O Valsar da Morte
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O Valsar da Morte
Por Pikenna
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“Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.”Clarice Lispector
Eu caminhava por aquelas ruas escuras e desertas observando a calmaria da noite gélida de inverno. A lua cheia e branca, em sua plenitude, iluminava a imensa negritude do céu e o sussurrar do vento que castigava meus cabelos negros e ondulados, me convidava para valsar uma última dança, a dança da esperança, se é que havia algum resquício desse sentimento em um mundo governado pelos homens. Um mundo este que apenas gira em torno de guerras e mais guerras, em que o sofrimento e a dor são os principais personagens dessa peça de teatro absurda.
Presenciei os mais diversos cenários fatídicos, sempre me preocupando em fazer o meu trabalho e não dando a mínima importância para os humanos, seres de almas pequenas. Mas, um acontecimento em especial chamou-me a atenção... Acompanhei a Segunda Guerra Mundial, a qual fez milhares de vítimas, esmagando com crueldade, a todos que se atreveram a encará-la. Ganância, poder, loucura, tudo isso levou os homens a lutarem uns contra os outros, irmãos de alma.
E eu, enquanto fazia meu trabalho monótono de conduzir os espíritos para a luz, divagava, tentando entender a mente humana. Foi uma missão impossível para mim, uma vez que sou desprovida de quaisquer sentimentos ou emoções. Somente a frieza me acompanha nessa jornada eterna à caça de espíritos desencarnados. Juro que dessa vez, ao ver cenas marcantes de brutalidades, regradas pelo ódio, em que o desejo de vingança e de dor sobrepujavam todos os demais sentimentos bons existentes, eu me importei de verdade em buscar entender os humanos. Almejava saber o porquê de tanta guerra, de tanto derramamento de sangue, de tanto sofrimento. Entretanto, nada descobri e isso, de certa forma, me frustrou. Agora minha jornada ganhara um significado maior, não era movida apenas pela obrigação do ofício, mas sim, pelo anseio de encontrar respostas plausíveis para minhas milhares indagações insanas.
Devaneando sobre esse assunto, eu caminhava com serenidade, sem preocupação, pelos corpos inertes e frios que jaziam no chão. Me desviava deles com facilidade, pulando-os, semelhante a uma criança feliz quando brinca com seus brinquedos. Sim, os humanos eram meus brinquedos, os mortos pelo menos, porque infelizmente com os vivos eu não podia se quer me aproximar. Era uma regra, a mais importante a ser seguida com fervor, se eu a quebrasse, com certeza ganharia um terrível destino como prêmio. E, mesmo que fosse permitido, não conseguiria tal proeza, afinal, os humanos são os únicos seres que me temem, fugindo de mim com um medo exarcebado e totalmente desconexo. Não sei o porquê, nunca fiz mal algum a ninguém, apenas ando pelo mundo cumprindo o papel que me fora designado.
É cada história que inventam sobre mim, chegam a me causar crises de risos de tão cômicas. As pessoas tem a péssima tendência a me fantasiar de maneira errônea e bastante hilária, além de falarem para as crianças que sou má, traumatizando-as por meio do medo. Sinceramente, não sei qual a finalidade de me darem características falsas apenas para aterrorizar os pequeninos. Na realidade, sou tão boa como um anjo-da-guarda, fico na minha, não machuco e não assusto ninguém como alguns espíritos maléficos ou anjos caídos fazem enquanto perambulam pelo mundo afora a procura de vítimas prostradas ou inocentes.
Não possuo um capuz preto que encobre meu rosto, dando-me uma aparência aterradora, não possuo uma foice para sair matando todo mundo, não sou serial killer, que fique bem claro. Sou apenas um anjo, o anjo da morte que não tem lugar ao paraíso por ter se rebelado um dia. Possuo longas asas negras, um vestido azul anil que me cobre boa parte do corpo, olhos negros como o céu do anoitecer e longos cabelos ondulados da mesma cor. Não sou um monstro como podem ver, apenas um anjo fazendo seu trabalho contínuo e desgastante.
Meu destino é o mais cruel possível que se possa imaginar. Sim, eu já fui um anjo branco e me deixei ser enganada por um humano, o qual eu protegia. Não me apaixonei por ele, isso é imperdoável! O que eu fiz não foi tão grave, obtendo no fim o perdão do ser superior. Entretanto, sofri certas consequências que não me agradaram. Condenada a vagar pela Terra em busca de almas que se desprenderam do corpo falecido, colocando ordem no caos, afinal, a maioria dos espíritos não aceitam o simples fato de não pertencerem mais ao mundo mortal. Não tenho mais direito aos verdes campos do outro mundo, chamado pelos humanos de céu.
Gostava muito daquele lugar sereno, não havia guerra, sofrimento, dor, violência, nada disso, só havia paz, amor, amizade, calmaria e um silêncio gostoso que me permitia adormecer à sombra de uma árvore imensa, sentindo a leve brisa tocar-me a tez, acariciando-a. Serão apenas lembranças boas de um passado distante que jamais voltará. Ah se eu pudesse voltar no tempo, não deixaria aquele humano miserável me ludibriar com palavras falsas, compelindo-me a revelar a localização do livro da perdição, o objeto mais perigoso do mundo. É um livreto de capa preta com letras escrito em sangue, esse pertencente ao próprio ser superior, cujo nome não ouso pronunciar.
Aquele humano idiota! Ele roubou o livro e realizou um ritual para lhe conferir poderes inimagináveis. Contudo, antes que a criatura se transmutasse no ser celestial mais poderoso do universo, o Senhor interrompeu os planos impudicos e inescupulosos do meu ex-protegido, cortando-lhe as asas que havia ganho e mandando-o direto para a Terra. Ele se tornou o anjo caído mais terrível e temido pelos homens, transbordando uma aura negra que me fez arrepiar de calafrio.
Nas minhas constantes viagens por este planeta, encontrei duas vezes com Lucifer. Foram os piores momentos da minha vida, ele me torturou, me machucou, me enlouqueceu, me fez desejar a morte. Como isso é possível se eu sou a própria morte? É a pergunta que ecoa pela minha mente o tempo todo e eu simplesmente não sei responder. Eu lembro perfeitamente do sorriso maquiavélico em seu rosto. Ele se divertia enquanto eu me contorcia de dor. Ria do meu infortúnio e cantarolava uma música na linguagem das trevas.
Ninguém veio ao meu socorro e eu permaneci sob as torturas de meu antigo protegido por um tempo que não pude determinar. Quando ele se cansou de brincar comigo, deixou-me jogada no chão, a dor gritante estampada na minha face. Eu me senti tão impotente, fraca, inútil, não pude revidar, não pude me vingar, não pude fazer nada, porque não possuía poderes sufcientes para combatê-lo, para deter e exterminar minha própria criação. Ele continua vagando pelo mundo, iludindo novas vítimas e escravizando-as para depois obrigá-las a arruinar a própria vida. E no final, o que sobra? Mais trabalho para mim.
Não sei se havia esperança... Era o que eu acreditava até certo momento. A Segunda Guerra Mundial finalmente acabara, a Alemanha se rendera à uma hora atrás. Eu me encontrava no campo de concentração, ajudando os espíritos dos judeus a encontrar o caminho certo em direção a luz. Caminhava em meio aos restos que sobrara da guerra e subitamente vi uma menininha judia chorando. A curiosidade falou mais alto e eu me aproximei da mesma, sem que ela percebesse minha presença, observando-a. Então, segundos depois, apareceu um um jovem garoto judeu, um adolescente. Vestia trapos, assim como a garotinha de cabelos negros e olhos verdes, os quais escorriam intensas lágrimas.
_ Sabes, não precisas mais chorar, afinal a guerra acabou. – disse o adolescente com um tom de voz calmo que me assustou. Ele tinha os cabelos loiros e olhos cor de safira, sorria para a garotinha. – Eu sou Haskel e você é? – ele indagou, agachando-se ao lado da garotinha que ainda chorava.
_ Quero minha mãe, quero meu pai, quero meu irmão, estão todos mortos. – a menina disse afônica entre soluços, a voz embargada pelo sofrimento que a preencheu.
_ Olhe com atenção para o chão. Acontecerá uma mágica. – disse Haskel, capturando a atenção da garota para si.
Ela enxugou os olhos para tentar enxergar com clareza. Seus olhos verdes encontraram os azuis, os quais lhe passaram confiança. Ela então, lançou seu olhar para o chão, como o adolescente pedira anteriormente. E, a curiosidade me torturando, tentei aproximar-me mais dos jovens, grave erro eu cometi. O semblante do garoto subitamente tornou-se surpreso mesclado de um pequeno assombro. Ele conseguia me ver, era um dos escolhidos, possuía o dom da visão de anjos e possivelmente espíritos desencarnados. Tratava-se de um medium e um provido do mais alto grau de mediunidade, afinal, são raros aqueles que podem ver um anjo da morte. Precisava desaparecer, mas a tentação de ficar para conferir o que ele diria a garota foi maior. Estava para recuar, quando ele simplesmente voltou seu olhar para o chão coberto pelas cinzas deixadas pela guerra. Continuei onde estava.
_ Nem tudo está perdido, sempre há esperança. Precisamos acreditar, que a magia acontece. – disse o jovem, empurrando um punhado de terra misturado com cinza do chão. Um pedaço de grama verde apareceu, tão verde como os olhos da garotinha. – O fogo só queima superficialmente, mas se procurarmos ao fundo e com cautela, encontraremos vida embaixo de cinzas. O mesmo serve para a guerra. Embaixo da destruição deixada por ela, há vida, basta acreditarmos e nunca deixar a esperança morrer. Lembre-te sempre, até que o sol não brilhe, acendamos uma vela na escuridão. Portanto, nunca deixes de acreditar na magia da esperança. Venha, vamos procurar seus pais, tenho certeza de que estão vivos. — declarou o garoto, o tom de voz transbordando confiança, a qual eu jamais vira em toda a minha existência medíocre.
A dúvida me atingiu como um baque ensurdecedor. Eu compreendi o que ele desejava, me pedia com palavras claras para trazer a vida da família da garotinha de volta a vida, como um milagre. Mas, nessa vida, não existem milagres, não há esperança, a morte era o fim e não deveria ser burlada. Era o que eu pensava outrora, contudo, ao ouvir o que Haskel dissera, algo dentro de mim queimou, como se a esperança voltasse a reinar em meu coração fraco e gélido. Eu nunca tive compaixão, nunca senti pena de ninguém e nunca voltei atrás nas minhas decisões. Entretanto, eu sentia a necessidade de ajudar a garotinha, de realizar um milagre para devolver a ela a felicidade que lhe fora roubada com brutalidade. Como isso era possível? Eu não compreendia, não havia resposta.
Então, a luz do entendimento despencou sobre mim e eu pude deduzir sozinha que na vida, nós não precisamos gastar todo o nosso tempo, mesmo que seja infinito, a procura de respostas que não existem. São coisas que nós sentimos, algo tão complexo que está acima de nossa compreensão. Abri um sorriso, o meu primeiro desde muito tempo. Não me lembrava mais como era esta sensação extraordinária. Eu sorria de felicidade, porque afinal, a esperança nunca morrera, ela sempre esteve ali, a espreita, morando no coração de pessoas que jamais deixaram de acreditar no poder da vida, porque essa é mais bela que se possa imaginar. Eu voltei a olhar para Haskel, o qual estava de mãos dadas com a garotinha, passando-lhe força e proteção.
_ Meu nome é Chaya, mamãe disse que significa vida. – a garotinha disse, o tom de voz mais contente. Haskel bagunçou-lhe os cabelos negros, brincando com ela, entretanto a mesma não sorriu. "Não se preocupe pequena, trarei sua felicidade de volta." Pensei.
Sumi da vista dos jovens que procuravam pelos pais de Chaya. Eu sabia a localização deles com exatidão e para lá me dirigi. Estavam soterrados na terra, com milhares de pedras por cima. Jamais seriam encontrados... Com meu pouco poder, ordenei que os três corpos que ali jaziam fossem trazidos de volta a superfície e assim aconteceu. A mãe, o pai e o irmão de Chaya, todos mortos. Os espíritos, provavelmente, estavam perdidos, sem poder achar o caminho da luz, então, tempo era o que não me faltava para conjurar um feitiço que lhes daria a vida novamente.
Fechei os olhos e me concentrei, pronunciando palavras na linguagem dos anjos, bem arcaica. Não demorei muito para concluir e no final, senti-me fraca, cansada, eram as consequências de realizar uma magia proibida. Mas não importa, arrependimento não mais entra em meu ser. Subitamente, vi o os olhos dos três revividos se abrirem lentamente, o ar preenchendo-lhes os pulmões. Eu acabava de cometer um crime contra as regras, mas também um milagre foi feito.
Inesperadamente, Chaya aparece com Haskiel, o qual apontou para os pais da garotinha, mostrando-a que estavam vivos. Pude ver um incrível sorriso enorme riscar os lábios da pequena e com isso, eu me senti viva e feliz como nunca havia me sentido antes. Era o milagre da vida devolvendo a criança a alegria de viver. "Sim, pequenina, a vida é bela, aproveite." Vi o olhar de Haskel em mim, continha agradecimento eterno. Eu lhe dei um sorriso, o último que mostraria, afinal, estava partindo desse mundo. Não sei qual seria meu destino, mas acredito que em poucos segundos os anjos brancos viriam ao meu encontro para buscar-me. Julgariam-me novamente por quebrar as regras e o mais provável é que eu seja condenada a vagar pela terra como anjo caído, assim como meu ex-protegido.
Sentei-me no chão, o cansaço me preenchendo. Era nítido que eu ficava mais fraca, mais derribada, sem força alguma. Entretanto, não sei como explicar, mas a esperança queimava em meu coração, a chama havia se reascendido. Eu estava feliz, sentia-me completa, não mais vazia como antes. Obrigada Haskel. Estava para fechar os olhos, me entregar a escuridão, contudo, uma luz surgiu na minha frente e um ser muito iluminado caminhou até mim. Não entendia direito o que se passava, porque acreditava que os anjos brancos eram quem viriam ao meu encontro.
_ Parabéns Aisha, cumpristes seu objetivo com maestria e sabedoria, mereces descansar novamente sob os campos verdes do oásis. — disse-me uma voz doce, musical, serena, a qual me enchia de uma paz plena indescritível. Eu sorri e depois, só o que vi, antes de adormecer contente, esperando pelos verdes campos do céu, foi uma enorme luz branca me encobrindo.
“A esperança é a maior e a mais difícil vitória que um homem pode ter sobre a alma”- Georges Bernanos.
Notas finais
Espero que tenham gostado, comentários são muito bem vindos, críticas também, contudo, construtivas, ignoro as destrutivas, ok? ;D
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