minhas mãos para desalinhar meus cabelos, embora não tenha conseguido.

- Eu não devia... – ele reclamou.

- Pare de reclamar! – disse, já de saco cheio, trincando meus dentes e deixando meus caninos bem à vista. Ele não sentiu medo, talvez estivesse esperando que eu o matasse mesmo. Eu não podia ler sua mente, ele não podia ler a minha. Troca justa – Um dia você vai apreciar essa vingança.

- Mas ela não podia entender naquela época – ele começou, balançando a cabeça negativamente.

- Faz apenas um mês! – eu reclamei.

- Mas...

- Cale a boca, Vincent! Até sua voz já começou a me irritar! – exclamei, bufando. Ele me olhou sem mudar sua expressão sem vida. Estávamos sentados em cima de um prédio de três andares. Eu encostado na parede e ele balançando as pernas, bem na borda, sentado.

Bem, ele ficou quieto. Eu comecei a lembrar do dia em que o encontrei. Fazia um mês. Sua irmã, Sarah, a bela garotinha de cabelos loiros e olhos azuis, um tanto clichê para mim, tinha saído com uma cesta cheia de comida para dar a um gatinho abandonado que tinha encontrado no beco próximo à floricultura. - Vamos, Vinny! – ela o chamava com intimidade. Oito anos, mas uma mente tão impura. Eu ri enquanto os observava do telhado da floricultura. Tão jovens, os dois. Vincent talvez jamais soubesse que ela não era sua irmã de verdade. Ela era uma filha bastarda. Se bem que isso já estava um tanto óbvio pela cor de cabelo dos dois. Um tinha cabelos pretos que se misturavam na escuridão e a outra tinha cabelos da cor do ouro mais puro. Ambos lindos.

- Espere um pouco, Sarah! – ele dizia – Larga de ser apressada! É tarde! A gente nem devia estar na rua, sabe?! – reclamou ele. Típico. Ele queria era estar em casa, dormindo, como qualquer jovem normal. Teria de encontrar a noiva que odiava no dia seguinte, então só queria descansar e planejar algo para acabar com o noivado. Ah, que saudade dos meus tempos de mortal. Que saudade dos meus dezoito anos...

- Mas o Felix não agüenta esperar tanto assim, Vincent! – reclamou ela – Você é mesmo um lerdo!

- Eu só sou lerdo porque tenho que ficar olhando para os lados, já que você não se preocupa com nada! Tudo isso por causa de um gato...

Eu ri baixo. Nenhum deles pôde ouvir. Nem repararam que havia alguém observando a cena. A garota entrou no beco, alimentando o gato com cuidado, dando pequenos pedaços de pão cada vez.

- Ande logo com isso, Sarah! – ele exclamou, batendo o pé impacientemente, enquanto, desconfiado, ainda ficava procurando se alguém tinha os seguido.

Desci do telhado, pulando um pouco à frente de Vincent. Ele se afastou, eu encurralei Sarah.

- O que... O que é você?! – ele perguntou, assustado e nervoso – De onde veio? - Eu? – ri com escárnio. Sarah deixou o pão cair, assustada – Eu sou o seu maior medo – eu continuei, ele me olhava em pânico, desviando o olhar de vez em quando para sua irmãzinha, tão indefesa. Logo tomei-a nos braços. Ele meteu um soco em minha nuca, fazendo-me largar a garota, que, em vez de ajudá-lo, abandonou-o, saiu correndo, deixando-o ali, no beco, sozinho comigo. E, em sua mente, eu sabia que sua intenção não era pedir ajuda, mas salvar sua vida.

Hipócrita.

- Quer se salvar? – perguntei, quando agarrei seus cabelos, forçando sua cabeça para trás, deixando seu pescoço à mostra – Me diga que quer e eu lhe darei as forças necessárias para isso. Poderá sentir um prazer maior que o próprio ato de consumir um amor num leito. Eu te darei as forças necessárias. O que você realmente deseja?

- Desejo que me soltes! – ele rosnou, tentando tirar minha mão de seu cabelo, tentando me chutar para longe.

- Tsc, tsc – eu fiz, observando-o assustar-se quando percebeu que aquilo era inútil – Você não pode contra mim, Vincent.

- Como sabe... Meu nome?

- Estou interessado em você – sorri. Li sua mente. Ele estava admirado por minha beleza, por meus encantos, pela minha força, minha voz. Tudo. Ele não podia mais resistir – Não desejas fugir de sua noiva? – ele arregalou os olhos. Já tinha percebido que eu podia ler sua mente. Engraçado – Por que não me acompanha? Poderá conhecer o mundo. Sei que desejas isso.

- Você realmente vai me esperar aceitar essa proposta? A resposta será sempre não – ele tentou passar convicção em suas palavras, mas seus pensamentos diziam sim, repetiam fervorosamente a mesma palavra. Sim!

- Diga que sim e terei piedade – eu disse.

- Não.

- Por que insiste, humano?! – perguntei com raiva – Eu posso ler sua mente, sei o que você realmente quer...

- Então faça realidade! – reclamou ele. - Seu orgulho não lhe permite dizer isso, não é? Seu orgulho não lhe deixa virar um monstro. Fira seu orgulho! Mostre-se capaz! – eu o atiçava, pensamentos variados invadiam sua cabeça.

Ele permaneceu quieto. Soltei seus cabelos, afastei-me dele, deixando-o ficar de pé por um tempo, ainda quieto, com os olhos encarando o chão, os pensamentos invadindo sua cabeça. Ele era realmente lerdo, mas sua resposta já estava na ponta da língua quando ele olhou para mim.

- Me transforme, então – disse ele, ainda cheio de orgulho. Por que ele não podia ser que nem os outros imortais e implorar pela imortalidade? Aquilo geralmente me divertia... Se bem que, se ele tivesse implorado, eu provavelmente teria o abandonado ali depois de divertir-me com seu sangue quente.

- Tem certeza? – perguntei, escondendo meu sorriso de escárnio.

- Não foi você que começou falando para eu aceitar o que eu queria?! – ele se exaltava cada vez mais – Pois sim, vampiro. Me transforme! Me salve dessa vida! – uma pausa – O que espera que eu diga? Você está apenas brin... – aproximei-me tão rapidamente depois de ouvir essas palavras que ele parou de falar. Afundei meus caninos em seu pescoço, perfurando sua pele. Ele soltou um gemido, sentiu um pouco de dor. Fiquei sugando seu sangue até seu coração quase parar de bater. Foi quando larguei dele, violentamente. Ele respirou com dificuldade, seu sangue continuava a descer pelo machucado. Mordi meu pulso, entregando-o a ele, sem olhar. Olhei para as estrelas enquanto ele, pateticamente, agarrava-se à primeira grande quantidade de sangue tomada em sua vida – Oh, meu Deus – ele exclamou, quando afastei meu pulso de sua boca, vendo o machucado curar-se. Ele colocou um dos dedos em seu canino, vendo-o crescer.

- Meu filho – eu sorri, falando aquilo com sarcasmo.

- Um... Vampiro. Eu sou um... Vampiro – inconformado.

- Você nasceu de novo, Vincent – eu disse, estendendo minha mão para ajudá-lo a levantar-se. Ele agarrou-a – E, você acabou de morrer para os humanos. - Como? – ele perguntou assustado.

- Sua irmã... Viu você morrer nesse beco escuro, sabe? – eu disse, sorrindo com escárnio – Eu provoquei essa visão. Ela viu você morrer na mão de assassinos, não nas minhas.

- O quê? Por quê? – ele perguntou. Está aí uma das minhas habilidades. Posso causar visões, posso ler pensamentos e controlar sentimentos. Quer saber como?

- O que sente por sua irmã agora? – perguntei, usando uma de minhas habilidades.

- Ódio – disse ele, cerrando os punhos. Está vendo? Ele sentia exatamente o que eu sentia por sua irmã nesse exato momento. O sentimento falso só acaba quando a vítima morre. Não é fascinante?

- Nossa, não fale assim – disse, fingindo que me importava.

- Ela me deixou morrer!

- E o que você fará quanto a isso, Vincent? Irá se vingar? – persuadi-o mais uma vez. Agora que tinha falado isso, ele certamente concordaria.

- Sim. Usarei todos meus poderes para me vingar dela! Aquela... – ele procurou a palavra certa, mas ao encontrou-a.

- Oras, Vincent – eu disse, passando meu braço por seu ombro e conduzindo-o pelas ruas – Apoio totalmente sua decisão – claro –, mas não acha que deveria primeiro testar seus poderes e descobrir o nome de seu pai? – perguntei, rindo.

- Meu pai? – ele perguntou, confuso. Agora que ele era um vampiro transformado por mim, eu não podia ler sua mente.

- Eu, Vincent! Eu! – respondi, bravo. Bufei. Ele olhou-me curiosamente – Meu nome é Joseph – estendi minha mão e ele a pegou, com um tanto de receio.

- E quais são meus poderes, Joseph? – ele perguntou.

- Isso nem mesmo eu sei... Bem, ele acabou descobrindo os poderes por si mesmo. Era fascinante vê-lo seduzindo as mulheres, principalmente as prostitutas que costumavam andar pela cidade à noite. Ele podia atormentar quem ele quisesse criando vozes dentro do pensamento dessas pessoas, sabia apreciar o sangue de qualquer mortal, não tinha nenhum defeito. Acabou tornando-se tão amigável quanto eu era. Seus cabelos cresciam mais rápido a cada dia, mas ele nunca penteava-os. Nem precisava, na minha opinião, já que, toda vez que eu passava minhas mãos nos mesmos, eles nunca tinham um nó. Brincávamos com nossas vítimas como se elas fossem uma boneca nas mãos de uma criança.

Três semanas depois ele começou a realizar sua vingança, induzido por mim. Sua vingança contra a única pessoa que amara enquanto era apenas um mortal. Provocava-a apenas com vozes, até que, no sétimo dia, apareceu, matando-a. Mas, quando ela se foi, meu encanto não funcionou mais. Ele percebeu o quanto a amava e eu não podia fazer nada.

- Não acredito que ainda não a esqueceu – suspirei. Ele me olhou. Jamais iria contar a ele que sua vingança tinha sido causada por causa de meus poderes. Droga. Eu não podia mais conviver com um Vincent morto como aquele – Que tal... Que tal irmos a Paris?! – perguntei, empolgado – Poderemos conhecer os bordéis, poderemos provar dos melhores vinhos, poderemos afogar todo nosso amor em uma mulher que nem ao menos conhecemos! Poderemos... – ele me olhou com seus olhos sem vida, fazendo-me ficar quieto. - Não vou – ele disse, apenas. Uma longa pausa. Não ousei falar nada, apenas fiquei olhando-o – Acho que finalmente chegou a hora de nos separarmos, Joseph – ele articulou aquelas palavras sem quase mexer os lábios. Podia ver que não se preocupava em me ver partir.

- Então é isso?! – perguntei, bravo – Vincent, seu ingrato! Imbecil! Vai abandonar seu pai?! Seus poderes ficarão cada vez mais fracos! Se nos afastarmos demais você morrerá! O que acha disso?!

- Que seja.

- Você... Morreu, não é? Precisa de um motivo para viver – respirei fundo – Encontre alguém para amar, Vincent! Não ligo quem for! Mas encontre em Paris! – disse, puxando-o pelo braço.

- Paris? É verdade, sempre quis conhecer Paris.

- Você ama Paris – usei mais uma vez meu poder de manipular seus sentimentos. Agora, ele só deixaria de gostar de Paris quando fosse destruída ou quando eu dissesse que ele deveria parar.

- Sim, vamos à Paris... N/a: Meu capítulo preferido até agora... Espero que gostem também ^^ Deixem reviews porque eles fazem bem à saúde 8D