O Véu

1 Capítulo único


O silêncio na Sala da Morte era quase absoluto. Só não era completo porque o Véu, aquele arco antigo de pedra, com um tecido translúcido que jamais parava de ondular, murmurava. Não como vento entre folhas, mas como vozes abafadas por tempo e magia. Vozes que pareciam querer ser ouvidas e que ninguém ousava escutar de verdade.

Hermione estava imóvel diante dele, varinha baixa, respiração contida. À sua esquerda, Draco Malfoy permanecia em igual silêncio, as mãos escondidas nos bolsos da túnica preta do Departamento de Mistérios. Apesar da postura controlada, os ombros denunciavam tensão. Ele também sentia, o chamado, a presença, o perigo disfarçado de sussurro.

Ambos haviam sido designados pelo Ministério para investigar um novo comportamento do Véu. Desde o fim da guerra, ele parecia reagir a certos tipos de magia emocional, especialmente quando conjurada por bruxos com vínculos afetivos fortes ou passados turbulentos. Hermione fora escolhida pela precisão intelectual. Draco, pela conexão inusitada que desenvolvera com a estrutura em testes anteriores.

Fazia semanas que trabalhavam juntos. Observando, anotando, lançando feitiços simples, mantendo distância. Sempre racionais, sempre contidos.

Mas naquela tarde, algo mudou.

Um estalo súbito no ar, como eletricidade mágica.

O tecido do Véu se agitou de forma violenta, parecendo que uma ventania soprara de dentro para fora. Uma onda de magia reverberou pela sala, fazendo os ossos vibrarem.

Hermione deu um passo à frente, levada mais por instinto do que por razão. Ao seu lado, Draco ergueu o braço como se para segurá-la, mas parou no meio do caminho, os olhos fixos no tecido ondulante, agora brilhando em tons prateados.

E então, juntos, como se arrastados por uma força invisível, eles foram puxados para dentro.

.

Hermione viu luz.

Não era a luz mágica e fria dos corredores do Ministério, era dourada, morna, viva. Filtrava-se por cortinas de linho branco, dançando suavemente com a brisa que vinha de uma janela aberta. O ar tinha cheiro de madeira antiga, flores silvestres e chá recém-feito.

Ela piscou, confusa. Não estava mais na sala, estava em uma casa. Paredes de pedra clara, móveis simples, estantes repletas de livros misturados a brinquedos. Tudo era bagunçado de um jeito aconchegante, como se ninguém ali se importasse em esconder a felicidade.

— Hermione...

Ela se virou, o coração apertando antes mesmo de compreender por quê.

Draco estava na cozinha. Usava uma camisa branca de algodão, os cabelos bagunçados, e segurava uma caneca com uma das mãos. Havia um sorriso preguiçoso nos lábios e uma tranquilidade nos olhos que ela nunca tinha visto, nem mesmo nas memórias mais antigas, nem nos raros momentos de trégua em Hogwarts.

Não foi ver Draco que a desestabilizou. Foi vê-lo com aquele olhar, como se a amasse há anos, como se nunca tivessem sido inimigos.

— Fiz seu chá. Aquele de camomila com mel e um toque de gengibre, não é isso? — ele disse, com um tom brincalhão, quase íntimo demais. — E queimei as torradas. De novo.

Hermione tentou responder, mas as palavras não vieram. Apenas um nó na garganta, quente, espesso, impossível de engolir.

Ela se viu então, em outro ponto da casa, os cabelos presos de qualquer jeito, sentada à mesa com uma xícara entre as mãos. Estava descalça. Ria com leveza de algo que ele dissera. Parecia que a guerra nunca acontecera e carregar o mundo não fosse mais necessário.

Um barulho de passos apressados veio do corredor, e um menino pequeno entrou correndo com um dragão de pelúcia nos braços. Tinha cabelos encaracolados castanho-claros e olhos de um cinza suave, tão familiares que doía.

— Mamãe!

Hermione se abaixou antes de perceber o que fazia. Quando aquele corpinho se jogou nos seus braços, ela o segurou com força, os dedos tremendo ao afundar nos cachos macios.

Era real. Era tudo real demais.

Ela sentiu o calor da pele dele, o cheiro adocicado do sabão, o coraçãozinho acelerado batendo contra seu peito. Um peso pequeno, mas que preenchia um vazio que ela nem sabia que ainda existia.

— Theo, cuidado! — Draco apareceu na porta com um sorriso torto. — Amor, ele jurou que esse dragão voa de verdade e aparentemente, quer provar. Ele vai acabar aterrissando no seu chá!

Ela olhou para ele e, naquele olhar, viu tudo. Um lar. Uma escolha. Uma vida inteira feita de pequenas coisas. Um "nós" que nunca existiu, mas que ali, naquele lugar, era tão certo quanto a gravidade.

Por um instante, Hermione esqueceu o mundo real. Esqueceu do Ministério, das batalhas, dos nomes gravados em lápides. Ali, havia apenas a paz que ela jamais ousara desejar e Draco, não o homem que ela conhecera, endurecido pela dor, mas aquele que sorria com suavidade, que fazia chá para ela, que ria com o filho, que a amava com os olhos sem precisar dizer.

O peito apertou.

Aquilo não fazia sentido. Não podia estar sentindo aquilo.

Draco Malfoy não era seu marido. Eles não eram pais. Não dividiam chá, nem filhos, nem manhãs assim. Nunca dividiram nada que não fosse dor, desconfiança, sobrevivência. E ainda assim…

Por que aquela cena parecia tão certa? Por que seu corpo reconhecia aquela casa, aquele toque, aquela rotina? Por que, Merlin, aquilo parecia amor?

Ela tentou racionalizar. Era uma projeção. Um truque do Véu. Um reflexo de desejos subconscientes. Mas a voz da razão soava distante, abafada.

Ela e Draco. Draco e ela. Seria possível? Teria sido em outro tempo? Em outra guerra? Ela não sabia e o não saber doía mais do que qualquer certeza.

Ela olhou para o menino. Para Draco. Para si mesma sorrindo naquela mesa com o cabelo mal preso e os olhos calmos. Por um instante, quis acreditar. Quis ficar. Quis descobrir se aquela vida poderia ser real.

Mas então o chão tremeu, o ar se partiu, e a luz desapareceu.

.

Quando Hermione abriu os olhos, o mundo parecia mais opaco.

O Véu estava imóvel e silencioso, como se jamais tivesse se movido.

Ela estava no chão, os joelhos fracos. Draco também, a poucos passos, com a respiração entrecortada e os olhos fixos no vazio parecendo tentar se agarrar a qualquer lógica que restava.

Por um instante, não disseram nada e só o som das respirações preenchia a sala, ofegantes, pesadas, quase sujas. Pareciam ter emergido de um mergulho longo demais.

Hermione queria falar, mas a garganta estava seca.

Draco passou a mão no rosto, uma vez, duas e só então se virou para ela.

— Você viu alguma coisa?

Hermione demorou a responder. Ainda sentia o cheiro do chá, a sensação do abraço, o toque do menino chamando-a de mãe. Ainda sentia o olhar de Draco nela como se a amasse.

— Vi — disse enfim, sem encará-lo.

Draco não perguntou mais, só assentiu, quase imperceptível.

Ela se obrigou a continuar, mesmo que cada palavra parecesse pesada demais.

— Talvez o Véu reaja aos nossos desejos. Às coisas que mais queremos ver. — a voz falhou no fim, e ela odiou o quanto aquilo soou íntimo. Vulnerável.

Draco virou o rosto devagar para ela, com um arquejo sutil nos lábios, parecia ter ouvido mais do que o que foi dito.

— Então... — ele começou, e fez uma pausa significativa. — Quer dizer que você me deseja, Granger?

Hermione o olhou, incrédula. As bochechas coraram contra a própria vontade.

— Draco... — ela começou, com um tom de advertência contida.

— Não precisa negar — ele deu um meio sorriso. — Confesso que fiquei surpreso com a casa ensolarada. Achei que, se um dia eu fosse entrar na sua cabeça, ia estar cercado de bibliotecas flutuantes e códigos de ética mágica.

Ela balançou a cabeça, nervosa.

— Isso não é engraçado.

— É um pouco — ele respondeu, com suavidade, mas seus olhos não sorriam. Estavam escuros, sérios, pareciam carregar algo que ele não conseguia nomear.

Hermione mordeu o lábio. Aquilo não era como as outras provocações. Não era um jogo.

— Eu não sei o que aquilo foi — confessou. — Mas me assustou. Parecia… certo. Como se já tivesse acontecido. Como se fosse meu.

Ele ficou em silêncio. Longo demais.

Hermione continuou, num tom quase inaudível:

— E se foi só uma ilusão? Algo criado a partir de uma possibilidade tão remota que nunca se realizaria?

Draco finalmente falou, sem encará-la:

— Pode ser. O Véu trabalha com coisas que a gente não entende. Tenta nos dobrar pelo que queremos, ou pelo que não queremos admitir.

Ela ficou olhando para as mãos, lutando com as palavras. Então arriscou:

— E se, no fundo, aquilo só apareceu porque, de alguma forma, nós dois queríamos?

O silêncio que se seguiu foi quase insuportável.

Draco passou a mão nos cabelos, frustrado.

— Talvez. Ou talvez o Ministério esteja nos mandando cedo demais pra esse departamento maldito.

Ela riu, uma risada curta, nervosa, quase triste.

— Não é racional. Nenhum de nós dois faria parte da vida do outro desse jeito.

— Não nos livros de História — ele disse, por fim. — Mas o Véu não liga pra isso, não é?

Hermione olhou para ele. Pela primeira vez, de verdade e o que viu não foi o menino que zombava dela nos corredores, nem o Comensal hesitante, nem o parceiro de pesquisa frio. Foi o homem que ela vira sorrir para o filho. Que a chamara de amor.

Quis perguntar se ele sentira o mesmo. Se lembrava de cada detalhe, se sentia falta daquela casa que nunca existiu. Mas não perguntou, porque não saber era mais seguro do que ouvir uma mentira. Ou uma verdade.

.

Mais tarde, ao sair da sala, Hermione parou no corredor.

O chão de mármore sob os pés estava frio, sólido, real. Uma realidade que não se movia, não sussurrava e que não oferecia visões de casas iluminadas nem de meninos chamando-a de mãe.

Sentiu o cheiro do café velho vindo da sala ao lado. Um cheiro comum e seguro.

Atrás dela, Draco parou. Ficou um passo atrás, parecendo não saber se devia tocá-la. O que tinham visto parecia algo frágil demais para ser nomeado.

— Você vai esquecer o que viu lá? — ele perguntou, a voz baixa e rouca.

Ela não respondeu de imediato. Seus olhos se perderam no chão, tentando buscar ali uma resposta que não sabia se queria encontrar.

Na visão, ela sorria com facilidade. O coração era leve. Draco era gentil. Familiar. Havia amor ali. Um amor que não machucava. Aquilo a desconcertava mais do que qualquer maldição.

Por que o Véu teria mostrado justamente isso? Por que aquele futuro impossível parecia mais natural do que qualquer presente que já tivera?

Ela não sabia se era desejo ou arrependimento ou apenas a solidão de duas pessoas que sobreviveram aos próprios destroços.

Virou-se devagar.

Draco estava parado com as mãos nos bolsos, parecendo querer esconder algo. O rosto sério, mas os olhos diziam mais do que ele deixaria escapar em voz alta.

Hermione o encarou por um longo momento.

Ela queria dizer que não fazia sentido. Que aquilo não era real. Que não poderia amar alguém que fora tantas coisas erradas. Que não deveria desejar uma vida inventada por um feitiço antigo. Mas também queria dizer que, pela primeira vez em muito tempo, algo dentro dela tinha se aquietado. Parecia que o universo, por um instante, tivesse mostrado o que poderia ter sido, se não tivessem começado do lado errado da história.

Queria correr. Queria ficar. Queria esquecer. Queria lembrar.

— Nunca. — disse, por fim.

Draco assentiu lentamente. Não insistiu e não tentou entender. Ele também parecia preso entre o medo de acreditar e o receio de esquecer.

E então ela se virou. Sem adeus. Apenas passos firmes sobre o mármore. O som dos sapatos ecoando como batidas de um coração contido.

Atrás deles, o Véu continuava a sussurrar.

E por um segundo, só um, Hermione achou que tivesse ouvido aquela mesma voz da visão.

"Mamãe."

Quando olhou para trás, não havia nada. Só Draco, parado diante da Sala da Morte, encarando o vazio como quem tenta decifrar o futuro. Ou desejar que ele mude.

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