O Vírus Isaac
3 Capítulo 3 - Oscar
A sala de recepção do Oscar, meu médico preferido, é bem diferente da de Madame Marlene. As paredes são pintadas de branco e um tom de amarelo que parece pus. Tem uma televisão, mas ela sempre está ligada no jornal e sem som, então eu praticamente tenho que fazer leitura labial pra saber o que está acontecendo pelo mundo. Eu gosto de fingir que a repórter está falando sobre como encontrou dinheiro no bolso da calça que tinha colocado pra lavar, ou sobre notícias realmente interessantes, tipo a descoberta de alguma legião secreta de gurus nudistas de barba cor-de-rosa morando nas montanhas com seus companheiros pavões que foram treinados para fazer tai chi e lavar a louça.
A secretária daqui é o ser humano mais sem graça de todos os dez planetas. Glória e sua Super Verruga estão classificadas em segundo e terceiro lugar no top piores secretárias do universo, só perdendo pras songamongas que a Giovana ainda contrata.
Glória adora usar essas maquiagens de que todo mundo faz propaganda. Será que ela sabe que por baixo do corretivo corporal com cheiro de argamassa ainda dá pra ler as frases pelo seu pescoço? Não que eu realmente estivesse nem um pouco interessada em saber sobre o seu caso com o personal trainer. E com a professora de ballet. E sobre as coisas que ela faz com a cafeteira. Ela realmente devia processar essa empresa de cosméticos. E ficar longe de cafeteiras, eca!
— Boa tarde, no que posso ajudar? – Glória fala, olhando pra minha cara com os olhos turquesa da última plástica, vazios como vidro, como se eu fosse a privada de um posto de gasolina que ela precisa limpar com uma escova de dente.
— Oi, café- — Opa. — Oi, Glória. Preciso falar com o Oscar. Pra já. Onde fica a porta de entrada imediata para emergêcias? É só dizer, eu vou sozinha.
Ela me encara por um tempo e eu sinto como se a Super Verruga do seu queixo tivesse olhinhos raivosos roxos falsificados e estivesse me olhando de cara feia também.
— Não é outra brincadeira daquelas, é, Sofia? Cadê aquele seu amiguinho?
Tá legal, desde quando minha existência ficou vinculada à do imbecil do Isaac? Tô com cara de GPS sobrenatural pra saber por onde aquela alma condenada anda? Agora eu tenho ideia de como os ajudantes de super-heróis se sentem.
— Eu vim sozinha. É um caso muito grave. Urgente. Não dá pra ligar uma sirene ou algo do tipo? É um caso merecedor de sirenes.
— Você, pelo menos, trouxe algum animal dessa vez?
É isso o tempo todo. Que coisa chata. Só porque o Oscar é veterinário não quer dizer que só bichos precisem dele. Mas eu vim preparada.
— Claro!
Eu viro em cima do balcão a bolsa de papel personalizada da Sede de Assuntos Paranormais e Alimentos do Oceano (SAPAO) e a lagosta fofucha que Pipa me emprestou mais cedo rola pelo balcão, cheia de gingado no exoesqueleto.
— O nome dela é Gezebel e ela tem três meses. Vem de uma longa linhagem de lagostas de estimação da família real do antigo Canadá. Gosta de longos passeios na praia e de papel laminado.
Eu quem batizei, porque achei que o nome “Almoço especial de quinta-feira número 7” que a Pipa escolheu não soava muito artístico. Gezebel combinou bem mais com as garras gordinhas e os olhinhos meigos de crustáceo.
Glória olha tão feio pra Gezebel que parece estar cara a cara novamente com alguém que soltou pum no elevador quando ela estava indo do térreo ao décimo nono andar, sem escalas. Ela vira o nariz pro outro lado, abanando a mão pra minha lagosta-rainha.
— Muito bem, tira esse bicho daqui. Você pode esperar na fila, tem três pessoas na sua frente.
Três pessoas? Isso pode levar minha vida inteira! Eu não tenho tanto tempo. Posso ter um ataque do meu perigosíssimo vírus Isaac e entrar em decomposição nos próximos dez minutos!
— Olha, eu acho que você não tá entendendo direito. – Eu quase me deito em cima do balcão, sussurrando, porque é isso que as pessoas fazem quando querem parecer super sérias e não podem imitar a mãe do outro porque provavelmente até ela tem medo da Super Verruga mutante cabeluda. — Eu preciso falar com o Oscar. É o caso mais urgente de todos os casos urgentes. Uma desgraça pode acontecer. Todo o futuro da humanidade está em jogo, sabia? Da humanidade inteirinha!
É claro que eu só falo a verdade. Imagina como a humanidade vai ficar totalmente arrasada se eu tiver um troço por causa desse maldito vírus alternativo e morrer esperando nessa sala cafona!
Mas Glória, a insensível, possível futura culpada da maior das desgraças desde a Terceira Grande Guerra Mundial, só franze o nariz pra minha cara.
— Espere na fila, por favor.
Apesar da tentação de botar Gezebel pra beliscar o falso nariz arrebitado de Glória, eu coloco a lagosta de volta na sacola e me sento em uma dessas cadeiras geladas que quase congela o meu traseiro. Por que o ar condicionado daqui precisa estar sempre tão forte? Vai ser realmente desagradável eu acabar pegando uma hipotermia enquanto espero ser atendida pra não morrer.
De qualquer jeito, não importa. Eu vou conversar com o Oscar, ele vai me passar a receita de algum remédio cheio de lactobacilos vivos e eu vou sobreviver à mais essa provação do meu sistema imunológico com toda a minha honra, glória e sedução, enquanto Isaac se desimpirulita lá pro diabo que o carregue pra espalhar o seu vírus nojento e encontrar o homem das neves e seu exército de pavões superdotados. Final feliz pra todo mundo.
As outras pessoas na sala de espera não dão a mínima pra mim e fico feliz que pelo menos elas não são capazes de sentir a minha doença na atmosfera. Mas os dois gatos gordos, que provavelmente comem melhor do que eu e tomam muitos mais banhos, ficam me encarando, de olhos cínicos, como se pudessem ver a minha data de validade e rissem da minha vã esperança em sobreviver. O outro paciente, um espécime de cachorro com um abajur virado na cabeça, que provavelmente deve servir como mobília, é mais educado e depois de me dar uma olhada com a língua pra fora prefere prestar atenção na televisão, provavelmente imaginando se a mulher do tempo está falando alguma coisa sobre ser uma ótima temporada pra esfregar a barriga peluda dos amigos. Por isso eu sempre gostei mais de cachorros. Eles não se metem na aura de desgraça dos outros.
Demora pelo menos quarenta minutos até que chegue a minha vez e, quando o último gato gordo e branco vai embora – me dando um olhar de desprezo na saída, aquele dissimulado – eu me apresso pra dentro do consultório.
— Só um minutinho, por favor! – Oscar grita lá da porta do seu banheiro particular. Eu sento em cima de uma das macas com cheiro de cachorro, com Gezebel só simpatia beliscando o que sobrou da sacola no meu colo.
— Muito bem, desculpe-me pela demora, o que eu... — Doutor Oscar sai secando as mãos e, quando me vê, o sorriso de obrigação que todos os médicos dão pros pacientes se desfaz automaticamente. – Meu Deus, você.
A voz dele é exatamente igual à da minha irmã no telefone. Vou ter que reservar qualquer dia desses pra explicar pra certas pessoas, com uns gráficos e slides, o quanto a minha presença é uma dádiva divina e única do destino, e eles deveriam é ficar dando pulinhos de felicidade e abrir champanhe toda vez que têm a honra de me encontrar por aí.
— Oi, Oscar! – Eu sorrio, mais fofa e inofensiva do que um dinossauro banguela.
— O que você veio fazer aqui? – ele pergunta, semicerrando os olhos. Dá pra ver a desconfiança brilhar na sua careca precoce.
— Eu tenho uma emergência e só você pode me ajudar.
Oscar continua agarrado na maçaneta do banheiro, como se pretendesse fugir e se trancar lá dentro.
— Vim em missão de paz, de verdade – levanto os dois dedos, pra reforçar minha boa intenção.
Talvez fosse mais fácil ser levada a sério se eu não tivesse vindo semana passada com o Isaac em uma coleira e implorado pra que aceitassem sacrificá-lo. E nem ter tentado subornar o Oscar com dois reais pra conseguir autorização pra fazer uma radiografia cerebral depois da prova de matemática espacial, quando ficou claro pra mim que minha burrice só podia ser culpa de um tumor cerebral do tamanho de uma lata de doce de banana. E nem ter ameaçado o Oscar com uma raquete elétrica de tênis quando ele não quis me dar os exames.
— Eu trouxe até um bichinho dessa vez. – Eu levanto a lagosta pra ele e ela belisca o ar, abanando as garras. – Olha, ela tá dando tchauzinho, acho que gostou de você!
Oscar olha da lagosta pra mim e de mim para a lagosta, hesitante. A tensão dentro do consultório dura instantes ínfimos até que Oscar finalmente vacila e se deixa levar, abrindo um sorriso – pra lagosta, não pra mim, que fique claro – e respondendo o tchauzinho da Gezebel.
– Que pequena bonitinha você conseguiu – ele diz, se aproximando aos poucos, como se a qualquer instante eu pudesse pular, jogar a lagosta na sua cara e atacar o seu pescoço com os dentes. Ele se inclina e alisa com cuidado a cabeça cascuda de Gezebel. – Como vai, amiguinha? Como vai você? Hen, bonitinha? Sua bonitinha. Bonitinha mais bonitinha!
A lagosta se empertiga toda enquanto Oscar disserta no dialeto do ai-que-bichinho-fofo, cheia de manha.
– Viu, a Gezebel gostou de você – eu digo enquanto ela tenta beliscar a manga do jaleco dele.
– Oh, e você colocou o nome da mamãe dela! – Os olhos de Oscar brilham de empolgação.
Ah... Claro! Por isso o nome soava tão familiar! A mãe do Oscar também se chama Gezebel.
Eu não tenho o coração pra contar que foi sem querer, então deixo Oscar acreditar que sim.
Oscar por fim suspira alto e encosta na sua mesa de médico, como eu imagino que a Giovana também tenha lá onde ela foi morar. Só espero que o consultório dela tenha menos fotos de gatinhos e pôneis com frases de auto-ajuda nas paredes.
— Muito bem, o que aconteceu, Sofia? Não é sobre melecas brancas outra vez, é? Já conversamos sobre isso. Sua mãe sabe que você está aqui?
— As melecas vão bem, obrigada, e mamãe está no trabalho ainda, mas se quiser posso falar mais tarde que você mandou um beijão bem grande.
Oscar fica cor-de-rosa no mesmo instante e se levanta, desconfortável, de repente parecendo ter uns dez anos e não três longas décadas cheias de reumatismo e que ainda moram com a mãe que tem nome de lagosta.
— Não, não, você não... — Ele anda de um lado pro outro e olha incerto pra lagosta, procurando ajuda. — Ou... — Olha pra mim. — Não, não precisa incomodar Raquel com isso. Não tem necessidade. De forma alguma...
É muito esquisito ouvir alguém chamar minha mãe de Raquel e não só de “mãe”, como manda a lei do universo. Também foi bem esquisito quando Oscar e Gezebel – a mãe dele, não a lagosta — se mudaram pra casa vizinha e ele começou a sair com a minha mãe. Porém, como uma boa pessoa madura e adulta, eu já consegui superar esse trauma terrível. Ele ter me dado autorização pra radiografia e pra mais uns doze exames laboratoriais pode ter colaborado no processo, também.
No final as coisas entre eles não deram certo. Mamãe acabou com tudo depois que Oscar pirou dentro do cinema, arrancou a blusa, quebrou a tela com um guarda-chuva e foi arrastado pra fora pelos seguranças, chorando e berrando que todos daquela corporação eram monstros sem coração. Assustou todas as crianças daquela sessão e o cinema enviou pra ele no mês seguinte a conta do psicólogo infantil. Provavelmente foi uma péssima ideia levar um veterinário para assistir o remake de “Marley&Eu – O fim dos CachorroBôs”.
— Sabe, mamãe até falou de vocês esses dias – digo.
Oscar fica cor-de-rosa até à careca e às orelhas pontudas de duende. Eu não menti, na verdade. Esses dias minha mãe, Giovana via internet e eu tivemos uma dessas conversas sérias sobre responsabilidade, não deixar toalha molhada em cima da cama e parar de invadir o consultório dos outros dizendo que está com tumor, porque aparentemente não é isso o que mocinhas devem fazer.
— A sua mãe... – Oscar tenta, dando uma volta pelo consultório com as mãos enfiadas nos bolsos do jaleco, com uma postura tão natural que parece estar usando calças quatro vezes menores do que deveria, com um bônus de gelatina gelada enfiada no traseiro. Ele dá uma fungada como quem não quer nada e começa de novo. — A Raquel, por acaso... Sabe se ela... Ela não, sabe... Ninguém...
— Ela não tem saído com ninguém, não. Desde aquele cara do programa de esportes da TV. Mas comprou um livro de receitas novo. Tenho rezado bastante por dias melhores.
Quando contei pro Oscar sobre o novo pretendente que tinha seu próprio horário na televisão aberta pra ficar contraindo o bumbum em roupas justas e brilhantes por meia hora, era quase dois metros mais alto que eu e moreno como a miragem do pecado em pleno deserto da perdição, o veterinário apareceu no consultório desfilando um bronzeado artificial e quebrou o pé tentando andar de bicicleta. Ficou laranja e de pé engessado por pelo menos duas semanas antes da dona Gezebel – a sua mãe, não a lagosta – conseguir fazer aquela tinta que brilha no escuro sair com água sanitária e lustra-móveis.
Pessoalmente, eu não achei justo o término da minha mãe com Oscar. Não é culpa dele se tem mais emoção do que cálcio no corpo e a maior coleção de bichos de pelúcia de toda a capital, fato reconhecido pelo ebook dos recordes. Eu já tinha até criado um nome pra torcer pelos dois. “Moscar” ia ser o casal do século.
Oscar balança a cabeça e dá outra volta pelo consultório, tentando esconder o quanto ficou aliviado, mas soltando uma reboladinha comemorativa como ele sempre fazia quando ia jantar lá em casa e mamãe resolvia pedir comida ao invés de cozinhar — já o peguei rebolando como uma odalisca das terras proibidas desossada enquanto pedia pizza no telefone. Provavelmente deve estar pensando em convidar mamãe pra um almoço de domingo na casa dele de novo. Eu adoro esses almoços, minhas papilas gustativas choram de alívio pela culinária caseira mastigável da dona Gezebel – a vizinha, não a lagosta.
— Muito bem, hm, muito bem. — Ele volta e se encosta na mesa outra vez, com um pouco contido sorriso esticado no rosto. — Então, Sofia, o que eu posso fazer por você hoje? Algum probleminha com a nossa pequena Gezebel?
— Não, a Gezebel está florescendo na primavera dos seus dias – eu garanto e Gezebel concorda no meu colo, humilde. — É um pouco mais complicado que isso.
Oscar espera pela próxima bomba que eu vou lançar, provavelmente esperando mais um pedido cheio de lágrimas sofridas por exames laboratoriais. Nessas horas eu queria ter um daqueles chips supercaros que as pessoas instalam no cérebro só pra poder jogar no Google “como convencer seu veterinário a ceder um remédio para o raríssimo e letal vírus Isaac oriundo de melhores amigos babacas que decidem ir embora”.
— Meu problema é um pouco... hmmm... maior.
Oscar estala a língua, animado.
— Ah, um cachorrinho?
— Maior. Apesar do cheiro ser bem parecido.
— Um cavalo?
Um jegue, eu diria.
— Quase isso.
— Onde você conseguiu um cavalo, Sofia? — Oscar franze as sobrancelhas, com cara de quem vai contar tudo pra minha mãe mais tarde.
— Sei lá, o preço dos imóveis baixou, qualquer um se muda pra vizinhança hoje em dia. Enfim, menos perguntas é mais progresso. O que importa é que ele me passou algum tipo de vírus que bagunçou todo meu sistema nervoso e preciso de alguma coisa que me cure, bem rápido. Vacina, antibióticos, quimioterapia, o que você tiver. Nada de ervas ou terapia com suor, eu quero a coisa de verdade.
Oscar alisa o queixo barbado, tão pensativo quanto Madame Marlene antes de entrar em transe para conectar com o papa Beyoncius XXV e fazer umas perguntas pro meu trabalho de sociologia religiosa.
— Quais sintomas você tem? Só por curiosidade.
— Palpitações. Enjôo. Febre.
Eu poderia dizer suor nas mãos, mas febre soa muito mais epidemia-internacional-ístico.
— Não parecem realmente caso de contaminação por vírus — conclui ele, pro meu desespero. — O cavalo teve algum comportamento estranho ultimamente?
— Bem... – Ele tem mancha de comida em todas as roupas possíveis, incluindo as de cama, ama comerciais de espremedores de suco, dorme abraçado com um ukulele e acordou ontem decidido a se mudar pro raio que o parta pra cuidar de aves frescas e velhos nus, sem nem me dizer o porquê. – Ele tem estado meio rebelde.
— Sabe se ele comeu alguma coisa que não deveria?
Só a comida da minha mãe.
— Talvez.
— Provavelmente são vermes. – Oscar puxa o seu bloco de receitas para escrever e fala, rabiscando. — Pode ser que tenha passado para você. Dê dois comprimidos disso pra ele, de seis em seis horas, por uma semana, e tome metade de um hoje. Só metade, entendeu? É um remédio bem forte.
Oscar rabisca, ignorando a enorme frustração que pesa nos meus ombros como um cachecol de chumbo. Apesar de não ter conseguido o que eu queria, uma pequena faísca de alegria e fascinação samba dentro do âmago do meu ser, como em todas as vezes que eu vejo o ato delicado e frágil de uma receita médica sendo escrita. Não é nada mal ter um antibiótico a mais, também, nunca se sabe quando meu corpo pode resolver entrar na moda dos problemas gástricos. Posso até guardar na farmácia de emergência do banheiro lá de casa, que o Isaac chama de suprimento médico da humanidade pro próximo apocalipse. Como se eu fosse dividir meus remédios se um apocalipse realmente acontecesse.
Preciso pensar rápido. O que eu faço agora? Não posso contar pro Oscar sobre o “Eu quero que você fique” nas minhas costelas. Na última vez que Isaac e eu fomos num dos almoços da dona Gezebel — ele se convidou, como sempre, que fique claro — Oscar se ofereceu pra bordar as toalhas de mesa do nosso casamento e puxou Isaac pra uma longa conversa séria sobre se deveríamos usar algodão ou cashmere.
Oscar pára de escrever de repente e solta um grito. Gezebel, que escorregou do meu colo, malandra, sem que eu visse, acertou um beliscão no seu calcanhar enquanto tentava decapitar os cadarços do seu sapato.
— Ah, sua pequena danadinha! — Ele ri, balançando a perna pra que ela se solte e Gezebel sacode de um lado pro outro. — Fico surpreso que tenha trago logo uma lagosta pra cá, Sofia. Não achei que você gostasse de animais.
Não é que eu não goste de animais, na verdade. É só que eu prefiro manter distância de qualquer potencial hospedeiro de uma cultura avançada de germes e bactérias desconhecidas e infecciosas. Oscar me entrega Gezebel e ela se aninha na curva do meu cotovelo, pertinho de onde o Capitão Roedor deixou sua verdade mentirosa.
— A Gezebel é diferente — eu digo. Desinfetei ela com álcool em gel assim que ela saiu do aquário.
E, em segundo lugar, se, por acaso, acontecer de eu resolver colocá-la numa máquina de lavar, ninguém da minha família vai fazer um escândalo e me atazanar nos próximos dez anos sobre isso.
— Onde a conseguiu? — pergunta, curioso.
— No Sapão do outro lado da rua. Eu ia trazer o bicho escondido no banheiro da Madame Marlene, mas ele não quis vir. Pipa tentou tirar ele com uma vassoura, mas ele mordeu, comeu metade do cabo e jogou o resto na gente.
— Minha nossa, que perigoso — Oscar fala, horrorizado. — Como acabaram as coisas? Está tudo bem?
— Está, precisei de uma hora conversando com Pipa pra convencê-la a não tacar fogo no prédio inteiro, mas acho que fiz um bom trabalho, ela parecia bem estável quando saí de lá, de qualquer jeito também roubei os fósforos, por precaução.
— Estou falando do animal, Sofia — ele me censura com um tom gravíssimo e preocupado. — Sabe dizer que bichinho era? O pobrezinho não se machucou, machucou?
— Talvez fosse um gato desses de rua. Ou um roedor grande. Sabe, peludo, dentes grandes, quatro olhos, tentáculos e tudo mais. Ele parecia muito contente quando saímos berrando. Acho que escutei ele rir ou coisa parecida.
Talvez seja a reencarnação do Capitão Roedor que escalou seu caminho privada acima pra se vingar dos humanos e das máquinas de lavar roupa.
— De qualquer jeito — Oscar diz, rasgando a folhinha da receita do seu bloco personalizado — peça pra essa menina dar uma passada aqui, antes que a mordida infeccione. Quero dar uma olhada no pobre animalzinho, também.
O pobre animalzinho devia ter uns dois metros de altura e um paladar atiçado pelo gosto da morte, mas deixo passar. Eu aceito a folha com a assinatura pomposa de Oscar no rodapé. É a primeira vez que eu realmente consigo uma receita dele, provavelmente graças ao carisma de Gezebel – a lagosta, não a sua mãe. O nome do remédio para intestinos equinos está escrito nele, caçoando da minha cara. Afinal, vou ter que me virar e buscar outra forma de arrancar essa maldita verdade errada pregada em mim e essa receita não vai me servir pra nada. Se pelo menos Oscar tivesse prescrito algo diferente...
Uma ideia passa feito brisa pela minha cabeça. Algo tão óbvio que eu com certeza deveria ter pensado antes. A assinatura de Oscar está aqui, mas o remédio que eu preciso é outro. Não tem muito mais que eu possa fazer. A não ser falsificar a receita médica!
— Por via das dúvidas, — Oscar fala, trazendo minha mente febril e criminosa de volta até o consultório. Ele vai até o armário de parede atrás da sua mesa e volta com um vidro de comprimidos coloridos para mim. — Leve esses calmantes também. Deve ser o bastante pro roedor preso no banheiro. Basta deixar alguns no chão e fechar a porta, o cheiro deve atrai-lo. Depois liguem para o controle de animais para o levarem à alguma instituição e ele possa receber tratamento especializado. Pode me ligar se precisarem de ajuda.
Enfio o frasco de comprimido na mochila. Apesar de não ser exatamente o que eu preciso, ter drogas medicinais comigo me faz sentir tão bem quanto tomar banho com o desinfetante de álcool em gel com aroma de pipoca.
— Valeu, Oscar! Você é o melhor!
Eu jogo a mochila nas costas e estou pronta para sair quando Oscar me chama mais uma vez. Encostado na mesa, ele torce as mãos.
— Hm, Sofia. A sua mãe... — pigarreia. —A Raquel... Por acaso, esse domingo... Sabe se ela... Hm, não tem nada pra fazer, tem?
Preciso parar um pouco pra revisar a agenda semanal da minha figura materna hiperativa. Além do trabalho minha mãe passa a semana pulando entre cursos de pilates, yoga, sapateado artístico, motocross e um treinamento quase militar sobre a lavagem correta de roupas brancas. Arranjar um tempo com ela é quase um feito olímpico, o que sempre me leva a pensar como ela arranja tanto tempo pra fazer nossa gororoba de almoço e me torturar pra comer aquilo todos os dias.
— Ela tá livre, sim. Depois da auriculoterapia.
— Entendo — Oscar acena com a cabeça, mais uma vez apertando a boca pra tentar esconder o sorriso que se abre de orelha à orelha. Já quase posso sentir o cheiro do almoço de domingo na casa vizinha. — Tome conta da Gezebel direitinho. E não vá pra casa muito tarde, viu?
Eu aceno, fofa e obediente, e saio do consultório, em busca de alguém com habilidades criminosas para me ajudar na minha missão. Não deve ser tão difícil encontrar uma pessoa que me falsifique a assinatura do Oscar, cheia de curvas e com uma carinha feliz no final. Eu mesma faria, mas já tentei isso tantas vezes que todos os donos de farmácia da região reconhecem de longe minha caligrafia.
Um mundo inteiro de remédios prescritos se abre diante dos meus olhos. Toma essa, Isaac! Eu com certeza vou conseguir sobreviver sem você. Além de me afogar em anti-inflamatório como se não houvesse um amanhã!
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