O Vale de Hivelton
2 Sobreviver
Notas iniciais
Denny acorda mentalmente, desamarrado, de olhos fechados e com bastante sono. Esfrega eles para retirar a sujeira e quem sabe motivá-los a se abrir, levanta da cama onde estava, e abrindo um pouco dos olhos, via uma luz entrando pela janela passando pela transparência das brancas cortinas, sentando no sofá vermelho onde estava deitado, admira um pouco a sala muito bem arrumada. O rapaz levanta ainda cansado e anda até o cômodo ao lado pois ouviu um barulho, ele passa por uma porta de madeira bem rústica com pequenas partes de vidro, nem percebe que não era sua casa e já vai abrindo o primeiro armário que vê na cozinha com design focado na cor branca, pegando uma xícara de café. Vê alguém na frente de um fogão mexendo em algo enquanto cantarolava, supondo ser Stephannie, ele vai até ela e já começa falando, ainda de olhos meio fechados.
— Oi, Stephannie, eu tive um sonho louco que fomos atacados por um capeta cruz-credo demoníaco e... – Antes que pudesse acabar a frase, Denny leva uma colherada seguida de um pequeno grito de susto vindo da figura em frente ao fogão. – AI, PRA QUE ISSO?! AI, AI, AI, AI, AI, TÁ QUEIMANDO!!!
— Eita, ai, caramba, foi mal, você apareceu do nada e a colher tava na sopa. – Dizia a figura, uma mulher meio magra de cabelo ruivo curto, óculos de grau e um jaleco branco, como o de cientista.
— Sopa? O quê? Espera um minuto. – Denny com a pouca visão que tinha, se dirigiu a pia e lavou seu rosto para entender a situação, já que a colherada o acordou pra valer.
— Acho que está no ponto. – Diz a mulher tomando uma colher da sopa no fogão.
— Primeiro, quem é você? E o que faz na minha casa? – Denny olha em volta enquanto massageia o olho quase queimado e repensa a pergunta. – Ok, essa não é minha casa, desculpe por invadi-la... Como eu vim parar aqui?
— Não foi um sonho. – Diz a mulher com seriedade no olhar, fazendo Denny se arregalar.
— Não... Foi? – Denny ficou atordoado. – Aquilo tudo aconteceu? O monstro, a explosão, os soldados, o interrogatório... Tudo?
— Sim, sim, sim, sim e sim. Você realmente passou por aquilo tudo, pode parecer estranho no início, mas tu se acostuma... Gosta de sopa? – Pergunta a mulher.
— Sim, gosto, mas... Hum, parece boa, tem pedacinhos de cenoura...? ESPERA QUE EU JÁ PERDI O FOCO! Pode me explicar o que está acontecendo? – Pergunta Denny tentando se recompor.
— Claro que posso, apenas vá acordar sua irmã, ela está na última porta do corredor seguindo pela sala, explico tudo enquanto almoçarmos.
Denny seguiu as ordens e acordou sua irmã, já dando explicações de que tudo que havia ocorrido na noite passada foi real, o que levou um tempo para que saíssem do quarto, afinal, era necessário que engolissem e aceitassem que aquilo foi real. Ambos prosseguiram pelo corredor até chegar na cozinha, onde a mulher já havia servido os pratos com sopa.
— Espera, quem é ela? Onde estamos? – Diz Stephannie esfregando um pouco os olhos e olhando em volta.
— Ai, outra. – A mulher se sentou a mesa e fez sinal para os dois. – Sentem e almoce, conto tudo enquanto comemos esta ótima sopa feita por minha pessoa.
Todos se sentaram a mesa e provaram da deliciosa sopa, não era nada mal, quente, salgada, ótima para o ambiente meio frio e gélido que se encontravam. E foi após cinco colheradas (não como a que Denny levou) que a mulher de cabelo ruivo começou as explicações.
— Meu nome é Sonia Ravegard, sou líder do grupo de cientistas de Hivelton, comandante de todas as operações de pesquisas neste lugar. Fui convocada pelo general Daniel para ajuda-los sendo novos habitantes dessa cidade. — Fala ela tomando uma colher de sopa.
— O quê?! Vamos morar aqui?! – Pergunta Stephannie se alterando, derrubando a colher dentro da sopa.
— Calma, calma, não é preciso tanto estresse, vocês só trarão mais se forem contra isso... Bem, Hivelton é uma cidade que guarda muitos mistérios, criaturas, assombrações, etcs. Muitas pessoas sem autorização vieram aqui, e não podíamos executar todas, logo, elas teriam que morar aqui, pois se saíssem e mostrassem o que essa cidade tem de perigoso ao mundo, catástrofes ocorreriam, guerras seriam travadas. Para evitar conflitos assim, foi necessário que “prendêssemos” obrigatoriamente as pessoas aqui, mas não do jeito tradicional, mas sim, com moradias e segurança.
— Bom... É... Eu não sei o que dizer... Tá tudo acontecendo rápido... – Fala Denny, atordoado, perdido em pensamentos, muitas questões. — Está dizendo que este lugar está repleto de monstros tipo aquele capeta que nos atacou na estrada?
— Vou precisar de um tempo pra digerir isso... Espera aí, aquela desgraça foi real? – Fala Stephannie pensando em tudo que poderia perder, o que iria acontecer dali pra frente.
— Meu trabalho pode não ser ajudar os novatos, mas fui escolhida pelo fato de estarmos sem guias o suficiente e aparentemente sou a mais adequada, se os outros tentassem lhe ajudar, provavelmente morreriam no primeiro dia! — Isso fez os dois pararem de tomar sopa e arregalar os olhos.
— Que tipos de criaturas existem por aqui? — Pergunta Denny numa curiosidade sem controle.
— Se quiser exemplos, provavelmente logo aparecerá um. Mas respondendo sua pergunta, não existem animais comuns por aqui, mas de monstros, já temos catalogados mais de 300 criaturas e mais de 100 tipos!
— ... — Stephannie ficou sem reação.
— Já é meio dia e meia, vou voltar daqui duas horas para guia-los nos primeiros dias pela cidade, garanto a vocês, não vai ser um problema se colaborarem. Tchauzinho. – Fala Sonia se levantando da mesa e guardando uma pequena carteira que estava em cima da mesa no bolso e sai lentamente em direção á saída, antes de fechar a porta deixa um último aviso. — Deixei meu telefone colado na geladeira, qualquer problema podem me chamar.
Ambos os irmãos nem terminaram de almoçar, atordoados e com os pensamentos a todo o vapor, se sentaram no sofá da sala que era iluminada por uma luz muito forte do sol vindo da janela, que novamente era tampada por uma cortina branca transparente. Não sabiam como prosseguir, eram muitas informações de uma só vez, precisavam pensar muito, e a faculdade? Seus empregos? Como ficaria?
— Você ouviu? Vamos... Morar aqui! – Diz Stephannie sem acreditar.
— Essa viagem... EU NÃO DEVIA TER CONFIADO NAQUELE TIO DE TERNO MARROM!!! NINGUÉM É DO BEM USANDO UM TERNO MARROM!!! – Grita Denny, frustrado.
— A CULPA É SUA, SUA INGENUIDADE E OTIMISMO EXCESSIVO NOS TROUXERAM ATÉ AQUI!!! — Se indigna Stephannie se levantando do sofá.
— Fica calma, não vamos iniciar um conflito, essa é a última coisa que nós e esses caras querem. Mas só de pensar em morar no mesmo lugar onde aquelas criaturas matadoras de gente pode estar lá fora... — Denny se arrepia um pouco. — É de se arrepiar, literalmente.
— É assustador, precisamos dar um jeito de sair daqui, recorrer a justiça, precisamos fazer algo!!
— Geralmente esses locais são tipo Área 51, são relacionados ao governo, são secretos e muito bem vigiados. Duas pessoas irem contra uma organização secreta da qual provavelmente poucas pessoas sabem a existência é bobeira, temos que ser que nem nesses caras, secretos e invisíveis aos olhares, o que acha de uma fuga? — Responde o mais novo com a maior calma do mundo.
— Cara, você mesmo não disse que duas pessoas irem contra uma organização secreta e blá, blá ,blá é besteira? Uma fuga é quase a mesma coisa.
— Não vamos contra, isso é um plano que evita ao máximo o contato com as autoridades. — Denny se levanta do sofá para pensar um pouco.
— Você está se precipitando demais, nem conhecemos a cidade direito e você já está querendo armar um plano de fuga. – Diz Stephannie se levantando do sofá, demonstrando que o plano de Denny era uma completa loucura.
— Então recomenda que conheçamos o lugar e depois fazer a fuga?
— NÃO!! ESTOU DIZENDO PARA NÃO FAZERMOS UMA FUGA!! — Grita Stephannie tentando evitar ao máximo certos problemas.
— Tá legal, tá legal, entendi... Mas se nas proximidades da cidade já não tinha uma criatura daquelas, imagina o que pode existir NA cidade. – Diz Denny demonstrando medo aparente.
— Seu otimismo poderia servir de ajuda agora, isso me ajudava a se alegrar nesses momentos.
— Aí que está, nunca passamos por um momento desses. Ou vai me dizer que já foi mantida a força dentro de uma cidade por uma organização secreta canadense?
— ...Sinto dizer, mas tem razão. É um choque você estar contente na sua viagem e do nada aparecer nessa situação.
— Falando nisso, você também foi interrogada por aquele general?
— Sim, claro, lembro perfeitamente, eles me levaram para um carro militar muito bem blindado, e lá no interrogatório, fizeram perguntas básicas, tipo querer saber meu nome, idade e porque viemos nessa viagem.
— Eu tive que ser desacordado, estou meio atordoado por conta dos desmaios. – Fala Denny, voltando a sentar no sofá.
— Vamos esquecer esse plano, e fazer o que eles mandam até pensarmos em algo melhor... Eu vou me trocar, ainda estou com a roupa da viagem. – Fala Stephannie se levantando e indo até seu provável quarto.
— Sabe, mesmo eu sendo seu irmão, nunca entendi o porque de você ter tanta neura com roupas, meu pijama é bem bonitinho, posso até ir numa padaria com ele, dependendo.
— ISSO SE VOCÊ NÃO FOR MORTO POR UM CHUPA-CABRAS DEMÔNIO PELO CAMINHO!! – Grita Stephannie do seu quarto para que Denny pudesse ouvi-la. – Eles organizaram muito mal as roupas do meu quarto, como tiveram a ousadia de mexer nelas?
— Eles deviam ter coisa melhor pra fazer, apesar de tentar organizar roupas já ser bem entediante, eu só jogo tudo na gaveta e nas que sobrarem espaço eu guardo revistas.
— Ah, perfeito, achei um casaco.
— Pois é, está frio por aqui, apesar de ser um clima bem moderado para uma região que deveria estar coberta de neve... — Denny estava bem calmo, admirando a sala. — Eu curti muito essa sala, até que não seria má ideia morar aqui...
— Cara, não sabemos nem como é a cidade, será que ela é igual a das fotos? – Diz Stephannie que chega na sala enquanto fecha o zíper do casaco. – Abre a janela e dá uma olhada.
— Tudo bem. – Denny abre a janela da sala, uma luz forte entra, ofuscando a visão dos dois, mas após recuperar o foco, conseguem ver uma das maiores cidades que puderam ver do alto. Um lugar repleto de prédios dos mais variados tamanhos, as lojas coloriam as ruas e várias árvores enfeitavam os bairros, não tinha muita movimentação e o ambiente calmo colaborava para a cidade parecer ainda mais incrível. – É linda...
— Olha, não é de se jogar fora, é mais linda do que pensávamos... Mas, em que andar do prédio estamos para ter uma vista dessas? – Pergunta Stephannie botando a cara na janela e olhando para baixo.
— Acho que sete ou oito andares. Tá difícil ver com essas grades. Tivemos a sorte de pegar um apartamento de luxo. – Diz Denny, voltando a ser otimista. – Acho que posso ver a padaria daqui, bora ir lá com pijamas?
— Engraçadinho... – Stephannie colocou a mão em um dos bolsos do casaco e pensou. – Onde está meu celular?
— O meu tá aqui, no bolso do pijama. – Diz Denny mostrando o celular pra irmã.
— Ai meu Deus, cadê meu celular. – Diz Stephannie que vai pro quarto procurar entre as roupas e bagagens.
— Tudo bem, procure entre suas milhares de roupas enquanto eu aprecio a vista... – Enquanto Stephannie desesperadamente procurava por seu celular, Denny tinha suas filosofias. — ...Como eu acordei de pijama, sendo que eu estava usando outra roupa na viagem? Hm... HEY, temos uma televisão, que tal eu dar uma olhada no jornal? Sabe, ter notícias sobre o mundo lá fora, já que provavelmente nunca mais teremos contato com ele...
***
— Pois bem, meus caros, são duas horas e meia da tarde, o sol está quase diminuindo seu calor diário de meio-dia, ótimo momento para dar um passeio, conhecer a cidade e ter ajuda da provável melhor guia que vai ensiná-los como viver por aqui. – Diz Sonia levando os dois irmãos até a porta principal do prédio onde residiam. Ambos estavam quietos e demonstravam fisicamente um nervosismo. – O que foi? Não precisam ter medo, sabemos que Hivelton é um poço de tragédia e monstros matadores, mas todos conseguimos proteger nosso território por mais assustador que a situação fique... Venham, vou mostra-los.
Todos saíram pela porta principal, e viram um local com diversos prédios cinzas, poucas pinturas, muitas placas de sinalização, e um número de carros bem reduzido para uma cidade tão grande como Hivelton. Começaram a andar, Stephannie fazia uso de um chapéu para que o sol não queimasse sua cabeça, Denny, não estava usando nada, apenas trocou o seu pijama por agradáveis roupas curtas e cinzas, igual a irmã que estava usando uma calça jeans junto de um casaco de couro preto, Sonia usava o mesmo jaleco de hoje cedo, ela entregou um panfleto para cada um e começou a falar.
— Não tá com frio? — Pergunta Stephannie ao irmão.
— Felizmente não, esse sol me faria suar muito em poucos segundos se estivesse usando algo mais longo.
— Hey, prestem atenção, estes são mapas de todo o território de Hivelton, os pontos marcados em verde são pontos que vocês precisarão ir para sobreviver, logicamente, como farmácias, supermercados, hospitais, delegacia, etc. Os pontos em azul são pontos turísticos que são opcionais, como parque de diversões, praças, cinema, etc. – Sonia pega um pequeno bloco com algumas anotações. – A linha em vermelho como pode ver, limita todo um território que não podemos ultrapassar, está fortemente vigiado por mais de quatrocentos soldados fortemente armados, em cabanas com sensores de movimento, e alarmes para todo o tipo de situação, devem ficar pelo menos dez metros afastados de cada uma.
— Bom, não parece de todo mal, olha só, tem pessoas comprando jornais, indo em lojas, conversando normalmente, como se fosse uma cidade perfeita... E quanto aos assaltos? – Pergunta Denny acompanhando as duas que começaram a andar pelas ruas.
— Assaltos? Não, não, crimes comuns de uma sociedade não ocorrem por aqui, logicamente, temos equipamento o suficiente para acabar com qualquer ameaça e criatura que venha nos atacar, mas nada nos impede de usar todo esse armamento em humanos, além da delegacia que não é muito longe daqui, ela é usada para pequenos casos, como assaltos, assassinatos, estupros, etc.
— Isso são pequenos casos? – Pergunta Stephannie assustada.
— Mas é claro, comparado ao que já ocorre mensalmente, são pequenos casos, mas esses não ocorrem já faz alguns muitos meses...
— Hey, Sonia, perguntinha. – Diz Denny levantando a mão enquanto lê o panfleto.
— Diga.
— O quê significa o ponto amarelo? Não tem nada escrito nele.
— Ah, sim, o ponto amarelo, ele é o mais importante de Hivelton. Me sigam. – Diz Sonia virando uma rua a esquerda, enquanto explicava mais algumas coisas sobre Hivelton. – Essa cidade tem sistemas de proteção por toda a parte, temos regras rígidas para que pessoas possam conviver normalmente por aqui, todo o ano, o governo investe para consertar os danos causados por aqui, e aumenta a segurança, câmeras e alarmes a cada esquina, e regras muito rígidas.
— Tipo...?
— São poucas, somente soldados, cientistas e grandes autoridades são permitidas de saírem nas ruas após as dez horas da noite. Não é autorizado sair dos limites da cidade, e regras básicas de uma sociedade, como assaltos, etc. Nada disso é permitido por aqui. — Prosseguiram por mais dez minutos, andando por diversas e extensas ruas, até chegar em uma grande porta, escondida entre folhas, mesclada com o pé de uma das maiores montanhas pelo local, vários soldados entravam e saíam do local, alguns transportando itens, outros reforçando a vigia, trocando de turno, etc. – Esse é a base para refugiados de catástrofes, aqui é onde escondemos e protegemos toda a população de Hivelton quando acontece um ataque.
— Fascinante...
— Vocês podem arrumar um pequeno trabalho em Hivelton, sempre existem vagas abertas em diversas áreas e devem saber o motivo... É só procurarem. – Sonia olha o horário nos seus dois relógios de pulso. – Ainda são três e meia da tarde, foi o serviço mais rápido que eu já fiz... Gostariam de tomar um sorvete? Chocolate quente? Alguma coisa?
— Eu adoraria, vamos aliviar toda essa tensão de serem forçados a morar aqui. – Fala Denny dando tapinhas nas costas de Stephannie, para que a mesma tirasse sua cara séria e pensativa do rosto e pensasse nas coisas boas do local. – Posso escolher a sorveteria?
— Mas é claro, fiquem a vontade para escolher, tenho que falar com alguns soldados do portão, esperem um minuto, enquanto isso, escolham a sorveteria. – Fala Sonia indo falar com soldados que protegiam o portão mesclado a montanha.
— É sério?! Você viu alguma coisa que possa nos ajudar a sair daqui?! – Fala Stephannie com raiva para Denny.
— Vamos dar um jeito... Eu espero...
— Preciso que descarreguem uma carga de munição no ponto I8, poderiam mandar dois estagiários fazerem isso? — Ouve Denny enquanto observava Sonia com atenção.
— Entendi, o problema vai ser ela, muito dedicada, boa ouvinte, detalhista, vai ser difícil despistá-la se for pra fazer uma fuga... — Concorda Sonia sem ao menos o irmão ter dado uma palavra.
— Pois é... Que tal essa sorveteria? Eles tem Milk Shake sem floquinhos de amendoim! — Responde o irmão trocando totalmente de assunto.
Todos prosseguem para a sorveteria, andavam apreciando a vista da grande cidade, cercada por montanhas ainda maiores, seu ambiente, apesar de simpático, era bem sombrio e com pessoas ainda mais estranhas, olhavam torto para Denny e Stephannie toda vez que passavam, apesar dessas pessoas aparentarem conviver bem entre si naquela cidade, Sonia não parava de falar, como o sistema do governo tratava a cidade e como ela funcionava.
— ...Em Hivelton, a segurança não dorme... – Sonia é interrompida por Denny.
— Ninguém com a função de proteger dorme aqui?
— Claro que não, bobinho, eles trocam de turno as seis horas da tarde, processo que leva no máximo seis segundos, somos muito precisos aqui.
— Caramba, você sabe mesmo de tudo.
— Trabalho aqui fazem dez anos, sei de cada detalhe, cada ameaça, cada cidadão desse lugar, eu sei de tudo, então, se tiverem qualquer dúvida, podem perguntar para mim.
— Entendi.
Quando chegam a sorveteria (o que levou mais ou menos uma hora de caminhada), todos escolhem um sabor e se sentam na mesa fora do estabelecimento, conversavam sobre coisas aleatórias e de vez em quando surgia uma pergunta sobre Hivelton, mas seus gostos foram discutidos, apesar de serem pouco parecidos, não aparentava ser um problema para os irmãos, Sonia parecia ser uma pessoa legal, e estava sendo muito gentil. Stephannie não confiava nela, passou o dia inteira séria e pensativa, Denny tinha dado uma chance, mesmo que grande parte dele ainda estivesse com medo de tudo isso.
Todos se despediram e voltaram para suas casas por volta das cinco horas da tarde, os irmãos não falaram nada enquanto voltavam perdidos em seus pensamentos, como seriam suas vidas dali pra frente? Era a pergunta mais feita, pois todos os planos de continuarem em suas pacatas vidas mudaram bruscamente de direção para uma fuga desesperada de sobrevivência em meio a monstros matadores de gente. Ambos entraram em casa, foi quando Stephannie começou a falar.
— FALA SÉRIO!!!! TU OUVIU O QUE ELA FALOU?! O SISTEMA DE SEGURANÇA DELES É INFALÍVEL!!
— Calma, Stephannie, não precisa brigar, eu não só ouvi... Como também gravei tudo o que ela disse. – Fala Denny tirando seu celular do bolso que estava com o gravador ligado.
— CARA, POR QUE TU FEZ ISSO?! ELES PODEM ESTAR NOS VIGIANDO COM UMA CÂMERA DENTRO DE CASA AGORA MESMO!!!
— Eu fiz isso para analisarmos tudo que ela falou sobre Hivelton, quanto mais entendermos sobre tudo isso, melhor vai ser pra gente e pra eles... Fora, que eu sei que você praticamente dormiu de olhos abertos durante todas as explicações, igualzinho na aula de física. – Fala Denny tentando aliviar a situação com piadas.
— Tudo bem... Vamos fazer o seguinte, vamos anotar as coisas mais importantes e colar nas paredes da cozinha, para todo dia lembrarmos de como agir por aqui, as melhores ideias surgem do nada, então vamos pensar nisso o tempo todo.
— HAHAHAHAHAHA, são mais de cinco horas de áudio, acha que vamos ter paciência para fazer tudo isso ainda hoje? Temos que deixar isso mais divertido... JÁ SEI, vamos trazer a televisão para a cozinha, coloca-la nessa tomada aqui do lado da mesa, botar uns DVD’s, fazer pequenas pausas e assistir alguns Bob Esponja durante isso, que tal? Temos tempo de sobra, estamos de férias.
— COM BISCOITOS!!! – Grita Stephannie começando a ficar animada.
— Boa, já tá entrando pro clima, vou pegar o aparelho de DVD, enquanto isso, vai vendo na internet alguma receita para biscoitos com bolinhas de chocolate! – Fala Denny correndo para seu quarto.
Após arrumarem tudo para começarem seus planos de como conviver corretamente na cidade, vinte e cinco biscoitos saem do forno, prontos para serem devorados, isso até Denny pegar três deles e botar numa sacolinha.
— Já está anoitecendo, o que acha de eu dar um “oi” para os vizinhos? – Diz Denny amarrando a sacola de biscoitos.
— Bom, eu não consideraria uma boa ideia, mas vir pra cá já foi uma péssima, outra ideia péssima não faria diferença, né? – Diz Stephannie pegando uma pilha de papéis e materiais para escrever.
Denny sai do seu apartamento, e segue para a porta em frente a sua casa, bate quatro vezes e espera enquanto assovia Pumped up Kicks. É quando alguém abre a porta, que Denny, sem olhar quem era, já chega se apresentando.
— Olá vizinho, sou Denny Gauthier Richardson, cheguei ontem aqui, e... – Denny então vê o cano de uma espingarda prestes a atirar na sua testa. — ...Posso rezar antes?
— O quê você quer aqui? – Fala um velho meio baixo, corcunda, de cabelos brancos, aparentando estar próximo dos seus oitenta anos, fazia uso de um pijama listrado de cores fracas e pantufas simples. – Vamo rapaz, não tenho a noite toda.
— Eu, eu sou Denny, cheguei ontem no apartamento em frente ao seu, apenas trouxe biscoitos para mostrar que somos amigos. – Fala Denny levantando a sacola de biscoitos na frente do senhor.
— Faz tanto tempo que não vejo um ato gentil por essas bandas... Vai embora e leva seus biscoitos junto, até nunca mais. – Fala o senhor fechando a porta na cara de Denny.
— ...Tá legal, da próxima vez eu envio pelo correio. – Fala Denny voltando para sua casa.
Tudo estava pronto para começarem, tinham vinte e quatro volumes do Bob Esponja para ocuparem um dia inteiro, prestaram bastante atenção nos áudios, anotaram os principais horários da troca de guardas, atualização de monitoramento, pontos de refúgio, rotas de fuga para caso qualquer monstro apareça, passaram horas anotando o que achavam mais importante, enquanto nas suas pausas de quinze minutos, comiam biscoitos enquanto assistiam Bob Esponja, paravam com a pausa (fascinante), e continuavam a anotar, estavam por volta da terceira hora de áudio quando os biscoitos acabaram, Stephannie preparou um café bem forte para ela e pegou um pacote de balas de menta para que Denny também não dormisse, e por assim prosseguiram...
***
Estavam na última meia hora do áudio, quarenta e sete folhas já tinham sido escritas com as informações necessárias, ambos estavam quase caindo no sono, nem café ou balas de menta ajudariam nessa situação, já era uma hora e meia da manhã e Stephannie já havia desmaiado de sono. Denny ainda ouvia o áudio e estava prestes a cair no sono quando em meio a abertura do Bob Esponja, um alarme muito alto começou a ecoar por toda a cidade, ele ia aumentando o volume a cada segundo, Denny ficou a toda a ativa e rapidamente chamou Stephannie pelo seu nome para que acordasse.
— STEPHANNIE, ACORDA GURIA!! – Grita Denny empurrando de leve a irmã para que acordasse.
— AI, O QUE FOI?! QUE BARULHO ALTO É ESSE?! – Grita Stephannie para que Denny pudesse ouvi-la em meio aos alarmes.
— EU NÃO SEI, VAMOS NA JANELA DA SALA VER O QUE ESTÁ ACONTECENDO!!!
Os irmãos prosseguem para a sala, e ao abrirem as cortinas, puderam ver sob a luz do luar, uma aterrorizante e gigantesca figura pisoteando árvores e casas próximas a seu apartamento, eles ficaram de bocas abertas, admirando e temendo o esplendor daquela criatura, uma espécie de lagarto gigante, lembrava Denny da mítica criatura dos cinemas, o Godzilla, sua fisionomia era idêntica, porém seus espinhos nas costas eram bem menos ameaçadores (apesar de serem do mesmo tamanho) comparados aos do lagarto japonês, sua cauda era longa e cheia de espinhos, algo que jamais pensariam ver na vida real. Em meio a tanta surpresa, sem reação, os dois escutaram o que estava acontecendo.
— ATENÇÃO TODOS, ATENÇÃO TODOS, ESTAMOS SOFRENDO O ATAQUE DE UM SALAGUITON NA ZONA 9Y, REPITO, ATAQUE DE UM SALAGUITON NA ZONA 9Y!!! — Falam todos os alarmes acompanhados de megafones.
— DENNY, O PRÉDIO TÁ TREMENDO!!! – Grita Stephannie se segurando no sofá.
— SÃO OS PASSOS DAQUELA COISA!!! É GIGANTESCA!!! — Grita Denny puxando Stephannie para seguirem para a entrada do apartamento, mas a criatura foi mais rápida, com um golpe bruto no apartamento onde os irmãos moram, um buraco na parede onde ficava a janela da sala, seu teto e o do vizinho foram abertos e expostos a luz do luar e aos olhos da temível criatura que pretendia ataca-los. – SOCORRO!!!
— SAI DE PERTO DA MINHA CASA, FILHA DA PUTA!! – Diz o vizinho ranzinza dos irmãos, dando um tiro com sua espingarda em um dos olhos da criatura, que desiste de atacar o prédio por conta da incomodação em sua visão e segue para outra direção.
— VAMOS EMBORA DAQUI, TEMOS QUE IR PARA AQUELA BASE, REFÚGIO, EU SEI LÁ!! – Grita Stephannie puxando Denny que estava paralisado de medo para o primeiro andar do prédio, ambos saem do prédio, e olham diversas casas pegando fogo, destroços e pessoas gritando por todo o lugar, os irmãos arriscaram passar por de trás da gigantesca cauda da criatura que batia e socava um dos prédios em frente ao seu apartamento. – VOCÊ TEM ALGUM MAPA?!
— NÃO, EU TINHA DEIXADO NO BOLSO DA MINHA OUTRA CALÇA!!! – Grita Denny mexendo nos bolsos.
— MAS QUE DROGA!!
— ESTAMOS NO MEIO DO APOCALIPSE, NÃO VAMOS CRIAR OUTRO COM NOSSOS CONFLITOS INTERNOS DE IRMÃOS, NOSSO FOCO É SOBREVI... – Denny é puxado por Stephannie para não ser acertado por um espinho gigante que foi arremessado bem em sua direção. — ...pra... QUE... ISSO?! DE ONDE VEIO ESSA PORCARIA?!
— DE ONDE MAIS?! OLHA LÁ!! – Aponta Stephannie para a criatura que com suas mãos arrancava os espinhos gigantes de suas costas e lançava para todos os lados, os espinhos se regeneravam numa velocidade de apenas dois segundos, logo, ele começou a atirar para todos os lados, atingindo diversos prédios e pessoas ao mesmo tempo. – CORRE, SÓ CORRE, CORRE MUITO!!
Os irmãos começaram a correr para longe, e em meio a destroços e chamas surgiram militares.
— MILITARES, GRAÇAS A DEUS, ELES... SE ABAIXA!!! – Grita Denny puxando Stephannie para se abaixarem, os militares começaram a atirar sem dó, nem piedade no monstro que estava indo atrás dos irmãos, o mesmo recua, mesmo que poucos metros, serviu de ajuda para que ambos pudessem escapar dos tiros e ter tempo para correr do monstro.
Não conseguiram perguntar para nenhum dos militares onde ficava o refúgio, chegando em uma encruzilhada, não sabiam para onde ir, estavam perdidos em meio a chamas, até que uma moto para do lado dos dois, era Sonia.
— O que vocês estão fazendo aqui? Vão para o refúgio!! – Fala ela.
— Não lembramos onde fica, perdemos nosso mapa!! – Responde Denny.
— Tudo bem... Sobe aqui Stephannie. Preciso de sua ajuda! – Fala Sonia fazendo sinal para ela subir na moto.
— Mas... E o Denny? – Pergunta Stephannie colocando um capacete enquanto sobe na moto de Sonia.
— HEY, VOCÊS DOIS!!! LEVEM ESSE RAPAZ PARA O REFÚGIO USANDO AQUELE CARRO, PROTEJAM ELE!! – Grita Sonia para dois soldados que atiravam de longe na criatura, após Sonia fugir com Stephannie para o refúgio, um dos soldados quebra a janela do carro, enquanto o outro entrava e ligava o carro, Denny rapidamente entra no banco ao lado do motorista, um soldado fica no banco de trás, dando tiros no monstro, para mantê-lo afastado. Porém, o motorista foi muito rápido, que quando estavam virando a esquina, deram de encontro com um Umbrape arremessando pessoas contra o fogo.
— UM UMBRAPE!!! – Grita o soldado motorista, que freia e salta de dentro do carro puxando Denny junto. – DAVID!!
O soldado do banco de trás, não havia percebido o Umbrape, que incomodado com os faróis do carro, esmaga o mesmo com seu grosso braço, matando assim David.
— Ai, meu Deus... – Denny estava caído no chão, olhando para o carro sendo esmagado, o soldado que havia dirigido, começa a atirar diversas vezes contra os olhos do Umbrape, que ficou furioso e ambos correram um contra o outro, o soldado iria atirar contra suas pernas, mas a criatura foi mais rápida, e com uma mão agarrou o soldado, assim quebrando seu pescoço e arremessando seu corpo ao lado de Denny, que estava perplexo com isso. O Umbrape começou a andar na direção de Denny que estava paralisado de medo, antes de qualquer ação do monstro, um míssil o acerta, vindo de um lança-mísseis da Sonia, que junto de Stephannie, estavam vindo ajudar Denny, porém, foram impedidas por cinco espinhos arremessados pelo Salaguiton, isso assustou o Umbrape, e o mesmo correu para o meio da usina elétrica de Hivelton.
— STEPHANNIE, SONIA, ALGUÉM!!! AJUDA!! – Denny olha para o soldado morto ao seu lado e pega um de suas armas de fogo, preparado para se defender, seu otimismo estava acima da razão, qualquer ação feita agora poderia resultar em algo, pensava Denny. — ...Já sei.
Os fios que formavam o sistema da usina elétrica eram da altura exata dos braços do Salaguiton, e lá ia Denny com suas ideias mirabolantes, gritou muito, muito alto, nunca havia gritado tanto para chamar a atenção do monstro... E ele conseguiu, a criatura, em passos lentos seguia Denny que só tinha uma pistola, ao chegar na entrada da usina, que havia sido destruída pelo Umbrape, que neste ponto já estaria nas florestas, ele dá cinco tiros no nariz do Salaguiton, que se enfurece e começa a atirar diversos espinhos gigantes na direção de Denny, que consegui desviar com muita sorte, pois por pouco menos de um metro que ele não era esmagado. Se escondendo atrás de uma das construções de ferro da usina, Denny mira com suas últimas seis balas nos olhos da criatura, que ao perder parte de sua visão, não consegue perceber que na mesma hora levantou seus braços para pegar espinhos de suas costas, acaba se prendendo aos fios que se interligavam pelo sistema, sem poder mexer seus braços, sem sua visão e sem poder lançar espinhos, virou um alvo para os caças.
— Robbie, atire nos espinhos, Lowis e eu focamos na cabeça, não percam um tiro, essa é nossa chance. – Fala um dos caças para os outros dois que iam em direção ao monstro, e assim, em meio a tiros, explosões e a visão do monstro sendo derrotado, Denny pensa.
— Esse lugar não é normal... Isso foi pura sorte... Pura sorte... Não vai ser assim que vamos conseguir viver aqui, isso não é viver... Isso é sobreviver... Eu preciso sair daqui! — Denny é surpreendido pelo chão que tremeu ao Umprabe pular do seu lado, sem reação, o rapaz cai no chão desacordado...
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