Notas iniciais
Hey, vai mais um capítulo. Primeiro gostaria de agradecer a todos que estão acompanhando, e todos os comentários. São muito importante. E depois peço desculpa por qualquer erro no texto, eu realmente gostaria de deixar minha história melhor a cada dia, então todas as sugestões são bem vindas. Estou muito feliz com a aceitação. Vejo vocês nos comentários. Bjs.

Às vezes eu me perguntava como seria morrer. Será que teria alguma dor? Minha doença não costuma causar mais do que algumas dores de cabeça, mas o tratamento e os remédios costumam deixar suas marcas dolorosas. Eu não sabia que tinha a doença até os 10 anos de idade, e foi de uma hora para outra, começaram as dores de cabeças, os sonhos malucos e logo vieram os desmaios. Depois de uma ressonância, o diagnóstico foi confirmado: eu era portadora do vírus KL121, um vírus que parasita o núcleo das células humanas, especialmente as do tecido nervoso e então modifica seu DNA.

No começo era difícil para mim como uma coisa tão minúscula iria me matar aos poucos. Os médicos diziam que dificilmente eu passaria dos doze anos, e tudo que o tratamento podia fazer era retardar o desenvolvimento da doença. O KL121 é difícil de ser morto, nenhum medicamento é potente o suficiente para entrar no núcleo da célula sem prejudicar todo o organismo. Mesmo depois de tantos avanços médicos, de vencerem doenças como o câncer e a AIDS, o KL121 era o monstro que a medicina não conseguia vencer.

Eu tenho 16 anos, isso é 4 anos a mais do que eu deveria viver, portanto, meu tratamento é considerado um sucesso. Mas está cada vez pior suportar tudo isso. Às vezes, nos meus momentos mais depressivos só quero que tudo isso acabe. Mas então me recordo dos motivos que tenho para continuar lutando, como minhas duas irmãs mais novas (Karen, que tem 6 anos ainda, e Elise, que ainda é um bebê de colo) e meu pai, John Ellis. O homem mais forte do mundo, que cuidou de nós três, que cuidou de mim na minha doença sem se abater, após a morte de minha mãe.

O vírus também a levou pouco depois do nascimento de Elise. Eu pensei que iria primeiro, já que minha doença foi descoberta antes , para minha mãe foi tão rápido. Menos de dois anos, e a perdi. E todos os dias eu tenho medo que alguma de minhas irmãs também sejam infectadas. O contágio do vírus acontece pelo ar, mas nem todas as pessoas desenvolvem a doença. Na verdade os índices são muito baixos, o que me tranquiliza, mas não o suficiente.

O barulho constante da máquina de ressonância vai bagunçando meus pensamentos enquanto o exame se estende. É a quinta vez essa semana, e apesar de os médicos não quererem falar nada, sei que há alguma coisa errada no meu quadro. Tudo que faço agora é olhar para cima, para o branco doentio daquela máquina. Mas logo sou puxada para fora. Em minha volta estão meu pai e a equipe de médicos. Todos eles estão muito sérios, o que me assusta. Mas não ouso perguntar o motivo.

― Como você está, Haven? – Drª. Michelle pergunta, com aquele sorriso de pena nos lábios que me irrita desde que ela assumiu meu caso.

― Fora o fato de estar morrendo... Bom, estou ótima. – Minha resposta vem um pouco seca de mais.

Não quero ser grossa, mas ela me irrita. Talvez não seja ela, seja a doença ou o tratamento, e acabo descontando tudo isso na médica. Michelle sempre tem aquele ar superior por trás dos óculos quadrados e pequenos que sempre usa. Uma mulher por volta dos quarenta anos, os cabelos loiros estão cortados um pouco acima do ombro. Ela seria alguém bonita, se não se escondesse por trás de um jaleco e pranchetas.

Com ajuda de um enfermeiro, levanto-me da maca, um pouco tonta. Estou verdadeiramente ansiosa, fico assim toda vez que tenho que me internar para um tratamento intensivo. E a maneira como os médicos cochicham à minha volta e me olham me fazem crer que tem algo muito errado.

― Gerard, leve Haven para o quarto. Irei me juntar a vocês quando tiver o resultado dos exames. – Michelle se dirige ao enfermeiro.

Quero ir andando, não estou mal o suficiente para necessitar de cadeira de rodas, mas eles não me deixam. Tenho que seguir o protocolo. Na sala de exame, os médicos começam a discutir e debater, ouço algo como “o vírus está ficando mais resistente aos medicamentos”, e então, à medida que avançamos o barulho vai se tornando menos intenso até desaparecer.

Gerard abre a porta do quarto, e meu pai assume o controle da cadeira, assim que entramos no quarto. Ele me ajuda a me deitar na cama, eu agradeço internamente por ele estar aqui, mas falo ao contrário.

― Você deve ir ficar com as meninas. Estou bem aqui. Logo irei para casa.

Ele me encara como se eu tivesse falando algo muito absurdo. Um olhar típico de meu pai que tinha o poder de me deixar desconcertada. Desvio o olhar e acabo rindo daquilo.

― Anna está com as meninas, e elas estão bem. – Meu pai responde ajeitando o cobertor em volta de mim.

Gerard está ali parado, então pigarreia, como se quisesse chamar atenção para si. Dos enfermeiros que eu conhecia aqui no Centro Médico de Frattey, era o mais velho. Os cabelos já grisalhos e a pele enrugada mostravam as marcas do tempo, e ele tinha sempre um sorriso bondoso. Eu gostava especialmente daquele enfermeiro.

― Eu vou tomar um café. Se a Drª. Michelle chegar, por favor não diga que eu a deixei sozinha. – O homem brinca, fazendo meu pai e eu cairmos na risada. Logo ele deixa o quarto.

Ficamos eu e meu pai, ali, sozinhos, ele se senta na cama ao meu lado e começa a acariciar meus cabelos. Queria que ele não tivesse que passar por isso de novo. Ele amava minha mãe, e ela se foi. Minha vez poderia ser em breve... Isso não era justo.

― Anna tem sido uma grande amiga, não é? – Provoco, tentando espantar os pensamentos tristes.

Anna é uma antiga amiga da família. Trabalhava junto com minha mãe na escola, as duas davam aula; minha mãe para o Jardim de Infância e Anna para o colegial. Após a morte de minha mãe Anna sempre esteve perto, ajudando meu pai no que eu podia. Intimamente eu queria que os dois ficassem juntos, ela o apoiaria depois que eu partisse.

― Uma amiga valiosa, sim. Você sabe disso, Haven. – Ele responde com um sorriso, e eu sabia que aquela conversa encerraria antes mesmo de começar.

Conversamos um pouco sobre o aniversário de dois anos de Elise que seria dali a alguns meses. Digo que farei um bolo e então, sem perceber, estamos fazendo planos para uma festa. Logo somos interrompidos por Michelle e seu bando, quando esses entram no quarto. Michelle está acompanhada de dois outros médicos. O primeiro é um velho conhecido meu, o Dr. Matthews. Ele está acompanhando meu caso desde o começo. Sério e carrancudo, parecia muito mais velho do que era, tinha os olhos negros em fendas e os cabelos da mesma cor. O segundo eu não conhecia, mas uma coisa eu sabia, ele era jovem demais para ser um médico.

O rapaz moreno de olhos escuros me encarava com curiosidade. A maioria dos novatos me olhava assim, com a curiosidade de saber como eu vivi seis anos com a doença, um recorde entre os portadores do vírus. Mas ele era diferente, ele parecia me admirar por trás daquela expressão.

Minha atenção voltou à realidade quando a Drª. Michelle começou a falar:

― Haven, querida... Eu sinto muito em ter que falar isso, mas seu quadro está piorando. O vírus está mais resistente ao nosso tratamento.

Ouço aquilo calada, olhando somente para a médica. Não quero ver a dor nos olhos de meu pai. Sei que aquelas palavras são as mesmas que ele tinha ouvido há um ano e meio atrás um pouco antes de minha mãe morrer. Ele aperta minhas mãos, e sinto sua força. E sinto raiva daquele circo todo. Eu já tinha aceitado minha morte, então por que aquilo? Porque machucar as pessoas que eu amo?

―Tudo bem... Posso pelo menos morrer em casa? Eu ficaria feliz...

Minhas palavras são duras, mas não me importo e nem me incomodo com isso. Todos ali na sala me olham, e todos têm pena em seus olhos. Com exceção do médico mais jovem, tenho a impressão de vê-lo rir de mim.

― Eu gostaria de deixar que fosse, mas não posso. Vamos tentar nossa última cartada, vamos dobrar as doses dos medicamentos, e começar um tratamento mais forte.

Dou de ombros àquelas palavras. A maneira como ela diz aquilo é como se ela tivesse certeza que não iria funcionar, e todos sabiam disso. Meus olhos estão agora sobre o médico mais jovem, e vejo sua expressão se contorcer com aquilo.

― Tudo bem, só quero ficar sozinha por um momento, ok? – Peço.

Meu pai reluta antes de deixar o cômodo. No entanto ele vai, como os outros. Eu fico sozinha como eu queria e tento esvaziar minha mente, respirando fundo, mas aquilo me faz sentir o cheio de antisséptico e medicamentos e eu não gosto daquilo. As paredes do quarto do Centro Médico são brancas e vazias, e me fazem lembrar meu futuro, tão branco e vazio. Não sei por quanto tempo ficarei lá com meus pensamentos bobos antes que ele entre no quarto.

― Eu pensei que tivesse claro que eu queria ficar sozinha. – Reclamo, e sou completamente ignorada.

O médico está mexendo na minha bandeja de medicamento, lendo rótulos como se tivesse procurando por alguma coisa.

― Eu não pensei que eles fossem tentar isso tão rápido. Não temos tempo para conversar. Você vai ter que vir comigo. – É tudo que ele diz.

― Ir aonde? – Aquilo não faz sentido, estou confusa, e fico ainda mais quando ele começa a jogar todos os comprimidos no lixo.

― Você tem, no máximo, 48 horas de vida antes que eles te matem com uma overdose de medicamentos altamente letais. Eu estou tentando salvar sua vida, dá para parar de reclamar e vir comigo? Aliás, nem doente você está, então pare de se fazer de vítima. – Ele diz, sem olhar para mim, e de forma rude.

Não entendo uma palavra do que ele quer dizer. E nem me dou o trabalho de tentar entender.

― Você deve ter problemas mentais. E nem idade para ser médico tem. Meu deus!

Ele revira os olhos e se coloca à minha frente.

― Haven, deixe de ser a garota mimada que você é, pelo menos uma vez na vida. Eu não tenho tempo para explicar muita coisa, mas esses médicos não estão te tratando, eles estão te matando. Eles querem eliminar o vírus a qualquer custo, e estão matando todos os portadores.

Absorvo cada palavra com a mesma incredulidade do começo. Não fazia sentido eles quererem matar os portadores. E se isso fosse verdade... Minha mãe. Era tão impossível que eu comecei a rir.

― Tudo bem, se isso for verdade, por que você não está do lado deles, por que quer me salvar se seus colegas médicos querem me matar?

Ele parece achar a pergunta justa, quando sorri. Tira o jaleco branco e se vira, sentando-se de costas para mim ao lado de minha cama. Então eu a vejo, a pequena cicatriz na base de sua nuca, uma linha fina que marcava os primeiros estágios do tratamento, quando os medicamentos eram injetados diretamente no sistema nervoso.

Eu tinha uma exatamente como aquela.

― Eu sei disso por que eu também sou um portador, Haven.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.