O Unicórnio de Um Coelho
36 Em algum momento do tempo.
Notas iniciais
Depois de exames e tratamentos por semanas, Jack estava consideravelmente recuperado e voltou à rotina de estudante antes que perdesse o ano. Francis também retornou. E era diferente.
O coelho não tinha tempo sobrando. Com as aulas de reforços e compromissos médicos, os jogos ou encontros com os amigos não aconteciam mais, ele raramente conseguia, no mínimo, assistir algo fora do colégio.
Francis sabia que ele estava sobrecarregado, mas não podia fazer muito sobre isso além de não atrapalhá-lo mais. Contudo, Bianca agia por alguma razão desconhecida. Ela costumava chamar Francis e mantê-lo no meio do grupo de amigos, o que sempre incluía Jack, e os dois garotos, volta e meia, acabavam próximos, mas o coelho não chegava a trocar uma única palavra com ele ou um olhar, e essa reação não motivava em nada o unicórnio.
Graças à popularidade do acidente, Francis conheceu Evan e Nicolas, que eram da sua sala, e estranhamente ele tinha suas próprias companhias além de Miriam o distraindo. Mas sempre, sem evitar, o garoto observava Jack, vigiando-o enquanto sua coragem começava a desaparecer dia após dia, fazendo Jack se tornar um rapaz como os outros, que não o notava.
— Você devia tomar alguma coragem e ir de uma vez — avisou Miriam, o acompanhando em um almoço no colégio, antes das atividades da tarde.
— Não consigo... Depois de tanto tempo... E-eu não consigo chamar a atenção dele — respondeu frustrado, encarando Jack ao longe com alguns colegas, expondo-se tão normal e são vivendo bem sem ele. — O jeito que ele age, me faz... sentir que é errado forçar a historia na cabeça dele... E eu não quero estar errado com ele.
— Ei! Não chore aqui, Francis, por favor. Desculpa! — pediu a menina sentada ao lado dele, esfregando seu ombro para confortá-lo.
Ele apenas fechou os olhos, contendo-se com um inspirar fundo. A verdade era que já estava ficando sem saída e tempo com a formatura do terceiro ano chegando, estava triste demais para reunir forças. Logo ouviu uma movimentação na mesa e olhou para a garota de cabelos escuros e olhos verdes que se sentou na frente dele. Era Bianca.
— Ainda é pelo Jack? — ela perguntou com dó.
Miriam assentiu, apesar de não ser amiga da outra a conhecia, e acrescentou: — Ele está perdendo a coragem de falar com ele.
Bianca encarou Francis.
— Essa novela não pode acabar assim. JACK! — a voz dela ecoou e sobressaltou Francis, imediatamente o coração dele disparou. Depois de encará-la, ele olhou para o coelho, o rapaz não parecia ter a ouvido, mas a garota ficou de pé — Jack! Vem aqui rapidinho! — e ele notou-a, confuso.
— Não acredito que fez isso com o Francis... — Miriam disse baixo, assistindo tudo. — Respira, Fran, respira! Mantenha a calma que ele está vindo.
O unicórnio, surpreso, observou toda a aproximação até quando o coelho acomodou-se ao lado de Bianca na mesa deles:
— O que foi?
Suspenso depois de ouvir a voz dele, Francis apenas o olhava cheio de saudade e ansioso por mais, apesar de Jack não o observar, interessando só em saber por que foi chamado.
— Sabe o Francis? — e o coelho finalmente o olhou, o menino sorriu de leve, aquecendo-se, e o moreno assentiu antes de voltar sua atenção a Bianca. — Ele é apaixonado por você.
O unicórnio encarou a garota, corando mais intensamente e com as mãos suando. Ele não estava preparado para defender seu sentimento cara a cara com aquele que o estava ignorando há dias. E em nenhum momento Francis usou aquela frase para convencer Jack da historia deles, apesar de saber que Grace e até David já a usaram quando tentaram ajudá-lo, mas não funcionou.
— Eu sei — respondeu sem emoção. — Todos vocês que vivem perto dele já me disseram isso. Mas ele, não. Então, não me importa.
Ele estava tão indiferente e esquisito, que todos encararam Jack enquanto ele fez silencio, olhando apenas Bianca.
— Ah! Jack! Olha a reação dele! — Miriam apontou, vendo pela primeira vez o tratamento diferente que Fran dizia. — Como não sente nada? Não percebe o que está fazendo? Como está o deixando passar por isso? Sabe o quanto ele sofreu? Tudo que ele passou? Você era a melhor coisa que ele tinha!
Coelho e Unicórnio se encararam, houve uma hesitação na expressão do mais velho, então, subitamente, ele engoliu em seco e encarou a mesa com uma ruga se formando entre as sobrancelhas.
— Isso me irrita — resmungou baixo, passando a mão nos cabelos. — Vocês dizendo essas coisas. Minha mãe com esperanças... Eu não entendo como. Não lembro... Não sei o que devia fazer. E tem tanta coisa acontecendo. — suspirou, se levantando, e olhou Francis, negando com a cabeça. — Sinto muito. Você parece... legal, mas...
O rapaz, com mais um balançar de cabeça, foi embora sem concluir.
Era como ter o coração embrulhado de forma que qualquer som seria abafado no plástico e só restasse esperar o ar acabar para se sufocar. Entretanto, Francis tinha visto um sinal de confusão e algum sentimento ao se encararem. Depois de tanto tempo, imaginou que talvez o coelho estivesse agindo contrario ao que sentia, pois não sabia por que tinha aquele sentimento e ainda havia seu plano para o ano seguinte, onde pretendia se afastar de tudo e todos daquela cidade. Jack estava seguindo pelo caminho que conhecia, pisando em cada etapa que planejou e insistindo nesse plano, pois era seguro. Restava a Francis escolher se iria ou não entrar na frente dele bruscamente para mudar tudo, enfrentando as consequências. Mas havia a possibilidade dele estragar as coisas...
— ‘ta tudo bem? — Miriam perguntou, mas ele não respondeu.
— Sabe que vai perdê-lo se não fizer algo. Isso ficou bem claro. — Bianca falou, aconselhando Francis. — Ele cansou de ouvir dos outros uma coisa que deveria vir de você. E depois disso acho que mesmo que você dissesse diretamente para o Jack, não vai mais causar o mesmo efeito, porque ele foi forçado a te alertar e já deu uma resposta.
— M-mas...
— Devia ter falado diretamente desde o começo, confiando em si e então ele confiaria em você.
— Eu vou!
— Não agora! Ele está bravo — Bianca o segurou. — Ouça. Vai ter um acampamento dos formandos... — Francis encarou a garota, recordando do dia da sua apresentação de teatro quando Jack o distraiu com aquele assunto, falando que o levaria e ficariam sozinhos. — Será em um feriado prolongado e longe daqui. E você vai com a gente. Vai ser uma boa chance para se aproximar de Jack, e ele não vai estar tão estressado e com bastante tempo livre.
Após isso, Francis esperou ansiosamente que o momento chegasse.
***
— Não andem sozinhos no mato. Nem você, nem seu irmão — Aconselhou Kelly, ajudando Francis a colocar a mala no compartimento do ônibus. No fundo, ela estava preocupada com seu caçula. — E tente ajudar David. É uma responsabilidade grande ser um monitor disso.
O unicórnio assentiu, empolgado, mas ele sabia que aquela função do irmão era apenas por ele ter o respeito ou medo da maioria dos rapazes.
Após se despedir, Francis arrumou um lugar no meio do veiculo, ao lado da janela, e esperou que todos arrumassem um lugar. Em pouco tempo quase todos os assentos foram ocupados, mas o mais destacado era aquele do lado do unicórnio, onde ninguém quis sentar, talvez, porque ele fosse um intruso no grupo cuja fama foi espalhada por anos pela boca de David.
— Eu chegaria mais rápido com o carro e você também — ouviu a voz dos dois últimos alunos que vinham no corredor do ônibus.
— Para de reclamar! É tarde para isso! Anda logo — era David.
— Ai! Não chuta meu calcanhar, idiota! — Jack surgiu num tropeço. E o monitor que vinha logo atrás dele o empurrou para passar bruscamente e ir se sentar ao lado de Bianca, uma fileira mais ao fundo. O coelho então olhou para o único lugar vago no ônibus. Sem expressão, encarou Francis de volta e apenas se sentou sem falar nada.
Na maior parte do inicio da jornada, Jack distraiu-se participando da conversa com os amigos que estavam nos bancos de trás e ao redor. Francis, apesar de isolado, estava satisfeito, pois tinha cenas de camarote, como quando Jack ajoelhou no banco e foi brigar e discutir com alguém que sentava atrás, e o mais novo apenas distraiu-se com os contornos do jeans bem ao seu lado. Contudo, voltou para a realidade quando, na volta, ganhou uma cotovelada na cabeça do moreno que ria.
— Desculpa! Foi sem querer — disse Jack, já esfregando a área enquanto sorria de leve. Francis congelou, encarando-o surpreso, e seu coração agitou-se. O coelho também percebeu e parou. Os dois se olharam até que Jack corar sutilmente, percebendo que não falava com aquele menino e nem mesmo já havia o tocado próximo de intimo daquela forma, então se virou para outro lado, ouvindo as conversas, dissimulando.
***
— FRANCIS! — E o menino tremeu ao ouvir o irmão gritar seu nome tão de repente. Estava distraído com o telefone quando o ônibus parou no posto de gasolina para todos se alongarem. Ainda podia sentir o susto ecoando quando se virou para olhar para o fundo do ônibus quase completamente vazio. — Vai comprar alguns doces para nós antes que não de tempo! — mandou.
Apesar de hesitar, o menino foi até a conveniência, onde alguns colegas de viagem passeavam depois de usar o banheiro do lugar. De longe reconheceu Jack sozinho diante da prateleira de revistas e quadrinhos. Dentro dele uma voz orientou: ‘vá lá’ e ele foi, parando ao lado do coelho e, dissimuladamente, olhar as opções de revistas sem pressa. Notou Jack pegar uma e analisar a capa, incerto.
— Vai levar essa? — teve coragem de perguntar e olhá-lo.
— Não sei — o rapaz respondeu naturalmente, distraído e fez silêncio. Francis buscou algo mais para prolongar a conversa, era uma situação nova, pois estavam sozinhos e Jack não parecia incomodado. — Pensei em ter algo para ler. Três dias no mesmo lugar parece muita coisa.
Fran observou-o, atento a todas as suas palavras, mas Jack ainda mirava as revistas, sabendo que era observado, mas fingiu que não.
— A-ah... — o menino gaguejou. — Eu tenho algumas na mochila! — Jack o olhou, o azul parecia celeste e tranqüilo, mais bonito que antes. — Posso te emprestar se quiser... Sabe, daí você não precisa gastar dinheiro com alguma opção ruim.
Por uns segundos o moreno encarou-o e então surgiu um sorriso, que tirou o ar do mais novo e uma sensação feliz se acendeu.
— Certo, então. Espero serem de histórias boas.
— São sim — Fran riu bobo.
— Ok. Vou voltar para o ônibus — sem mais, Jack se foi, mas algo ficou no ar. Uma esperança.
***
A área de acampamento era numa reserva florestal, próxima de uma vila simples, com alguns pontos para serem visitados e algumas atividades, mas quase tudo lá dependia dos jovens e suas responsabilidades. Assim, o ônibus os deixou num ponto da estrada. E ver o transporte partir, desaparecendo na estrada no meio das árvores, causou certo medo em Francis, segurando sua mochila gorda enquanto observava tudo.
De repente, David soltou aos pés dele a bolsa da barraca:
— Já que a mãe mandou uma para nós dois, você leva isso. Tenho coisa demais para fazer. — E se afastou, chamando o grupo e seguindo outro monitor mais experiente que liderava mais intensamente.
O menino pensou no braço curado do acidente, o peso que aquilo tinha poderia trazer dor e ele nem sabia o quanto iam caminhar para chegar à clareira onde ficariam. Mas ajeitou sua mochila nas costas e pegou o novo peso com as duas mãos, seguindo o pessoal que não ligava para ele.
Comparada à cidade a mata era muito silenciosa e diferente. Seus sons, de brisa, folhas, insetos e animais, eram estranhos aos ouvidos do Audrey mais novo, tão acostumado com os sons incessante de seu bairro. Além disso, a falta de civilização próxima alimentava o receio de “e se precisarem de ajuda?”. Os outros alunos formandos não pareciam notar essas coisas, sempre estavam falando ou fazendo alguma coisa na caminhada e durante a montagem de suas barracas, se divertindo o tempo todo.
Sozinho, Francis tentava erguer seu abrigo aonde o irmão havia indicado ser o melhor lugar, apesar de pessoalmente o unicórnio achar que ali era afastado dos outros e muito próximo da orla da mata, mas David havia se irritado quando ele tentou contestar e argumentar.
— Vamos seguir uma trilha antes do por do sol! — alguém disse animado.
O unicórnio observou a movimentação dos que iriam e notou que diversas barracas já estavam erguidas e sólidas na clareira. Ele estava atrasado montando sozinho! Era patético. Com o olhar tentou achar o irmão para ajudá-lo, mas o reconheceu indo com Bianca e os aventureiros se embrenhando na mata.
— Ei, pode me arrumar a revista? — ouviu de repente e encontrou Jack.
Atordoado e ainda preocupado de não terminar a tempo respondeu:
— S-sim. Mas você não vai com eles?
O coelho balançou a cabeça, agia tão naturalmente e neutro que fazia Francis se esquecer que ele não se lembrava de tudo que passaram juntos.
— Estou um pouco cansado e minha mãe disse para não me esforçar demais — o unicórnio ouviu, encarando-o em silencio e apreciando a conversa. Mas não percebeu que o silencio durou muito enquanto só olhava. E o coelho expôs um fraco sorriso. — Hm. Você parece que precisa de ajuda.
— Ah, sim! Por favor.
As sobrancelhas se juntaram e o moreno ficou um pouco sério:
— Calma aí. Eu só disse que você ‘parecia precisar de ajuda’... Não que eu já estava me voluntariando. — Francis desviou o olhar, constrangido. — Sua comunicação e interpretação não são muito boas. Típico de um ansioso.
Para o unicórnio não era novidade. Simplesmente, agachou-se para pegar a lona da sua barraca, esticando uma ponta, então ouviu um riso:
— Mas eu ajudei quase todo mundo — Jack havia se aproximado e pegou uma das peças, olhando-o. — É só você falar o que quer de mim. Todos fizeram isso.
Não precisou esperar muito:
— Pode me ajudar? Por favor?
O coelho sorriu.
— Claro. Sempre, se conseguir ser mais direto comigo. — Jack já analisava a situação da barraca, mas Fran teve a sensação de que havia algo mais naquelas palavras que ele devia desvendar, principalmente pelo sutil sorriso que ficou no rosto do outro.
As horas seguintes foram como uma realidade paralela aonde eles eram amigos e a energia entre eles fluía. O coelho o ajudou a montar o abrigo, depois leram alguns capítulos dos quadrinhos, juntos e conversando sobre a história, e Francis acompanhou Jack para ajudar a montar a fogueira que ficaria num circulo de pedras grande que estavam ali há muito tempo só com aquele propósito. Todo tempo eles estavam juntos, o unicórnio até tinha se esquecido do irmão.
Quando a noite chegou, um rapaz ruivo tocava uma musica no violão e próximo da fogueira. Estranhamente, a brisa não era gélida para um lugar tão no meio da mata, era fresca e agradável graças às chamas laranja bem diante de Francis, sentado em um tronco, ou talvez a sensação aconchegante fosse porque Jack estava do lado dele, tranqüilo, assistindo e interagindo com os outros e até rindo de alguma historia ridícula, mas engraçadas.
— Então você ainda está com ele? Incrível! — David surgiu, apoiando sobre os ombros de Jack e tendo sucesso em perturbá-lo com seu peso e chegada surpresa. O soltou: — Por ter feito o que pedi, pegue isso — entregou uma cerveja para o moreno.
— Não foi tão difícil como você fez parecer — Jack respondeu logo tomando um gole.
Sem entender, Francis encarou-os, percebendo aos poucos que aquela aproximação toda foi culpa de seu irmão, surpreendeu-se.
— Que cara é essa? — David perguntou, chamando atenção de Jack para Francis, e sorriu arrogante, sabendo que o menino tinha percebido seu plano. — Parece que está ficando tenso e está quieto demais. Vai ter algum ataque de nervos agora?
O unicórnio estranhou-o, encarando David com receio e confusão. Era obvio para os dois irmãos que Francis estava muito bem, não tinha sintoma algum de pânico, nada, então do que ele estava falando?
— Eu vou pegar algo para você beber — Jack levantou-se e logo se afastou, indo até o grupo que tinhas as comidas do acampamento.
— O que você está fazendo, David? Quer me fazer de doente no meio de todos eles? Por quê?
— Que bebê idiota... — murmurou o irmão, bebendo sua lata descontraidamente. — Eu sabia que ele ia fazer isso se dissesse que você não está bem. Vocês estavam no mesmo acidente. Acho que no fundo ele sabe que não deve ter sido fácil passar por aquilo e eu não estou nem aí. Vê se relaxa e aproveita da situação. Se não percebeu, todo mundo aqui tem uma companhia, inclusive os amigos mais próximos de Jack, e ele sabe que não pode perturbar as pegações dessa ultima viagem. Então... para ele só resta ter companhia do deslocado que eu tive que arrastar.
O coelho surgiu e lhe entregou uma lata já aberta:
— Eu misturei umas coisas. Vê se relaxa — e ele sorriu fino.
Francis aceitou, lançando um olhar para o irmão que já afastava seguindo o chamado da namorada. O álcool queimou seu paladar, o amargo estava camuflado em um sabor doce bom. Engoliu e olhou Jack, que observava sua expressão ao beber. De repente, o coelho sorriu mais abertamente:
— Achei que iria reagir pior — e riu. — Mas não é sua primeira vez.
— Não — respondeu e eles ainda se encaravam, Francis acabou pensando nas tantas primeiras vezes que teve com Jack, queria poder falar sobre elas, mas o coelho não se lembraria e poderia recuar se tivessem uma conversa sobre a intimidade que não conhecia. Contudo, o mais velho fez uma expressão confusa e desviou o olhar, refletindo algo e ficando levemente mais corado. A mesma cara de quando alguém se lembra de algo que tinha esquecido. — O que foi?
Sem graça, Jack sorriu:
— Não é nada...
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