O Unicórnio de Um Coelho
32 Um plano.
Notas iniciais
Seria impossível escolher a melhor parte dos primeiros dias de férias que se seguiram depois que assumiram um namoro para os pais de Francis e o irmão dele. Mas uma das coisas que trazia uma sensação boa em Jack era ver Francis sorrir sem sentido algum em algumas situações.
— E agora porque está com essa cara? — perguntava e o menino abria um novo sorriso. No fundo o coelho sabia a resposta, porque também estava simplesmente feliz, mas tinha uma satisfação em ouvir-lo responder.
— Porque você está aqui — e Fran riu. — Parece um novo acessório do meu quarto.
O cômodo era onde eles ficavam quando a casa não estava vazia. E naquele momento Francis guardava algumas roupas nas gavetas de uma cômoda, enquanto Jack lia alguns quadrinhos da prateleira do garoto, deitado na cama de solteiro que havia se tornado mais confortável do que a sua. Após ouvir aquela resposta, o coelho deixou o sexto volume de um mangá e encarou o unicórnio:
— Isso não é nenhum elogio, Francis. Significa que você não faz nada comigo... — levantou-se determinado e o seu olhar dizia que tinha uma intenção caminhando até o unicórnio. Ser focado por Jack tirava as reações do mais novo e ele acabava só esperando para ver o que aconteceria, com o coração começando a agitar-se. — Mas diferente dos seus brinquedos... Eu posso fazer algo com você quando me der vontade.
Os dias estavam sendo bem calmos, sem noticias de Samuel, sem saber o que comentavam da festa e Jack passava horas na casa dos Audreys fazendo companhia para Francis e conversavam de varias coisas, descobrindo novos detalhes daquilo que não gostavam ou que gostavam. Quanto a David, ele ficava cada vez menos tempo em casa. Francis se recuperou facilmente ao estar sempre com companhia quando a casa devia ficar vazia, quando a mãe e o padrasto trabalhavam. E Jack só esperava quando o menino não tivesse mais medo de nada.
— Jay está todo mundo em casa... — murmurou quando o namorado parou bem perto e podia sentir o calor emanado de seu corpo, atraindo-o.
Em reposta, Jack sorriu torto e deslizou uma mão pela sua cintura em direção as costas, puxando-o até estarem com os corpos colados. Todos os sentidos de Francis esperavam o que viria, o deixando mudo, e aceitou o beijo dele, que começou calmo, mas logo o mais velho elevou a intensidade, agarrando-o mais, aquecendo-o e o afogando num desejo súbito que nenhum deles notou que haviam acumulado. O mundo pareceu ficar distante e o que importava era eles e só.
Jack havia conseguiu ensinar indiretamente que Francis tinha liberdade para acariciá-lo igual, sentia as mãos dele o percorrendo em alguns lugares e o apertando as vezes com mais confiança, o que o fazia querer sorrir. Mas o que mais o surpreendeu naquele momento foi o toque em sua bermuda, bem entre eles. Era imprudente, não pretendia algo tão avançado, mas já que o menino teve animo para a iniciativa, permitiu a hesitante exploração.
Francis, corado, deixou o beijo de lado por um instante e observou a expressão do coelho, o medo de repreensão o fez ir com calma e seu coração batia rápido, era excitante estar descobrindo Jack, ouvindo sua inspiração cúmplice e ofegante e vendo seu rosto com sutil vermelhidão ao ser agradado, logo não importava nada. Contudo, sua atitude nem era para tanto, ainda havia um tecido entre seu toque. E de repente, Jack sorriu e soltou um riso rápido, entre as inspirações:
— E é assim, querido... Que você pode fazer algo comigo — beijou-o de novo e pressionou-se mais contra o unicórnio, empurrando-o contra a cômoda. Minutos depois, Francis parou tudo e olhou para porta como um cão atento. Jack já suspirou, não gostando.
— É a voz da Bianca... — o menino comentou.
— Eu não ouvi nada.
Em seguida bateram na porta e Jack se afastou, virando-se para a janela e arrumando a dianteira da bermuda. Nem mesmo soube o que Francis fez, a porta que estava encostada rangeu e uma voz entrou no quarto:
— Oie! Com Licença! — era o rosto de Bianca no estreito vão aberto. — Nós vamos jantar fora — disse ela sorrindo e olhando Francis, que estava longe e com uma das roupas desdobrada nas mãos diante de si, e Jack parecia apenas olhar a janela. Ela não notou nada de estranho. — E vocês dois vem também!
Bianca havia descoberto que Jack era namorado de Francis depois que David desabafou com ela, mas a garota, apesar de se dizer surpresa e seu namorado insistir que era horrível, deixou que Jack seguisse sua vida e escolha sem se meter.
— Ah... Acho que não vamos — Francis começou, sem jeito, e lançou um olhar para Jack, que o olhou de volta estranhando o convite da menina.
— Por favor! É meu aniversario e quero todos juntos. É importante pra mim. Por Favor... — ela fez um bico triste com alto poder de coagir.
— Eu tenho que ir para minha casa — Jack respondeu, sorrindo meio forçado.
— Você também, Jack? Você já era meu amigo, agora somos da mesma família, devia gostar dessa idéia. É uma forma de aproveitar nosso namoro, criando memórias — e ela sorriu. Alguém atrás da porta a puxou pelo braço, fazendo-a se virar por um momento, com um olhar rápido e mortal: — David, eu já te expliquei.
— Mas eles não querem! Vamos logo, por favor! — ouviu-se meio suplicante e depois silencio, mas dava para ver a moça encarando o Audrey mais velho com uma clara expressão descontente, depois escutaram um suspiro alto e ele a deixou, sendo possível ouvir seus passos para longe.
— Não vai demorar. Só comemos e pronto — finalizou a moça, sem aceitar uma negação.
***
Diante de David, na mesa de seis lugares do restaurante, estava seu irmãozinho que ele sabia ignorar, mas quando prestava atenção no padrasto, que falava de alguma coisa da ultima rodada do futebol, seus olhos passavam por Jack, sentado entre Francis e Stan. Pior ainda quando o moreno comentava, rindo ou argumentando alguma jogada e ele acabava o olhando diretamente sem querer, às vezes fechava os olhos com raiva, lembrando-se de tudo, e às vezes logo desviava a atenção para Bianca, acomodada ao seu lado e conversando coisas de garotas com Kelly, ao lado dela e de frente com Stan.
Em um momento, todos pareciam felizes falando de um assunto que David se interessava: a pousada de parentes de Bianca nos pés da montanha onde eles podiam ir durante o próximo janeiro e passarem alguns dias juntos – até Jack tinha gostado e virou-se para Francis, curioso:
— Sério que tem medo de cavalos?
O mais novo sorriu, corando:
— Não.
Mas David sabia a verdade:
— Claro que tem! — nem notou que se intrometeu na pergunta, irritado com a mentira do irmão. — Provavelmente vai fugir até das galinhas.
Jack e Francis o olharam por um segundo com estranhamento, afinal David tinha os ignorado o tempo todo e até bufado em um momento que notou as mãos juntas sobre a mesa. Porém ao perceber, o rapaz disfarçou petiscando as batatas fritas do prato e dando atenção ao que sua namorada conversava, conseguindo um beijo dela ao chamá-la.
***
No dia seguinte, Jack chegou à casa dos Audreys e estranhou a porta da frente mal fechada. Entrou e logo parou surpreso, sendo olhado de volta pelos colegas do time que estavam reunidos na sala.
— Olha só o desaparecido! Finalmente ressuscitou! — Kyle sorriu, o rapaz mesmo sentado era mais alto que os outros.
Jack não esperava a presença deles, forçou um sorriso fino e foi cumprimentá-los.
— O que esteve fazendo, cara? — perguntaram. — Você não apareceu no parque nas ultimas duas disputas importantes. Uma foi contra o bairro do alto oeste, e foi por pouco que vencemos.
— Sério? Nem fiquei sabendo — e nem que estariam aqui. Estranhou, olhando eles com a melhor cara de confusão.
— ‘Tá. Mas legal que veio. Você corre bem na quadra e contigo a gente vence tranqüilo. — Depois os rapazes começaram a conversar sobre alguns nomes que Jack não conhecia, eram jogadores de outro time de rua, mas quem e de onde eram era uma duvida.
David surgiu do andar de cima, distraído com o celular e só quando parou na sala olhou Jack, frio e com um rancor ao fundo. Mas não tanto quando o moreno sentia ao ser excluído de atividade com os amigos.
— Arrumei mais um carro. Vai dar para irmos sem problemas e sem hora para voltar.
O bando comemorou.
— Aonde vão? — Jack perguntou.
— Ao jogo no distrito, — respondeu um que estava sentado — acabamos de falar deles, Jack. Como vencemos o ultimo jogo contra o bairro do oeste, eles nos chamaram para ir até lá e fazer um amistoso valendo um jantar numa pizzaria.
— Eu não estou sabendo de nada disso. Porque não me contaram?
— David disse que te falava — Kyle deu de ombros com pouca importância.
— Claro que eu disse! Ele que é um idiota — mentiu o Audrey, olhando distraído para o telefone. — Deve ter tido coisas mais importantes para fazer. — Em seguida caminhou para a cozinha.
Jack suspirou, irritado com a cara de pau, mas evitou discutir na frente dos colegas de ambos.
— Quando e onde vai ser o jogo? — Coelho perguntou e viu David parar, ouvindo-os quando os rapazes contaram os detalhes. — Ótimo. Vou estar lá! — sorriu e olhou o rapaz perto da cozinha, David o encarava sério e contrariado.
— Os carros já estão cheios — o Audrey disse frio.
— Não preciso de carona.
— Não é o mesmo dia do inicio do seu pré-militar de ferias?
— É opcional. Estou pensando em nem ir.
Havia um ar de rosnado na expressão de David, mas ele inspirou e seguiu seu rumo, virando as costas bruscamente.
...
Mais tarde naquela noite, Francis foi tomar um banho e Jack ouviu quando David entrou no quarto dele, do outro lado da parede. Chegou até a porta aberta e viu o rapaz vasculhando debaixo da cama e nos cantos, a procura de algo, até que parou o que fazia e olhou-o com desgosto:
— Eu não vou emprestar nada que vocês possam querer para orgia de vocês — respondeu mal educado e sem humor. — Já estou saindo de novo.
Jack forçou um riso e comentou:
— Cara, seu irmão é mais difícil do você andava dizendo. Ele é devagar e tímido, mas é gostoso assim.
— Argh! — fez cara de nojo. — Eu não queria resposta alguma se estava certo ou não. Eca! Cala a boca e me deixa.
— Mas não é isso.
— Dane-se. Eu não te chamei para o jogo porque não queria mesmo. Vai fazer o que?
— Eu entendi isso, David. Não gostei, mas entendi. É outra coisa.
— Então para de enrolar, ‘tá parecendo mulher!
— É você que parece, todo ressentido há dias, querendo dizer coisas com o olhar ao invés de desabafar logo.
David encarou-o, aborrecido e irritado:
— Não quero ficar espalhando que agora tem dois viados onde moro dando a bunda. Prefiro fingir que nem existem, e está funcionando, se não tiver que olhar para vocês.
— Doce como sempre — ironizou Jack e sentou no pequeno sofá do quarto. — Mas é sério. É outra coisa, David. — O Audrey revirou os olhos e ignorou, buscando debaixo dos móveis seu tênis preferido. — E você vai se interessar.
— Ah, não! Nada de menage gay com vocês! Esquece!
— Agora eu fiquei com ânsia! Até parece que não está dando conta com a Bianca.
— Não fala dela nesse assunto — encarou-o sério.
— Certo, desculpa. Ela é legal — o outro o olhou por uns segundo e assentiu sério, acalmado. — Quero falar daquele que estragou a sua festa.
Conseguiu a atenção mais sensata do amigo:
— Do Francis? Eu não vou te contar nada dele para voc...
— O Samuel.
David calou-se com estranheza, além do mau humor que sempre surgia ao ouvir aquele nome.
— O que ele tem haver com isso?
— Ele tentou transar com Francis forçadamente. Como já deve ter feito com alguns outros meninos que tenha se interessado.
Por alguns minutos o Audrey pareceu uma estátua, olhando-o de volta, assimilando.
— Isso explica as mãos amarradas e a falta de roupa do Francis... — disse pensativo. — Que tara vocês tem com meu irmão afinal? — questionou com repúdio.
— Ele tem um ar de quem precisa de proteção, eu acho, é atrativo. Mas quem sabe? — deu de ombros, incerto. — Ou ele simplesmente é fofo e gentil e parece que nos conforta oferecendo um amor mais puro.
— Blábláblá meloso. Não precisava responder. E por que está me falando do Sam?
— Ele atrapalhou sua festa e fez tudo isso vir à tona. Eu não posso enfrentá-lo sozinho e nem sair atrás de outro dizendo que é por essa razão. Preciso de sua ajuda.
— Hm — O Audrey analisou, sempre esperava uma oportunidade de fazer algo com aquele que ele não gostava. Não gostava simplesmente porque Samuel era orgulhoso e se achava, algo muito semelhante a ele, mas David jamais enxergaria isso. — Você conhece onde ele mora, não?
Jack assentiu:
— Mas eu já tenho um plano.
***
Outro dia. Era onze horas da noite, no centro da cidade, quando Samuel deixou seu carro numa esquina e seguiu sorrindo e charmoso para a casa de shows cheia, apesar de ter uma marca reta cercada por roxo na altura da maçã do rosto. Na porta da casa noturna encontrou alguns conhecidos, igualmente mortais em arrumação para que aquela noite não passasse em branco. Levou horas lá dentro, fazendo o que lhe dava na cabeça e gastando um dinheiro que quase ninguém sabia de onde e como vinha para seus cartões e contas nos bancos. Verdade que o rapaz era bem novo, mas seu pai lhe ensinou todas as falcatruas e o envolveu desde que era criança, com nomes falsos e alguns golpes. E o garoto era convencido de que sua esperteza, dissimulação e estratégias eram tão boas que nem se sentia ameaçado por investigações ou acusações acontecendo.
O veiculo preto e executivo estacionado tinha expressão séria na composição de capo, faróis, grade e pára-choque, transmitia uma intimidação de dar inveja e era bem cuidado. E foi dele que um rapaz de boné e vestido de cores escuras se aproximou e se encostou ao lado da porta como se fosse o dono esperando algo. Outro se aproximou, caminhando até a frente do carro.
— Tem certeza que é esse? — questionou o primeiro. — Não quero fazer isso com o carro de algum advogado ou riquinho besta.
— Claro — respondeu o de óculos escuros, analisando todo o carro por fora. — Ele sempre se esquece do alarme.
Aquele apoiado no carro então olhou a rua. Havia muitos veículos estacionados, mas nenhuma pessoa. A noite estava fria e um pouco nublada, quase deprimente, se não fosse pelo sutil eco abafado da festa na casa de shows. A rua comercial era silenciosa, e ali, uma lateral quase sem nenhuma vitrine, era perfeita para seus atos.
Trajando roupas pretas, Jack seguiu para o porta-malas e tratou de arrancar a placa, ao passar diante do colega, que vigiava e levava uma mochila, deu-lhe o pedaço de metal que foi logo escondido, depois foi a vez da placa de frente. Havia concentração quando encarou David através das lentes dos óculos uma ultima vez. O rapaz lhe sorriu torto, se divertindo, apesar da adrenalina. Depois o coelho se afastou, caminhando pela calçada e seguiu um rumo, parando depois de uma esquina, onde tinha uma visão melhor da encruzilhada de vias.
O que ficou apoiado no carro, logo se virou e olhou a rua com toda atenção antes de estilhaçar o vidro do lado do motorista usando a placas e alguns pesos que havia na mochila, rindo como eco dos estilhaços, o que não gerou nenhum tumulto. Com luvas nas mãos, David enfiou-se dentro do carro com cuidado e destravou o capo, em seguida levantou a chapa que cobria o motor e cortou um cabo importante, largando tudo daquele jeito ao se afastar e correndo quando faróis de um carro iluminaram uma rua lateral.
Mais tarde, os dois estavam na beira de um rio da região, observando a cidade brilhando na noite profunda, com o carro vermelho de David estacionado sobre a grama, não muito longe da margem.
— Achei que ia ser mais emocionante — comentou o rapaz sentado no chão, bebendo uma cerveja que tinha arrumado no caminho enquanto Jack fez uma ligação de um telefone publico para policia sobre o vandalismo. — Se não der certo, eu faço o próximo plano.
— Tudo bem — concordou o outro calmo, com as mãos nos bolsos do moletom e com frio. — Mas vão achar um caminho.
— Ah, claro. Você estima demais a polícia. Não sei se eles vão ligar os pontos e ver que o chassi de um carro roubado lá no sudeste do país veio parar aqui.
— Eu acho que sim — disse o outro convencido. — Quando os investigadores souberem, virão para cá, seguirão as pistas e vão deixar Samuel bem inquieto. Talvez até mesmo ele resolva ir embora da cidade.
— Hum... Ao menos, podíamos ter ficado com as placas falsas para decorar o quarto — comentou e bebeu outro gole da cerveja, lembrando-se de minutos antes, quando as lançaram no rio e ouviram o ‘splash’ antes do metal desaparecer.
— Seria ter provas dizendo que foi você que vandalizou o carro.
David deu de ombros, rindo.
...
O plano continuou quando Samuel saiu de sua diversão antes do amanhecer, tonto, risonho e corajoso. Havia perdido a maioria dos amigos e foi para seu carro, mas o lampejar das luzes da policia o fez parar na esquina e analisar o que estava acontecendo.
No momento que percebeu que era seu carro com o capo aberto e vidro quebrado, xingou quem quer que fosse que fez aquilo. Ia se aproximar revoltado, mas ouviu de um policial que o automóvel não tinha placa, nem documentos dentro e que teriam que buscar o dono pelo numero no motor. Seu sangue esfriou. Seu carro possuía documentos falsos e o maldito número não foi mexido ainda, pois, como regra, devia repassar o veiculo para frente antes do fim do ano e não se dera o trabalho. E naquela noite, convenientemente, o capo estava aberto, assim os policiais tinham acesso direto. Xingando o mundo, Samuel deu meia-volta e deixou o que seu carro para trás, chamando um taxi qualquer para retornar ao seu abrigo e esperar para saber se aquele acontecimento acarretaria em algo que precisasse se preocupar.
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