Acabou por decidir-se e convidou-a para o baile que se ia realizar na corte. Precisa mesmo de a ver. Mas recebeu um “não vou a esse baile” que o deixou mais triste que nunca. Ela parecia estar a aproximar-se dele. Porque está agora a afastar-se?

Decidido vai de carruagem a casa dela nessa tarde. Precisa de a ouvir dizer que nunca mais o quer ver. De ouvir dizer que não quer sair com ele, nem ser convidada para ir a um baile.

A porta é aberta pela criada que o conduz para dentro e sobe para chamar a sua senhora.

Esme experimenta vestidos, sapatos e joias. Não foi ao baile que se deu na corte por causa do seu plano de sedução. Sabe que em breve Carlisle estará a bater-lhe à porta para falar com ela. Nessa altura irá por em prática a parte seguinte do plano.

- Minha senhora. – a criada faz uma vénia.

Esme vira-se para ela com uma sobrancelha levantada.

- Sua Graça o Duque de Somerset está lá em baixo e pede para falar consigo.

Esme esconde a sua felicidade por trás de um ar sério.

- E que deseja ele?

- Não disse, senhora.

- Muito bem. Desça e diga-lhe que já vou.

A criada faz uma vénia e volta a sair fechando a porta.

Esme coloca o vestido que está poisado em cima da cama, um vestido rosa de decote acentuado, calça uns sapatos a condizer e deixa o cabelo solto para dar a impressão de que se estava a arranjar.

Desce solenemente as escadas sem muita presa.

Carlisle sente o desejo invadi-lo assim que a vê. Nunca a tinha visto com o cabelo completamente solto, nem com um vestido tão decotado.

Esme baixa ligeiramente a cabeça quando chega junto dele e uma madeixa de cabelo cai-lhe para os olhos dando-lhe um ar sedutor e ela afasta-a com um movimento da cabeça.

- Vossa Graça, a que devo esta visita inesperada? – pergunta mantendo certa distância dele.

Carlisle não sabe o que dizer. Tinha o discurso preparado, mas agora que a vê ficou sem palavras.

- Eu… Eu… Eu precisava de falar consigo. – acaba por gaguejar.

Esme faz um gesto indicando que se deve sentar.

- Deseja beber alguma coisa? – pergunta educadamente.

- Não, obrigado.

Ela despensa a criada com um gesto e senta-se no outro sofá em vez de ser ao lado dele como fez da outra vez.

- E de que se trata? – pergunta.

Carlisle olha para o chão, para a parede, para o sofá, para todo o lado menos para ela.

- Vossa Graça?

- Queria saber porque recusou o meu convite. – diz não olhando para ela.

Esme solta um suspiro fingido.

- Porque não devo. – murmura. – Nem sequer devia ter vindo.

Carlisle levanta os olhos para ela.

- Que está a dizer?

- Que não sou mulher para a sua condição. Que não deve andar a passear comigo de braço dado por aí, nem ser meu companheiro num baile.

- Mas disse-me…

- Eu sei. – interrompe-o. – Eu sei bem o que disse. Não medi as minhas palavras. – levanta-se. – Esqueci-me que era um duque e eu não passo de uma prostituta irmã de um marquês.

Carlisle levanta-se também e caminha para mais perto dela.

- Não é assim que eu a vejo.

Esme vira-se para ele. As bocas ficam a poucos centímetros uma da outra. Esme não esperava que ele estivesse tão perto. O seu olhar e o seu maravilhoso aroma distraem-na por momentos.

Depressa se recompõe tentando não perder o raciocínio.

- Eu... Eu… Não lhe posso dizer. – vira-lhe as costas de novo e caminha até às escadas. – Não devia estar aqui. Vá-se embora.

Carlisle não desiste.

- O que é que não me pode dizer? – pergunta sem rodeios.

Esme volta a virar-se para ele.

Carlisle ganha coragem e beija-a antes de ela ter tempo de dizer alguma coisa.

Esme é novamente apanhada de surpresa. Iria beija-lo. Mas não já, não assim. Agora terá de improvisar uma vez que ele já estragou o seu discurso.

Corresponde ao beijo. Não consegue resistir e não seria útil ao seu plano faze-lo. É um beijo diferente daqueles a que está habituada. Já beijou muitos homens, demasiados diriam alguns, mas nenhum deles a beijou alguma vez desta forma. O coração dela bate tão acelerado como o dele, o que nunca lhe aconteceu. Nesse momento até esquece a ideia de o seduzir, até esquece o plano de casar com ele. A única coisa em que consegue pensar é no beijo, no calor do corpo dele, no seu cheiro, no seu olhar e no seu sorriso.

Quando se afastam ambos ficam a olhar um para o outro sem saber o que dizer. Esme é a primeira a recompor-se.

- Tentei nega-lo, mas tenho a certeza que estou apaixonado por si. – diz ele antes de ela falar.

Aquelas palavras têm um efeito diferente em Esme. Vários homens o disseram, apesar de nunca terem sido muitos. A maioria diz, “quero-a”, “desejo-a”, “seja minha”, coisas deste género. Depois há outros que dizem “é a mulher mais linda que eu já vi”, “arrebatou o meu coração”, “não vivo sem si”. Mas nunca, nunca ninguém lhe disse nada com tanto sentimento. Nada que parecesse tão sincero.

- Eu também estou apaixonada por si. – murmura continuando a farsa. – Foi por isso que me afastei, para o tentar esquecer.

- E porque o fez?

- Porque não sou digna de si.

- Como pode dizer uma coisa dessas?

- É simplesmente a verdade. Mas depois disto não me consigo afastar de si de novo. – aproxima-se mais encostando o seu corpo ao dele.

Carlisle respira fundo. É a primeira vez que uma mulher tem tal efeito sobre ele.

- Deite-se comigo. – murmura Esme usando a sua voz mais sedutora.

Carlisle deseja faze-lo, mais do que alguma vez desejo. Obriga-se a afastar-se.

- Não posso. – diz sério. – Sou um homem honrado e não tenciono deitar-me consigo.

Aquilo é uma surpresa para Esme. Nunca nenhum homem a rejeitou.

- Mas acabou de dizer…

- Por ama-la é que não o farei. Não serei como os outros homens que se deitam consigo por diversão.

Esme respira fundo para não se enervar mais do que já está.

- Não seria por diversão, seria por…

Nesse momento a porta é aberta e Emmett entra deparando-se com a irmã vestida com um dos seus vestidos mais provocadores e o cabelo solto, e com Carlisle muito perto dela com ar demasiado sério.

- Vou andando. – murmura Carlisle. – Boa tarde. – diz antes de sair pela porta aberta por Emmett.

Esme está a ponto de esganar o irmão por ter chegado num momento tão pouco oportuno.

- O que se passa? – pergunta Emmett.

- Ainda perguntas? – Esme levanta uma sobrancelha. – Ofereci-me para me deitar com ele e ele recusa-me e quando estava a tentar dar a volta à situação entras e estragas tudo.

- Ele recusou-te? – pergunta Emmett espantado.

- Recusou. Sou assim tão feia, Emmett? Tão pouco desejável?

Emmett aproxima-se da irmã e abraça-a com carinho.

- Não digas uma coisa dessas. Nunca vi mulher mais bela que tu.

Esme liberta-se dos braços dele.

- Pelos vistos ele não acha isso. Rejeitou-me, Emmett, rejeito-me, a mim.

Emmett agarra na mão da irmã e puxa para o sofá obrigando-a a sentar. Senta-se ao lado dela.

- Esme, ou estou muito enganado ou o homem nunca dormiu com nenhuma mulher.

Esme abre muito os olhos.

- É virgem?

Emmett sorri.

- Não sei, mas nunca lhe conheci nenhuma amante e também nunca o vi nem houve quem tivesse visto num bordel.

Esme faz também um sorriso.

- Ele tem a sua honra. – diz Emmett com ar de desprezo. – Parece que não usa as mulheres.

- Foi isso que ele me disse.

- Estás a ver. O que quer dizer que podes conquista-lo sem dormirem juntos. Até porque se ele estiver perdido de amores por ti irá casar, uma vez que jamais faria de uma mulher sua amante.

O sorriso de Esme abre-se mais.

- Já sei o que vou fazer. – murmura.

- Estás com um ar maléfico.

Esme abraça-o e dá-lhe um beijo.

- Acho que é a primeira vez que dizes algo decente.

- A minha irmã abraçou-me. Há quantos anos não recebo um abraço da minha irmã?

Esme dá-lhe um encontrão no braço.

- Não se pode fazer um elogio que passa logo para a estupidez. – levanta-se e caminha para as escadas.

- Espera lá! – Emmett levanta-se. – Afinal o que vais fazer?

- Não tens nada a ver com isso. – diz provocando-o.

- Esme…

- Coisas minhas, Emmett. Coisas minhas. A única coisa que te posso dizer é que estarei casada ainda antes do Natal.

- Um bocado vago, ainda estamos em julho.

- Pronto. Estarei casada antes de outubro. Carlisle dançará na minha mão.

.....

Quando se deita Esme pensa no beijo e já não tem tanta certeza naquilo que disse. Não percebe os sentimentos que a invadiram quando os lábios dele tocaram nos dela. O não saber deixa-a baralhada e confusa.

- Não importa. – murmura para a almofada. – Seja o que for não irá estragar o meu plano. Serei Duquesa, casarei no máximo em setembro e espero que ainda seja antes disso.